segunda-feira, 30 de abril de 2012

Cravos, vida e liberdade

Em casa da Tia Maria e do Tio João, em Vila Viçosa na Rua de Santa Luzia, um dos meus refúgios preferidos na infância, convivi desde sempre com um casal de irmãos, que não sendo da família por nascimento, o eram por afecto. A Tia Maria, algures pelos anos vinte e trinta do último século, tinha trabalhado em casa dos seus pais e tinha sido a ama que os criara desde o primeiro dia de vida, tendo por eles um indiscutível e indisfarçável querer de mãe.

Há fotos da minha mãe ainda criança ao colo deles na manifestação de um afecto que depois transitou para mim e para o meu irmão de forma muito natural. Crescemos com a sua presença, brincámos com eles e anos mais tarde, já adultos, dava-nos um inegável prazer, conversar e partilhar a vida nas descobertas e em tudo o que ela tem de bom e de menos bom.
Toda esta relação se manteve mesmo após a partida dos meus tios.
O Sr. João Velez partiu também há alguns anos, em finais de Junho, e um enfarte fulminante eliminou quaisquer hipóteses de uma despedida.
A irmã, a D. Manuela, ficou então só, viveu algum tempo em Vila Viçosa antes de regressar definitivamente a Lisboa, tendo mantido sempre entre nós o estatuto de uma familiar presente.
Com oitenta e sete anos, adoeceu há um mês e foi por isso internada no Hospital Amadora Sintra onde desde logo a fui visitar. Pude então conversar só com ela sobre a doença, mas sobretudo sobre os seus planos de um futuro, que à saída, constatei com as enfermeiras, estava destinado a ser demasiado curto.
Na última quarta-feira, dia 25 de Abril, a chuva e o frio quase me iam seduzindo a permanecer em casa, mas felizmente que decidi pôr-me a caminho do hospital para partilhar com ela alguns dos momentos do meu final de tarde.
Encontrei-a mais débil que antes, a dormitar, e apenas uma carícia no rosto a fez despertar do seu sono tranquilo.
Sorriu ao ver-me. Consegui vê-lo de forma clara através da máscara transparente que lhe cobria o nariz e a boca, e que a auxiliava a respirar.
Senti que tinha vontade de conversar e por isso me deixei ficar junto a si durante quase uma hora, sem silêncios.
Falámos do Alentejo, dos cheiros do campo, dos sabores do pão, da primavera e da chuva, das suas saudades da antiga casa alentejana e da vontade de em breve voltar à Vila Viçosa natal.
Comoveu-se quando se referiu à amizade que nos uniu sempre e quando trouxemos à conversa os nomes daqueles que connosco construíram esta teia de família de afectos.
Por ser 25 de Abril, e ela recordava-se, falámos de liberdade, de justiça, dos seus sonhos num país que quis diferente e da militância comunista com que sempre julgou poder concretizá-los.
Falámos de cravos vermelhos e da alegria com ela um dia viu ser símbolo da revolução, aquela que foi desde sempre a sua flor preferida.
Falámos da fé.
Falámos de Deus.
E saí agradecido pelo tempo agradável que passámos juntos, dizendo-lhe adeus, desejando força e ânimo, e trocando sorrisos.
Foi a última vez que o fizemos, jamais o poderemos repetir.
No sábado 28 recebi a notícia da sua partida e este final de tarde de um dia 25 de Abril ganhou de repente o estatuto de tempo único, de preciosidade no contexto da minha existência.
Foi por certo Deus que me convocou para este bombom de afectos e me deu a oportunidade de saborear pela última vez o privilégio da última memória viva do território da minha infinita felicidade da infância, que foi a casa da Tia Maria e do Tio João.
Estou muito grato por isso.
Quero destas palavras fazer homenagem à D. Manuela e à amizade que sempre me dedicou, não podendo deixar de lhe agradecer, a ela e à vida, esta última lição: nunca adiar e viver intensamente cada momento pois ele poderá sempre ser o último.
Até sempre D. Manuela. Sei que um dia voltaremos a estar juntos para a propósito de cravos vermelhos, partilharmos a vida e falarmos de liberdade.

sábado, 28 de abril de 2012

A pátria das alcunhas

De entre as marcas que nos distinguem a todos os que nascemos além Tejo, na minha pátria, há uma que nos está colada de forma muito relevante: a complementaridade com que brindamos os nomes civis tendo sempre por base as características e a história de cada um.

As alcunhas são de facto uma verdadeira instituição.

Damos-lhe uso relativamente aos lugares sobrepondo-as a todos os nomes que existam nas placas toponímicas. Por exemplo, em Vila Viçosa se perguntarem onde fica a Rua António Matos Costa, toda a gente terá dificuldade em responder, mas se perguntarem pela Rua das Escadinhas, toda a gente saberá onde fica. São uma e a mesma coisa.

Mas utilizamos as alcunhas sobretudo em relação às pessoas e aqui a sua origem poderá ter por base uma característica física, um hábito ou um tique, uma profissão, etc.

Por exemplo, se o indivíduo apresentar mãos ou cabeça grande, pés ou pernas tortas, por certo será brindado com um “apelido” extra que lhe saliente esse facto: “Manuel das mãos grandes”, “Manuel da mão pequenina”, “cabeçudo”, “Maria do olho”, “Maria pequenina”, etc.

Os hábitos e costumes que alimentam alcunhas podem ser das mais variadas naturezas mas os relacionados com o acto de defecar são uma verdadeira obsessão para a qual jamais conseguirei ter uma explicação razoável. “Cága na canastra”, “cága na cântara”, “cága na semana” ou “cága no tacho”, são apenas alguns exemplos.

Mas há mais hábitos e vícios. A última alcunha de que me foi dado conhecimento foi atribuída a um indivíduo que por dizer muitas mentiras foi baptizado de “Primeiro de Abril”.

Para não andar a falar de famílias alheias sempre vos digo que tive um bisavô que por ter uma inclinação no pescoço era o “cabecinha ao lado”, o meu pai, por andar muito depressa é conhecido pelo “foguete” e tive um outro bisavô que ironicamente tinha a alcunha de “padre santo”.

E digo ironicamente, pois são-lhe atribuídas façanhas só possíveis num indivíduo nos antípodas da santidade. Só para vos ilustrar o que digo, sempre vos conto que um certo dia este meu bisavô, que era músico na Banda Filarmónica de Vila Viçosa, brigou com um outro indivíduo e jurou-lhe que jamais, através da sua arte de músico, contribuiria para que ele tivesse um minuto de alegria.

Bem o prometeu e melhor o cumpriu. Um dia quando a Banda se preparava para passar à rua do indivíduo em causa, ele saiu da formatura e de instrumento debaixo do braço, desceu sozinho por uma rua paralela, tendo-se depois voltado a juntar aos seus colegas.

Um verdadeiro exemplo de coerência e talvez por isso não consta que alguma vez tenha manifestado interesse pela política.

Seria impossível indicar-vos aqui todas as alcunhas da minha terra, e muito menos dar-vos as justificações por detrás de cada uma delas, mas sempre vos digo que da minha memória de Vila Viçosa há uma família “vai à vila”, os “famosos” e os “pachorras”, um “cueca” e um “ceroulas”, a “batatinha”, o “tip top”, o “bucha”, o “bóia”, o “batenai”, o "pica três”, a “mama na burra”, o “macho”, o “traz modas”, a “sem tripas”, a “estreita” e a “larga”, o “xiribiu”, o “traganai”, os “nicos”…

E para terminar sempre vos digo que aceitamos as alcunhas e respondemos quando nos chamam por elas, manifestando um sentido apurado de humor e a inteligência de sabermos rir confortavelmente de nós próprios, tal como fazemos quando contamos as anedotas sobre nós.

Alentejo, pátria minha, terra de gente simples e sempre bem-disposta, por favor contamina-me este Portugal vazio de humor e tão sem graça.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Os frutos e as flores


Em Vila Viçosa, sempre que a missa das 11.30 horas em S. Bartolomeu chega ao fim, é a amizade forte e de muitos anos que nos convoca para a pretexto de uma bica, nos juntarmos e em pouco mais de meia hora, matarmos saudades, e na conversa e na partilha reforçarmos os laços que nos unem desde os primeiros anos de vida, e sem os quais não sabemos e não queremos jamais viver.
Ontem foi como sempre, assim. Descemos a Praça e resolvemos trair o habitual Café Restauração, assentando arraiais numa pequena pastelaria que fica junto ao Posto de Turismo, a qual literalmente ocupámos, pois também se juntam os pais, os filhos, os sobrinhos, etc, todos aqueles que de alguma forma estão ligados a nós.
E nós somos o melhor grupo de amigos de que há memória no universo.
Mais perto ou mais longe, estamos todos a preparar-nos para a passagem da primeira para a segunda metade de século das nossas vidas. Ontem foi a Lurdes Duarte que pagou os cafés pois no último 15 de Abril fez glamourosamente essa passagem.
Com as mesmas raízes na pátria Calipolense, todos temos vidas diferentes em lugares diferentes: estamos empregados ou desempregados, solteiros ou casados, com filhos ou sem eles, somos monárquicos ou republicanos, de esquerda ou de direita…
Mas o que nos une mais do que tudo, é a fé, em Deus, em nós e na vida, expressa sempre por aquilo que a fé tem de melhor e relevante, e que é um extraordinário gosto por viver e pelo que é positivo.
Até podemos falar dos problemas mas é sempre na perspectiva de juntos “darmos cabo” deles e voltarmos rapidamente a fazer o que melhor sabemos: rir.
Rir de nós próprios e rir para a vida.
Fazemos do riso, os foguetes da festa de estarmos vivos e gostarmos de o estar.
Ontem quando olhava à minha volta apercebi-me de que estamos todos fantásticos e com um aspecto de fazer inveja a um grupo de estrelas de Hollywood em noite de entrega de Óscares. Ficam-nos bem os quilitos a mais oferecidos pelos anos de bem comer, as ténues rugas reforçam-nos a felicidade dos rostos e as cãs dão-nos um extraordinário ar de respeitabilidade.
Estamos a “amadurecer” com classe e com muita graça, perdoem-me a imodéstia.
Comparados connosco, os nossos “eus” aos dezoito anos, cheios de certezas a emergir dos nossos corpinhos secos e enxutos embrulhados à moda dos anos oitenta, eram terrivelmente menos interessantes.
Antes de entrarmos na pastelaria não resisti a fotografar uma das muitas laranjeiras que enfeitam a nossa Praça e dão nome a este Pomar. Partilho essa foto aqui convosco.
Carregada de frutos mas já inundada de flores brancas e de intenso perfume a anunciar uma nova leva de laranjas.
Nós e as laranjeiras.
Os frutos e as flores.
O presente e o futuro.
Ou o segredo para nunca nos deixarmos morrer.

domingo, 22 de abril de 2012

Mudar de vida

Portugal do fado, triste destino…
Com a crise se adjectivam os nossos dias de 2012, num cerco negativo frequentemente cíclico que insiste em colar-se à nossa história com a aparência de uma inevitabilidade carregada no código genético da pátria.
Trinta e oito anos depois da madrugada dos cravos, o que fizemos da democracia?
Aportuguesámo-la e demos-lhe uma história igual à de qualquer Português.
Na primeira década de vida vivemos a emoção do começo. Descobrimos o mundo com os primeiros passos, as primeiras palavras na diferença oferecida pela liberdade.
Carregámo-nos de esperança, cantámos a diversidade, confrontámo-nos sem medos ou rodeios e fizemos festa porque nada seria igual a partir daí.
Resistimos às quedas e às feridas como Camarate e partimos para a segunda década…
Antes de chegar aos vinte anos apaixonámo-nos pela Europa e por este “amor” deixámos de estudar e de trabalhar, assumindo que nesse casamento estava a solução para uma vida regrada e de prazer. Nunca quisemos acabar com a pobreza, quisemos sempre passar para o grupo dos ricos. E os outros? Pois, salvem-se como puderem.
Abandonámos a terra, o mar, comprámos carros de alta cilindrada, bons apartamentos, rendemo-nos às marcas do estatuto, e apostámos na marca “Cavaco” fazendo dela o símbolo do nosso sucesso feito e temperado a betão e rotundas.
Ao entrar nos trinta já o casamento com a Europa estava em agonia e viciados no doce prazer da paixão e da riqueza feita de aparência, mergulhámos nas aventuras extra-conjugais de Guterres, Barroso e Sócrates, que começaram, duraram e morreram, com o ritmo normal de qualquer relação de amantes.
E agora, à beira dos quarenta anos?
Estamos desempregados, sem dinheiro para pagar as contas do endividamento que herdámos das nossas aventuras anteriores, não sabemos produzir, temos cursos e estatuto mas a única meta que nos oferecem é a emigração.
Não temos esperança e não temos referências porque quem nos lidera tem a visão de curto prazo e a ambição apenas da sua sobrevivência política numa legislatura que lhes possa abrir as portas para uma lucrativa experiência no mundo empresarial.
Mas, não é verdade que aos quarenta se deve rever a vida?
Concordo que sim e estamos quase lá.
Diria que está na hora de recomeçar a sonhar e de deixarmos de nos render à “crise”, colocando-a de parte das nossas inevitabilidades.
Lutemos arduamente pelo que queremos ser.
Sem medos, digamos convictamente “Sim” ou “Não” seguindo as rotas da alma e da ambição.
Com a maturidade de adultos nascidos e crescidos em liberdade, há que fazer emergir o muito que nos une mais do que o supérfluo que nos separa, para que Portugal volte a acertar o passo com a liberdade, o desenvolvimento e o sucesso.
Unamo-nos no cumprimento deste destino, jamais triste, porque nosso.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Salta-me a tampa


Deparei-me com o aviso que aqui apresento, junto ao autoclismo na parede por cima da sanita da casa de banho de um café em Monsaraz.
Já sabia que estamos sempre a aprender mas finalmente e ao fim de 45 anos de vida, alguém me prova que não fora pela consideração para com as damas, e nós homens poderíamos utilizar uma sanita sem lhe levantar a tampa. Utilizar para quê? Para nos sentarmos a descansar?
OK, eu sei. Má vontade da minha parte. Quando falam de tampa estão a referir-se à protecção do rebordo da sanita.
Mas nesse caso e assumindo que a falta de consideração se exprime por gotículas de urina amarela a salpicar o anel de plástico branco, porquê presumir que os homens que frequentam aquele café têm uma elevada probabilidade de serem “porcos” ou então de terem tamanhos problemas de próstata que lhes impeçam um jacto firme e direccionado para o centro da sanita?
Não é lá muito simpático.
Para além disso, onde cabe aqui a tradicional solidariedade masculina?
Dado que o agradecimento está escrito no masculino, porquê deixar fora da “consideração”, os homens que também necessitem de se sentar para a satisfação de necessidades do foro do aparelho digestivo?
Está bem. Pode dar-se o caso de o autor ter sido tropa como eu, de ter convivido com os masculinos buracos rasos para defecação e ter sido treinado para satisfazer essas necessidades na muito “macha” mas terrivelmente incómoda posição de cócoras.
Mais…
Sendo este um lugar frequentado por muitos turistas, porque é que o aviso está exclusivamente em Português, acaso os estrangeiros são mais asseados do que nós? Ou pareceria mal chamar a atenção dos de fora sobre estas coisas?
Mal feito. Nós, os Portugueses, somos dos povos mais limpos que conheço e não digo isto por patriotismo.
Todas estas dúvidas me ocorreram enquanto urinava de pé e juro, sem salpicar o rebordo da sanita, porque disso me certifiquei enquanto fechava a braguilha.
Depois puxei o autoclismo e apesar de não estar recomendado, lavei as mãos com sabonete.
Antes de sair dei uma última olhadela ao espaço e senti-me um verdadeiro cavalheiro, muito orgulhoso, pois qualquer dama que se pudesse cruzar comigo à porta não teria nada para me apontar.
Se calhar ate pensaria que eu era estrangeiro.
Oh yes!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Reais bacias entornadas

Em tempos de crise grossa por cá e também do outro lado da fronteira, o rei de nuestros hermanos, resolveu ir caçar elefantes para o Botswana com o patrocínio, por certo um alto patrocínio, de um magnata hispano-saudita.
Viveríamos por certo na ignorância deste facto se por acaso o rei não tivesse fracturado a bacia, pondo a nu uma manifesta falta de solidariedade para com os seus concidadãos, lá como cá a serem espremidos financeiramente até ao caroço.
Perante a indignação geral, hoje ao sair do hospital, o rei afirmou:
- “Sinto muito. Errei e não voltará a acontecer.”
Fica-nos a dúvida se o erro a que se refere tem que ver com o facto de ter ido ou então com o acidente em si, o qual por certo implicou uma sobrecarga nas despesas nos Serviços de Saúde, porque esta nunca será uma bacia qualquer.
Já muitas vezes aqui partilhei convosco o meu republicanismo convicto e a minha antipatia por este estatuto de poder eterno dado a famílias e pessoas. Ler e comprar histórias de príncipes e princesas foi coisa que deixei de fazer ao abandonar a infância e recuso-me a aceitar a ideia de no meu país algum dia me obrigarem a patrocinar uma corja de inúteis e a alimentar os seus vícios caros.
Bem sei que por cá a República também não anda nada bem.
Temos um presidente que não dá “cavaco” à malta e que até faz dissertações sobre as dificuldades económicas derivadas das suas reformas de milhares de euros…
Temos um ex-presidente que viola os limites de velocidade nas auto-estradas e dá “só ares” de gabarola ao dizer que manda o Estado pagar as multas…
Temos um ex-candidato a presidente que se diz muito “alegre” pelo facto de o não ser pois a situação do país está difícil.
Temos no entanto, e valha-nos isso, a hipótese de daqui a quatro anos poder mandar alguns dar uma volta, à primeira ou à segunda, e eleger novo inquilino para o palácio cor-de-rosa ali da zona de Belém.
E estamos tão felizes com o momento que vivemos que até já se fazem sondagens sobre esta futura eleição, gozando dessa doce ilusão de assim estarmos a acelerar o tempo daqui até ao futuro.
E quanto aos nomes de que se fala?
Não se esforcem muito e proponho daqui a criação de uma comissão que integre os dois maiores e melhores visionários deste país: a astróloga Maya que lê o futuro nos astros, e o Arquitecto Saraiva que pela maneira de colocar as mãos e o pescoço consegue identificar a orientação sexual de uma pessoa.
Assim, talvez um dia nos nasça o SOL.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Papoilas na cave

Uma carta da Liga Portuguesa contra o Cancro convocou-as na quinta-feira santa para um encontro hoje de manhã na sede da instituição ali para os lados de Sete Rios.
Na sequência de um rastreio ao cancro da mama que tinham realizado num posto móvel nas suas terras, o qual acabou por motivar algumas suspeitas, ali estavam sentadas três mulheres, todas na casa dos sessenta anos, oriundas do triângulo alentejano de Borba, Vila Viçosa e São Romão.
Com cada uma delas, um filho com uma idade algures na década dos quarenta. Eu era um deles.
Na cave demasiado apertada onde mais ninguém caberia, a marcada pronúncia cedo nos denunciou a todos e nos fez comprovar que todos estávamos certos quando aos primeiros olhares trocados, dissemos para nós próprios:
- Conheço esta cara!
Começámos a falar, partilhámos percursos, histórias das nossas vidas tão próximas e entrecruzadas, deixámo-nos mergulhar na infinitude das cumplicidades e quando nos demos conta já tínhamos derrubado as paredes daquela sala estreita e já tínhamos voado até à imensa planície onde todos nascemos, a que orgulhosamente pertencemos e a que chamamos casa.
E foi assim nesse contexto dos afectos que unem instintivamente quem partilha a terra, que as duas gerações, as mães e os filhos, talvez motivados pelo facto de nos sentirmos na antecâmara de algo desconhecido e potencialmente final, nos centrámos no que a vida tem de melhor, no prazer, no riso, no amor, dando corpo à emergência do viver, e de o fazer plenamente cumprindo a felicidade.
Enriquecemos este tempo precioso que nos foi dado viver juntos, com a festa do melhor riso.
E no final veio o resultado para todas as mães.
Quando era criança, por esta altura no Alentejo, brincávamos uns com os outros tentando adivinhar a cor das pétalas que se encontravam nas cápsulas ainda fechadas das papoilas. Ficávamos felizes quando saía o vermelho.
O resultado para todas as mães foi negativo.
Saiu o vermelho da cor do sangue e da vida e por entre as searas da longa planície lá continuarão rubras e viçosas, como três papoilas rainhas dos campos, as três mães, rainhas perfeitas e sublimes dos nossos mundos e dos nossos corações.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Uma traição imperdoável

Uma segunda-feira de Páscoa com muito sol e eu a trabalhar, é algo contra a natureza de um alentejano e é claramente uma imperdoável traição a mim próprio, alentejano convicto e orgulhosamente assumido.
E não venham agora os não alentejanos com aquela piada fácil acerca do nosso apurado sentido do descanso, focando-se apenas na parte do “não trabalhar”. Já há muito que deveriam saber que ao contrário das anedotas que insistem em fazer-nos partilhar com as louras e os preguiçosos, somos um exemplo do muito e bem trabalhar, muitas vezes em condições de grande adversidade.
A questão está mesma na segunda-feira de Páscoa, para todos nós, o verdadeiro dia da Festa da Páscoa.
Após a Semana Santa, com mais ou menos jejum e abstinência consoante a fé e o cumprimento dos preceitos religiosos a que cada um se dedica, este é o dia de partir para o campo com o farnel bem recheado, para que à sombra de uma boa árvore ou à beira de um riacho, mas sempre acompanhados pelos aromas inigualáveis que os campos alentejanos nos oferecem, nos deleitarmos com as iguarias típicas da época e que ao longo da semana nos foram perfumando elas próprias, as cozinhas das nossas casas.
O borrego é o rei, assado no forno na gordura da banha e do azeite, acompanhado das batatas, e temperado com pimenta, louro, alho, cebola, salsa e vinho branco.
Há alguns anos estes assados eram preparados em fornos de lenha, anexos ou não a padarias, que muito trabalhavam por estas datas. Eram feitos em grandes recipientes de barro marcados a giz branco para que nunca se confundissem os donos das iguarias, pois estas eram sempre demasiado iguais na perfeição dos aromas e dos sabores.
Recordo-me em Vila Viçosa das intermináveis filas no João do Forno, na Rua Cristovão de Brito Pereira, e no Forno do Adelino, na Rua da Freira, os dois fornos concorrentes e mais populares.
Hoje, não foi a Troika que nos fez reduzir o tamanho dos assados, foi o facto destes fornos já não existirem e de os actuais, domésticos e a gás, serem muito mais pequenos. Mantém-se o barro para que o sabor se aproxime dos antigos.
Para o campo em segunda-feira de Páscoa é também obrigatório levar o folar, e este no Alentejo é feito incorporando um ovo cozido na massa dos Bolos Fintos, que além do Tejo, ao processo de levedar chama-se fintar.
Bolos e folares foram feitos ao longo da semana, com muita farinha, açúcar, banha, manteiga e erva-doce, e um pão em massa e fermento que fazem a massa levedar ao longo da noite no canto mais quente e seguro de cada domicílio.
Os mesmos fornos dos assados eram também usados para cozer os bolos que eram tendidos em grandes tabuleiros de metal que as mulheres transportavam à cabeça até ao forno.
Havia gente com mais ou menos arte para dar forma aos bolos e aos folares, e nós tínhamos a sorte de a minha avó Natividade ser uma artista a fazer-nos os ditos com a forma de lagartos de massa com barriga de ovo cozido, olhos de pimenta em grão, boca de um pedaço de papel vermelho e um laço ao pescoço, sempre da cor do clube do nosso coração.
Agora que os combustíveis estão caros sobram-nos os carros que antes nos faltavam e nos obrigavam a procurar lugares no campo que não fossem muito distantes do centro da Vila. A maioria ficava-se pelo Castelo e pelo Alto de São Bento, e aqueles que tinham melhores pernas, sempre se aventuravam até ao Paraíso ou aos Castanheiros.
No entanto, uns e outros, os de perto e os de longe, sempre regavam a sua refeição com muito do bom vinho do Alentejo pelo que os regressos a casa, se não tinha havido suficiente tempo para um sono reparador depois do almoço, eram sempre bem mais atribulados, estranhamente com mais sensação de curvas no caminho relativamente à ida.
E a festa?
A festa nasce e nascerá sempre do facto de estarmos vivos, na terra que amamos e junto dos que nos aconchegam os dias, é feita da boa disposição de um povo que sempre soube rir muito, e até de si próprio, a festa vive das cantigas em coro à moda do Alentejo e faz-se sobretudo da partilha, porque o pouco que muitos levamos no farnel, faz sempre o muito para todos.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Quando a opinião faz doer

O jornalista João Gobern foi dispensado da colaboração que vinha mantendo com a RTP N pelo facto de no último sábado, quando se encontrava em directo num programa deste canal de televisão, ter sido “apanhado” a exteriorizar a sua alegria pela marcação do segundo golo do Benfica no jogo contra o Braga.
Há muito que leio e ouço João Gobern. Actualmente, acompanho diariamente as suas crónicas na Antena 1 alguns minutos antes do noticiário das oito da manhã.
Não é por certo pelo facto de gostarmos do mesmo clube que desde sempre o admirei muito. Impressiona-me a lucidez na análise das questões que aborda e a coragem e a frontalidade com que assume as suas opiniões. Neste contexto da verdade de si, para quem como eu há muito segue o seu trabalho, não é surpresa que o Benfica lhe está no coração, sempre o afirmou de forma directa ou indirecta.
Não me espanta por isso a sua dispensa da RTP pois pelo seu carácter, ele está definitivamente desenquadrado da mediania que é marca deste canal, e pior que isso, do país onde vivemos.
Em Portugal ninguém assume nada de si, ninguém se revela ou diz o que pensa, porque se vive sempre com a preocupação de agradar aos outros, esquecendo-nos de que a coerência é uma virtude e de que a verdade na expressão de nós mesmos é um prazer supremo e marca essencial da nossa condição de Homens adultos.
Por isso é usual dizer-se por cá que no meio é que está a virtude, nas meias tintas ou nas meias palavras, quando a virtude está verdadeiramente em não ter medo de assumirmos o que somos ou pensamos, não fugir a afirmarmo-nos à esquerda, à direita ou ao lado, e não ter medo de pagar um preço elevado quando afirmamos a nossa ruptura com esta “mediania” nacional.
Fixamo-nos na aparência e desde que esta se enquadre no conjunto de itens que assumimos como essenciais ao perfil do cidadão exemplar pertencente ao país dos brandos costumes, tudo se desculpa, mesmo os mais escabrosos procedimentos feitos nos subterrâneos da política, da religião, do futebol, etc.
Despede-se um homem competente e sério porque assume publicamente a sua verdadeira paixão por um clube de futebol mas tolera-se e compreende-se que um craque do mundo do futebol manifeste um falso apoio partidário a um candidato a primeiro-ministro, só o fazendo pela intervenção de âmbito financeiro de uma empresa de capitais públicos.
Os defensores deste despedimento evocam o facto de a RTP estar obrigada ao cumprimento do seu estatuto de serviço público e de que este gesto pode ter ofendido alguns dos espectadores / contribuintes.
Porquê?
Acaso há algum outro comentador que não tenha uma preferência clubista?
O que importa mais? Falar e analisar bem? Ou ter arte para enganar os outros emitindo as opiniões atrás do biombo falso da neutralidade?
A RTP é o espelho do país que somos. Sempre assim foi.
E esta demissão, assim como por exemplo a suspensão do programa Humor de Perdição nos anos oitenta por motivos religiosos, acontecem pelo facto da censura para nós não ser um problema associado a qualquer regime político, mas ser antes o mecanismo que usamos indiscriminadamente para abafar a pluralidade que abane o edifício do consenso nacional, da falsa pureza ou doçura onde sempre nos quiseram convencer que vivemos.
Meu caro João Gobern, perdoe-lhes porque eles não sabem o que fazem, e já agora, que a voz não lhe doa nunca. Precisamos de Homens como o João para podermos crescer e sermos melhores.

terça-feira, 3 de abril de 2012

38N47 8W13

E de repente Vila Viçosa invadiu os noticiários das televisões: Ante-estreia do filme Florbela, Feira Medieval, Homenagem a Zeca Afonso...
Em três dias consecutivos, três amigos de três diferentes latitudes geográficas do nosso território nacional e de três diferentes territórios dos meus afectos, colocam-me a mesma questão:
- Mas afinal onde fica Vila Viçosa?
Ao primeiro respondi pacientemente mas com alguma surpresa, ao segundo respondi com um pouco de enfado mas intrigado pela coincidência, e para com o terceiro soltei uma total irritação enraizada no meu “Calipolensismo” militante.
Como é possível que exista um Português, e pior ainda, três Portugueses que não saibam onde fica Vila Viçosa?
Como é possível viver-se com a nacionalidade Portuguesa sem conhecer e sem nunca ter ido a Vila Viçosa?
Para que não haja um quarto amigo a colocar-me a mesma questão e porque a minha agressividade está num incontrolável crescendo e a um passo de fazer vítimas, numa atitude inteiramente profiláctica, aqui estão as coordenadas GPS de Vila Viçosa: 38N47 8W13.
Que não haja desculpas e que Vila Viçosa faça parte e enobreça o curriculum de todos os viajantes.
De 1401 a 1640, durante 239 anos, este vale fértil do viço que lhe justifica o nome, situado a 54km de Évora, a sua capital de distrito, e a 34 km de Badajoz, foi o “laboratório” em que os Duques de Bragança prepararam a sua dinastia de 270 anos (1640-1910), a quarta a reinar em Portugal. Como a fundação de Portugal remonta a 1143, hoje em 2012, tendo Portugal 869 anos, podemos dizer que Vila Viçosa esteve de forma lactente (239 anos) ou activa (270 anos) associada à liderança do país durante 58,6% do seu tempo.
Muito poucos locais se podem orgulhar de uma presença tão marcante e duradoura na História de Portugal, presença que se comprova facilmente quando a visitamos, através da vastíssima quantidade e riqueza de monumentos de natureza civil, militar e religiosa que o tempo foi acumulando e preservando num dos locais mais fantásticos do território nacional, numa das terras mais inspiradoras do ser Português.
O Século XX trouxe a Vila Viçosa a substituição do olival pela indústria extractiva do mármore e deu perspectivas novas a uma terra de gente empreendedora e de carácter marcado pela inovação e espírito de liderança. A mesma gente que partilhou berço com Florbela Espanca, Henrique Pousão, Bento de Jesus Caraça ou a Rainha de Inglaterra D. Catarina de Bragança que criou o hábito do chá das cinco e deu nome ao bairro nova-iorquino de Queens.
São necessários mais argumentos?
Acho que não e sejam todos bem-vindos.
Já agora sempre vos informo dando uma ajuda para a próxima sessão de Trivial Pursuit, que nós, os naturais de Vila Viçosa, somos designados por Calipolenses. Esta designação encontra raízes em André de Resende que no Século XVI ao escrever em latim a sua obra “Antiguidades da Lusitânia”, não encontrou melhor solução do que adoptar o termo grego Callípole (Cali + Polis = Cidade Bela) para se referir a Vila Viçosa.
Somos simpáticos, afáveis, gostamos das coisas boas da vida e entre elas de receber os amigos, somos generosos, optimistas e muito fáceis de identificar através desta vincada marca de orgulho de termos nascido na terra mais bonita de Portugal.
Vila Viçosa, para sempre!