domingo, 31 de julho de 2016

O redondo sentido dos dias…


O que importa se a vida parece às vezes andar às voltas? Com circunferências também se desenha e amplia um coração.
E o sentido redondo dos dias suspirados com a mesma cor tem de longe a nitidez de um jardim de incondicionais mas indecifráveis flores. O tempo e a distância oferecem forma à geometria do acaso, mesmo depois das labirínticas tardes em que nos sentamos tristes algures junto ao buxo rendilhado que nos conhece de nos ir amparando o choro, esse lamento insistente que sem darmos conta, ainda torna mais baço e distante o horizonte.
Nós somos a perfeição nascida de tantos dias que isolados parecem não fazer qualquer sentido.
Somos a forma e o coração. E assim completos, brindamos alegres erguendo a taça do vinho que o verão temperou de sol ao mesmo tempo que nos turvava a vista com o pó da estrada por onde fomos tecendo caminho.

sábado, 30 de julho de 2016

Por mais mundo que me abrace…



Na casa de Vila Viçosa os chinelos de quarto imitam o amor, e não só naquilo que ao conforto diz respeito: estão sempre religiosamente no mesmo sítio e até às escuras os consigo encontrar.
Por mais mundo que me abrace…
Jamais se “desarruma” ou desassossega este beiral onde me ajeito, às vezes, como agora, nos dias quentes em que o vento adormeceu para uma longa sesta e se demite do gesto de uma brisa fresca.
Aqui não há detalhe de afecto que se demita e que me falte…
Tanto daquilo que trago comigo em bolsas de pele, de vida e de memória, bebo-o aqui nesta casa onde até as paredes do meu eterno quarto parecem transpirar o bálsamo do sono mais profundo e dos meus sonhos mais fiéis.
As noites mágicas no quarto onde o pensamento me ensinou a voar têm palavras adormecidas que eu agarro entre a saudade.
Por mais mundo que me abrace…
Eu serei sempre desta terra, da coerência do amor onde me fui sonhando assim.
  

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Abraço azul


Lisboa é um imenso abraço azul onde o céu, o Tejo e o mar nos beijam na perpétua perfeição que é a poesia.
E a luz que pelo olhar nos acode à alma é a génese do canto de água e mel tecido de sílabas sem quaisquer rimas, mas coerentes e fiéis irmãs das pétalas viçosas de todas as rosas.
A verdade de Lisboa anula o rótulo de hipérboles no doce que de si existe na alma dos poetas.
Trazemos semeados no peito jardins de infinitas cores e no pensamento as velas soltas da ousadia de navegar.
Marinheiros sem Calecut, astrolábio, sextante ou adamastores; gente de Lisboa, Homens com a alma tingida de azul por entre o fado perfeito dos mais perfeitos e ousados amores.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

“Comboios completos de pensamentos”


Talvez a saudade seja antes de tudo, esta luz de Lisboa que nos faz falta quando partimos por muito tempo ou apenas por breves instantes.
Este meio-dia de Lisboa não existe em mais nenhum lado.
Chegámos ontem de uma semana passada entre São Petersburgo e Moscovo, nós, os sete amigos, e mais trinta e duas criaturas clientes da mesma agência de viagens; todos os trinta e nove contados e recontados pelos guias naquele jeito de:
- “Tirititxica, tirititxica…”.
E entre a “Con’ ceteza” e a “Sen’ ceteza”, os “Pinipons” e a “Dony”; nunca ninguém faltou no autocarro que tinha tapetes de quarto de dormir ao jeito dos anos setenta.
Refira-se que Dony é o diminutivo de “Doninha” uma criatura do nosso grupo que quase nos matava quando abria os braços. Verdadeira embaixatriz do suor lusitano, esta criatura para quem o desodorizante é um mistério mereceu inclusive uma rima muito jeitosa:
“Eu não cheiro mal da blusa,
Das Calças, do meu casaco
Trago apenas, tal se usa
Ratos mortos no sovaco”
Mas como no fim de qualquer viagem se exige um balanço; em sondagem realizada ontem, não à boca da urna mas do avião e junto dos sete magníficos, foi possível ficar a saber quais as cinco maiores atracções da viagem, apresentadas aqui sem qualquer hierarquização:
- O Palácio de Peterhof nos arredores de São Petersburgo junto ao mar Báltico;
- O Hermitage com Rembrandt em destaque e o quadro “O filho pródigo”;
- O Kremlin e a Praça Vermelha;
- O lago junto ao Convento das Donzelas, em Moscovo;
- A Catedral de São Basílio, em Moscovo, e a Igreja do Sangue Derramado, em São Petersburgo.
A não perder e não podendo deixar de salientar que o melhor de tudo foi mesmo viajar neste grupo de sete onde as gargalhas andaram à solta e pelos mais variados motivos.
As gargalhadas e as selfies.
Os Russos são em geral frios, distantes, militaristas, antipáticos, rudes, não sorriem e não falam Inglês. Praguejam contra nós nas lojas e nos museus, e as “múmias paralíticas” que colocam nas salas dos museus e nas igrejas conseguem ser mais antipáticas que os sarcófagos que protegem do barulho e das máquinas fotográficas.
Dá a sensação de que já saíram da União Soviética mas a União Soviética nunca lhes sairá dessa alma que adora o Putin, o seu “presidente muito democrático”.
Dizem eles, claro.
Comem galinha em excesso e até na Salada Russa, abusam do pimento, do pepino e da beterraba, e põem-nos a suspirar pelo MacDonalds, mesmo sem qualquer intuito de natureza provocatória e imperialista.
Às vezes limpam o suor da testa com o guardanapo a que depois limpam os lábios.
Mas nós também tínhamos a Dony.
As cidades preservam os ciclos que lhes enfeitaram o tempo, ricas armaduras de cal sobre a face dos Homens que lhes dão vida mas que não sorriem.
Às vezes ficamos só nós perante uma fachada a saborear cá dentro o eco das palavras dos poetas e dos romancistas, “comboios completos de pensamentos sem tradução para a linguagem humana”, como bem definiu Dostoievski.
Voltaríamos a viajar para São Petersburgo e Moscovo, de avião, de comboio… ainda que nos saiba tão bem este meio-dia de Lisboa.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Diário de Bordo / Dia 1 / São Petersburgo

A "Chicken Tabaka" do lento jantar de ontem no restaurante Georgiano, iguaria que comprova a proximidade gastronómica entre Tbilisi e a Guia, no nosso Algarve, não foi por desagrado o motivo principal: nós hoje fomos almoçar ao Mac Donalds apenas e só para irritar o Lenine.

Na São Petersburgo, que voltou a ter este nome em homenagem ao Apóstolo das chaves do Céu, depois de ter sido chamada de Leningrado, há torres mais ou menos douradas que atravessaram a História e os ciclos que os Homens lhe oferecem. Santo Isaac regressa ao culto depois de ter sido o "Museu do Ateísmo" no tempo da União Soviética.

Ironia.

E ainda se percebêssemos que as casas de pedra são vulneráveis, enganadoras e sumptuosas moradas construídas para albergarem o Deus que apenas vive no coração dos Homens.

Também já caíram as foices e os martelos das fachadas dos edifícios que antes tinham sido dos "Czares", soberanos que voltaram a ter sepulturas areadas e com flores. Mesmo que a estátua de Pedro I lhe ofereça uma cabeça ínfima relativamente ao corpo porque a criatura não seria de grandes ideias.

Há alguns dias, Putin veio rezar com o Patriarca da Rússia. Demasiada fé como que querendo contrariar o princípio de que as vozes de alguns animais ficam aquém do céu.

As cidades são os Homens e a sua fé. Somos nós quem lhes molda todas as faces e lhes inscreve a liberdade nos detalhes do seu tempo.

Em São Petersburgo o meio dia é assinalado pelo disparo de um canhão de guerra. Não há beijos pelas ruas nem gente de mão dada. E as igrejas, aquelas de pedra, fecham à quarta-feira para descanso do pessoal.

(Diário de Bordo da viagem "Dr. Jivago 2016". Foto da Margarida Garimpo).




quinta-feira, 7 de julho de 2016

Um Homem completo é aquele que não esconde nem o mínimo detalhe dos seus beijos



Às vezes a bruma sucumbe ao sol intenso do meio-dia e deixa-nos entretidos num jardim cravejado de hortênsias, tílias gigantes, buxo recortado e vistas generosas com um intenso sabor a mar.
Depois, eu aproveito a linha desenhada pelo tempo e sento-me comodamente à entrada de uma década nova. Respiro fundo, ao jeito de quem repousa, e sinto que o ar traz com ele os sentidos que emergem à luz e fazem coro comigo enfrentando a sorte:
- Eu serei tudo aquilo que cabe no meu sonho.
Há palavras que dançam ao redor de mim como aves de rapina de todas as cores, beijos e abraços montados na sela sobre as sílabas mais fortes, o canto dos versos na métrica ousada que me pertence unicamente a mim.
Há o amor que flui como cascata irrequieta mas constante sobre os minutos que alimentam o viço das avencas que brilham no mais recôndito do ser.
- Um Homem completo é aquele que não esconde nem o mínimo detalhe dos seus beijos. E pelo contrário, um Homem que condena às sombras quaisquer partes de si é uma criatura triste e amputada.  
Na véspera de cumprir 50 anos recebi a notícia do falecimento da Sofia, minha colega de Faculdade, após uma luta de 13 anos contra o cancro da mama.
Às vezes é o sol que sucumbe…
E só o sonho permanece intacto e eterno sob as tílias de mil anos para que com ele enfeitemos o tempo.
Como as hortênsias e sem nunca termos pressa…

terça-feira, 5 de julho de 2016

Cinquenta anos. Sim, com a vida em dia.



Rumo ao sul contemplando o horizonte que arde ao sol da tarde, sorrindo por saber que o olhar da minha mãe me beijará desde o primeiro instante, ali, um pouco antes de nos celebramos no abraço berço que guarda dentro de si o amor perfeito e que embala serenamente tantos outos beijos. 
Eu sou este amor e este olhar, muito mais do que tudo aquilo que o tempo possa querer fazer de mim.
Eterno…
O baloiço que pende do frondoso limoeiro de frutos generosos, o voo rasando o sonho aos comandos do tronco encurvado da oliveira que persiste no átrio da minha escola, as gargalhadas dos amigos nos serões de Vila Viçosa onde o fresco de Agosto nunca aparece, a fé celebrada no canto às giestas e ao rosmaninho nas tardes de Páscoa, os diários de Torga, cada recanto das palavras de Pessoa, de Yeats, de Youcenar, o mar de Sophia, um fado cantado por Amália, um verso de Carlos Tê numa canção de Rui Veloso, os doze pontos do júri da Eurovisão, uma Bola de Berlim, uma fartura na feira, as cartas de amor soletradas quando o Tejo já se despede do Terreiro para se abraçar à noite, as palavras que eu insisto em desenhar sobre tudo aquilo que sinto…
Eu sou isto, sou este amor e este eterno olhar… e nada daquilo que eu sou cessa ou se atormenta por mais que o tempo passe e que a gente ou vento se atravesse.
Cinquenta anos?
Sim, de idade; que se medissem aquela vida que importa eu teria muitos mais de cinquenta, tal esta “desfaçatez” de finalmente olhar o tempo e questioná-lo de frente, olhos nos olhos.
- Queres passar depressa ou mais devagar? Eu irei ao meu ritmo e sempre sem me inquietar.
- Longo ou curto, como és? Como queiras ser na certeza de que não desperdicei um só segundo e nunca me privei de nada: de uma viagem, de um beijo, de um abraço desenhado ao pôr-do-sol ou até de alguns muito simples cafés.
- Espicaça-me e “stressa-me” lá com essas coisas vãs da ambição… Vou sorrir-te descontraído e indiferente. Eu irei despertar-me a sorrir todas as manhãs. Desde que eu viva em paz com o meu coração…
- Ameaça-me com hérnias discais, diabetes, hipertensão e todos os riscos inerentes ao envelhecer… Não tenho medo de ti e tenho a vida em dia, aconteça o que acontecer.
Cinquenta anos?
Caminharei feliz por entre as bermas que a minha vontade adornou de pétalas; na mão direita a caneta que desenha sílabas como golpes de espada sobre o medo e o impossível.
E quando quiserem falar de mim nunca contem por onde eu vim. Aquilo que melhor me define é tudo o que eu tenho para viver.
E se me encontrarem algures pelo caminho não esperem ver as imagens que de mim criaram. Há tanto do melhor que serei que nem eu próprio consigo ainda prever.