quarta-feira, 20 de julho de 2016

“Comboios completos de pensamentos”


Talvez a saudade seja antes de tudo, esta luz de Lisboa que nos faz falta quando partimos por muito tempo ou apenas por breves instantes.
Este meio-dia de Lisboa não existe em mais nenhum lado.
Chegámos ontem de uma semana passada entre São Petersburgo e Moscovo, nós, os sete amigos, e mais trinta e duas criaturas clientes da mesma agência de viagens; todos os trinta e nove contados e recontados pelos guias naquele jeito de:
- “Tirititxica, tirititxica…”.
E entre a “Con’ ceteza” e a “Sen’ ceteza”, os “Pinipons” e a “Dony”; nunca ninguém faltou no autocarro que tinha tapetes de quarto de dormir ao jeito dos anos setenta.
Refira-se que Dony é o diminutivo de “Doninha” uma criatura do nosso grupo que quase nos matava quando abria os braços. Verdadeira embaixatriz do suor lusitano, esta criatura para quem o desodorizante é um mistério mereceu inclusive uma rima muito jeitosa:
“Eu não cheiro mal da blusa,
Das Calças, do meu casaco
Trago apenas, tal se usa
Ratos mortos no sovaco”
Mas como no fim de qualquer viagem se exige um balanço; em sondagem realizada ontem, não à boca da urna mas do avião e junto dos sete magníficos, foi possível ficar a saber quais as cinco maiores atracções da viagem, apresentadas aqui sem qualquer hierarquização:
- O Palácio de Peterhof nos arredores de São Petersburgo junto ao mar Báltico;
- O Hermitage com Rembrandt em destaque e o quadro “O filho pródigo”;
- O Kremlin e a Praça Vermelha;
- O lago junto ao Convento das Donzelas, em Moscovo;
- A Catedral de São Basílio, em Moscovo, e a Igreja do Sangue Derramado, em São Petersburgo.
A não perder e não podendo deixar de salientar que o melhor de tudo foi mesmo viajar neste grupo de sete onde as gargalhas andaram à solta e pelos mais variados motivos.
As gargalhadas e as selfies.
Os Russos são em geral frios, distantes, militaristas, antipáticos, rudes, não sorriem e não falam Inglês. Praguejam contra nós nas lojas e nos museus, e as “múmias paralíticas” que colocam nas salas dos museus e nas igrejas conseguem ser mais antipáticas que os sarcófagos que protegem do barulho e das máquinas fotográficas.
Dá a sensação de que já saíram da União Soviética mas a União Soviética nunca lhes sairá dessa alma que adora o Putin, o seu “presidente muito democrático”.
Dizem eles, claro.
Comem galinha em excesso e até na Salada Russa, abusam do pimento, do pepino e da beterraba, e põem-nos a suspirar pelo MacDonalds, mesmo sem qualquer intuito de natureza provocatória e imperialista.
Às vezes limpam o suor da testa com o guardanapo a que depois limpam os lábios.
Mas nós também tínhamos a Dony.
As cidades preservam os ciclos que lhes enfeitaram o tempo, ricas armaduras de cal sobre a face dos Homens que lhes dão vida mas que não sorriem.
Às vezes ficamos só nós perante uma fachada a saborear cá dentro o eco das palavras dos poetas e dos romancistas, “comboios completos de pensamentos sem tradução para a linguagem humana”, como bem definiu Dostoievski.
Voltaríamos a viajar para São Petersburgo e Moscovo, de avião, de comboio… ainda que nos saiba tão bem este meio-dia de Lisboa.

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