domingo, 30 de dezembro de 2012

2012


Os últimos dias de cada ano são legitimamente dados a balanços, e aqui pelo Pomar das Laranjeiras, é tempo de cumprir uma tradição e chamar as laranjas pelos seus justos atributos:

LARANJA DOCE – O exercício da cidadania / 15 de Setembro
O povo “sugado” pelas políticas de austeridade demonstrou que tem voz e que não se cala perante a injustiça dos ataques do Estado aos benefícios sociais e aos seus direitos, mesmo os mais insignificantes e mínimos.
Quem andou pelas ruas de Lisboa, do Porto e das restantes cidades Portuguesas, sentiu que acima dos partidos e de todas as organizações mais ou menos reivindicativas, estará sempre o povo, unido e a uma só voz.
Que nunca se nos morra o fôlego.

LARANJA AMARGA – Troika / Merkel
A Troika e Angela Merkel são as duas faces do “nosso” Euro.
No posfácio da II Guerra Mundial, o conflito passou para os territórios da economia, inspirado como sempre nessa ariana ambição do esmagamento dos povos do sul da Europa.
O ataque ao Euro, filme de terror com argumento dos Mercados, encaixou perfeito nesta ambição, e hoje, a troco de uma pseudo-salvação da moeda única, legitimou-se a colonização dos países da Zona Euro com economias mais vulneráveis, e o regresso da escravatura, com as vidas aprisionadas aos grilhões da pérfida austeridade.   

LARANJA SUMARENTA – Joana Vasconcelos
É hoje uma das artistas Portuguesas com maior reconhecimento internacional e a exposição das suas obras nos salões do Palácio de Versalhes, é apenas mais uma prova, enorme no entanto, desse reconhecimento.
Tem a alma Portuguesa nas suas obras de dimensões gigantescas construídas pela sua arte a partir de objectos banais do nosso quotidiano.
Os corações de Viana feitos a partir de talheres de plástico e os sapatos da Cinderela construídos a partir de tachos, são apenas dois exemplos da sua grandeza como artista.

LARANJA SECA – Aníbal Cavaco Silva
E cada vez mais seca.
Numa altura difícil como a que vivemos em Portugal, é estranha a sensação de ter como Presidente da República, uma caricatura saída do Contra-Informação.
Sem alma, sem lucidez e sem discurso, a sua actuação é simplesmente patética, ao nível da forma ridícula que escolheu para defender os reformados que enfrentam sérias dificuldades financeiras, colocando-se a seu lado na fila das vítimas.
Quem tem as suas reformas e quem tanto dinheiro ganhou com o BPN, sabe Deus como, deveria ter o bom senso e o pudor de jamais se lamentar porque tal é demasiado ofensivo para quem tanto sofre.

LARANJA MECÂNICA – Acordo ortográfico
Os países que falam Português adiam a sua implementação ou manifestam o seu desacordo.
Portugal insiste de forma absurda na implementação de um acordo que está nos antípodas do consenso e que se tinha como objectivo a uniformização e o reforço do escrever em Português, está precisamente a ter o efeito contrário.
Impõe-se a travagem e a reflexão.  

VITAMINA C – Guimarães 2012
Depois de Lisboa e Porto, Guimarães foi a terceira cidade Portuguesa que beneficiou do privilégio de ser Capital Europeia da Cultura.
Um programa de luxo e muito diversificado que permitiu congregar múltiplos e muito variados públicos.
Deixa raízes profundas para o futuro numa cidade com um dos mais fantásticos centros históricos do país, reconhecido há muito como património da humanidade pela UNESCO.

SUMO GASEIFICADO DE LARANJA – Pedro Passos Coelho
Revelou saber de cor as cantigas do Paulo de Carvalho mas a sua verdadeira especialidade é a interpretação das músicas compostas pela Troika e Angela Merkel na ópera bufa da austeridade.
A sua insensibilidade social que o faz sistematicamente governar contra o povo e demasiado em prol dos nossos credores é tudo o que menos necessitamos da parte de um primeiro-ministro.
Reservar a face humana para a mostrar no Facebook de braço dado com a sua Laura, é patético e ridículo.

SUMO NATURAL DE LARANJA – Fernando Pimenta e Emanuel Silva
No país dos “Ronaldos” e de todas as milionárias vedetas do futebol, Fernando Pimenta e Emanuel Silva viajaram quase anónimos do norte de Portugal até Londres para remarem durante 1.000 metros e se quedarem a 53 centésimos de uma medalha de ouro, conquistando a prata para Portugal, a única medalha nos Jogos Olímpicos de Londres.
O trabalho e a humildade são a forja onde se fabricam os verdadeiros heróis.

REFRESCO ARTIFICIAL DE LARANJA – Vítor Gaspar
Do alto do torreão norte da Praça do Comércio, no seu gabinete, governa o país com base em modelos matemáticos e artificiais, esquecendo-se de que por detrás de todos os números estão as pessoas e de que as suas levianas decisões têm um impacto negativo gigantesco sobre a vida dos Portugueses.
Inadmissível a sua visão de um Portugal ideal vazio de Portugueses utentes mas repleto de pagantes, vacas leiteiras sem limites à produção.
É o “eucalipto” que seca a classe média Portuguesa, e já que se preocupa tanto com a retribuição ao país de toda a formação que ele lhe facultou, deixo-lhe uma forma mais eficaz de o fazer: desapareça.

LARANJA VERDE – António José Seguro
A sua liderança do Partido Socialista comprova que a rotatividade entre PS e PSD não é jamais garantia de saída do ciclo de mediocridade em que o nosso regime está envolvido.
Desonesto no não assumir da história mais recente do país e do seu partido, vazio nas ideias para o futuro, é no presente um líder frouxo e incapaz de congregar à sua volta quaisquer energias de mudança.

LARANJA PÔDRE – Miguel Relvas
É um dos mais “ilustres” exemplares saídos dos filões da incompetência que via juventudes partidárias nos têm preenchido os lugares de Estado.
Só o sustento invisível de algumas organizações secretas justifica que permaneça no Governo sobrevivendo a todos os escândalos e continuando a ter a “responsabilidade” de dossiers tão importantes como os da privatização da TAP e da RTP.
Qualquer Governo que queira beneficiar do respeito dos cidadãos jamais poderá ter Miguel Relvas ou alguém como ele no seu elenco.

LARANJA CALIPOLENSE – A cultura em Vila Viçosa
Concertos nas igrejas, nas pedreiras, no castelo e no Cine-Teatro, conferências, lançamentos de livros e revistas. A agenda cultural de Vila Viçosa, com o apoio da Câmara Municipal e da Fundação da Casa de Bragança, ganhou em diversidade e dinamismo.
Urge continuar pois a herança cultural e histórica de Vila Viçosa identificam-na naturalmente como um pólo cultural de relevância no sul de Portugal.

COMPOTA DE LARANJA – O ano de 2012 parte deixando para sempre a saudade de José Hermano Saraiva, Fernando Lopes e Miguel Portas. Bernardo Sassetti, a saudade e o silêncio prematuro deixado pela partida inesperada de um dos maiores músicos Portugueses. Paulo Rocha, o cineasta que com a arte de Carlos Paredes realizou um dos meus filmes Portugueses preferidos: Verdes anos.
Da banda sonora de 2012 emergem os The Gift e a sua Primavera. A voz de Sónia Tavares definitivamente no melhor da música Portuguesa.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Um jantar perfeito


Conta-se que em Vila Viçosa há já alguns anos, dois amigos adolescentes resolveram preparar uma expedição à lua. Com a ajuda da caixa de um frigorífico, onde se colocaram juntamente com um gato de estimação e uma lata de salsichas que lhes facultaria o alimento, activaram umas acendalhas e uns restos de pólvora trazidos das pedreiras de mármore. O resultado foi tão explosivo que no instante imediatamente após, um deles terá mesmo questionado o outro sobre se já estariam em órbita, quem sabe mesmo, se já teriam comprovadamente o direito a se intitularem herdeiros do Neil Armstrong.
Ontem fomos vinte e cinco amigos à mesa do jantar.
Um subgrupo de oito elementos, com média de idades a rondar os doze anos, agarrou-se aos i-pads, i-pods, i-phones e a uns belos bitoques, e, todos eles se portaram como uns verdadeiros senhores.
O comportamento menos racional morou definitivamente ao lado.
O outro subgrupo, com uma média de idades a rondar os quarenta quase cinquenta anos, entre a vitela estufada e o cação de cebolada, resolveu fazer “viagem à lua” agarrando-se à propulsão facultada pelas mais “terríveis” memórias.
Éramos muito dados a teatros e não deixámos por isso de referir o célebre “Discurso do Tonecas” em que eu lamentava a mancha no vestido de seda lionesa da São, na mesma actuação em que a Manuela desviou de casa a peruca da mãe e a estola de raposa da avó, desconhecendo que as duas senhoras se apresentariam para ver a peça, facto que motivou uma conferência familiar segundos antes de entrarmos em cena.
Num teatro de Natal no Convento das Chagas, hoje a Pousada, a Paula fazia de paralítica e a Clara, quase sem forças, tinha que carregar com ela até que chegasse uma estrela e fizesse o milagre de a pôr a andar.
É claro que não deixámos de referir a mímica em que o Manuel, a fazer de Jesus Cristo, se apresentou com uma túnica para uma pessoa com metade da idade dele, tendo inovado e apresentado uma versão muito Mary Quant do primeiro Cristo em mini-saia.
E os telefonemas anónimos no Carnaval a pedir botijas de gás para gente que delas não necessitava, as bombinhas de mão cheiro, as rifas sem prémio, as cábulas no liceu, as partidas aos professores, as “loucas” festas de aniversário, os clubes dos cinco e dos sete, os rebuçados comprados na loja do Sr. João de Deus…
O resultado foi tão explosivo que, por alturas da sobremesa e quando nos demos conta, já tínhamos aterrado no futuro e estávamos todos a idealizar um lar de terceira idade feito à nossa medida para que todos possamos terminar os nossos dias em Vila Viçosa, mas em grande. Algálias Louis Vuitton, Próteses Dentárias da melhor qualidade e com Corega à discrição, Fraldas Aromáticas em versão gourmet, Andarilhos Hermés, Banhos em Channel nº 5, saídas à noite e bar aberto, tráfego ilegal de Viagra e visitas diárias ao SPA, serviços de maquilhagem e aplicação gratuita de bótox, foram apenas algumas das exigências legitimamente manifestadas.
É claro que tudo isto para nos facultar o brilho nas actuações do coro que vamos formar com a ajuda do maestro Manuel, a quem o impulso da demência o levará a cantar salmos cinquenta vezes por dia.
Faltava pouco para a meia-noite quando saímos do Ninho dos Cucos e estava tanto frio que rapidamente, entre luvas, samarras e gorros, voltámos ao presente, nos osculámos e nos despedimos até amanhã.
A vida passa de forma muito rápida, por vezes até parece que voa, mas os maiores amigos, são e serão sempre aqueles que connosco partilharam e viveram os sonhos.
Com eles, confundimos o passado, o presente e o futuro, porque jamais nos veremos a viver sem eles, aqueles que os afectos tornaram eternos em nós e que jamais o tempo ou distância poderão destruir. 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Mais uma dose de alcunhas


Durante o recente lançamento do Pomar das Laranjeiras em Vila Viçosa, o meu amigo Manuel Almas leu como só ele sabe, o post “A pátria das alcunhas” que aqui publiquei no inicio do ano. O sucesso do texto foi tal que os presentes na sessão me têm recordado algumas das alcunhas de Vila Viçosa que não estão naquele texto, sugerindo-me uma nova publicação.
Ela aqui está e para que haja alguma ordem na sua apresentação, agrupei-as por categorias.
Começo pelos números. Consta que na sua génese poderão estar os números mecanográficos na hora da inspecção militar, o número dos sapatos que melhor se adaptam aos pés, e, saberá Deus, que outras medidas ou que outras partes do corpo poderão estar envolvidas. O que é certo é que por cá temos um “Dezoito”, o “Vinte e um”, o “Quarenta e cinco” e a “Setenta”.
Na classe dos animais, a variedade é grande: o “Burro”, a “Vaca”, o “Boi”, o “Andorinha”, o “Melrinho”, o “Macho”, a “Galinha”, o “Pinto choco”, o “Pardalinho”, o “Sapo”, o “Carneirinho”, a “Ratazana”, o “Pombo”, a “Gazela”, o “Pavão”, o “Macaco” e a “Cadela”.
Foram por certo os hábitos e as profissões que levaram ao rebaptizar de alguns e ao aparecimento de alcunhas como: “Mamista”, “Pipi abebera”, “Navalhinhas”, “Pão ralado”, “Papo-seco”, “João do forno”, “O Menino de Ouro”, “Pastilhas”, “Barateiros”, “Manuel à papa”, “Papa grãos”, “Papa toucinho”, “Farinheira”, “Chouriça”, “Favas”, “Broas”, “Cigarrilhas”, “O Pívias”, “Peixeiras”, “Teyrilene”, “Gira, já”, “Cága libras”, “Zé Maluquinho”, “Zé Mau”, “Quim Mau”, “Coveiro”, “Poejeiro”, “Pata branca”, “Paneiros”, “Nabo”, “Marinheiras”, a “Brinholeira”, “ Berra forte” e o “Laranjal”.   
As particularidades físicas estarão na base de: o “Cu de chumbo”, o “Marreco”, o “Bigodinho”, o “Belfo”, o “Pachorra”, o “Pichorra”, o “Barbas”, o “Patilhas”, o “Acha agulhas”, o “Beiço rachado”, o “Pés de banco”, a “Preta”, o “Maneta”, o “Chico Preto”, o “Chico escuro”, o “Cara linda”, o “Cabeça de arbusto”, a “Olivia Palito” e o “Pé de carimbo”.  
As terras de origem motivaram o aparecimento de “O Borbinhas”, “A Espanhola”, “O Saloio”, “O Terrujeiro”, “O Galego”, ou a “Maria de S. Romão”.    
E há uma grande variedade de alcunhas difíceis de agrupar: “Moias”, “Rasga-lhe a manta”, “Ecas”, “Raios”, “Cancelino”, “Pananas”, “Saragoças”, “Triosgas”, “Sobe e Desce”, “Barba azul”, “Boneco”, “Fusco”, “Manjerico”, “Bichas”, “Bisgas”, “Patarraio”, “Pouca tralha”, “Batuquinha”, “Carango”, “Fiozinho de azeite”, “Zé gato”, “Mau tempo”, “Musgado”, “Fonai”, “Passarudo”, “Xeca-a-xeca”, “Mulete”, “Fisgas”, “Bagela”, “Vento suão”, “Cachola”, “Pachicha” e o “Perinha”.           
Não posso jamais esquecer os que me estão associados por vínculo familiar e sempre recordo que o meu avô materno era o “Garoto” e que o meu tio Filipe por ser pequeno começou por ser o “Mini Cergal” e acabou sendo conhecido pelo “Cergal”.
E eu me despeço mais uma vez, Joaquim Barreiros ou Francisco Caeiro, mas em Vila Viçosa, sempre, “ O Foguete”.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O período regenerador de entre Natal e Ano Novo


Vão frescos mas de sol, os dias de entre Natal e Ano Novo, aqui pelo Alentejo.
A casa ainda está repleta de filhós, azevias, nógados e outros doces, e não é que tudo nos sabe ainda melhor neste período após o Natal?
Sem humidade, as filhós mantêm-se estaladiças e estão como novas, e valha-me então a Metformina para evitar que os meus açúcares trepem a níveis vergonhosos num profissional de saúde.
Com o estômago assim confortado, por vezes até de forma excessiva, também a alma descansa e se prepara para mais um ano de Troika, assim ao jeito de estágio de pré-época das equipas de futebol.
Muito descanso, muita leitura, muita escrita, muita conversa, muitos passeios a pé, muito pouco automóvel, muito pouca gravata e mocassins, e sobretudo, muita descontracção.
Ontem até tive tempo para ir ao mercado e feira semanal.
Há muito que não ia e fiquei surpreendido pelas inovações.
A primeira foi ter descoberto que as tendas de venda de roupa já têm gabinetes de prova e foi ver as cabeças dos clientes a sobressaírem de uns paralelepípedos de pano com estrutura de ferro, enquanto os corpos confirmavam a adequação ou não dos modelos e tamanhos das jeans.
Depois, três soutiens por cinco Euros…
Jamais supus que os serviços de sustentação das mamas prestados pelo pano e pela entretela, estivessem assim tão mal pagos.
Será culpa da moda do silicone e dos seus efeitos de firmeza dos ditos?
Suspeito que sim e que o cirurgião plástico tenha morto a Menina Amélia que acertava as caixas dos soutiens.
Por estes dias, os cafés com amigos têm sido tomados, sentados à mesa, e acompanhados por conversas de algumas horas, que o relógio por estes dias não se nos impõe.
Dispensado o açúcar, que já o há em quantidade suficiente nos fritos da temporada, temperamos a bebida com gargalhadas e com dissertações sobre os mais variados assuntos, e para descontrair nada melhor que temas mundanos, mas relevantes, como por exemplo uma discussão sobre os comportamentos anómalos derivados do deficit afectivo-sexual de que são vítimas algumas espécies nossas conhecidas e que estão na longa lista para a elevação a “cromos”.
Talvez porque lhes facultei as coordenadas GPS, o que é um facto é que os amigos de mais longe têm aparecido por aqui e em passeios muito agradáveis me têm possibilitado o assumir do papel de um amador José Hermano Saraiva na descoberta dos melhores e mais interessantes recantos da minha terra.
E sempre sem pressas e a sugar de cada minuto tudo aquilo que ele de melhor nos pode dar.
2013 será um ano difícil?
Presumo que sim, mas candeia que vai à frente…

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O Dia de Natal


Nunca saberei ao certo qual o dia em que no verão de 1966 e após o meu nascimento, a minha mãe saiu comigo pela primeira vez da nossa casa à Rua de Três, onde nasci, e cumpriu o preceito das mulheres de Vila Viçosa que sempre definem como meta desse primeiro passeio com os seus filhos, o altar da Senhora da Conceição, oferecendo-nos e pedindo protecção para a vida.
Um dia, um Rei, aqui, ofereceu um Reino, e as mães, dão continuidade ao seu gesto, oferecendo a sua melhor e mais infinita riqueza.
Hoje, Dia de Natal de 2012, quarenta e seis anos depois, subi ao Castelo para a Eucaristia, e sentado na mesma Igreja, envolto no conforto dos sorrisos e do afecto da minha gente, duvidei das quase cinco décadas que entretanto passaram porque nem a noção clara das minhas barbas brancas, me privou desta doce sensação de voltar a ser menino.
Talvez porque na casa e nos braços das nossas mães, somos eternos meninos.
Ou talvez por ser Natal…
E por ser Natal, passei grande parte da tarde com a minha mãe e o meu sobrinho João, a construir um Lego algo complicado do Sponge Bob. As dificuldades da montagem não resistiram a três gerações e ao fim de algumas horas concluímos com sucesso uma cápsula supersónica capaz de mergulhar nas mais profundas águas dos oceanos da Terra.
Acho que cedo nos demos conta de que a magia não estava na dita cápsula laranja que tinha centenas de peças pequenas, a magia esteve no privilégio de a minha mãe ter recuado 63 anos e eu 39, e nos termos encontrado com o João, todos os três, com 7 anos de idade.
E tudo, por ser Natal.
Ontem, ao abrir os presentes, deparei-me com uma surpresa fantástica. A minha prima Lurdes, cozinheira de profissão, escreveu-me num pano a receita de uma das minhas sopas alentejanas preferidas e que eu comia sempre em casa da nossa Tia Maria, a Sopa de Hortelã. A simplicidade será sempre o agente catalisador para o melhor da vida, e um pano branco preenchido pela sua caligrafia simples, devolveu-me por instantes o privilégio de reviver alguns dos melhores momentos da minha infância e adolescência.
E tudo, e mais uma vez, por ser Natal.
Quando hoje me sentei à mesa do café com os meus amigos, começando por falar de Sericá e acabando a discutir a situação política, fizemo-lo com o tempero do non sense que há muito criámos a partir das nossas cumplicidades. Já somos amigos há tanto tempo que até nos recordamos da altura em que alguns de nós ainda não sabiam falar de forma correcta.
E as cumplicidades e a amizade transformaram-nos a todos numa extensão das nossas próprias famílias, e o nosso encontro de hoje foi mais uma vez a nossa consoada, muito própria, pois não tendo filhós, tem o mais doce sabor das fortes e sinceras gargalhadas.
E hoje, estivemos mais do que nunca dispostos para a gargalhada, não tenho dúvidas, por ser Natal.
E o Natal, mais do que a memória do nascimento de um Deus que se fez Menino, é para mim tudo isto que hoje partilhei convosco, e que ouso agrupar sob o lema do nosso reencontro com a essência do que somos. E somos, de forma indivisível, nós próprios e todos aqueles que amamos.
A magia do Natal está e estará sempre assim, em nós, e soltá-la será sempre o segredo para sermos e estarmos felizes.
Oxalá não fosse apenas um só dia.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

A noite de Natal


Foi não só o frio que nos convocou para redor desta camilha onde por debaixo arde e nos conforta, uma braseira onde brilha intenso o picão que nasceu da lenha de oliveira.
Em cima da mesa há filhós, azevias, nógado, e daqui a muito pouco chegará a fumegar, um doce chocolate quente feito a partir de um saco de pó de mistura que comprámos na Pérola Calipolense.
Rimos, cantamos e pomos as mais intensas marcas de festa nos sorrisos e sobretudo nos olhares.
Obrigamo-nos a fixar no que há de mais positivo. Esta noite nasceu para ser de paz e para dela nos atestar a vida, garantindo-a em todos os dias do nosso futuro.
Não há espaço para o silêncio, e nem a televisão que ouvimos em fundo, nos impede a partilha das palavras nascidas das memórias de outras noites como esta. Quase sem que nos demos conta, estamos à mesa com todos os que partiram há mais ou menos tempo, porque a memória tem esta virtude de jamais deixar morrer todos aqueles que habitam os territórios dos nossos afectos.
O telefone não pára de emitir mensagens a provar que é necessária uma noite assim para que quebremos as reservas, soltemos os sentimentos e expressemos todo o amor que sentimos uns pelos outros.
E assim, todos os que importam, estando mais longe ou mais perto, estão presentes nesta noite como o estão na vida.
A noite far-se-á curta e amanhã, cedo pela manhã, haverá prendas desembrulhadas por entre os risos mágicos das crianças. Com independência do seu custo terão o inquestionável valor das mais perfeitas cumplicidades de coração.
Hoje é Natal.
Hoje é Natal não por haver presépios com burros, vacas ou pastores, árvores iluminadas e Bolo-rei.
Hoje é Natal porque deixámos nascer o Menino Jesus no mais íntimo de nós, e tornando-O epicentro desta fantástica festa do amor, reencontrámo-nos com a nossa essência de Homens e encontrámos o mote para uma cadeia de afectos que soltámos numa noite fria de Dezembro.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Eternidade


No gozo de um privilégio único, abro a porta de casa e saio para a rua que cheira a erva molhada, surpreendido pela intensidade do brilho do sol que em círculo gigante e em tons de entre amarelo e laranja, majestoso, nasce por detrás dos altos montes que no perfil do meu horizonte me enquadram o Cristo Rei.
Pela cumplicidade de azul que o sol revela, jamais saberei dizer se é Tejo ou Mar, a imensidão de água que no cumprimento do mais luso e marinheiro dos destinos, para ocidente me atrai e por impulso genético me impele a desviar para si o meu olhar, enquanto o corpo aquece a cada gole, impulso de gosto e aroma da generosidade de um café.
De onde estou, não vejo a cidade, escondida por Monsanto, mas esta festa de cor traz-me de repente à lembrança, o doce e mágico sabor do presságio das madrugadas de Lisboa, a cidade perfeita, que por esta hora, em namoro de luz, se entrega ao sol que nasce, oferecendo-lhe a mais completa palete de tons claros de ocre e rosa, sob os socalcos definidos pelo tijolo dos telhados na cascata das sete colinas.
Lisboa, nas minhas rotinas da última manhã de Outono e no seu todo perfeito, a revelar-se divina… e a mostrar ao mundo a sua inequívoca marca de eternidade.
Lisboa, hoje e sempre, moura, feiticeira, maga e pitonisa, heroína do destino em canto de fado, lusitano Olimpo a quebrar profecias na real prova de que o mundo jamais poderá acabar.
Nem hoje, nem nunca.
E há ainda tanta vida para cumprir sonhos e sermos felizes…

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Tostãozinho para o Menino Jesus


Por esta altura do ano, quando se aproxima o Natal, se há coisa que me tira do sério, é a presença junto às registadoras dos estabelecimentos comerciais, de umas caixinhas destinadas a recolher as moedas dos clientes, tendo por perto mensagens do género:
“Os funcionários deste estabelecimento desejam a todos os clientes, um Feliz Natal”.
Há caixas para todos os gostos, desde as mais rústicas forradas à pressa com o mais reles dos papéis de embrulho comprado nos “chineses” e um buraco para as moedas aberto grosseiramente à tesourada, até às mais elaboradas e requintadas, com adereços natalícios como micro árvores de Natal, estrelas, presépios ou mesmo algum Pai Natal de peluche montado na borda de cestinhos de vime.
As frases também variam muito, assim como o tipo de caligrafia das mesmas e que as torna mais ou menos perceptíveis, sendo sempre de registar, as derivações em volta da palavra “prosperidade”, que aplicada ao novo ano tanto pode chegar a próspero como a propriedade.
E porque é que eu detesto esta acção global de recolha de moedas ao melhor estilo de “um tostãozinho para o Menino Jesus”?
Em primeiro lugar acho degradante que o local onde eu todos os dias me dirijo para tomar um café ou almoçar, tenha ao seu serviço funcionários tão mal pagos que seja necessário o meu esvaziar de carteira para que o seu Natal possa ser mais risonho. Os proprietários destes estabelecimentos deveriam ter vergonha ao permitirem e fomentarem estas acções ao estilo “caridadezinha” que ferem a dignidade a que os seus funcionários têm direito.
Depois, porque agradeço sempre que me desejem um feliz Natal ou Ano Novo, mas por favor, de uma forma espontânea e desinteressada. Recuso-me a comprar esses votos, nem que o seu preço esteja a saldo e corresponda à entrega de todo o rol de metal “preto” que em determinado momento me possa estar a pesar no porta-moedas.
Já me basta receber os SMS de parabéns da Multiópticas, da Saccor, da Mr. Blue, da Decénio, do Continente ou da Optimus, que nunca são dados com o intuito de me porem feliz, mas sempre com o objectivo de me caçarem os Euros na minha próxima ida ao Shopping.
Para além disso, irrita esta sazonalidade no humor e nos afectos, que põe empregados mal-educados e antipáticos, a desejarem-nos um Natal Feliz. E na Páscoa? No carnaval? E nos restantes dias? Atiram-nos com o troco e tratam-nos com agressividade.
Esquizofrénica é também esta dualidade de discurso entre a comunicação oral e a escrita nas mesmas pessoas e no mesmo espaço físico. Tratam-nos com aspereza ou indiferença, e depois, chegados à caixa lá está o cartãozinho com tanta simpatia escrita.
No fundo, e procurando uma justificação para tais atitudes, podemos concluir que elas vêm de encontro à sobranceria e à “chica-esperteza” que nos caracterizam e que fazem da linguagem simples das moedas, um vicio e uma instituição nacional designada por gorjeta. Quem dá a moeda sente-se importante e quem recebe, com íntimo de “chico-esperto”pensa sempre que já enganou mais um com as suas cantigas e já lhe sacou uma moedinha.
Por mim, peçam-me o preço justo pelo que consumo, desejem-me Feliz Natal sempre que quiserem mas sem se fazerem à moeda, sejam felizes, e sobretudo, não me chateiem. 

domingo, 16 de dezembro de 2012

Sardinheiras de aço


Os dias do Natal oferecem-nos sempre esse benefício adicional da destruição das desculpas que durante o resto do ano nos impedem de estar juntos.
É assim em relação à Dulce e à Teresa.
Conheci a Dulce em 1990 quando logo após terminar o curso, fui trabalhar para uma farmácia em Lisboa, a Farmácia Universal.
Facilmente encontrámos infinitas cumplicidades, nascidas de tudo, mas sobretudo de um enorme gosto por viver e uma natural propensão para saborear ao detalhe tudo o que de melhor a vida nos pode oferecer.
E para além disso, ou talvez por isso, o que nós gostamos de rir e o tanto que nos divertimos juntos…
Na farmácia, começávamos a manhã, um pouco antes das nove e enquanto vestíamos as batas, a ouvir as crónicas do Herman na TSF, e daí até à noite, à hora de fechar, com a Yvette Marise, o Bernardo Teixeira da Cunha ou o Zé Estebes, oferecíamos a todos os nossos clientes, essa oportunidade de levarem para as suas casas, mais do que saúde na forma de caixinhas, uma melhor saúde em boa disposição.
Partilhando um gosto muito especial pelo teatro, não deixávamos por ver qualquer peça, mesmo aquelas do mais puro bas fond da cidade mas que nos eram recomendadas pelo “Sete” ou pela página cultural de “O Independente”.
E nas raras vezes que a farmácia estava vazia, e por se achar com particular jeito para representar, a Dulce arriscava a entrada em qualquer Serviço de Ortopedia, ao transformar os nossos enormes escadotes de madeira em escadarias de palcos de revista do Parque Mayer, que descia a cantar, de bata vestida e de sapatos ortopédicos calçados, mas sempre ao melhor estilo La Féria:
- Revista, venham à revista…
A Teresa, também farmacêutica, chegou por intermédio da Dulce e carregada das cumplicidades oferecidas pelo facto de ambos sermos alentejanos, de termos nascido em Vila Viçosa, e até na mesma rua.
Sem nos conhecermos pessoalmente por culpa de alguns anos de diferença e da distância geográfica entretanto criada entre nós, conhecíamos as famílias e os laços de vizinhança de muitos anos.
Por tudo isso, mas sobretudo pela pessoa fantástica que é, foi muito fácil criar com ela uma rápida e extraordinária amizade.
E após estes mais de vinte anos de uma indestrutível amizade a três, “vigiamo-nos” mutuamente ao longo do ano, ao jeito de quem cuida das pessoas de quem muito gosta, e não dispensamos nunca o nosso jantar de Natal.
É sempre em Lisboa, a cidade que amamos mais do que todas as outras, e são muitas as que nos empenhamos em conhecer por esse mundo fora.
Por esta época o Chiado brilha mais do nunca e é sempre aqui com a cumplicidade de Camões e Pessoa, que marcamos encontro à porta da Brasileira, para daí irmos até um qualquer restaurante onde nos sentamos para falar muito, rir ainda mais, “actualizar ficheiros”, comer e beber bem, trocar presentes, e sobretudo, entregarmo-nos ao desfrutar desse raro e perfeito sabor da mais doce amizade.
Os três solteiros por opção e não por destino, provamos a quem estiver nas mesas ao nosso lado, que “encalhados” são todos aqueles que, ao contrário de nós, se sujeitam a “aguentar” os estados civis que não lhes nascem da alma.
Foi ontem que cumprimos este mais do que assumido compromisso marcado a indispensável no calendário perpétuo dos nossos afectos.
E foi perfeito, como sempre.
Elas, fantásticas, foram para meu privilégio, as mais rubras e viçosas sardinheiras a brilhar no coração de Lisboa, numa amizade rija e forte como o aço.
Obrigado amigas por este pedaço do melhor Natal.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Sem abrigo


A chuva não me perturba, nem por cair assim tão intensamente, enquanto espero que o semáforo dos peões se ilumine de uma intensa cor verde. O que é a chuva quando comparada com a dor deste vaguear sem rumo?
Os carros aceleram e tenho a certeza de que nenhum condutor ou passageiro dá por mim. Já faz muito tempo que não saboreio o gosto de cruzar o meu com o olhar de alguém. Será culpa deste meu ar andrajoso? Desta barba e cabelos descuidados? Serei o reflexo no espelho e o medo de um possível destino? Será a vergonha pelo incómodo que causo às consciências?
Adoro a noite e não só porque me esconde.
Quando me deito na calçada entre os jornais e os cartões, o álcool aquece-me e facilita-me o sono que me transporta para a única porta que a vida me mantém aberta: os sonhos.
Não fossem eles, e diria que tudo o que tenho cabe dentro deste saco de pano sujo, do qual jamais me aparto.
Até a fé me deixou, ao mesmo tempo que a memória me levou as palavras que os meus lábios já não conseguem rezar.
Só os sonhos me devolvem os beijos cujo gosto há tanto esqueci, só eles me devolvem as noites de amor, o prazer e a paixão…
Houve um tempo em que tinha casa, família, filhos e em que me sentia dono de um destino que sempre supus de sucesso. A vida tinha sido sempre assim, a subir. Mas um dia falhou o trabalho e a chegada da pobreza encarregou-se de sacudir todos os afectos.
O nada, quase sempre implica, ninguém.
Degrau a degrau, cheguei aqui ao ponto onde estou, sem nada, sem ninguém, ferido em tudo e na dignidade.
Nem sequer tenho já direito a nome ou identidade.
Hoje, só o lixo me ofereceu uma carcaça rija e só desse desperdício de alguém se me atenua o desconforto que vou tentar afogar neste pouco vinho que me resta na garrafa.
A chuva não pára mas já vejo ali ao fundo o alpendre onde me deito e de onde posso ver os aviões que chegam e que partem desta Lisboa onde vagueio.
Ai se eu um dia pudesse ter asas…

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A ceia de Natal


A chegada tem esse inesquecível sabor doce do beijo dos avós, enquanto na casa há aromas de sobro a arder na chaminé, alinhados com o bacalhau, as couves e as batatas que sobre a mesa aguardam o tempero do azeite, para que a fios de ouro líquido se debrue a festa que a todos nos chamou.
Ao redor da mesa, há sorrisos e sobeja afecto nas palavras, nos olhares e até no mais simples gesto. É a alma a usar todo o corpo no expressar da sua felicidade.
O fim do jantar convoca-nos para a lareira acesa onde uma ronca ou zabumba que fazemos vibrar por entre as mãos molhadas, com o crepitar da lenha, dá o mote para o canto ao Menino que esta noite nos impõe à voz.
Enquanto isso, na cozinha, o bulício das mulheres assegura a ceia.
O sino toca e chama-nos à missa que é do galo e a que acudimos pronto, fingindo sempre não reparar que o pai ficou para trás, possibilitando dessa forma que a magia dos presentes trazidos pelo Menino Jesus se possa cumprir no momento do nosso regresso a casa.
Na Igreja, estamos todos, no encontro dos melhores capotes e samarras, na noite das mil campainhas que anunciam o cumprir da profecia de um Deus que chega e se faz Homem.
E canta-se Glória…
De volta ao lar, há presentes junto à lareira, e sobre a mesa já está a toalha do melhor linho e de rendas finas, onde brilha a carne de porco, o pão, o vinho, o cacau, as filhós, azevias, coscorões, aletria, arroz doce, borrachos, rabanadas, bolo-rei, broas, e claro, todos os sonhos, porque é essencialmente de sonhos que se faz uma noite assim.
Já é tarde e nem a férrea vontade de usufruir dos brinquedos há tanto desejados, detém o sono que nos faz adormecer no colo das mães.
Chegou a hora de nos separarmos, mas por breves instantes, pois a noite é demasiado curta para a vontade enorme de voltar quando a mesa do almoço já estiver posta e à espera do peru. Prepara-se o regresso a nossa casa, entre os braços do pai e os cambaleantes passos na rua deserta onde só o eco nos acompanha.
Faz frio, e por isso a avó não nos deixou sair sem que trouxéssemos o calor do seu xaile que cheira a ela e aos seus beijos, que assim nos acompanham no cumprir de um privilégio sem par.
E nem damos pelo facto de a cama estar fria, quando a mãe nos despe e faz mergulhar entre os lençóis.
Há muito que nos entregámos ao sono na certeza de que com ele virão esses sonhos únicos de uma noite nascida perfeita, de uma noite de Natal.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

As heranças que perpetuam a alma


Quando de repente gozo o último feriado no dia da Restauração da Independência de Portugal, quando vejo a freguesia onde eu nasci ser “engolida” por uma outra, depois da saída da RTP do Eurofestival e do quase inevitável apoio que no certame do próximo ano eu terei de dar à Espanha, quando me cruzo em Vila Viçosa com uma criança vestindo um capote cor-de-rosa fluorescente, prova evidente de que a japonesa Hello Kitty já atacou o traje regional alentejano, depois de os colombianos nos comprarem a TAP e dos chineses nos terem comprado mais de metade do país, é natural que manifeste as minhas muito sérias preocupações sobre a preservação da identidade nacional.
É que não dá jeito nenhum que a globalização e a sua aliada e quase siamesa crise financeira, se nos “mate” o ADN definidor da mais pura lusitanidade.
E isto não é nacionalismo bacoco e nem sequer uma síndrome pré-xenofobia, é pura e simplesmente o assumir de uma História de muitos séculos, exactamente naquilo que há de mais natural e de humano sentimento: gostarmos de ser Portugueses.
Estava eu embrenhado nestes pensamentos quando me vejo a viajar com três rapazes de 18 anos, filhos de amigos de há muito e que recentemente fizeram o seu ingresso em universidades da capital. Um gosto.
Passaram trinta anos desde os tempos em que eu e os pais deles fazíamos estas viagens com o patrocínio da geração anterior à nossa. A sua forma de pensar é diferente, e felizmente, porque o mundo deles também nada tem a ver com o nosso, desde logo por essa facilidade de comunicar através das viciantes SMS’s trocadas a toda a hora, mas a essência é igual à dos seus pais, que os educaram e continuam a educar, e o essencial emerge facilmente na conversa e na atitude: honestidade, responsabilidade, liberdade, respeito, etc.
Ontem, e como sempre antes da hora do almoço, juntámo-nos à conversa no Café Restauração e bem contados, seríamos por certo mais de quinze amigos. Talvez pela primeira vez e apesar de todas as emoções dos nossos acontecimentos mais recentes, os “nossos” filhos mais pequenos, partilharam connosco as atenções na hora de eleger tema de conversa: a Maria Isabel que é a minha querida ” Mafalda Veiga do Carrascal” deu show nas cantigas do Sarau dos Escuteiros da véspera, o Francisco foi reconhecido como o Escuteiro Ideal, e o Fábio, fez uma interpretação numa peça de teatro e dizem os entendidos que foi fantástica em jeito e arte.
Onde é que eu já vi isto?
Há quarenta anos, acontecia exactamente o mesmo connosco depois dos teatros que fazíamos na escola ou na catequese. Os meninos, mais do que a arte, herdaram-nos a alegria e sabem rir tão bem ou melhor que nós.
E assim, por estes caminhos microscópicos deste também microcosmo definido pelos meus afectos, chego ao segredo e me faço à conclusão de que pelos valores do ser e pela alegria, todos feitos herança, se fortalecerá a alma, e esta, jamais alguém nos poderá um dia alienar.
É a alma, o ADN de um povo.
É a alma, a nossa salvaguarda e o segredo da perpetuação da identidade.
É a alma que nos define o ser, e mais do que isso, é ela que nos alimenta o ânimo nas legítimas lutas pelo pão e pelo direito à dignidade.
Podem vir crises, Troikas, Chineses, Angolanos, etc., mas aquilo que engrandecermos no sentido de não ter preço, nunca ninguém nos poderá comprar.
Só temos de lhe dar “com alma”.
Mas a menina do capote cor-de-rosa ao melhor estilo “Barbie – Ceifeira Alentejana”, fica-me atravessada. Ele há cada uma… 

domingo, 9 de dezembro de 2012

Pedofilia


Caríssimo Padre,
Não me sentia motivado a escrever sobre o tema, mas a sua homilia de ontem na missa da Imaculada Conceição, impulsionou-me definitivamente a fazê-lo.
A pedofilia é um crime hediondo, merecedor da mais veemente condenação e tenho muita dificuldade em reconhecer o direito a dó ou piedade, por ínfimos que sejam, para quem a pratica.
Considero que os casos devem ser cuidadosamente investigados para que os comprovadamente pedófilos possam ser devidamente julgados e condenados. E o pedófilo será sempre o indivíduo que pratica o crime, com independência de ser homem ou mulher, casado ou solteiro, familiar ou não, homo ou heterossexual, padre ou leigo, etc.
Qualquer extensão da condenação que parta do indivíduo para o grupo onde ele se insere, é abusiva, injusta e muito perigosa.
E esse tomar do todo por uma das partes, tanto pode acontecer por erro de quem acusa como por excesso zelo de quem não resiste a defender os seus pares.
Por isso, vai desculpar-me mas afirmar na sua homilia de que as recentes manchetes dos jornais sobre um presumível caso de pedofilia num seminário, são um ataque da imprensa à Igreja, não leve a mal, foi um desnecessário transportar de todos os católicos para dentro de um problema e de um crime com o qual a grandíssima maioria de nós não tem nada a ver.
Afirmou o senhor que a Igreja só é responsável por 5% dos casos de pedofilia e de que as próprias famílias são responsáveis por 40%.
As guerras de percentagens não se aplicam aqui e um católico quando o é em plenitude não se refugia em biombos de qualquer espécie, incluindo os estatísticos.
A qualidade deverá imperar sempre porque nem que a Igreja fosse responsável por apenas 0,001% dos casos, que a sua e a minha obrigação, seria sempre condená-los com veemência.
Na primeira parte da sua homilia, o senhor foi brilhante, e digo-lhe até que poucas vezes ouvi “interpretar” tão bem, o livro dos Genesis e o pecado original. Falou das “parras” com que muitas vezes tapamos as misérias do nosso ser e a nudez da ausência de valores.
E sem se dar conta, na segunda parte da sua homilia, chamou a imprensa para fazer de “parra”, ainda por cima para uma questão que não nos diz respeito.
Gostei da sua referência ao facto de estarmos na “Casa de Maria” e muito nos lisonjeou o facto de estarmos a partilhar essa tarde e esse acto de fé com os legítimos herdeiros do fundador da igreja da padroeira, ao mesmo tempo os herdeiros do rei restaurador que da Senhora da Conceição fez Rainha.
Aceite as minhas críticas e não as leve a mal, só as faço por considerar que há lugares e companhias que nos merecem melhores, mais sensatas e mais inspiradas palavras.

sábado, 8 de dezembro de 2012

A fé e o amor na manhã da minha terra


Todos os anos, na manhã do dia 8 de Dezembro, a Banda Filarmónica União Calipolense, sai às ruas de Vila Viçosa.
Começa por saudar a Senhora da Conceição, na sua igreja construída por Nuno Álvares Pereira no castelo, a primeira igreja dedicada a Nossa Senhora da Conceição que foi erigida em toda a Península Ibérica, e o local onde em 1646 e após seis longos anos de luta pela restauração, D. João IV entregou a sua coroa à Virgem, tornando-a Rainha e Padroeira do Reino de Portugal.
Imediatamente depois, a Banda dirige-se ao busto de Florbela Espanca e saúda-a também neste dia que é o do seu aniversário, e simultaneamente o dia que assinala o seu falecimento.
Contrastes na manhã da minha terra?
Teremos sempre duas grandes opções na forma de olhar a vida: procurar convergências ou então, as divergências.
Sou adepto confesso da primeira opção, e por isso não estranhem que veja aqui uma forma sublime e única de celebrar a fé e o amor, elementos essenciais e privilégios da vida.
Maria é uma Mulher que pela força da sua fé aceita mudar o rumo da História da Humanidade. Sem pensar em si, no seu interesse pessoal e nas convenções, ela dá a sua vida e aceita ser a massa fermentada por Deus para o crescimento de uma nova Era.
Florbela recusou-se a ceder ao seu tempo, qualquer componente, por mínimo que fosse, do seu todo privilégio de ser Mulher. Contra a hipocrisia de todos os espartilhos sociais e culturais do seu tempo, assumiu o amor, o prazer e a sensualidade, não se negando jamais a pagar o duro e difícil preço de quem ousa ser diferente. E um poeta será sempre um mestre no reconhecimento da grandeza da criação.
Maria e Florbela, duas heroínas do seu tempo, do nosso e de todos os tempos.
Maria e Florbela, mestras de fé e do amor, inspirações eternas celebradas nesta fria mas solarenga manhã da minha terra.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O parque temático


Dezembro é definitivamente um mês dado a balanços, e talvez por isso, no início do mês, a Ministra Cristas, que entre muitas outras coisas nos cuida do ambiente, revelou que no ano de 2012 se verificou uma melhoria da qualidade do ar.
Recusando-me a aceitar que tal fosse desde logo uma imediata consequência da implantação das rotundas concêntricas do Marquês de Pombal, que me põem os nervos em franja de cada vez que me desloco ao centro de Lisboa, busquei uma outra justificação oficial, e encontrei: a crise e o aumento do preço dos combustíveis.
A crise sufoca-nos mas definitivamente por outras vias que não os ares que respiramos.
Quase ao mesmo tempo, leio que Lisboa baixou três posições, de 41º para 44º lugar, no ranking de cidades feito com base na Qualidade de Vida que proporcionam aos cidadãos. A lista é encabeçada por Viena e na última posição, em 221º, aparece a “animada” cidade de Bagdad, no Iraque. O motivo para a queda de Lisboa: a crise e a convulsão social associada à mesma.
O lado lunar da crise definitivamente a matar qualquer nesga de sol que alguém queira inventar como nascida a partir da mesma.
Ainda a meio desta análise do impacto da crise, vejo no Facebook que alguns amigos se manifestam muito orgulhosos pelo facto de uma organização, a Globe Spots, recomendar Portugal como o primeiro destino de viagem para 2013.
E quando a esmola é grande…
Vou à procura do ranking de dez países e desde logo me apercebo que a seguir a nós estão: Moçambique, Quirguistão, Panamá, Arménia, Ruanda, etc.
Percebo então desde logo, e com todo o respeito pelos países envolvidos, que a sugestão se destina essencialmente a leitores da National Geographic, amantes de algum exotismo selvagem, e isso não me permite ficar muito contente e lisonjeado com o destaque.
Não resisto e leio a justificação:
“Portugal oferece o charme europeu. Tem cidades e bairros medievais com praças, igrejas e conventos. As ruas estreitas são definidas por casas antigas e com varandas de onde pende roupa a secar. Aqui, os vizinhos ainda discutem à janela, a vida dos outros e a política. As pastelarias e as tascas estão sempre tão cheias que desconfiamos se os Portugueses alguma vez comem em casa. Qualquer dia parece ser indicado para uma bebida e não se surpreenda se após alguns dias em Portugal, se vir numa pequena praça de alguma cidade com um copo de Vinho do Porto na mão, com independência de alguma vez ter programado tal aventura pois esta é apenas uma daquelas coisas que Portugal pode fazer por si.”
Com uma bebedeira contagiante, espreitamos por entre a roupa a secar nas janelas para dizer mal dos vizinhos e dos políticos, isto claro, no pouco tempo que temos para estar em casa, pois a maior parte do dia passamo-lo nos cafés e nas tascas.
Que belíssima imagem!
Aqui não se apontam culpas à crise mas é fácil deduzir que dizemos mal dos políticos por causa da dita, que bebemos para esquecer, e ninguém me convence de que aquela “boca” dos dias passados na tasca não tem mão da Merkel.
Fora algum milagre ou descoberta que nos faça virar a sorte, e o Santo Padre empenhado em escrever o Folheto Informativo do Presépio numa redacção ao melhor estilo pragmático dos Manuais de Instrução das Máquinas da Bosch, e que acabou de descobrir que afinal os Reis Magos eram oriundos da Andaluzia, bem que poderia descobrir que a Maria Madalena nasceu na Mouraria e ainda era prima afastada da Maria Severa…; a crise devolveu-nos ao estatuto que sempre nos foi atribuído.
Bons ares, boa comida, melhor bebida, um povo rabugento e atrasado a viver em cidades e bairros interessantes e com muita história, numa espécie de Parque Temático Medieval onde a pobreza é camuflada de típico numa exposição às objectivas dos endinheirados e muitas vezes pouco cultos que nos visitam.
Pela parte que me toca, recuso-me a aceitar este como o nosso destino, não me resigno e juro-vos que jamais desistirei de mudar este fado.   

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A Vila Viçosa, na tarde do Pomar


Da cumplicidade maior, se fazem os Nós, Porta de chegada, entrada aberta ao Terreiro, do Paço, e onde os passos se detêm e entregam os sentidos ao sublime e ao poder da tua majestade.
Da Janela de Lisboa, se espreita o querer de Luísa na ambição de ser rainha nem que só por um instante.
Com ventos, dos jardins soam reais pavões e sepultadas ficam as Chagas da distância que estando aqui, assim, na intimidade contigo, ficarão para sempre no Panteão da saudade. 
Há flores de laranjeira em cheiro no ar, e deste aroma se faz o alento que a Avenida sobe por entre rubras rosas roubadas à paixão de um soneto de Florbela, ainda a tempo de cruzar muralhas, antes do sino da Imaculada Padroeira, bater trindades.
E o Castelo… de um Condestável guarda façanhas, e de um rei, João de seu nome, a memória da fé que à Virgem fez rainha.
Há rubros medronhos a pontear a imensidão de verde, aquém e além Porta de Évora, passagem aberta à encosta onde um Maio já distante nos trouxe de leste a bênção de um eleito, Pontífice e Santo.
O Colégio, visto daqui parece tão perto…
Pura ilusão, se é vasta a Praça onde a Fonte, redonda, marca o centro de um imenso Pomar de Laranjeiras.
À sombra, na esquina da Misericórdia, paro à conversa com amigos, e doce tenho as palavras, nesse gosto roubado à Tiborna que ainda há pouco não resisti a resgatar do colorido papel do seu disfarce.
Pela Cambaia, busco o Rossio que sei me reserva a Esperança, e mais além, passada a Mata, onde soam cucos, o Carrascal, por S. João, me fará chegar à Lapa.
E daqui aos Capuchos, será sempre uma festa…
Em cada rua, estreita ou larga, em cada praça ou travessa, nas três igrejas de cada largo.
Em cada alva casa debruada a sol ou céu em rodapés que lhe dão cor.
Em cada sorriso aberto e cada mão estendida, expressões da alma grande desta gente simples mas de nobre valor e nobre fé, povo herói, por quem sou e a que pertenço.

Um pedaço de paraíso no Pomar das Laranjeiras


Um dia, há já muitos anos, o meu pai foi arrumador e depois projeccionista no Cineteatro Florbela Espanca.
A máquina com que então trabalhava está agora, e muito bem, exposta como peça de museu num dos espaços nobres do edifício, e tudo o mais está diferente, daquele tempo em que uma das duas pequenas janelas que ladeavam uma abertura maior por onde saiam as imagens a projectar, me ofereceu a oportunidade e o privilégio de um pequeno Cinema Paraíso.
No entanto, nesses anos da infância e juventude, jamais conseguiria supor que um especialíssimo pedaço de paraíso me estaria reservado para esse mesmo Cineteatro, algures numa tarde fria de Outono.
Aconteceu ontem, dia 2 de Dezembro de 2012, na apresentação da versão livro do “Pomar das Laranjeiras”.
Veio a família, os meus pais, o meu irmão, a minha cunhada, os meus sobrinhos, os meus tios e os meus primos, os meus grandes cúmplices na vida e todos aqueles a quem devo a maior fatia do que sou.
Vieram os meus vizinhos de sempre, amigos tornados família nos anos bons em que cruzámos as nossas vidas na minha querida Rua de Três.
Não faltaram os colegas da Primária, do Ciclo Preparatório e da Escola Secundária. Vieram eles, e também alguns dos professores nossos cúmplices nesses anos bons em que vivemos o doce de ser Filhos da Madrugada.
Vieram muitos amigos. De longe ou de perto, de há muito ou poucos anos? Pouco importa, se os amigos quando o são de verdade, são intemporais e matam as distâncias físicas.
Senti um orgulho gigante pelo privilégio de me sentar ao lado do Padre António Simões e da Manuela Barreiros, amigos eternos e meus grandes cúmplices na fé e na vida.
A São Duarte Aires, o João Alves da Silva, a Zinha Duarte e o Manuel Almas, leram na perfeição os trechos do Pomar. Com alma, porque eles sabem do que falam. Sem eles não haveria Pomar.
Os pintores Ana Cravo e José Barreiros, e o estilista Paulo Runa, trouxeram a sua arte criando o cenário perfeito para a festa. Com muita arte e muita amizade.
Os Chefes de Cozinha Rui Pereira e Mário Seabra Henriques temperaram de afectos os acepipes de um lanche inolvidável. Rui, o Pomar na versão bolo foi um dos melhores presentes que alguma vez recebi na vida.
O meu querido amigo António Rosendo registou em fotos e filme, tudo aquilo que o meu coração jamais poderá esquecer.
O meu fantástico sobrinho João foi o maior cúmplice nas surpresas que reservei para o momento. E é um privilégio ver nele e no meu Luís, os herdeiros, mais do que da vida, da fé e da alma. 
Sem a ajuda da Câmara Municipal de Vila Viçosa, a quem agradeço na pessoa do Senhor Presidente, Eng. Caldeirinha Roma, que muito me honrou com a sua presença e com as suas palavras, jamais este momento poderia ter sido assim tão perfeito.
E muito grato estou também à Dra. Margarida Borrega, do Gabinete de Cultura da Câmara, assim como à operacional e minha querida amiga de há muitos anos, a Paula Paulino. Sr. Perdigão, também lhe agradeço muito, o som esteve perfeito.
E todos vieram para me encher a tarde de afectos, nesta terra que é o meu orgulho, e é a minha casa pela força destes mesmos afectos.
Abraço-vos a todos no maior obrigado que o meu coração consegue exprimir.
Até logo, sempre, e para sempre, sem data ou hora marcada, mas sempre aqui no Pomar das Laranjeiras.