terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Um dia raro

Amanhã será 29 de Fevereiro, o dia mais raro porque só de quatro em quatro anos marca presença no nosso calendário.
No meio deste ambiente acinzentado pela crise, o Pomar lança um repto, entendendo que deveremos utilizar este dia “extra”, super oferta dos anos bissextos, como tempo dedicado ao prazer, numa atitude positiva, profiláctica ou terapêutica no que às possíveis depressões diga respeito.
Saboreemos o gosto, por exemplo, da concretização do que andamos a adiar há algum tempo ou então da adrenalina de fazer algo “fora da caixa”.
Não resisto a dar algumas sugestões:
- Fazer uma declaração de amor;
- Dar o beijo mais romântico e picante do universo;
- Comer uma Bola de Berlim com creme sem pensar na dieta;
- Beber um copo de vinho ao pôr-do-sol;
- Usar aquela roupa ousada que tenho medo seja alvo de crítica;
- Ir ao cinema ver um dos filmes premiados dos Oscares;
- Publicar um post contra o Cavaco, o Passos Coelho ou a Troika;
- Ir a uma sex shop e comprar umas cuecas comestíveis;
- Fazer boicote (pelo menos de um dia) às lojas dos chineses;
- Comer ovos mexidos com farinheira;
- Ir a um SPA e beneficiar de uma massagem;
- Fazer boicote às notícias e aos programas de debates com figuras públicas;
- Usar uma T-Shirt com a estampagem “Tony Carreira vai cantar para a Tailândia e fica por lá”;
- Buzinar intensamente ao passar por debaixo da marquise da Maria Cavaco Silva;
- Fazer vudu com uma foto da D. Dolores Aveiro ou da Luciana Abreu;
- Comer uma caixa de chocolates ou de Marron Glacé;
- Fazer um corte de cabelo radical;
- Não pagar nem uma conta no multibanco;
- Beber um café acompanhado por dois pastéis de nata porque um sabe a pouco;
- Elogiar a quem nunca tivemos coragem de o fazer.
Adiram a esta campanha e partilhem por aqui as fotos, os vídeos ou as palavras que melhor exprimam a forma como concretizaram este desafio.
Como no tempo extra de um jogo de futebol, aceleremos a fundo para ganhar e sentir o prazer das goleadas e dos vencedores.

FESTIVAL RTP DA CANÇÃO / 3 de Março

Não importa COMO TUDO COMEÇOU, mas por certo FOI MAGIA, esta ideia de convocar poetas e CHAMAR A MÚSICA, para que no inicio de Março, quando ainda vem longe o VERÃO mas a primavera já espreita e por isso brilha o SOL DE INVERNO, ocorra a FESTA DA VIDA, o espaço de todos os SONHOS MÁGICOS que é o Festival da Canção, para muitos e para mim, UM GRANDE GRANDE AMOR.
Faz-se SILÊNCIO E TANTA GENTE espera pelo Eládio e pela Zanatti, para que ELE E ELA venham dar inicio à competição, sempre na certeza de que por aqui A LUTA É ALEGRIA e de que no final, ANTES DO ADEUS, SEMPRE HÁ SEMPRE ALGUÉM, que com mais ou menos PLAYBACK, consegue vencer e gritar BEM BOM.
A canção vencedora poderá ter um ritmo intenso como que a convidar-te:
- DANÇA COMIGO!
Ou então ser ESTA BALADA QUE TE DOU.
Esses pormenores são COISAS DE NADA porque o que importa é que ganhará sempre o canto da nossa LUSITANA PAIXÃO, o choro da SENHORA DO MAR, o folclore de DAI-LI-DOU e das danças de roda de TODAS AS RUAS DO AMOR, o canto das serras, do menino e da MENINA que de vento e verde compõem UMA FLOR DE VERDE PINHO, o aroma do milho na festa da DESFOLHADA, o fado triste e da saudade do marinheiro que d’ ESTE BARCO À VELA procura unir os mundos de BAUNILHA E CHOCOLATE, o canto romântico do correr dos rios e ribeiras que são hinos de AMOR DE ÁGUA FRESCA, o canto do campino e do forcado na TOURADA da nossa bravura…
E mesmo quando O VENTO MUDOU, E DEPOIS DO ADEUS a um velho tempo, A CIDADE ATÉ SER DIA se preparou para uma nova MADRUGADA, nunca esmoreceu o nosso canto festival porque a felicidade nasce do saber que HÁ DIAS ASSIM e no meu caso, confesso-vos, eu SÓ SEI SER FELIZ ASSIM.
E quando chega Maio, com PORTUGAL NO CORAÇÃO, partimos para a vitória na Europa com alma de CONQUISTADOR e com a esperança que grita:
- DEIXA-ME SONHAR, SÓ MAIS UMA VEZ.
Fazemos uma ORAÇÃO a pedir sorte, olhamos o júri como que pedindo:
- NÃO SEJAS MAU P’RA MIM!
E acreditamos sempre que será desta que os doze pontos nos levarão para lá do sonho do SOBE SOBE BALÃO SOBE.
O MEU CORAÇÃO NÃO TEM COR, tem fé, garra e música, tem a perseverança de que VOLTAREI sempre aqui para cantar Portugal.
E se um dia EU TE PUDESSE ABRAÇAR, vitória?
PENSO EU TI, EU SEI que é difícil, mas também sei que um dia chegaremos lá ao ponto foz e porto de abrigo ONDE VAIS RIO QUE EU CANTO, neste canto, verdadeiro rio de música chamado festival.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A Dama do Cinema ganhou o Oscar

Quando se apagam as luzes da sala e nos deixamos transportar para o mundo que as imagens na tela nos revelam, acontece a verdadeira magia do cinema: com os cinco sentidos despertos, entregando-nos todos, e sem um auto-bloqueio às emoções, conseguimos passar a porta que se nos abre aos sonhos.
E como é bom sonhar e entregarmo-nos aos sonhos. Quem não o souber fazer resigna-se à banalidade da vida.
Jamais saberemos onde começa e acaba a genialidade de um filme, se no realizador, nos actores, nos diálogos, no argumento, na banda sonora, no operador de câmara que captou um plano incrível…
Nesta onírica aventura todos são importantes e indispensáveis para o eficaz recrutamento dos sentidos.
Mas hoje, no rescaldo da entrega dos Oscares relativos a 2011, permitam-me que me centre na figura daquela que em minha opinião é a maior actriz de cinema do nosso tempo e de quem sou fã incondicional: Meryl Streep.
As suas invulgares capacidades miméticas permitem-lhe que seja fantástica na interpretação de personagens muito diversos, e as suas soberbas interpretações já catalisaram muitos filmes para os patamares da genialidade.
Agrada-me também a sua postura de anti-vedeta, e talvez seja dessa humildade e do seu empenho total, juntamente com a arte que carrega indiscutivelmente nos genes, que lhe nasça a excelência de ser a melhor de entre as melhores.
De 1978 (nomeação para melhor actriz secundária em O Caçador) até hoje, é a actriz com mais nomeações para os Oscares, precisamente 17 (14 para Melhor Actriz Principal e 3 para Melhor Actriz Secundária), tendo ganho um Oscar para Melhor Actriz Secundária em 1979 por Kramer contra Kramer, e dois Oscares para Melhor Actriz Principal, o primeiro em 1982 por A escolha de Sofia, e o segundo precisamente este ano pela sua interpretação em A Dama de Ferro.
Na madrugada de Lisboa, inicio da noite em Los Angeles, o Kodak Theatre levantou-se com ela na hora de receber o seu terceiro Oscar e dedicou-lhe um dos maiores aplausos da noite.
Eu também interrompi a madrugada de sono e vim aplaudir.
Que viva para sempre o cinema e que vivam para sempre os mestres, os artistas e os génios que nos fazem sonhar.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Adopções

A “Casa da Democracia” lusitana voltou hoje inexplicavelmente a dar um pontapé na Constituição da República, lei suprema pela qual se deveria nortear, no momento em que rejeitou a proposta de lei que permitiria a adopção por casais homossexuais. Afinal, e ao contrário do que afirma a Constituição, quando falamos de orientação sexual, os Portugueses não são todos iguais em direitos, e deveriam ser.
Culpa também da lei coxa que permite a união civil entre pessoas do mesmo sexo pois na altura da sua aprovação acabou por legitimar uma “união de segunda” e sem direitos equiparados à união de pessoas de sexos diferentes.
Mas nesta questão, permitam que me foque no essencial e que são obviamente as crianças e os jovens passíveis de adopção.
Pátria mãe da burocracia e último bastião da família tradicional, os processos de adopção em Portugal são vergonhosamente lentos e assentes em avaliações que se fixam nas capacidades económicas e nos modelos mais conservadores de família, não indo a fundo, e com rapidez, na avaliação do perfil dos potenciais pais e nas suas reais condições para receber uma criança.
E as crianças vão perpetuando a sua estada em instituições, muitas delas excelentes e de enormíssimo valor, impedidas de integrarem famílias que têm condições para as receber e facultar-lhes uma vida familiar em pleno.
Uma criança merece crescer num contexto de amor, e embora, reforço, as instituições se enquadrem neste perfil, uma família, quer seja monoparental, quer resulte de uma união homo ou heterossexual, será sempre o espaço ideal para que esse crescimento aconteça.
Voltando à polémica acerca da adopção por casais compostos por pessoas do mesmo sexo, confesso não entender o não, sobretudo neste contexto de orfanatos e instituições repletas de crianças.
Se nos fixarmos na forma de funcionar das nossas famílias e na estabilidade emocional das mesmas que permita a integração de uma criança, não será difícil de concluir que um casal composto por pessoas de sexos diferentes não garante absolutamente nada neste âmbito. Esqueçam as aparências e entrem na intimidade de múltiplas famílias que conhecem e por certo não terão dificuldade em apontar exemplos de “disfuncionalidades” que deveriam impedir que uma criança estivesse por perto, quanto mais viver na sua intimidade.
E a necessidade da criança ter por perto um pai e uma mãe para se equilibrar nos modelos masculinos e femininos? É um bom argumento. Mas os pais e as mães estão sempre presentes na vida dos filhos? E as crianças que cresceram só com a mãe ou só com o pai? Acaso estão diminuídas?
E se aprovarmos a lei da adopção por casais homossexuais não estaremos a legitimar “aviários de gays”? Pela mesma lógica não haveria homossexuais nascidos e criados no contexto de famílias de heterossexuais.
Continuo e continuarei sempre a achar que o mais importante é a criança e o contexto de amor em que ela deve crescer. E não há definitivamente estereótipos e modelos sociais rígidos que o garantam.
Continuo e continuarei sempre a achar que ao Estado compete assegurar a protecção das crianças, quer as que esperam por adopção, quer as que vivem em contextos familiares que não lhes proporcionem um crescimento equilibrado. Mas no país do trabalho infantil, dos maus tratos e dos escândalos como o da Casa Pia, está o Estado muito destreinado destas suas funções.
O resto é o de sempre por cá: comodamente e para evitar fracturas sociais, corremos a cortina pesada da tradição, da moral e dos bons costumes e ocultamos a casa desarrumada e suja onde vivemos, que assim se perpetuará no tempo.
Não houvesse crianças à espera de amor e a coisa até poderia não incomodar assim tanto.
Falta-nos garra, falta-nos verdade e lucidez, para além de que muito nos falta adoptar a coragem.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Um serão de Fevereiro

Da imprevisibilidade dos dias se faz a esperança que nos move e motiva:
- E se de repente ali, naquela curva do caminho se nos morrem os Mostrengos e Adamastores e se nos abre o Índico da pimenta…
É proibido hesitar porque somos heróis, somos Gamas no querer e na garra, mestres de sonhos, e só os sonhos, por mais ousados ou ridículos, são bússola, astrolábio e carta de marear.
No porto da chegada se faz a festa e de chegadas e festa se constroem os momentos maiores que nos marcam o tempo e nos fazem viver.
Sobre a mesa há uma jarra de rubras rosas que falam de amor, e a esperança hoje tem a cor dos nossos olhares, primeiro hesitantes e depois tranquilos, que se entrelaçam deixando que o relógio os transporte juntamente com a alma, para o tear dos mais doces e prolongados afectos.
Sinto que cheguei.
Não quero partir jamais.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O infinito valor do raro


Hoje, neste inverno que se faz de frio mas também de muito sol, resguardo-me à sombra de uma laranjeira deste Pomar, e partilho convosco aquela que é a foto da minha infância em que eu me apresento com o maior sorriso.
Eu sou o menino da camisola azul e ao meu lado tenho o tio João.
Não me recordo de ter tirado esta foto, algures entre os dois e os três anos, mas sempre que sobre ela falámos, nunca os meus pais deixaram de comentar a alegria e a minha excitação por este momento.
O tio João era um dos irmãos do meu avô materno e tinha a particularidade de uma altura rara, o que associado ao seu coração de Homem enorme me proporcionou dos momentos mais valiosos e marcantes da minha infância.
A foto faz prova.
O sorriso de uma criança nunca mente.
Recordo-me dos dias felizes e simples em casa do tio João e a tia Maria, os dois irmãos solteiros que tinham ficado assim para se cuidarem mutuamente, e recordo-me de caminhar de mão dada com o tio em pequenos passeios pelas redondezas da Rua de Santa Luzia, onde viviam.
Que segurança sentir o suporte das mãos de um adulto e poder usufruir desse privilégio único de ter o seu rosto tão próximo do nosso, para conversar, para trocar sorrisos e para me mimar enormemente.
E quem diz o rosto diz o coração…
E privilégio se sente esta presença de um adulto no universo físico à nossa escala de crianças.
Sapateiro de profissão, das suas mãos nasceram os únicos sapatos que até hoje calcei que foram propositadamente feitos para mim.
Por certo, o par de sapatos mais valioso que alguma vez tive, não só pelo conforto que proporcionavam e pela sua enorme beleza, mas sobretudo pelo afecto infinito que carregavam.
Recordei-me especialmente do tio João durante a recente apresentação de um livro sobre Doenças Raras, num dos auditórios da Fundação Calouste Gulbenkian.
Num mundo de seres e coisas rotuladas e padronizadas, esquecemo-nos muitas vezes de que os Homens se medem por algo muito maior do que aquilo que é físico, e de que a anormalidade e a deficiência só existem em quem recuse aceitar que da diferença se faz a riqueza do mundo, matando a felicidade de quem é diferente e desprezando todo o enorme, gigante, potencial de felicidade que os diferentes, os raros super valiosos de coração, carregam em si para nos tornarem muito mais felizes.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Os cabeçudos e os bombos no funeral do Entrudo

Era uma vez um país periférico do sul da Europa, Portugal, acabado de entrar na década de oitenta do século XX.
Não havia Euros nos nossos bolsos (não é que agora os tenhamos, mas isso é por outras razões), não havia centros comerciais e hipermercados, não havia televisão a cores e tínhamos apenas dois canais públicos de TV, não falávamos ao telemóvel e não enviávamos SMS’s, só víamos uma telenovela por dia, não havia “bolicaos” e levavam-se sandes para a escola, não havia cartões multibanco e caixas na parede para levantar dinheiro, usávamos mapas impressos e não havia GPS’s…
Mas imagine-se, tínhamos Carnaval.
E melhor do que isso, tínhamos vontade de brincar ao Carnaval.
E agora?
Agora, tudo a Troika levou. Até o Carnaval.
Por decreto ou por ausência dele, o país está a trabalhar por estes dias de Entrudo, tradicionalmente gordos, mas que por força da crise estão demasiado escanzelados.
Acabar com o Carnaval era mesmo necessário?
Não me parece que de todo o seja.
Não é por abolir este dia de descanso dedicado a uma festa que tem carácter nacional e que atravessa todo o espectro de gente na sociedade Portuguesa, que a situação económica do país vá melhorar.
Há quem diga que esta decisão tem um carácter simbólico em tempo de restrições.
De outros símbolos necessitamos e de outras provas mais consistentes estamos sequiosos para ganhar ânimo nesta travessia do deserto que estamos obrigados a fazer.
E não estou a ser piegas. Estou apenas a ser exigente para com os eleitos e os detentores do poder, da mesma forma como sou exigente para comigo e como cidadão.
Ontem o presidente do Governo Regional da Madeira, vestido a rigor com plumas e brilhantes, dançava e pulava no corso rico de cor que atravessava as ruas do Funchal.
Senti-me ultrajado.
Com as suas gargalhadas e o seu riso, reduziu-nos a todos, os contribuintes sérios e honestos, numa anedota.
Simbólico e higiénico, verdadeiramente, seria o seu eclipse total e definitivo.
O seu, e já agora o de toda uma geração de “homens de poder” que nos conduziu aqui a este corso em que somos cabeçudos e bombos em que ninguém hesita bater em ritmo frenético.
Mas como de optimismo se fazem os meus dias: há férias, há filhós, há Alentejo, há sol, há alegria, há amigos, há a cumplicidade perfeita e total numa vida feliz, e haverá sempre garra para os mandar todos “dar uma volta”, haverá forças para resistir a tudo e a todos, e até resistir à morte do Entrudo, por decreto.
Porque rir e sabe-lo fazer, ainda é a forma mais eficaz de irritar quem nos detesta e incomoda.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Paula

Foi ontem, domingo.
A missa de São Bartolomeu tinha terminado há pouco e à sombra da igreja que foi do Convento dos Jesuítas, o frio tinha a intensidade que faz doer, empurrando-nos para o conforto do Café Restauração para junto de uma bica quente.
Mas deixei-me ficar por ali mais um pouco. Estou entre a minha gente, os amigos, a família, muito do meu património afectivo que para sempre me fará dizer que Vila Viçosa é a minha casa.
Orgulhosamente, a melhor das casas.
Beijos, sorrisos, abraços, piadas, boletim clínico, novidades…
E o seu olhar triste.
A dor maior do universo, a morte da filha, matou-lhe definitivamente o sorriso.
Somos parentes e não apenas pelo facto de o sermos, eu gosto muito dela.
Durante anos vivemos próximos naquele espaço mágico e privilégio único dos Calipolenses, que é o Terreiro do Paço e a Ilha da Porta dos Nós, partilhando os trabalhos, as doenças, as alegrias, os carnavais e as demais festas, os estudos, os sucessos e os insucessos, no fundo, as vidas que sonhámos sempre transformar na mais pura felicidade.
Ela, da geração dos meus pais, e nós, eu e o meu irmão, e a filha dela, de uma geração mais nova e com mais asas para sonhar ainda mais alto.
O casamento, os estudos e os trabalhos, fizeram que um dia nos afastássemos todos em quilómetros, mas sem que nunca deixássemos de cuidar saber se tudo continuava a seguir o seu rumo normal.
Até que um dia chegou a notícia que contradiz a ordem natural que as coisas aparentam ter: a filha agonizava e preparava-se para partir.
Passei pelo hospital ali nas margens do Mondego e doeu-me saber que não havia esperança. E o desfecho inevitável cumpriu-se passadas horas.
Ontem, enquanto corria a brisa gelada do Alto da Praça, perante o seu olhar triste de luto e de vazio de mãe que a vida matou, falei-lhe de força e de quão importante é não desistir, sobretudo para nós, aqueles a quem foi dado o dom de carregarmos a fé.
Mas como soam sempre vãs as palavras, mesmo as mais oportunas, quando são ditas assim perante a dor imensa de alguém.
Porque neste Pomar as laranjas são feitas do sumo dos afectos, e sobretudo porque as palavras escritas têm o dom de se perpetuar, aqui fica uma mensagem definitiva de coragem e fé, inspirada na beleza do sorriso de um anjo que passou breve pelas nossas vidas, mas que jamais se apagará das nossas memórias: Paula.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Viver

Partir ou ficar?
Sim ou Não?
Rir ou Chorar?
Querer ou não querer?
Persistir ou desistir?
Continuar ou parar?
Falar ou calar?
Dar ou reter?
Do entrançado das decisões e das escolhas, se tecem os dias e acontece viver, nesse tear em que se processa o confronto perpétuo entre a chama da emoção e o rigor frio da razão.
Sem normas ou procedimentos, da indecisão, da dúvida, da incerteza, se alimentam os sonhos e se nos nascem as asas de acreditar que o futuro sim, será tudo aquilo que quisermos ser.
Mais longe ou mais perto?
O paraíso é sempre o lugar onde queremos estar.
Pela verdade de nós mesmos devemos ir sempre, matando pela coerência para connosco, os certos ou os errados que se nos apontem.
E a verdade é a alma.
E a inspiração será sempre o amor.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Contrastes

O frio corta de tão intenso quando saio à rua pela manhã, mas mirando muito para lá no horizonte como quem procura a Ponte e o Cristo Rei, não paro de me surpreender com a intensidade de um sol resplandecente de um tom forte de amarelos e vermelhos.
O carro está gelado, o volante intocável de frio, mas lá está ele redondo e em todo o seu esplendor. Daqui a algumas horas, aliviará o frio.
O frio e o sol.
O telefone tocou pela hora de almoço e anunciou que o momento do adeus que há dois meses andamos a tentar em vão adiar, está inevitavelmente perto. Não sei se chore, se deva rezar… Mas esta anunciada partida dos que amamos é uma amputação programada de uma parte de nós mesmos.
Conscientes, estamos à espera do momento em que morreremos também um pouco.
O telefone tocou e num turbilhão de palavras empenhadas em entender a festa do coração, falou incessantemente de amor. E amor afinal nada mais é do que vida. A minha vida.
Chego a casa cortando com o rosto o frio da tarde e recordo este momento há quarenta e um anos atrás. Nascia-me o meu único irmão e apesar dos meus cinco anos de então, eu sempre soube, acabara de nascer uma das partes mais belas e fantásticas de mim.
A morte e a vida.
De contrastes se fazem os dias.
Mas que nunca o amor se nos vá…