segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Os cabeçudos e os bombos no funeral do Entrudo

Era uma vez um país periférico do sul da Europa, Portugal, acabado de entrar na década de oitenta do século XX.
Não havia Euros nos nossos bolsos (não é que agora os tenhamos, mas isso é por outras razões), não havia centros comerciais e hipermercados, não havia televisão a cores e tínhamos apenas dois canais públicos de TV, não falávamos ao telemóvel e não enviávamos SMS’s, só víamos uma telenovela por dia, não havia “bolicaos” e levavam-se sandes para a escola, não havia cartões multibanco e caixas na parede para levantar dinheiro, usávamos mapas impressos e não havia GPS’s…
Mas imagine-se, tínhamos Carnaval.
E melhor do que isso, tínhamos vontade de brincar ao Carnaval.
E agora?
Agora, tudo a Troika levou. Até o Carnaval.
Por decreto ou por ausência dele, o país está a trabalhar por estes dias de Entrudo, tradicionalmente gordos, mas que por força da crise estão demasiado escanzelados.
Acabar com o Carnaval era mesmo necessário?
Não me parece que de todo o seja.
Não é por abolir este dia de descanso dedicado a uma festa que tem carácter nacional e que atravessa todo o espectro de gente na sociedade Portuguesa, que a situação económica do país vá melhorar.
Há quem diga que esta decisão tem um carácter simbólico em tempo de restrições.
De outros símbolos necessitamos e de outras provas mais consistentes estamos sequiosos para ganhar ânimo nesta travessia do deserto que estamos obrigados a fazer.
E não estou a ser piegas. Estou apenas a ser exigente para com os eleitos e os detentores do poder, da mesma forma como sou exigente para comigo e como cidadão.
Ontem o presidente do Governo Regional da Madeira, vestido a rigor com plumas e brilhantes, dançava e pulava no corso rico de cor que atravessava as ruas do Funchal.
Senti-me ultrajado.
Com as suas gargalhadas e o seu riso, reduziu-nos a todos, os contribuintes sérios e honestos, numa anedota.
Simbólico e higiénico, verdadeiramente, seria o seu eclipse total e definitivo.
O seu, e já agora o de toda uma geração de “homens de poder” que nos conduziu aqui a este corso em que somos cabeçudos e bombos em que ninguém hesita bater em ritmo frenético.
Mas como de optimismo se fazem os meus dias: há férias, há filhós, há Alentejo, há sol, há alegria, há amigos, há a cumplicidade perfeita e total numa vida feliz, e haverá sempre garra para os mandar todos “dar uma volta”, haverá forças para resistir a tudo e a todos, e até resistir à morte do Entrudo, por decreto.
Porque rir e sabe-lo fazer, ainda é a forma mais eficaz de irritar quem nos detesta e incomoda.

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