segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A manhã cinzenta de um certo sebastianismo

O dia amanheceu cinzento, cor de chuva, e com um nevoeiro que deixa feliz a quem consiga ver para lá de cem metros à frente do nariz. Sentem-se no rosto, as gotículas que constituem estas nuvens descidas à terra para nos envolver e nos predispor para a cama ou para a depressão.
Como a primeira opção não é hoje possível…
A televisão da pastelaria reproduz a noite de contagem de votos das eleições de ontem.
O rádio do carro continua a dissertar sobre o mesmo tema:
ü  A lista patrocinada por Isaltino Morais ganhou as eleições para a Câmara de Oeiras. O presidente eleito, Paulo Vistas, afirma que esta é a vitória da saudade e os apoiantes vão festejar a Câmara Municipal para a porta da prisão da Carregueira onde o ex-autarca e inspirador da lista está preso por corrupção.
ü  José Sócrates comenta os resultados em directo na RTP e aponta os caminhos para o país não só ao nível local mas também à escala nacional. Um pouco de memória e talvez se lhe aclarasse a noção do ridículo.
ü  Alberto João Jardim vê o PSD perder a maioria das câmaras municipais da ilha da Madeira e afirma que tal só se deve à política de austeridade que vem sendo implementada pelo governo da república. Ele continua a ser o que sempre foi: um modelo de virtudes.
ü  Luís Filipe Meneses, o homem que há alguns dissertou no Coliseu de Lisboa sobre os sulistas, elitistas e liberais, e que fez uma gestão ruinosa da Câmara de Gaia, reconhece que o seu resultado nas eleições para a Câmara Municipal do Porto foi uma “não vitória” que o incomoda pelo facto de não estar habituado a perder. E que tal começar por se habituar a dizer derrota?
ü  João Semedo, com uma camisa alinhada em cor azul com a outra metade da liderança do Bloco, a estridente Catarina Martins, acusa a comunicação social de ser a causa do resultado do seu partido que apesar de não ter conseguido ganhar qualquer câmara e de ter apenas 2,5% dos votos, venceu. Uau! E os jornalistas lá regressam ao seu estatuto que os aproxima dos árbitros no contexto das derrotas no futebol. Luis Filipe Vieira e Jorge Jesus não fariam melhor.
ü  Depois da vitória da CDU, Jerónimo de Sousa sugere ao país um caminho… convidando-nos a participar numa marcha que a CGTP está a agendar para breve.
ü  Passos Coelho reconhece a derrota, considera-a normal e promete não tirar de aqui quaisquer conclusões para o governo à escala nacional. Deixa-te ir que vais bem!
ü  O ubíquo Paulo Portas em pose irrevogável de oposição reconhece o grande resultado para o seu partido e cola-se à vitória no Porto do independente Rui Moreira, o pior resultado para o seu parceiro de coligação, lançando farpas indirectas para Meneses. Ele há casamentos…
ü  Seguro obteve uma vitória nacional não tão contundente como a de Costa em Lisboa e a distância entre o Largo do Rato e o Hotel Altis pareceu insuperável e de infinitos quilómetros.
A manhã segue de nevoeiro a exigir prudência e as luzes de médios devidamente acesas pois a estrada, escorregadia como manteiga, está completamente tapada.
Parece que o céu descarregou esta humidade para descolar os cartazes ainda espalhados pelo meu caminho, que nesta manhã e à luz dos resultados, carregam sorrisos e frases completamente patéticas.
Tudo parece assim confluir para a depressão e como é fácil entender o Bandarra, o sapateiro de Trancoso, na profecia do regresso de um desejado D. Sebastião algures numa manhã como esta.
Pobre terra esta que parece condenada a ser a caricatura sempre falida de uma espécie de país.
Acelero.
Vamos lá trabalhar que desistir não é de bravos e o trabalho ainda é a única forma de vencer.
O sebastianismo só conduz à inacção e essa é a melhor aliada destes tontos que desde ontem me poluem a televisão e o rádio.
Por mim… a luta continua.

sábado, 28 de setembro de 2013

Votar ou não votar… eis o negócio!

Tenho uns amigos que uma vez foram assistir à representação do Hamlet, de William Shakespeare, por uma companhia de teatro originária do Brasil que interpretou a frase mais famosa da peça com a brilhante tradução:
- Ser ou não ser… eis o negócio.
E o que era sério na tragédia que conta a história do príncipe da Dinamarca passou num instante a ser cómico.
Mas a peça continua e continuará sempre a ser uma referência universal.
Recordei-me deste episódio a propósito das eleições autárquicas de amanhã e da penalização que muitos de nós achamos dever aos políticos por tudo, e sobretudo pelo estado miserável a que a sua incompetência condenou o Estado em sucessivos governos envolvendo diferentes forças políticas.
E digo políticos e não o regime porque como na peça de Shakespeare, o problema reside nos intérpretes e não no sistema em si, no regime democrático em que afortunadamente vivemos depois da revolução dos cravos.
A não ida à cabine de voto penaliza pois injustamente o regime quando o "castigo" deve incidir sobre os intérpretes, os políticos, e esses castigam-se pela natureza do voto seja na opção por um outro qualquer partido, pelo voto em grupos de cidadãos independentes, pelo voto em branco ou até pelo voto nulo.
Recordo-me sempre do dia 25 de Abril de 1975, das longas filas à porta das assembleias de voto e, muito particularmente, da alegria dos meus avós pelo facto de pela primeira vez na vida puderem votar.
Cumpre-me honrar esse privilégio e por isso e desde as legislativas de 1985 em que votei pela primeira vez, apenas numa ocasião e por um motivo de força maior, fui obrigado a abster-me.
O nosso voto é um “sim” à democracia com a força de uma arma ao serviço das nossas convicções.
E por isso amanhã irei votar.
Faço-o porém, na tristeza de pela primeira vez não cumprir esse dever de cidadania na freguesia onde nasci, São Bartolomeu, em Vila Viçosa, pois o Cartão de Cidadão "puxou-me" para a minha área de residência e colocou-me como eleitor do Concelho de Sintra.
Mas como a minha freguesia de Vila Viçosa também passou por um processo de fusão, sempre tenho este pequeno consolo de a ter acompanhado até ao túmulo neste funeral patrocinado pelo memoradum de ajustamento negociado com a Troika.
Mas é estranho ficar em São Marcos num fimdesemana eleitoral e sinto falta do meu cafezinho de sábado à tarde para "reflexão" conjunta e alinhamento de posições com o Manuel, a Ana Cristina, a Manuela e o Zé Maria.
E como é que eu vou votar sem ser na companhia deles todos, e da São, das candidatas Zinha e Madalena, da Lurdes, do João Paulo... depois da nossa missa das 11.30 e do café no Restauração?
E que estranho vai ser não ter alguém na mesa de voto a conhecer-me desde sempre e a tratar-me por Quim…
Que estranho não conhecer as pessoas todas que estão nas listas dos diferentes partidos…
Maldito Cartão de Cidadão que me arrancou do Pomar das Laranjeiras.
Mas votar, sim, não deixarei de o fazer.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O Dia Internacional de Qualquer Coisa

Ainda não perdi a esperança de um dia acordar e ouvir nas notícias de que esse despertar me tinha transportado para comemorações tão estranhas como o Dia Internacional das Mulheres Operadas à Vesícula, o Dia Internacional das Mulheres que usam Unhas de Gel, o Dia Internacional dos Homens Circuncidados, o Dia Internacional dos Homens que Conduzem Carros a Diesel, o Dia Internacional dos Amigos das Pastilhas Elásticas, o Dia Internacional da Mousse de Chocolate, o Dia Internacional das Pessoas que gostam da Cristina Ferreira ou o Dia Internacional dos Comedores Compulsivos de Pastéis de Bacalhau.
É que há dias para tudo, para todo o tipo de causas e circunstâncias, e hoje, de uma assentada, é Dia Internacional dos Ex-Fumadores, Dia Internacional do Coração e Dia Internacional do Farmacêutico.
Como nunca fumei e porque sou um romântico por convicção e um boticário por profissão, estou então abrangido pelas duas últimas comemorações.
Do coração confesso que trato todos os dias. De uma forma metafísica pela paixão e pela poesia, e de uma forma puramente física, pelas idas ao ginásio e pela toma do comprimido matinal da substância Inibidora do Enzima de Conversão da Angiotensina, que me ajuda a controlar a Pressão Arterial.
O Dia do Farmacêutico é comemorado hoje por ser o dia em que no calendário religioso se comemoram São Cosme e São Damião, dois irmãos gémeos que viveram no Século III da nossa era.
Damião estudou medicina e Cosme, farmácia, complementando-se assim no exercício da profissão e no tratamento dos seus semelhantes que eram atacados pelas patologias da época, a quem, por impulso da fé, não cobravam dinheiro, afirmando que curavam pelo poder de Nosso Senhor Jesus Cristo, afirmação que acabou por lhes valer o martírio por decapitação com base numa acusação de bruxaria.
Pela fama e pelas virtudes que lhes eram reconhecidas, muito rapidamente foram elevados à categoria de Santos, e São Cosme é com todo o mérito, o padroeiro de todos nós farmacêuticos.
E quis hoje o destino que à mesa do meu almoço estivessem dois médicos e dois farmacêuticos numa complementaridade extraordinária que se expressa no facto de só uns conseguirem ler algo naquilo que os outros rabiscam, e no nosso caso reforçada ainda por uma forte e convicta amizade.
A comemoração feita com um Cozido à Portuguesa num claro e assumido ataque ao coração pela via do Colesterol, não permitiu que desviássemos a atenção das notícias sobre as guerras que envolvem as nossas respectivas ordens profissionais, que devendo ser supostamente gémeas e complementares como os irmãos Cosme e Damião, lutam na imprensa e nos tribunais por questões de honra e claro, de dinheiro.
É que o tempo da “santidade” e do tratamento em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo já passou há muito, e hoje a cabeça não se perde por não cobrar nada, perde-se por querer cobrar mais e cobrar tudo.
Sinais dos tempos.
E bem podem vir Dias Internacionais de Qualquer Coisa…

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

As histórias contadas por um velho tecto

Na casa da tia Maria e do tio João à Rua de Santa Luzia, aquela que tinha no quintal um limoeiro que dava frutos todo o ano e cujo tronco saía de um canteiro que cheirava sempre a salsa, hortelã ou coentros, temperos e cheiros dispensados do frigorífico pois estavam ali sempre à mão para serem colhidos, existia um quarto que à minha escala de então era gigante, comportando três camas de ferro forjado dispostas de forma paralela.
O quarto tinha vista para o limoeiro e para toda a Vila para além dele e até à muralha do Castelo e às Portas de Évora.
Eu dormia na cama mais pequena que era simultaneamente a mais baixa, e visto desde ali, o tecto que era inclinado e que estava pintado em tons de amarelo num contraste assumido com as paredes brancas, ainda parecia mais alto do que efectivamente era.
No Alentejo chamamos tectos de madres, a estes que têm os rectângulos de laje seguros por traves de madeiras devidamente e estrategicamente colocadas.
Os anos e as camadas sucessivas de cal tornaram diferentes, cada uma das lajes, “desenhando” em relevo uma série de figuras a que eu desde a minha cama e quando a luz já entrava pelas frestas das velhas portadas de madeira da janela, me entretinha a dar identidade, na construção de uma grandiosa banda desenhada que era só minha.
Juro-vos que numa destas lajes existia a cara de um menino que sorria.
Hoje, a primeira manhã de Outono em que uns borrifos de uma breve e ténue chuva se juntaram às folhas castanhas dos plátanos caindo sobre o relvado em frente ao prédio, recordei-me destas minhas histórias quando sentando numa mesa da pastelaria enquanto a sua mãe tomava um café, uma criança apontou para um relógio grande pendurado na parede, um relógio original pois os ponteiros e as horas são diferentes peças de um faqueiro, e nos disse a todos:
- Esta é a cara do monstro que já espreita para fora da parede e vem aí para nos atacar.
A imaginação cruza gerações e a infância é definitivamente o momento top no privilégio de saber sonhar.
Pisquei-lhe o olho num estender de cumplicidades e já preparado para sair da pastelaria respondi-lhe na linguagem louca e perfeita dos sonhos:
- É mesmo. Eu vou já fugir.
E senti saudades do tempo em que o menino me sorria desde a sua laje porque no final da minha banda desenhada, a ovelha mágica tinha voltado ao rebanho para ajudar a cumprir todas as vontades do avô Joaquim.
Que vivam os sonhos e que a vida e as suas racionais exigências, jamais nos imponha que eles se apaguem.
Afinal, até um tecto velho ou um simples relógio de parede podem ser o mote para momentos únicos.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

As cambalhotas acrobáticas

Ontem depois do almoço assisti à conversa entre duas colegas em que uma convidava a outra para um passeio digestivo nas redondezas do edifício, tendo então recebido como resposta:
- Hoje não posso. Com estes sapatos não consigo andar na rua.
Olhando atentamente para os quinze centímetros devidamente compensados, reparo que os sapatos, na versão escadote e um verdadeiro doping da altura, não permitem andar sobre qualquer outro piso que não soalho ou alcatifa, sendo para além disso um exercício pouco recomendável para quem sofra de vertigens.
Os sapatos, que deixaram de ser um adereço para facilitar o acto de caminhar e passaram a ser um acessório de moda e uma forma de “esticar” as ladies, são afinal e tão-só um pequeníssimo exemplo das alterações verificadas nos últimos tempos na lusa terra em que nada parece igual ao de antes.
Mesmo sabendo que desde o século doze, quando o D. Afonso Henriques “bateu” na mãe, há na zona de Guimarães uma propensão para sovas inéditas, não deixa de ser interessante ver o Jorge Jesus a bater em polícias para defender os adeptos quando há quatro meses os andava a matar de enfarte do miocárdio com os golos sofridos nos últimos minutos.
É uma viragem ao estilo Sócrates, que tendo governado até ao lixo e à chegada da Troika, fala agora de cátedra e conhece e trata por tu aquela mágica forma para tirar o país da miséria.
Igual que Sócrates só Paulo Portas que depois de ter apresentado uma demissão irrevogável por discordar da nomeação da Ministra das Finanças, não só se manteve no cargo como anda agora de braço dado com ela a solicitar mais “folga” nos prazos estipulados pelos credores.
A credibilidade que é reconhecida a ambos pelas instituições deve ser tão volátil…
E tudo ao contrário também nos cartazes das Autárquicas.
Hoje, parado num semáforo em plena Praça de Espanha, tenho o António Costa a olhar para mim e a dizer que necessita do meu voto.
Pois…
Mas nós não votamos para ajudar os políticos, era suposto votarmos para que eles nos ajudassem a nós.
Ou fugiu-lhe a boca para a verdade e necessita mesmo do voto para apanhar o eléctrico desde a Praça do Município até Belém?
Num exemplo de pura demagogia, Seara promete manuais escolares gratuitos para todos, no que também é uma viragem pois não consta que o tenha feito em Sintra.
E até a CDU apresenta o candidato mais bem-parecido de todos, com um ar que até parece ter regressado de Hollywood de uma entrevista com a Oprah e de ter comido com ela um cachorro quente acompanhado de Coca-cola.
Enfim, parece que nada se parece mesmo com nada do que nos habituámos a ver.
A partir de ontem a Manuela Moura Guedes apresenta o concurso “Quem quer ser milionário” depois de já ter sido Miss Vindimas Torres Vedras, apresentadora do Festival RTP da Canção em 1979 e 1984, jornalista, apresentadora do Telejornal e de programas de grande informação, protagonista do anúncio a um detergente para máquinas de lavar roupa e deputada à Assembleia da República pelo CDS.
“Está na cara” de que nada é hoje igual ao de ontem. Culpa dos cardos ou das prosas?
Talvez apenas mais uma ilustração para esta costumeira vertigem da mudança com a qual já convivemos demasiado bem, o que por vezes é mau e demasiado perverso.
Em relação aos sapatos e afins, a gente ainda se ri, mas quanto ao resto…
É demasiado desconfortável ser a cama elástica para tanta acrobacia.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O tempo oferecido pela generosidade do Outono

Não fosse a denúncia feita pela ausência de sol à hora do jantar e julgaríamos continuar no Verão a viver os dias quentes que pedem praia.
Mas chegou o Outono e agora, praia só ao fim-de-semana e na melhor das hipóteses. O regresso ao trabalho já ocorreu para a maioria das pessoas afortunadas que o mantêm, e os estudantes já estão “empenhados” nas actividades lectivas.
As férias, continuando a ser grandes, são agora muito mais pequenas do que antes, e nós, os que não sabíamos o que era ter na escola computadores com acesso à internet, uma mediateca, microondas para aquecer os folhados de salsicha, campos relvados para a prática do futebol ou água quente nos balneários do ginásio, beneficiávamos de um período de mais ou menos um mês que nos permitia fazer tranquilamente a transição entre a azáfama do descanso e das festas, e a emoção do regresso à escola.
Em Vila Viçosa, no jardim junto ao lago, à sombra dos plátanos de onde caiam infinitas folhas com matizes de amarelo e castanho, beneficiávamos então de tempo para longas conversas em que partilhávamos com os amigos as incidências do verão e íamos digerindo as turmas e os novos colegas que o novo ano lectivo nos reservava. Era o momento para narrar as emoções dos namoros de Verão e opinar sobre alguma peça de roupa mais extravagante ou o novo corte de cabelo que algum colega tinha trazido das férias e do seu contacto com barbeiros mais ousados do que os da nossa terra.
Sentíamo-nos todos muito importantes por irmos frequentar um ano mais à frente e porque nos aproximávamos do topo na hierarquia do liceu, tendo essa perspectiva do engrossar da multidão dos que eram mais novos e mais inexperientes do que nós. Existia tempo de sobra para preparar o assumir deste novo estatuto de mais seniores.
Também tínhamos tempo para preparar os dossiers e os cadernos com folhas novas e separadores coloridos com os nomes das disciplinas, recolhíamos nas papelarias umas folhas impressas com os dias da semana e as horas das aulas, os horários, que em geral faziam publicidade às marcas de material didáctico e que nos permitiam copiar facilmente o horário da nossa turma quando ele fosse afixado nos placards da escola, preparávamos a roupa para a ginástica, alinhávamos a pasta ou a mochila, e até tínhamos tempo, imagine-se, para decorar o dossier ou as pastas com as figuras dos nossos ídolos musicais que recortávamos da revista do Circulo de Leitores ou da Tele Semana.
Boney M, Village People, Abba, Dire Straits, Pink Floyd, Duran Duran ou os eternos Rolling Stones, tinham muito sucesso e frequentemente nos acompanhavam até às aulas numa afirmação da nossa modernidade e bom gosto musical.
À medida que as camisolas de lã iam emergindo nas gavetas das cómodas, sobrava-nos tempo para em casa ajudar em tarefas mais típicas do Outono como as vindimas, o pendurar dos melões na esperança de que chegassem ao Natal ou a logística da marmelada que acabava sempre exposta ao sol dentro de umas tigelas de louça ou vidro e com cobertura recortada de uma folha de papel vegetal.
E assim, de uma forma perfeitamente pacífica mas com energia a transbordar, “mergulhávamos” no primeiro período e quase sem nos darmos conta já estávamos a estudar no quente da braseira de picão posta por debaixo da nossa camilha ou a interromper o estudo à tardinha para ir até ao mercado comprar meia dúzia de castanhas assadas ao “Sr. Musgado” que juntamente com a mulher as preparava no seu carro de madeira onde assentavam os assadores de barro que agitavam violentamente para misturar o fruto com sal grosso.
Castanhas, São Martinho, Água-pé… desde aí e até ao Natal seria um salto muito pequeno...
Mas o Outono nunca será apenas e só um corredor de acesso ao Natal para quem vem do Verão e da praia.
Com menos horas de sol para olharmos para a rua, não deixa de ser interessante a perspectiva de mais tempo para abrirmos a janela com vista para… nós.
E ter aquele tempo que há muito achamos merecer.
Gosto do Outono e não só pelas memórias, o Outono é uma inspiradora estação que apetece viver.
E já agora, intensamente, que assim devem ser vividas todas as estações. 

domingo, 22 de setembro de 2013

Bater à porta da guerra

Ao estilo do Raul Solnado, eu um dia também bati à porta da guerra.
Não o fiz por vontade própria pois sou e sempre fui um pacifista sem jeito sequer para matar formigas, fi-lo porque em cumprimento de um dever (então, obrigatório) de cidadão do sexo masculino, vi um dia afixado um edital na Câmara Municipal de Vila Viçosa com a seguinte informação: "Marcha para o Regimento de Infantaria de Faro, Destacamento de Tavira, o Soldado Cadete..."
E eu marchei (e não vale rir porque foi no verdadeiro sentido do termo) com mais 119 militares que por motivos de estudo fomos adiando a nossa incorporação. Faz amanhã precisamente 22 anos e também era uma segunda-feira.
Já com 25 anos de vida cumpridos e uma proeminente barriga, lá fui eu então correr para as salinas de Tavira, um sucesso pela manhã quando saiamos do quartel de calção curto e camisola de alças, e púnhamos as turistas a tirar-nos fotos.
Acho que foi a única vez na vida que literalmente fiz parar o trânsito.
Tínhamos aulas, testes e um Sargento tão letrado que uma vez, e quando nos explicava os diferentes tipos de granadas, nos disse haver uma que era Anti-Túmulos. Quando alguém tentou esclarecer se não seriam Anti-Tumultos, não perdeu tempo e respondeu:
- Anti-Túmulos ou Anti-Tumultos, pá... Pensam que sou o vosso professor de Português?
De tarde íamos para o campo simular ataques do e ao inimigo que surgia sempre detrás de umas alfarrobeiras e figueiras que estavam misturadas com as obras de construção da Via do Infante. Íamos devidamente camuflados e com a cara mascarrada com os químicos que sacávamos dos boletins do Totoloto e do Totobola que então existiam.
O regresso do pelotão ao quartel depois de termos sacado muitas romãs no percurso pelas quintas das redondezas e ao jeito de “Rambo ataca as esplanadas à beira do Rio Gilão” chegava até a merecer aplausos dos turistas lusos e estrangeiros.
Vinha todos os fins-de-semana a Lisboa com um grupo de mais três camaradas que então conhecera e com quem aprendi a saborear o Cozido à Portuguesa em Canal Caveira nas noites de domingo aquando do regresso ao quartel, e o meu abastecimento para a semana feito no Pão de Açúcar das Amoreiras consistia basicamente em Bolachas, Chocolates, Leite com Chocolate, Graxa para os sapatos, Meias de Senhora e Pensos Higiénicos.
Perguntarão agora:
- Mas a recruta era no quartel de Tavira ou no Trumps?
Era mesmo em Tavira e as meias serviam para dar brilho às botas e os pensos higiénicos para proteger as pernas do atrito causado pelo roçar do cano das ditas que os superiores nos exigiam que brilhassem como espelhos de Versailles se tratassem.
De cabelo rapado, o que me fez reencontrar as cicatrizes das quedas e pedradas da infância no campo, relembro ainda do quartel a Tortilha de Cebola, os pratos de alumínio que já estavam gordurosos quando vinham para a mesa, as sanitas só com um buraco que nos obrigavam a defecar de cócoras e de perna aberta, e ainda a meia hora para mudarmos de roupa e tomarmos banho em que pelo menos vinte minutos eram para descalçar e voltar a calçar as botas.
Tudo isto nos empurrava para fora do quartel e devidamente fardados lá íamos petiscar para o Clube Náutico.
Mas passei na recruta com boa nota, até no tiro em que na prova com a G3 ainda hoje estou convencido que alguém atirou para o meu alvo, e na prova de pistola em que literalmente arrasei os malmequeres que enfeitavam a pista e estavam por debaixo do alvo.
Em seis semanas fizeram de mim um Aspirante Oficial Miliciano Farmacêutico com poiso no Hospital Militar Principal, em Lisboa, integrado num grupo de simpáticos camaradas e onde, com bicas a quinze escudos e pasteis de nata a vinte, isso mesmo, sete cêntimos e meio, e dez cêntimos, respectivamente, acabei por engordar oito quilos ficando com um balanço positivo de dois dado que tinha perdido seis nos tempos de Tavira.
No final e após oito meses ao Serviço da Pátria ganhei um louvor escrito composto por treze linhas que ainda hoje guardo como recurso para ler se for atacado por um surto de baixa auto-estima, e como sou dos que olha sempre para o copo na perspectiva positiva de meio cheio, guardo da experiência uma memória positiva pelos amigos que então fiz e manterei na vida, entre os quais o meu querido Dr. Patrício Freitas, ilustre clínico no Funchal e que tantas vezes me dá a honra de vir até aqui ao Pomar.
Tiraram-me uma fotografia com uma farda de gala que servia para todos, que só vestíamos da cintura para cima e tinha um boné que assentava na cabeça de toda a gente mas na minha não e teve ficar de lado ao jeito dos bêbedos; e voltei à vida civil.
E sempre pacifista.

sábado, 21 de setembro de 2013

Um beijo e finalmente… Lisboa

O avião rompe as nuvens que vistas do alto se assemelham a um soalho de algodão, e por entre o verde que o lusco-fusco ainda permite vislumbrar mas que por esta hora já está salpicado com milhões de luzes.
Há um contorno desenhado pela água, pelo Tejo no seu beijo enamorado à lezíria que por ele se faz o mais fértil dos campos.
E do céu, seguindo o Tejo, em breve o meu olhar beijará Lisboa e o coração me dirá que cheguei a casa.
Não há distância que imponha impossíveis a um Português, mas nunca haverá para nós maior alegria do que esta de voltar, de matar a lusitana saudade ao ritmo dos passos por sobre a calçada que é cúmplice dos nossos dias.
E será então Lisboa a beijar-me, a mim, com a brisa fresca que vem do rio e rima com o mouro fado, tendo o luar como testemunha de um eterno e profundo amor.
Os beijos de Lisboa ao jeito dos teus beijos…

O outro lado do glamour

Em Milão, a semana da moda feminina tornou intransitáveis as ruas do centro e é difícil fotografar um monumento ou um edifício sem captar os monitores gigantes que de forma ininterrupta passam os infinitos desfiles.
As pessoas, como que inebriadas pelo luxo e pela cor, param e caminham ao estilo de zombies vagueando por entre uma multidão de iguais criaturas e tornam quase missão impossível a passagem de alguém que não esteja ali para ver as montras. Há focos de luz e música em cada esquina.
A coincidência desta semana com o congresso em que participo “patrocinou-me” em cada manhã, o pequeno-almoço com um grande grupo de manequins alojadas no mesmo hotel que eu.
Manequins a quem tenho dificuldade em chamar mulher ao conjunto constituído por um rosto de menina e uma estrutura óssea despojada de carne esticada até aos arredores dos dois metros, sem mamas, sem rabo e numa claríssima aproximação a um cabide onde alguém pendurará as criações dos grandes costureiros.
Caminhando lentamente por entre o buffet parecem querer guardar as poucas energias de que dispõem para a passarelle onde mais tarde irão desfilar. Não bebem leite ou café, apenas copos de água quente retirada do recipiente que guarda a dita para o chá, e a cada ingestão de uma colher de iogurte natural magro estão permanentemente sujeitas ao olhar reprovador de umas mestras, essas sim gordas pelo alimento que sacam do trabalho destas suas “agenciadas”, que estão nos antípodas dos criadores de frangos na sua urgência de uma engorda rápida.
Não há escravatura na Europa? É só em África e na Ásia que a excisão “tira a vida” às mulheres e lhes nega uma existência normal e digna?
A noite está quente e pede um passeio pela avenida que nos leva até ao esplendor da Estação Central na Praça Duque de Aosta que com o seu quê de Reichstag denuncia as semelhanças entre o Fascismo de Mussolini e o Nacional Socialismo de Hitler.
Caminhamos pelas arcadas onde nas montras brilham as criações italianas com fatos de bom corte e muito bons tecidos. De repente temos de nos afastar das montras, há dezenas de colchões alinhados por debaixo delas e a gente começa a deitar-se por ali no único abrigo que a vida lhes deixou.
O design da pobreza numa Europa que já foi terra de liberdade e sucesso, sonho fugaz destruído pelas mãos incompetentes dos políticos medíocres entretidos a jogar Monopólio e a brincar com Swaps, PPP’s e coisas que tal, enquanto a “Mãe Ângela” preparava o lanche da miséria que nos é servido agora em bandejas com o patrocínio do FMI.
Na viagem de táxi de outro dia, o Elias, jovem libanês de 34 anos contou-me a sua história com a chegada a Itália para estudar ficando alojado na casa de uns tios e como pagava o mestrado com a ajuda do dinheiro ganho a conduzir à noite durante algumas horas, o táxi que o tio conduzia durante o dia.
Quis saber como ia Portugal e foi franco quando assumiu que não o fazia apenas por preocupação pela nossa situação mas porque estava curioso sobre o que a vida lhes reservaria nos próximos tempos por aqui numa espécie de Portugal e a Troika, ou a profecia e a antevisão do futuro da Europa.
E na noite de Milão falámos sobre o fim do que foi para ele uma terra de sonho e para mim um tempo também de sonhos.
A Europa e as suas múltiplas faces negras escondidas por detrás do glamour, ocorrências letais num processo que nega e mata a sua essência de pátria de sonhos e ícone de liberdade na asfixia às mãos dos poderosos senhores da finança.
A miséria por detrás e pela frente das “montras” e da sua tão ténue aparência de grandeza.  

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Quinze anos

O melhor que têm os dias é a imprevisibilidade dos momentos que nos podem mudar a história.
Por ela, puro acaso ou mão de Deus segundo a fé, se arquitecta a esperança que alimenta até o mais triste e desesperado dos Homens.
Tinha trovejado há pouco e a chuva tinha vindo dar à cidade em brasa, o inédito e agradável cheiro da terra molhada. Era domingo e nada fazia prever que não fosse tão só e apenas, mais um domingo.
Mas este domingo contrariou a solidão de todos os outros: tu chegaste para marcar um antes e um depois de ti indiscutivelmente mais feliz.
As ruas desertas de gente receberam os nossos passos paralelos e a bênção de uma conversa, rima de duas línguas na poesia de uma língua só que desde logo fizemos nossa.
Por ela se escreveram os planos, o desenhar dos anos à luz da paixão e na inspiração de um inédito amor que nos encheu os dias de beijos, abraços e cumplicidades.
Os nossos dias felizes depois desse imprevisível mas tão perfeito primeiro olhar.
Pela força do tempo, da distância e dos sentidos (que talvez não sejam mais do que desculpas para as fraquezas do poeta) se rasteirou um ciclo que tantas vezes julgámos eterno nesses domingos que passaram a ser os nossos e em que acompanhávamos o Tejo nesse acto sublime de se entregar ao mar, o mar Atlântico, o mar do Guincho e o mar da beira Serra, Sintra, o nosso sempre eleito paraíso.
É afinal tão vulnerável a eternidade quando falamos de amor… mesmo de um grande amor.
Mas vulnerável nunca será a memória de ti.
Tu, eterno em mim e na minha história…
Passe o tempo que passar.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Um fim de tarde em Milão

O dia de muita azáfama acaba por me oferecer um fim de tarde tranquilo e com tempo para um café com vista para a Duomo e para o seu esplendor gótico, herança de um tempo em que as cidades se afirmavam pelo poder das suas catedrais.
É já muito ténue a luz do sol mas a noite ainda não tem suficiente força para que brilhe intensa a lua que hoje se anuncia cheia. É por isso à luz dos candeeiros já acesos que vejo desfilarem as filhas (e as netas) das “Sophia’s Loren” carregadas de sacos de papel timbrados com aquelas marcas em relação às quais nós, pobres mortais, só temos o poder de oferecer o olhar no admirar das montras.
Não traíram a beleza das avós estrelas de Hollywood e continuam lindas as mulheres italianas. Nada têm a ver com os esqueléticos cabides de um metro e noventa que em semana da moda tomaram o pequeno-almoço comigo no hotel, se é que pequeno-almoço se pode chamar a dois grãos de cereais despejados para um iogurte natural que é tragado de forma lenta e asténica juntamente com dois copos de água.
A sorte das Venezuelanas nos concursos de Miss Universo só se deve ao facto das italianas ficarem por aqui a comer canneloni e tiramisu.
E para além disso, com homens como estes que também aqui passam, o que iriam estas mulheres fazer para um palco a desfilar em fato de banho e a dissertar em cinco palavras sobre a guerra e sobre a fome no mundo?
E as barbas estão definitivamente na moda.
Não há gaivotas por sobre a praça para me trazerem o céu de Lisboa e é o ruído de um eléctrico que desfila sobre os carris e “galga” a calçada irregular que oferece à passagem dos carros uma estranha melodia, que me traz definitivamente o som da cidade do Tejo, a senhora dos mágicos fins de tarde.
E até os eléctricos são amarelos e este até tem um número que me recorda a liberdade: 1974.
Na praça há vendedores de tudo e de bugigangas de plástico reluzente que voam por sobre as nossas cabeças e brilham na noite, há pedintes mais ou menos profissionais, bancas de cartomantes e descodificadores de sinas e destinos, Homens em pose de estátua e na competição para a mais ousada, colorida e original que possa fazer soar mais moedas a cair no fundo da sua lata, casais de namorados que registam com um beijo o momento de estar aqui, e há os grupos de turistas que chegam, fotografam e avançam para a próxima paragem porque de muita correria se fazem os passeios do género “eu já lá estive”.
Avançarão para as Galerias Vittorio Emanuelle II e daí muito possivelmente para o La Scala, por certo o mais famoso teatro de ópera do mundo.
Não sei se na visita curta à sua fachada, os turistas terão tempo para aprender que o Teatro alla Scala deve o seu nome à igreja de Santa Maria alla Scala que antes existia no mesmo local e que foi inaugurado em 3 de Agosto de 1778 com a ópera L’Europa Riconosciuta, de Antonio Salieri.
Sabe-lo poderá ser um bom presságio nestes dias em que a Europa anseia por voltar a ser Riconosciuta.  
A noite já caiu agora definitivamente sobre a praça e sobre nós, e é então a vez da lua cheia sorrir espreitando por cima do imenso casario da cidade velha que está tingido a tons ocre e vermelho.
Aquecido pelo café, fecho então os olhos por uns breves momentos e transponho-me para a cidade no inicio do Século XX despedindo-se de Giuseppe Verdi no seu funeral entoando o coro dos escravos da ópera Nabucco. Rezam as crónicas que Milão saiu à rua para cantar ao seu compositor.
É a banda sonora de um fim de tarde perfeito com Verdi, Milão e… cada eléctrico a trazer-me lembranças de Lisboa.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O cortejo dos “distraídos” por entre a gente descontente

O olho gigante do Big Brother segue-nos para todo o lado e, apesar de me incomodar, não estranho receber uma mensagem no telemóvel vinda da ZON durante as férias dizendo que há cerca de um mês não ligo a box, predispondo-se a dita fornecedora de serviços na área do audiovisual, a prestar todos os serviços de manutenção que o equipamento possa exigir.
É ainda a FNAC que me convida a comprar "acessórios culturais" quando estou muito tempo sem usar o cartão, ou a Nespresso que sabe pelo número de cápsulas que compro, quantos cafés já preparei, e que provavelmente a máquina já necessita de uma revisão.
Quando entro no sítio da Amazon na internet, para além de me tratarem pelo nome e me saudarem, chamam-me sempre a atenção para os livros de marketing farmacêutico mais recentes ou para algum CD ou DVD da Eurovisão que chegou às bancas nos últimos dias, numa demonstração de Customer Relationship Management, em Português, Gestão da Relação com o Cliente.
Estas situações promovem à escala planetária aquelas a que nos habituámos nas nossas terras quando chegávamos um pouco mais tarde a casa e uma vizinha nos dizia:
- Quim vai para casa que os teus pais já se deitaram há meia hora.
Ou ainda quando uma vizinha nos diz na mercearia pela manhã enquanto compramos o pão:
- O teu sobrinho chorou às três da manhã mas depois do pai e a mãe o terem passeado pela casa lá descansou.
Portas, paredes com má insonorização, chaminés e janelas, faziam então as vezes dos computadores, em situações que nunca levávamos a mal pois quando nos ouviam chorar, essas mesmas vizinhas também nos batiam à porta para nos consolar e ajudar, numa perfeita demonstração de amizade e solidariedade.
Mas voltando à aldeia na actual escala global, é demasiado fácil perceber quais são os gostos e as ambições das pessoas, sobretudo identificar as coordenadas relativas às suas necessidades mais prementes.
Iniciada a Campanha Eleitoral para as Eleições Autárquicas tenho a sensação de que só os políticos não conseguem fazer esse diagnóstico pois assentaram estratégias e mensagens no tradicional, abusando do deja vu e esquecendo-se na grande maioria dos casos, daquilo que hoje em dia um cidadão mais necessita da sua Câmara Municipal ou da sua Junta de Freguesia.
O país não é o mesmo de há quatro anos, as pessoas estão numa situação muito pior com níveis elevadíssimos de desemprego e claras dificuldades para pagar as contas e sobreviver…
Notam alguma diferença nos cartazes, nos panfletos ou nas atitudes dos candidatos?
Não.
Parece que alguém anda a oferecer terços, coisa que ainda não me chegou à mão, mas bonés e balões já tentaram oferecer-me.
Na situação em que o país se encontra e perante o desespero das famílias, estas atitudes resultam tão pertinentes e sensatas como promover um espectáculo de Ranchos Folclóricos na morgue de um hospital.
E o abuso da frase “primeiro as pessoas”?
Confesso que me causa alguma irritação cutânea, pois é tão óbvia como dizer que quando vou de Lisboa ao Porto de automóvel sigo por uma estrada.
As “pessoas primeiro”, para quê? Como?
Fazendo-lhes mais estradas? Rotundas? Promovendo a habitação? Desburocratizando os serviços municipais? Aumentando os apoios sociais? Promovendo a cultura?
Sendo eleitor de Sintra, dou-me ao trabalho de ler os manifestos eleitorais dos que buscam o meu voto, e, confesso, é de ficar deprimido. Balelas e frases feitas.
Dá-me a sensação de que os candidatos se focam uns nos outros, nos debates e nos confrontos, esquecendo-se do meio desse círculo fechado, dos eleitores, das pessoas. Das tais pessoas.
Um candidato meu amigo com quem falei outro dia até me confidenciou:
- Eu sigo o meu caminho sem dar atenção ao que as pessoas dizem nas redes sociais.
Pois…
Quando outro dia aqui critiquei os políticos e as eleições, logo um conterrâneo anónimo me informou de que para ter direito à minha opinião eu teria de entrar na corrida às eleições, entrar no tal circuito dos “eleitos”, alcunhando-me de salazarista quando era ele quem estava a querer privar-me dos meus direitos de cidadão e estava a praticar a discriminação de opiniões tão ao gosto de Salazar.
É a democracia da frase feita porque o objectivo central de um político é a eleição, a vitória fabricada na cosmética de um momento, mais do que o verdadeiro serviço ao eleitor.
Abrir os olhos e usar de bom senso não lhes faria mal nenhum.
E nós agradecíamos muito.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

O que é um poeta?

O que é um poeta?

Um menino?
Um insurrecto?
Um tonto alucinado?
Ou um inquieto e irracional cavaleiro à conquista de impossíveis?

O que é um poeta?

Um alcoólatra?
Um inconsequente?
Um sonhador?
Ou um excêntrico sem domínio sobre uma força que o faz querer ser diferente?

O que é um poeta?

Um artífice de palavras?
Um mestre de sensações?
Um rei?
Ou um triste e errante vagabundo entregue à conquista de uma simples côdea de pão que lhe alimente o ser?

O que é um poeta?

Talvez tudo isso
Ou
Apenas eu

Eu
Querendo-te assim
Infinitamente
Tão vazio de mim
E alimentando-me do céu que me dá o azul do teu olhar
Descoberto na noite tão fria em que a neve cobriu a serra

A noite do amor
A noite de ti
A noite
Afinal
De toda a poesia

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Um chocolate ao estilo de coca

Há dias que parecem ter um guião escrito pelo nosso maior inimigo.
De manhã ao ligar a ignição do carro apercebo-me de uma estranha luz amarela no placard que me leva a consultar o glossário e me indica que o carro tem excesso de gases.
Não me faltava mais esta.
Consultado o "médico" recebo a confirmação do diagnostico e a prescrição. O problema não é grave e devo ir para a auto-estrada fazer 30km a 120km/ hora mas na quarta velocidade.
Como tenho de ir para o aeroporto resolvo ir pela CREL e faço desta auto-estrada um verdadeiro Aero-OM para o veículo ao mesmo tempo que eu faço figura de um inexperiente recentemente encartado.
Faço ideia dos nomes que me chamaram ao ver-me acelerar o carro ao jeito de quem vai levantar voo.
Chego ao aeroporto já em cima da hora e “acelero” então para despachar a mala. A fila é longa mas lá resolvo o assunto a tempo de correr para a segurança onde me mandam para uma outra fila que não avança.
Passado um quarto de hora e após cruzar o pórtico das apitadelas apercebo-me que a causa da lentidão é uma agente da Prosegur que está em treino e que com lentes à Mister Magoo não enxerga nada nas malas de viagem.
Já está na hora para o embarque.
Corro.
"Senhores passageiros vamos dar inicio ao embarque do voo TP804 com destino a Milão. Queiram por favor apresentar os cartões de embarque acompanhados de um documento com fotografia. Lamentamos informar que pelo facto de o voo ter uma tripulação mínima de segurança não haverá refeições a bordo".
Boa. Estou cheio de fome. Fui tratar dos gases do carro e acabei com um vazio no estômago.
Ao embarcar pergunto à funcionária qual o motivo para a redução da tripulação. Sorri e responde que não faz ideia. Sugere que eu pergunte "lá dentro".
E lá dentro, pergunto mesmo a uma hospedeira que se sentou ao meu lado no momento da descolagem.
Peço-lhe uma folha de reclamações e ela até me agradece a disponibilidade para a preencher. Diz que é preciso salvar a TAP.
Vamos a isso, oh minha amiga.
Pergunto se há algo a bordo que se possa comer dado que sou diabético e ela diz-me que não me preocupe.
Regressa passados uns minutos com a folha de reclamações e um micro-chocolate camuflado que eu devoro de seguida.
Passa meia hora depois para recolher a minha reclamação e traz-me outro micro-chocolate camuflado num guardanapo.
Que bem que me sabem os benditos dos chocolates comidos assim ao jeito de algo ilícito pois até o filme que colocaram para nos distrair tem o Mr. Bean a "atacar" umas muito coradas patas de frango.
E não deixa de ser divertido este tráfico de chocolate que no ambiente esfaimado do avião tem um valor incalculável.
Os Italianos aqui à volta já estão desconfiados com as "coisas estranhas" que eu coloco na boca. Mas que importa.
Para além disso eles já convivem com a máfia há imensos anos e eu e a hospedeira minha amiga somos uns meninos quando comparados com a Camorra.
Da única vez que vim a Milão, em Junho de 1997, partilhei hotel com o Michael Jackson que vi passar entre seguranças no hall do hotel de mascarilha preta na cara.
Hoje saiu-me viver o Thriller.
E prefiro mesmo associar Milão ao Jackson já defunto pois pensar na última ceia pintada pelo Leonardo da Vinci, que também visitei nessa altura…
Ceia, comida…
Definitivamente não.
Ao sair do avião a minha cúmplice despede-se e pisca-me o olho.
Lá pensarão mais uma vez os Italianos:
- Estes Portoghesi.
Pois, de facto estes Portugueses não sabemos mesmo tratar do que é nosso e estamos a matar a TAP.
É uma vergonha.

domingo, 15 de setembro de 2013

“Eu quero que sejas muito feliz”

A manhã solarenga de domingo faz com que a auto-estrada pareça um caminho exclusivo desenhado para mim. Sigo pelo asfalto da forma que mais gosto, sem rádio e sem música, apenas com os meus pensamentos.
De repente vejo algo na estrada à minha frente, mudo de faixa, abrando e vejo um boneco. Num carro à minha frente alguma criança chorará por esta queda fatídica que vitimou o seu companheiro de brincadeiras.
Mais à frente num viaduto, um adulto e uma criança, os dois equipados à ciclista, observam divertidos o pouco movimento da auto-estrada. Parecem felizes por finalmente terem a possibilidade de ver passar um carro.
Vou para Fátima ter com uns amigos.
Ao fim de muitos anos a Festa dos Capuchos não coincidiu com o Encontro Nacional dos Convívios Fraternos e vamos participar na eucaristia de encerramento. Fui ali pela primeira vez há 32 anos e a última há precisamente 23 anos.
Muita vida passou entretanto ao ritmo do tempo, e ao jeito da minha viagem desta manhã, quantas ilusões pularam do meu “carro” para fora e quantos afectos e sorrisos me alegraram do alto dos “viadutos” sobre os dias.
Faço desfilar as memórias e transponho-me para a viagem de autocarro que organizávamos sempre desde Vila Viçosa e que partia no sábado de manhã.
Sinto saudades das nossas gargalhadas quando fazíamos uma “paragem técnica” por volta da Ponte de Sôr e iam homens para um lado e senhoras para o outro para que à vontade pudéssemos satisfazer as necessidades fisiológicas, da foto de grupo que tirávamos sempre em frente ao Palácio da Justiça de Abrantes, do Paulo Geadas aos gritos pelo Manuel também no Mercado de Abrantes, da D. Catarina a partilhar as suas empadas e a recomendar ao Sr. Julião que tomasse a dele com uma tacinha de vinho, da lancheira de bolos que a D. Filipina e o Sr. Diogo tinham trazido da sua padaria e partilhavam com todos, da mãe da Luisa Valente a fazer a viagem do Alandroal para Vila Viçosa já muito atrasada e nervosa a confundir a luz de um guindaste das pedreiras com os faróis do autocarro que já viria buscá-las, das playlists de cantigas que a Zinha fazia sempre para que não nos faltasse nenhuma e pudéssemos cantar todo o caminho…
E, incrível, até sinto saudades das guerras da família “Há papa” com a vizinha Clotilde para poderem viajar no primeiro banco do autocarro.
Viagem solitária pela auto-estrada?
Só na aparência.
A Manuela e o Zé Maria esperam-me em Fátima e com a ajuda dos telemóveis lá nos conseguimos encontrar. Conferimos as cores correspondentes às dioceses que já estão alinhadas na escadaria e não deixamos de dar uma gargalhada quando nos apercebemos que estamos no lugar que era dantes o dos nossos pais: à sombra debaixo das colunatas.
Não encontramos ninguém conhecido, nem na assembleia nem na fila de padres a caminho do altar onde sentimos saudades do rosto corado do Padre Simões e da piscadela de olho que o Padre Armando sempre nos fazia. Nem as particularidades capilares de natureza artificial que recordamos de alguns padres nos ajudaram à sua identificação.
No ofertório lá vieram à baila os nomes dos que em determinada altura foram representar a nossa diocese e não nos esquecemos da São Duarte, do João Canha, da Rosa, do Pedro Pinto e do par Gina e Manuel, estes últimos que tiveram de se vestir de ceifeiros e pareciam saídos de um rancho folclórico.
E no final, o adeus.
Nunca sei porque choramos em Fátima na altura do adeus, julgo sempre que é um pouco pela tristeza de ter de deixar um pedaço de Céu que ali nos é dado viver… mas hoje sei perfeitamente porque chorámos os três.
Chorámos porque olhando à volta nos faltaram aqueles que sempre esperavam por nós na base da escadaria para nos encaminhar para o restaurante que tinham escolhido e onde todos juntos íamos à pressa comer uma carne estufada ou algo semelhante. Chorámos pela natural saudade dos tempos de meninos e por não termos ali a Maria Cândida, o Manuel, a Florinda, o Artur e a Maria Inácia, a cuidarem de nós como só eles sempre o fizeram, num misto de alegria por ainda os podermos beijar e acariciar a cada encontro e todos os dias; e também de agradecimento por nos terem feito assim tão felizes.
E despedimo-nos já a sorrir lembrando mais alguns amigos ausentes porque a sorrir ali para nós e ao ritmo do sol do meio-dia estavam todos aqueles que já partiram mas que a nossa memória torna eternos.
Vendo-nos ali aos três, tenho a certeza de que o Padre Armando também do Céu piscou o olho, muito feliz.
Foi ele que um dia debaixo de uma laranjeira em frente ao Posto de Turismo e antes da Páscoa de 1982 me disse:
- “Quim, estas férias vais fazer o Convívio Fraterno. Eu quero que sejas muito feliz”.
Conseguiu.

sábado, 14 de setembro de 2013

É poesia o que guardas entre os dedos

É poesia o que guardas entre os dedos
Sonetos
Rimas de estranhos versos sem palavras
O embrião de um perfeito gesto que se solta
Quando a tua mão
Louca de amor
Se entrega à minha

Atrás de nós
A montanha
Granito levado ao colo pela Terra
Que se eleva
Imponente
Num inédito beijo ao céu

É a hora do calor

Está acesa a brasa que desfoca o horizonte
No dia de um persistente verão
Que se estende muito para lá de Agosto
Quando as uvas já andam às costas dos Homens
E rebentam grenás
As romãs
Por entre a folhagem verde clara das árvores que as sustentam

É sexta-feira de um dia treze

E a tarde que dizem ser de azar
Canta connosco ao primeiro toque da tua mão
No triste vazio que carrego na minha

É então o céu que desce e afaga a Terra
Quando o coração sorri
Alegre
No doce imitar do grená das romãs

É a vida
O amor
E afinal o tão simples instante
Em que te dás
E
Em que soltas a poesia que guardas entre os dedos

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Trevos de quatro folhas

Durante a minha infância sempre desejei mas nunca consegui ter uma bicicleta. Culpa do muito restritivo orçamento familiar com ares de premonição da troika.
O Manuel, que não é o meu melhor amigo por um qualquer acaso, partilhava comigo a sua bicicleta para darmos umas voltas no passeio em frente ao Café Framar, mas quando todos os amigos resolviam ir buscar os seus veículos de duas rodas para passear nos caminhos ao redor da vila, eu ia para casa.
Não me importava muito.
A minha mãe era costureira, a casa estava cheia de raparigas que aprendiam a arte da costura, que eram em geral bem divertidas e que sempre me mimavam muito.
Para além disso, a minha mãe sentava-me ao seu colo enquanto costurava na velha máquina Singer que trabalhava com um gigante pedal metálico e, ao ritmo dos fatos que ela produzia para as clientes, eu tinha um divertimento único galopando por todos os sonhos que a imaginação me permitia.
Aposto que mais nenhum dos meus amigos teve o privilégio destas “viagens” ao colo da mãe e com o patrocínio de uma tão banal máquina de costura.
Há muitos trajectos para chegar à felicidade.
A figueira oferece-nos um dos frutos mais doces sem nunca ter passado pela esplendorosa fase de ter flor.
Na vida é sempre e só o amor que nos molda o ser e os meus pais foram mestres nesta arte de saber amar, do despojar-se de si próprios para que nós crescêssemos felizes num “invólucro” de perfeitos afectos.
O que é material dá-nos apenas o conforto num determinado e fugaz momento que rapidamente se esquece, e o que guardo hoje verdadeiramente na memória, é a lembrança de dias simples em que nunca nada fez falta e sempre “sobrou” um imenso amor.
O amor perene que nos alimenta os sorrisos e nos assinala os dias felizes.
A minha colega e particular amiga Júlia Lameira ofereceu-me esta manhã um trevo de quatro folhas já espalmado e seco que guardarei religiosamente entre as páginas de algum livro especial.
Há muito que ela me tinha prometido esta planta que acreditamos dar sorte e, sem o saber, acabou por concretizar a oferta num dia especialmente significativo para mim.
Os meus pais comemoram hoje 48 anos de um casamento feliz que teve também esse condão de me oferecer o melhor irmão do mundo.
Devo aos meus pais tudo o que tenho de bom e é neles que sempre me inspiro para dia-a-dia ser melhor e corrigir o que tenho de menos bom e que é fruto da minha própria pessoa.
Amo-os mais do que a tudo e tenho a certeza de que apenas retribuo uma infinitésima parte do amor que eles me dedicam e sempre me dedicaram.
São eles a minha sorte e os autores das páginas maiores de uma história, a minha, que não consigo sequer imaginar sem a sua presença e sem o seu amor cantado na ternura dos beijos e dos abraços maiores de todo o universo.