quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Trevos de quatro folhas

Durante a minha infância sempre desejei mas nunca consegui ter uma bicicleta. Culpa do muito restritivo orçamento familiar com ares de premonição da troika.
O Manuel, que não é o meu melhor amigo por um qualquer acaso, partilhava comigo a sua bicicleta para darmos umas voltas no passeio em frente ao Café Framar, mas quando todos os amigos resolviam ir buscar os seus veículos de duas rodas para passear nos caminhos ao redor da vila, eu ia para casa.
Não me importava muito.
A minha mãe era costureira, a casa estava cheia de raparigas que aprendiam a arte da costura, que eram em geral bem divertidas e que sempre me mimavam muito.
Para além disso, a minha mãe sentava-me ao seu colo enquanto costurava na velha máquina Singer que trabalhava com um gigante pedal metálico e, ao ritmo dos fatos que ela produzia para as clientes, eu tinha um divertimento único galopando por todos os sonhos que a imaginação me permitia.
Aposto que mais nenhum dos meus amigos teve o privilégio destas “viagens” ao colo da mãe e com o patrocínio de uma tão banal máquina de costura.
Há muitos trajectos para chegar à felicidade.
A figueira oferece-nos um dos frutos mais doces sem nunca ter passado pela esplendorosa fase de ter flor.
Na vida é sempre e só o amor que nos molda o ser e os meus pais foram mestres nesta arte de saber amar, do despojar-se de si próprios para que nós crescêssemos felizes num “invólucro” de perfeitos afectos.
O que é material dá-nos apenas o conforto num determinado e fugaz momento que rapidamente se esquece, e o que guardo hoje verdadeiramente na memória, é a lembrança de dias simples em que nunca nada fez falta e sempre “sobrou” um imenso amor.
O amor perene que nos alimenta os sorrisos e nos assinala os dias felizes.
A minha colega e particular amiga Júlia Lameira ofereceu-me esta manhã um trevo de quatro folhas já espalmado e seco que guardarei religiosamente entre as páginas de algum livro especial.
Há muito que ela me tinha prometido esta planta que acreditamos dar sorte e, sem o saber, acabou por concretizar a oferta num dia especialmente significativo para mim.
Os meus pais comemoram hoje 48 anos de um casamento feliz que teve também esse condão de me oferecer o melhor irmão do mundo.
Devo aos meus pais tudo o que tenho de bom e é neles que sempre me inspiro para dia-a-dia ser melhor e corrigir o que tenho de menos bom e que é fruto da minha própria pessoa.
Amo-os mais do que a tudo e tenho a certeza de que apenas retribuo uma infinitésima parte do amor que eles me dedicam e sempre me dedicaram.
São eles a minha sorte e os autores das páginas maiores de uma história, a minha, que não consigo sequer imaginar sem a sua presença e sem o seu amor cantado na ternura dos beijos e dos abraços maiores de todo o universo.

2 comentários:

  1. Quando se cresce e se vive com um manancial de afectos tão grande, é possível uma prosa tão fluida, autêntica e sentida como a que o Joaquim aqui nos deixou. Parabéns pela escrita e, sobretudo, pelo privilégio de amar e se sentir amado.

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  2. Ao ler....lembrei-me de um proverbio que se dizia lá por casa:
    " Quem pela hera passou e uma folha não apanhou... do seu amor não se lembrou!"...e lá íamos nós à procura da folha mais pequena que posteriormente era guardada num livro.

    Estou em pleno acordo com as palavras do João Saltão...Obrigado Joaquim.
    PP

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