domingo, 22 de setembro de 2013

Bater à porta da guerra

Ao estilo do Raul Solnado, eu um dia também bati à porta da guerra.
Não o fiz por vontade própria pois sou e sempre fui um pacifista sem jeito sequer para matar formigas, fi-lo porque em cumprimento de um dever (então, obrigatório) de cidadão do sexo masculino, vi um dia afixado um edital na Câmara Municipal de Vila Viçosa com a seguinte informação: "Marcha para o Regimento de Infantaria de Faro, Destacamento de Tavira, o Soldado Cadete..."
E eu marchei (e não vale rir porque foi no verdadeiro sentido do termo) com mais 119 militares que por motivos de estudo fomos adiando a nossa incorporação. Faz amanhã precisamente 22 anos e também era uma segunda-feira.
Já com 25 anos de vida cumpridos e uma proeminente barriga, lá fui eu então correr para as salinas de Tavira, um sucesso pela manhã quando saiamos do quartel de calção curto e camisola de alças, e púnhamos as turistas a tirar-nos fotos.
Acho que foi a única vez na vida que literalmente fiz parar o trânsito.
Tínhamos aulas, testes e um Sargento tão letrado que uma vez, e quando nos explicava os diferentes tipos de granadas, nos disse haver uma que era Anti-Túmulos. Quando alguém tentou esclarecer se não seriam Anti-Tumultos, não perdeu tempo e respondeu:
- Anti-Túmulos ou Anti-Tumultos, pá... Pensam que sou o vosso professor de Português?
De tarde íamos para o campo simular ataques do e ao inimigo que surgia sempre detrás de umas alfarrobeiras e figueiras que estavam misturadas com as obras de construção da Via do Infante. Íamos devidamente camuflados e com a cara mascarrada com os químicos que sacávamos dos boletins do Totoloto e do Totobola que então existiam.
O regresso do pelotão ao quartel depois de termos sacado muitas romãs no percurso pelas quintas das redondezas e ao jeito de “Rambo ataca as esplanadas à beira do Rio Gilão” chegava até a merecer aplausos dos turistas lusos e estrangeiros.
Vinha todos os fins-de-semana a Lisboa com um grupo de mais três camaradas que então conhecera e com quem aprendi a saborear o Cozido à Portuguesa em Canal Caveira nas noites de domingo aquando do regresso ao quartel, e o meu abastecimento para a semana feito no Pão de Açúcar das Amoreiras consistia basicamente em Bolachas, Chocolates, Leite com Chocolate, Graxa para os sapatos, Meias de Senhora e Pensos Higiénicos.
Perguntarão agora:
- Mas a recruta era no quartel de Tavira ou no Trumps?
Era mesmo em Tavira e as meias serviam para dar brilho às botas e os pensos higiénicos para proteger as pernas do atrito causado pelo roçar do cano das ditas que os superiores nos exigiam que brilhassem como espelhos de Versailles se tratassem.
De cabelo rapado, o que me fez reencontrar as cicatrizes das quedas e pedradas da infância no campo, relembro ainda do quartel a Tortilha de Cebola, os pratos de alumínio que já estavam gordurosos quando vinham para a mesa, as sanitas só com um buraco que nos obrigavam a defecar de cócoras e de perna aberta, e ainda a meia hora para mudarmos de roupa e tomarmos banho em que pelo menos vinte minutos eram para descalçar e voltar a calçar as botas.
Tudo isto nos empurrava para fora do quartel e devidamente fardados lá íamos petiscar para o Clube Náutico.
Mas passei na recruta com boa nota, até no tiro em que na prova com a G3 ainda hoje estou convencido que alguém atirou para o meu alvo, e na prova de pistola em que literalmente arrasei os malmequeres que enfeitavam a pista e estavam por debaixo do alvo.
Em seis semanas fizeram de mim um Aspirante Oficial Miliciano Farmacêutico com poiso no Hospital Militar Principal, em Lisboa, integrado num grupo de simpáticos camaradas e onde, com bicas a quinze escudos e pasteis de nata a vinte, isso mesmo, sete cêntimos e meio, e dez cêntimos, respectivamente, acabei por engordar oito quilos ficando com um balanço positivo de dois dado que tinha perdido seis nos tempos de Tavira.
No final e após oito meses ao Serviço da Pátria ganhei um louvor escrito composto por treze linhas que ainda hoje guardo como recurso para ler se for atacado por um surto de baixa auto-estima, e como sou dos que olha sempre para o copo na perspectiva positiva de meio cheio, guardo da experiência uma memória positiva pelos amigos que então fiz e manterei na vida, entre os quais o meu querido Dr. Patrício Freitas, ilustre clínico no Funchal e que tantas vezes me dá a honra de vir até aqui ao Pomar.
Tiraram-me uma fotografia com uma farda de gala que servia para todos, que só vestíamos da cintura para cima e tinha um boné que assentava na cabeça de toda a gente mas na minha não e teve ficar de lado ao jeito dos bêbedos; e voltei à vida civil.
E sempre pacifista.

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