sábado, 29 de outubro de 2016

Nós somos da fé e da alma...


Atrás de mim sinto as estrelícias a espreguiçarem-se ao sol, enquanto um velho tocando acordeão se aproxima da minha espera: o chá de jasmim teima e não arrefece.
O som da moeda sobre o fundo da lata de atum de conserva vazia e já ferrugenta parece alinhado com a partitura transparente deste anónimo Piazzolla que hoje veio rasgar-me o silêncio.
A cidade está cheia de Santos, criaturas improváveis, Anjos erguidos e caminhando assim entre as flores e o sol de um quase meio-dia decalcando letras sobre as folhas vazias dos poetas.
Nós somos da fé e da alma, da eternidade e dos sepulcros vazios…
Que importará o vento que disperse as nossas cinzas e a forma e o género dos corpos que dão gesto ao amor que sentimos?
Nós voaremos sempre para lá do horizonte que os ciprestes desenham em pose triste, para lá do Gólgota onde as cruzes adormecem sob o pó dos entardeceres de Jerusalém.
As capelas onde nos sepultarem encerrarão sempre uma ilusão do Deus que nos abraça em cada entardecer e a quem rezamos com a cumplicidade do mar.
E os nossos beijos serão sempre muito mais do que o pragmático encontro dos lábios que suspenderam por instantes as palavras, serão a casa para onde o amor trouxe a vida toda.
Enquanto os Anjos tocam pela cidade.

sábado, 22 de outubro de 2016

A nossa história...


A nossa história poderá contar-se pelas ruas que pisámos. As calçadas são relicários, e por mais anos que passem eu jamais esquecerei os tons e as sombras do Outono desta "Sétima Colina" de Lisboa.
A Maria Guinot cantara "Silêncio e tanta gente" na Eurovisão há pouco mais de seis meses, melodia que me assolava bastas vezes ao assobio quando passava ali pela Rua da Escola Politécnica e a D. Pedro V. Como se tivesse sido inventada para mim.
Chegava de Vila Viçosa para estudar na Faculdade de Farmácia, e esse Outubro de 1984 ofereceu-me um quarto na sede da Fundação da Casa de Bragança, ao Príncipe Real.
Em casa, o Senhor Francisco e a Dona Engrácia, colegas dos meus pais e até aí meus desconhecidos, iam tornando-se aos poucos meus avós, ao redor das horas que passávamos a conversar e confirmando a pura e perfeita genética dos afectos.
No jardim sentava-se um velho estranho que nos dizia bom dia e conversava com quantos passavam, curioso por ver os livros que transportávamos debaixo do braço. O Professor Agostinho da Silva subia desde a sua Travessa do Abarracamento de Peniche para ficar horas por ali, onde, e com alguma sorte, também me poderia cruzar com o Alexandre O' Neill a entrar no “Tascardoso” ou o Baptista Bastos no “Snob”, à Rua de O Século. No talho encontrava às vezes a Simone de Oliveira.
“Se uma gaivota viesse…”
Não era preciso. Desde o céu de Lisboa, as folhas caiam rubras sobre esse Outubro sempre que eu passava pelo Jardim Botânico para jantar na cantina da Faculdade de Ciências e de caminho comprava iogurtes na mercearia e carcaças na padaria que também vendia Queques e Bolos de Arroz. Se não havia muito para estudar passava pelo quiosque e comprava o vespertino "A Capital" para ler as notícias deixando sempre o melhor para o fim: as Palavras Cruzadas.
Soares era Primeiro-Ministro na altura em que o PS ainda "dormia" com a direita, e nós fazíamos greve porque o Ministro José Augusto Seabra aumentara as refeições de cinquenta e cinco para setenta e cinco escudos. Não tardaria a ser substituído por João de Deus Pinheiro.
Depois do São Carlos, as óperas passavam pelo Coliseu em versão económica e… incómoda; que na geral, as pernas dos que estavam atrás impediam-nos de ter encosto. No Coliseu também cantaria a Bethânia, mas mais para meados de Março. Antes, havia que comprar isqueiros descartáveis para ir ver o Fausto à Aula Magna mas com um certo toque de requinte.
As manhãs de sábado eram perfeitas no Chiado, depois de descer a Rua da Rosa, sem turistas mas com vendedores em delírio de pregões; e com sorte talvez tomasse o café na “Bernard” ao som das gargalhadas estridentes da Graça Lobo.
A “Livraria Bertrand”, a varanda do “Eduardo Martins” na esquina da Rua Garrett com a Rua Nova do Almada, a missa na Basílica dos Mártires, “O Expresso”, uma “Frigideira de Carne” comprada na Pastelaria Suíça… E o regresso a casa no autocarro de dois pisos da carreira 39, que tinha um “Pica” simpático, por certo percursor do agora cantado e famoso do 7.
No domingo talvez desse um salto à Luz para ver o Benfica, chegando cedo para ocupar um lugar central no terceiro anel, então ainda incompleto e com vista para Monsanto. O Maniche, o Dinamarquês, marcava então golos toscos e o Bento voava nas balizas.

Aparco o carro no Camões e ainda há pouco virava no Rato em direcção a São Mamede. Não me lembro desta vez de ter olhado para São Pedro de Alcântara ou para a loja das lâmpadas, agora pastelaria para turistas, cujo dono era parecido com o Mortimore.
Mas neste Outubro de Lisboa, entre duas ruas ajeitei trinta e dois anos, um instante, não fora o espelho do elevador do parque revelar-me as cãs e algumas, muito poucas, rugas.
Já à superfície, Outubro pede castanhas, já se sente o frio; e eu passo do Camões para o Chiado com a música da Maria Guinot presa a mim por via do inevitável assobio.

domingo, 16 de outubro de 2016

Berlim é afinal a própria vida…



Quem vir o autocarro a passar assim tão ligeiro desde Oeste até à Unter der Linden poderá facilmente enganar-se no "preço" que tem a liberdade.
Até o céu limpo e o vento que cobre de Outono o chão do Tigarten parecem querer calar esses dias em que o horizonte se esbatia em cinza, então rendido ao olhar que de tão triste nos salgava a face.
E só o eco anónimo dos punhos doridos de tanto acudirem à alma, nos lembra aqui que a liberdade tem o valor infinito da fé dos Homens. E tem o “preço” de tantas vidas.
Berlim é afinal a própria vida.
Há muito que ruíram os muros onde viviam amordaçados os nossos abraços, e as palavras que desenhamos agora em prosa sob as tílias são as nossas, porque são o canto do peito embalado pela verdade.
O amor que cede e se rende à vergonha é o suicídio por negação da própria vida.
Um Homem que esconde os seus beijos é um moribundo mutilado cruzando a História.
Nada é tão nosso quanto o amor e a liberdade, e enquanto cruzamos as ruas perdendo-nos algures entre o leste e o oeste, deixando-nos acontecer; sabemos que mesmo que o olhar nos salgue a face, será porque a alma se emocionou feliz num beijo, e não tem outra forma de o dizer.

sábado, 8 de outubro de 2016

A doce liberdade dos meus passos…



É preciso que a tarde nos prenda para aprendermos a saborear a liberdade dos nossos passos.
Recordo-me do som estridente das fechaduras nas portas de ferro que se cerram automaticamente atrás de mim, o pátio sombrio rasgado por poucas janelas e muitas grades, os corredores longos onde consegue palpar-se a solidão...
Deixei o telemóvel na entrada, não tenho relógio, venho sem tempo e com todos os meus livros; que nada mais existe para mostrar com tanta verdade aquilo que eu sou.
Serão vinte homens que chegam aos poucos e me vão apertando a mão, preenchendo o espaço da biblioteca onde se sentam depois à minha frente. Vim passar a tarde ao Estabelecimento Prisional de Vale do Sousa, em Paços de Ferreira.
"Porque é que fez tantos quilómetros para nos procurar, logo a nós de quem o mundo foge?"
Gosto de conversar olhos nos olhos sobre aquilo que sinto e vou desenhando por palavras. E as pessoas são a alma, muito mais do que a história que a vida e as circunstâncias lhe vão oferecendo. Trairia a minha fé se pensasse e sentisse de outra forma.
"Um escritor é um solitário?"
Muito pelo contrário. Afasto a solidão das noites em que estou só trazendo pessoas e afectos para aquilo que crio e depois escrevo.
"É o que nós fazemos na cela quando desligamos a televisão e sonhamos".
Todos os Homens podem voar porque não há grades que nos cerrem o pensamento.
"Mas o mundo nunca nos perdoará esta traição".
Talvez a gente aprenda um dia que aquilo que conta é o futuro.
"Tenho medo de envelhecer a sonhar por entre uma vida vazia".
O sonho rejuvenesce. Reinventamo-nos e assim renascemos.
Peço-lhes um tema para escrever sobre eles.
"As injustiças da justiça".
Como irei falar sobre isto?
Acabamos a tomar um café e a comer línguas-de-gato.
"Promete-nos que voltará para nos falar de si e dos livros que entretanto escrever".
Prometo.
"E o que achou de nós relativamente ao que lá fora se diz a nosso respeito?"
Voltarei muitas vezes e sempre com as histórias dos meus avós e do papagaio do Senhor Ezequiel, aquele que na janela em frente à minha me ensinou a falar.
Por vezes viajamos para tão longe quando há tanto mundo desconhecido aqui mesmo ao lado.
Regresso também ao telemóvel, reconcilio-me com o tempo e reparo que passaram três horas e ultrapassei largamente a hora e meia prevista para a sessão.
Despeço-me dos anfitriões da direcção da cadeia que me receberam superiormente.
O chão que piso tem terra, alguns ouriços que caíram dos castanheiros e libertam frutos. Olho de longe o arame farpado e as grades nas pouquíssimas janelas das paredes da prisão.
Faço uma foto...
A doce liberdade dos meus passos.
Tenho fome e paro depois mais à frente numa Área de Serviço, trincando a sandes de presunto enquanto olho os jornais e as revistas no escaparate.
"Ricardo Salgado organiza festa num hotel de luxo em Lisboa".
"As injustiças da justiça".
A venda que tapa os olhos à justiça é vulnerável ao dinheiro e ao poder que a compra matando a isenção.
Em Portugal onde a injustiça é politicamente ambidestra, resta-nos a nós, os "fracos", o pensamento, para que voemos entre grades enquanto trincamos línguas-de-gato e brindamos com café e muitas palavras.
E hoje, junto à janela onde o mar nunca me falha, autografo livros da “Bolachas Mágicas…” para enviar na Segunda-feira e para que possam chegar às mãos e às noites das crianças que estes homens têm na vida.
Porque a magia é como o pensamento e nunca cede perante as grades.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

MARIA DO ROSÁRIO


Naquele Natal de mil novecentos e oitenta e quatro, na Quinta de Santo António, em Évora, persistia um aroma intenso a laranjas maduras no pomar próximo da varanda de cal de onde se espreita a cidade e o aqueduto.
Íamos até lá depois do almoço, pisando o musgo dos carreiros e agradecendo o sol que brilhava para nos proteger do frio, “sorvendo” intensamente tudo aquilo que morava naqueles dias vividos ao jeito de quem reza.
Sem nada entre nós e a liberdade, quem reza assim, num abraço, sente que o Céu lhe fala mais próximo e sem perder tempo; que a voz dos anjos usa sempre as palavras soletradas pelos lábios e a alma de alguém.
Era pois o Céu a falar-nos ao ouvido na toada doce e suave que o campo do Alentejo sempre oferece ao falar.
Quem tem fé nunca olha para cima, olha em frente; e das varandas de séculos caiadas ao sol de verão nascem castelos de onde ousamos sonhar-nos muito para lá do previsto e das cidades dos Homens que a vista nos oferecer.
O Céu pedia-nos para sermos autênticos e em mil novecentos e oitenta e quatro até as rádios eram piratas como nós.
Rosário, lembro-me bem do quanto falámos e de quantas ruas rebeldes já a vontade nos ia desenhando no peito, por entre as laranjas e os orégãos que também nunca secavam por ali.
Há sempre um tempo em que o viço se apaga no olhar, secam as flores, para que possamos saborear o açúcar que o sol “escondeu” nos frutos. Porque nós somos muito mais daquilo que se sente do que daquilo que os outros possam ver de nós.
E para nós os dois, poetas, o tempo conta-se pelos beijos que demos, porque são deles que nasce tudo e todos os que importam. Não interessa se há ou não flores, se somos iguais, diferentes ou não, interessa apenas o mel que soubemos trazer para dentro dos dias.
Quanta vida desde esse tempo de meninos, e hoje que nos vamos espreitando nas palavras que escrevo e nas palavras que tu desenhas na rádio que eu escuto.
Num destes dias prometi escrever algo para ti, como faço algumas vezes para os amigos especiais. Juro-te que não sei se sou ou não escritor, ou se apenas e só um “mestre pasteleiro” que junta as letras naquele tom adocicado que as palavras podem ter.
Não procurei rimas nas sílabas mas tão só no orgulho de te ter como amiga e de sentir que a nossa vida é tanto mais importante quanto a nobreza das pessoas que se vão entrelaçando nela.
Muito obrigado.
Que bom ver-te assim uma mulher fantástica de alma grande, e saber como perduram os frutos dessa fé que adoça e que tomámos juntos do sol que abençoou o Natal do nosso ano de mil novecentos e oitenta e quatro.
Um beijo de parabéns.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Golden girls and boys



A fé enleia-se no tempo e faz-nos perder na idade, qual fita que se desprende rebelde de uma cassete onde gravámos 50...
Não, muitos mais, bem para lá de mil anos contados entre beijos, sonhos e risos.
Ainda hoje sabemos de cor o caminho para o colo dos nossos pais que será eterno como o seu abraço feito de vontade e dado de improviso, o abraço que pinta as memórias de todas as cores mesmo que estejam gravadas no papel fotográfico a preto e branco.
As mesmas cores das ruas onde brincamos até à hora do jantar quando as mães aparecem à janela e nos chamam sempre pelos dois nomes de baptismo: Joaquim Francisco, Júlia Albertina…
O carrossel oito da Feira Popular roda no mesmo sentido do pião que a guita, certeira, atirou ao chão. Rodam como o LP de vinil que saiu no Natal com os sucessos do ano, e rodam do jeito com que vamos sonhando o mundo.
Ali ao pé, uma boneca sorri como antes na prateleira do quarto onde mais tarde perdeu protagonismo para o poster dos Bee Gees ou do Travolta.
Outras voltas...
De carro, num pássaro de folha, num avião a pilhas que o Pai Natal da empresa do pai nos ofereceu ou no desenho picotado com arte nos trabalhos manuais.
Hoje é domingo e a mãe fez um Pudim Boca Doce com sabor de baunilha para sobremesa do jantar.
Temos sorte...
Com os vinte e cinco tostões que o tio nos ofereceu já tínhamos lanchado umas línguas de gato e uma Laranjina C.
Este nosso tempo tem tanto açúcar que até os cromos da bola vêm a enrolar rebuçados com aromas de fruta.
O tempo...
Esse que até fez autocolantes os cromos que antes colocávamos na caderneta por generosidade da Cola Tudo.
Esta coisa da idade...
Cinquenta anos.
Com tantos sonhos que carregamos ainda estamos tão longe do meio da vida.
O ponto intermédio da eternidade é ele próprio a eternidade.