sexta-feira, 29 de junho de 2012

Madonna


Fui ver a Madonna a Coimbra no passado domingo e digo-vos e assumo contra a corrente da generalidade dos comentadores, foi um concerto genial.
A Madonna é um ícone da minha geração e reencontrá-la ali, tê-la à distância de 5 metros e poder vê-la a piscar um olho, foi acima de tudo um reencontro muito de perto com a ousadia, a rebeldia, a diferença que a minha geração prometeu ao mundo, e que em muitos aspectos não soube cumprir, deixando-se enredar nas malhas densas do poder e no cinzentismo inerte do politicamente correcto.
Num palco gigantesco e fabuloso, revi a Madonna do Live Aid em 1985 e fui beber à fonte da eterna juventude.
Não me importa saber se a Madonna está velha, ela e os meus sonhos nunca terão idade.
Se a Madonna vier a Portugal com oitenta anos a fazer um concerto amparada por um andarilho e com o saco de algália pendurado do vestido, garanto-vos que pagarei bilhete para estar no Golden Circle.
Pelo menos tenho a certeza de uma injecção de energia e tenho garantido que nesse dia serei um setentão Like a Virgin.
Uma colega que tem idade para ser minha filha, assistiu ao concerto e criticava-o ferozmente no dia a seguir dizendo que se sentia muito defraudada.
Não sei a que outros concertos já assistiu. Possivelmente o mais requintado que lhe foi dado ver terá sido a Ruth Marlene nas festas anuais dos Foros da Catrapona ou o concerto do Tony Carreira na horta do Continente montada no Terreiro do Paço, mas qualquer Portuguesinho que queira ser subitamente importante não resiste a criticar e a denegrir algo muito maior do que ele, ao jeito de:
- Eu sou tão importante que até critico o concerto da Rainha da Pop.
Com paciência, expliquei à menina, elemento da geração Queijinhos Frescos e Ministars, através dos meus melhores desenhos verbais, o porquê da minha avaliação contrária.
O sorriso amarelo que recebi em troca foi a prova de que não mudou de ideias. Aposto até que terá pensado:
- Os argumentos a que estes velhos se agarram.
Pois é, mas fã é assim mesmo.
E já agora, Madonna, nunca desistas e quando te pedirem para o fazer, responde como o fizeste ao público de Coimbra que te pedia a ousadia da exposição de uma parte mais íntima do teu corpo:
- Not tonight.

S. João do Porto


A minha tia-avó Maria Teodora, uma das mulheres mais fantásticas que alguma vez conheci, teria feito 103 anos no Dia de S. João.
Pelo facto do seu aniversário coincidir com o da celebração do Santo, sempre a vi defender o “Baptista” num campeonato por ela criado sobre o mais popular dos Santos Populares.
Sempre que falava com os meus queridos amigos do Porto já não era pois novidade para mim, ver defender a festa de S. João como a maior e melhor do mundo.
Para além disso, bairristas como são, enquadrava os seus argumentos com a normalidade com que sistematicamente me provocam dizendo por exemplo que os seus Pastéis de Nata são melhores que os nossos Pastéis de Belém.
Ao fim de 45 anos de vida fui finalmente “viver” o S. João do Porto e o mínimo que me ocorre é:
- Festa de S. João do Porto a Património da Humanidade, já.
Há milhares de pessoas, tenho dificuldade em dizer quantos, que enchem as ruas e as praças, das maiores às mais pequenas, que carregam consigo a singeleza de um martelo de plástico, de um alho-porro e, claro de um sorriso, e que apenas e só, com isso, diluem na noite de S. João, aquelas tolas e fúteis diferenças que nos dias e noites de “outros Santos” nos fazem virar costas aos demais.
Pela multidão que só sabe rir e através da “martelada” na cabeça dos desconhecidos que nos retribuem sempre com o seu melhor sorriso, o Porto prova ao universo que o amor é possível. Basta o Homem querer e predispor-se a ele.
Porque quando queremos, tudo é festa, até sabem a ouro, as sardinhas queimadas e secas servidas pela senhora anti-ASAE e anti- assepsia que pela manhã se tinha levantado do leito, posto um simples vestido demasiado apertado para as suas largas dimensões de anca, calçado os chinelos de quarto em turco e cor azul-turquesa, e que de forma simples respondia a alguma cliente com mais pressa:
- Oh filha levante-se lá e vá buscar.
Da simplicidade da gente se faz a luz de uma noite especial, o fogo que sobe ao ar em balões coloridos que carregam votos e desejos de mudança, a esperança e a fé em dias bons no futuro.
Que cheguem ao Céu os balões dos nossos sonhos e iluminem a Terra porque o Porto é mais que uma nação. Nesta noite, é toda a Humanidade.

€uro(s)


São quase cinco horas de uma tarde quente em Bruxelas e procuro a sombra de uma esplanada da Grand Place para acariciar o corpo com uma cerveja Orval.
Não posso saboreá-la dedicando-lhe o tempo que ela merece, avisaram-me no hotel que o acesso estará difícil pois o presidente François Hollande está para chegar. Para além disso há ruas cortadas e chegar ao aeroporto não será tarefa fácil. É dia de cimeira.
À porta do hotel recolho a minha mala e peço um táxi a um funcionário que me pergunta:
- Are you from Spain?
Respondo-lhe como gosto de responder, na língua de Camões:
- Não. Sou Português.
Responde-me então em “Portulhol”:
- Desculpe. Eu sou Argentino, falo Castelhano mas fique descansado pois não fui eu que ontem o afastei do Euro.
Sorrio com esforço a pensar de mim para mim:
- Olha este a lembrar-me daquilo que eu não me esqueço.
Sento-me na recepção do hotel entre polícias, cães de guarda e jornalistas.
Há uma mesa de recepção para a imprensa que tem em cima uma pequena bandeira Francesa. E reparo que do outro lado está outra semelhante mas com uma bandeira Alemã.
Sempre as duas.
Anseio pelo táxi.
Se o Hollande está para chegar, não me digam que a Merkel vem com ele?
Chega o táxi.
Entro, e ao fechar a porta, o compatriota do Messi ainda me atira:
- Foi muito azar. Vocês tinham uma boa selecção.
Devolvo-lhe finalmente a “simpatia” do “are you from Spain?” e digo-lhe:
- Pois temos. E temos o melhor jogador do mundo.
Toma e embrulha que eu tenho de me ir ao aeroporto.
O táxi vai lento na cidade entupida e preenchida pelos alarmes dos batedores.
Felizmente há taxistas que ouvem boa música e eu embalo nas recordações do jogo da véspera.
Foi de facto azar. É sempre assim nos pénaltis.
O Moutinho foi o jogador mais fantástico da Selecção e falhou, o Bruno Alves foi um lutador incansável e falhou.
São geniais que por serem humanos, falham.
Mas são bons, e por serem bons nos puseram bem dentro do Euro e por lá ficámos, tendo saído por azar e sem que alguém nos pudesse acusar de falta de mérito.
O tempo nas filas de trânsito é imenso e o taxista mete conversa e descobre que sou Português.
Não me pergunta pelo Euro do futebol mas pergunta-me pelos Euros que carregamos no bolso e de como está a situação por cá.
Falo-lhe do desemprego, dos jovens sem futuro, da falta de dinheiro para comer e viver de forma digna, da caótica situação das empresas…
Comenta:
- Hoje e amanhã, o nosso futuro passa pelas decisões “destes” que estão a chegar.
Respondo-lhe:
- Não tenho muitas esperanças. A crise segue em lume brando mas não há vontade de apagar o lume.
Concorda e reforça:
- Sim. É inevitável que haja países a sair do Euro.
E eu penso para mim:
- Outro a falar-me de Euros e de saídas… que perseguição.
Que fado e que enfado.
Será sina?
É que ainda por cima, por aqui estamos pior…
Se ao menos tivéssemos um Moutinho que nos pensasse o “jogo”, um Bruno Alves que nos defendesse e um Ronaldo que “concretizasse”?
Ainda poderíamos bater o pé aos “grandes”, ir às semi-finais e não sair por falta de mérito, mas…

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Fátima – Junho de 2012


Somos muitos. Impossível saber quantos, e de quantas línguas se compõe o som sussurrado e arrancado à alma, desta Babel de Avé Marias.
Viemos carregando cada um a sua história, que coincidiu e se cruzou neste exacto momento em chegámos aqui, vindos de tantos e diferentes mundos, à procura do silêncio que nos devolve a nós, à procura da paz.
E a paz maior chega de noite.
Nessa noite que deixa sempre correr uma leve brisa fria, e na qual nos fazemos presentes na modéstia de uma chama acesa, pequena como nós, gota de água no mar de luz que sem receios deixamos que nos envolva.
Olho para lá, no espaço que termina no verde da Serra.
Entrego-me à memória que me devolve o tempo de há vinte ou trinta anos, e vejo-me ali algures, sentado com os meus eternos amigos, a cantar os sonhos maiores do nosso compromisso com a felicidade.
Sinto-os a todos presentes, e sinto como os quero tanto quanto à vida.
Vejo-me com eles a descer os degraus da longa escadaria, alentejanos de camisola amarela da cor das searas maduras, e saboreio a recordação do olhar-abraço com que os nossos progenitores, sempre atentos e a cuidar-nos, nos recebiam e envolviam.
Com eles, com a fé e a nossa garra, fabricávamos o confortável sabor de nada temer.
Estou agora com os meus pais, agradeço-os a Deus como privilégio, mas sinto saudades pela ausência dos que já não posso ver ali e daqueles por quem me resta orar para que vão resistindo aos dias maus da doença.
Tocam os sinos a anunciar domingo.
Os pontos de luz que vieram da noite, têm agora a forma de mil rostos, todos diferentes, gigantescamente diferentes, mas unidos por uma misteriosa e imbatível serenidade.
Um encontro de serenidade, uma festa de paz, em tempos reconhecidamente difíceis.
Voltam a tocar os sinos.
É tempo de adeus.
As luzes da noite, os rostos da manhã, são agora lenços que esvoaçam no meio-dia de Fátima.
Olho para o lado e vejo uma sexagenária mulher do campo que desordenadamente e ao mais puro ritmo da alma, alterna o gesto do adeus, com o limpar das lágrimas que a emoção lhe faz aflorar ao rosto.
Há lágrimas a esvoaçar no meio-dia de Fátima.
Que germinem e se convertam em paz, porque um dia, qualquer dia, não resistiremos a voltar.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

E tudo marchou…


Há alguns anos que não me oferecia o abandono do sofá em noite de Santo António, mas ontem, não resisti, entreguei-me à noite maior da capital, e lá fui descer a avenida, lado a lado com as Marchas, mas pela lateral, claro. E de copo na mão, que a noite era de festa.
O Marquês de Pombal sem trânsito é um privilégio de dias raros, e o primeiro sentimento, confesso, foi de saudade das festas de campeão do meu Benfica, ultimamente também elas demasiado raras. Mas, o Marquês sem o seu trânsito normal, que outro especial circulava, e não tivesse eu acordado a tempo deste meu onírico delírio Glorioso, e acabaria atropelado por um autocarro da Carris que transportava os marchantes de Campolide, aos gritos de “É, é, é, Campolide é que é” , arrumados em camadas ao estilo de “30 pessoas num mini”.  
Começamos a descer a avenida e por entre milhares de cabeças, procuramos nas zonas mais iluminadas e onde as marchas dançam, o melhor lugar para observar as coreografias, porque o som, de tão desafinado, esse até pagaríamos para não o ouvir nunca.
Passa a Bica, o Alto do Pina, a Madragoa, Carnide…
E a malta dos passeios grita o nome do seu bairro ou então de algum parente que vai na marcha. Definitivamente, e pelos ditos gritados a plenos pulmões, os Joaquins, os Manuéis e as Marias já morreram para as marchas, e deram lugar às Vanessas, às Brunas e aos Vanderleis.
Nos adereços das marchas há de tudo, e tudo serve para chamar a atenção do júri. Sardinhas saltitantes, gaivotas atadas ao toutiço, leques de veludo e até as muito alfacinhas, gôndolas de Veneza. No topo da surpresa, confesso, jamais imaginei ver as marchantes do Bairro da Graça com perucas cor-de-rosa, num grande estilo algures entre travestis e Hello Kittys.
Avenida abaixo e enquanto não dançam nos locais próprios, as marchas desalinham, as mulheres descalçam-se e coçam os joanetes, agrupam-se para fumar uma cigarrada em pose de “escachadas” e desajeitadas, os homens praguejam contra o peso dos arcos que os malvados dos ensaiadores inventaram para o momento… Tudo numa exposição de bastidores demasiado má para ser verdade.
Os padrinhos e as madrinhas, um casal por cada marcha, saltaram dos ecrãs da TVI ou das folhas da Caras, para vir animar a malta e pôr o povo a gritar pelos bairros onde possivelmente nunca puseram os pés e que, penso que em muitos casos, nem sabem sequer se situam na geografia da capital:
- Bibá Pita, por favor, a menina não abuse tanto do Red Bull, porque a sua performance na Marcha de Santa Engrácia até a nós deixou sem fôlego.
Caturreira.
E a meio do desfile, passam os noivos de Santo António.
Lindos.
Confesso que dos arranjos dos cabelos delas tirei ideias para a Árvore de Natal de 2012.
Vêm com o “entusiasmo” natural e a vivacidade de quem há doze horas não faz outra coisa do que andar a subir e a descer a avenida. Acenam as mãos sem mexer o cotovelo, um pouco ao jeito de “Princesas Kates da Brandoa”.
Não sei porquê lembro-me da Gertrudes Tomás, a eterna madrinha.
Que boa madrinha dos noivos daria a Maria Cavaca e que bem alinhada estaria com esta festa.
Acordo do sonho porque por detrás de mim, uma voz feminina, grita:
- Ainda aqui andam? Assim não conseguem perder a virgindade esta noite.
Apetece-me virar para trás e responder-lhe:
- Ó minha senhora, isso já nem era assim nos tempos da Gertrudes Tomás.
Virgindade?
Continuamos a descer e passamos por detrás do palanque VIP onde não há sinais dos ditos, estarão a ver as danças. Ou então, suspeitamos pela presença da carrinha do Catering, estão a “afiambrar-se” no croquete.
Há cerveja e sangria por todo o lado. A “cerbeja do norte” ganhou a guerra, e apesar de a Sagres ter posto na cabeça da populaça chapéus em forma de manjerico, sardinha e coroa de Santo António, dominou a avenida em múltiplas barracas onde nos vamos revezando a atestar os copos.
Mas a cerveja não se compra, aluga-se, e lá tivemos nós de ir à procura de uma casa de banho.
Havia-as, improvisadas, de campanha, por toda a lateral da avenida. Esperamos na fila, ansiando por uma mola para colocar no nariz pois a cada abertura da porta de plástico, sentíamos que o inferno estava ali à nossa espera.
Já corre uma brisa fria e estamos a chegar aos Restauradores. Vem lá o Castelo e a festa parece estar a acabar.
Está mesmo.
Acaba de passar por nós um noivo ainda de fraque, acompanhado por uma noiva já em calças de ganga e com o vestido pendurado do braço, assim como de uma prole familiar de mulheres em chinelos, aliviadas e felizes por finalmente poderem libertar as artroses após tantas luzes, câmaras e “Joões Baiões”.
E nós?
Vamos ter de subir também a avenida e não será fácil. Precisamos da força de uma bifana. Procuramos mas não as há por ali.
Há sandes de presunto made in Serra da Estrela. Aproximamo-nos da banca ao jeito de pedir desculpas por incomodar um grupo de jovens que se entretinham uns com outros numa amena cavaqueira e lá conseguimos o bendito troço de pão que comemos avenida acima, fazendo slalom por entre os carros do lixo e as carrinhas de lavagem das ruas.
Chegamos de novo ao Marquês e já rola o trânsito.
Lisboa não morre mais.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Lá vai a marcha…


António, de Lisboa é filho,
E o mundo o fez Santo e pôs no altar,
Para que a vida tivesse mais brilho
E toda a malta pudesse casar.

Amparo nas coisas terríveis,
É maior que todos, milagreiro,
É Santo que não tem impossíveis
E no nosso auxílio, é o primeiro.

Por isso meu Santo, olha por nós,
Que vai dura a vida, por estes lados,
De muita incerteza e mágoa na voz
Um tempo difícil, de tristes fados.

Para o abismo damos Passos,
E perante os Bancos estamos de joelhos,
Sentimos as angústias e os mil cansaços,
Desses Passos que damos serem Coelhos.

Para os nossos males não há solução,
Só nos aconselham a “raspar”,
Falta-nos fé, esperança e coração.
Já tudo demos ao Vítor Gaspar.

Por isso meu Santo como é urgente,
Como precisamos que nos venhas salvar
Põe fé e garra nas almas da gente.
E que a marcha da vida brilhe a cantar.

O manjerico dá o aroma à saudade,
Há sabor de sardinha a pingar no carvão,
Há guitarras, fado, lusa voz de verdade.
Há Lisboa, cidade e eterna paixão. 

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Pretty portuguese woman


O sol aqueceu, os dias ficaram maiores, as praias chamam por nós, sentimos a urgência do bikini e do calção de banho, abriram-se toldos nas esplanadas, apetece-nos comer gelados e temperar de gelo as bebidas… não há crise que nos mate o verão.
E se nós, os homens, somos algo tímidos e conservadores na hora de enfrentar a época estival, reconheça-se que as mulheres a recebem com o esplendor que desemboca no mais requintado glamour.
Para começar observem como a mulher portuguesa decidiu enfrentar este verão a partir de cima.
Olhem à vossa volta e vejam como todas as mulheres que conhecemos cresceram pelo menos 10cm fruto de tacões gigantescos acompanhados de mais ou menos compensação na biqueira dos sapatos (obrigado Albertina pela aula de Sapatos Compensados). Hoje pedi licença a uma colega e medi-lhe o tacão: 12,5 cm.
Record incrível.
Fixem-se apenas nos pés de um grupo de amigas em qualquer sítio público e comprovem a sensação de se estarem a cruzar com um grupo de Drag Queens em digressão ao estilo Priscilla Raínha do Deserto.
Eu não sei se estes saltos são considerados doping em concursos de beleza, mas se não forem, as Venezuelanas que se cuidem no próximo Miss Universo.
E se os tempos são cinzentos, as mulheres decidiram dar-lhes cor e vai daí não se espantem se as vossas amigas usarem as unhas pintadas de verde, azul, laranja, para lá do tradicional vermelho, ou se inclusive pintarem as unhas, das mãos e/ou dos pés, com cores diferentes alternando-as consoante os dedos.
E unhas com bonecos, estrelinhas e brilhantes? Vale tudo e é vê-las pacientes em micro-stands de corredores de Centros Comerciais.
Mas há mais…
Para além de altas e coloridas, hoje fiquei também a saber que as mulheres decidiram enfrentar o verão, “drenadas”. Isso mesmo.
Hoje apanhei uma colega a misturar uma carteira de pó com um litro e meio de água, mistura da qual resultou um líquido amarelado que se propôs beber ao longo do dia, e quando a questionei sobre a utilização do dito, respondeu-me:
- É para fazer drenagens.
De quê e por que via?
Confesso que não tive coragem de lhe perguntar.
Contra os formalismos excessivos e porque o calor faz libertar as feras que há dentro de nós, aí está também o verão a ser vivido com as mulheres revestidas por invólucros ou adornadas por padrões de cobra, tigre ou demais feras. Carteiras, sapatos, camisolas, t-shirts, tudo por estes dias carrega um ar a Africa Minha ou, pelo menos, Badoca Park.
E os cabelos?
Salvo algumas excepções, louros. Da cor do sol e dando continuidade à “suequização” da componente capilar das cabeças femininas lusitanas.
Se através de nuances ou madeixas, confesso que não sei nem quero saber, distingui-las é para mim o pior enigma do universo.
O que me interessa isso sim, é que de cima, coloridas, bem drenadas, com corpo de feras e louras, as portuguesas vão enfrentar o verão da crise com toda a classe e por certo dispensando anti-depressivos.
Um exemplo a seguir.

domingo, 10 de junho de 2012

“PORTUGAIS”


O fim de tarde está magnifico quando me dirijo para a missa das 7 no Mosteiro dos Jerónimos.
Corre uma brisa suave e brilha essa luz perfeita que só Lisboa e a beira Tejo nos conseguem dar.
Percorro a calçada entre o Museu de Marinha e a Igreja dos Jerónimos, fugindo ao amontoado de alcatifas verdes, imitação grosseira de relva, desvio-me do palanque com o símbolo do 10 de Junho que está colocado junto a uma marca PR assinalada a branco no asfalto, e assisto caminhando ao desmontar do circo.
O Portugal dos políticos levantou a tenda e estará pronto para a montar de novo e em breve num qualquer lugar perto de si, para por certo falar de esperança, de futuro e de Portugal.
Avanço e aproximo-me da entrada da igreja.
No chão há uma placa em pedra e contém as assinaturas de todos os líderes europeus que assinaram o Tratado de Lisboa.
Estão lá todos.
O circo dos políticos é nómada mas nunca abdica de deixar as suas marcas, nas calçadas, mas sobretudo nas nossas vidas.
Entro nos Jerónimos, e vejo o túmulo de Camões à direita. Tem flores frescas.
Camões, aqui e sempre será Portugal.
Portugal em coma, nos cuidados intensivos, mas com flores na jarra, oferecidas pelos parentes, falsos e hipócritas, que anseiam fazer fortuna sobre os restos da sua herança.
Recordo os discursos da manhã.
O Presidente fez como faz sempre, descarregou a consciência enunciando os problemas, mas sem nunca apontar caminhos para os desempregados, para os que passam fome ou os que não têm futuro.
Palavras ocas e sem coragem, sabem a pouco e não dão alento.
Num exercício de círculo fechado em torno de si, falou do seu tempo de primeiro-ministro para dar exemplos da coragem dos líderes europeus.
Teremos chegado aqui por acaso?
Não há responsáveis?
O presidente no seu melhor a assobiar para o lado.
Mas na manhã do 10 de Junho deixem que saúdo uma voz que veio da Universidade de Lisboa, da minha Universidade, o Prof. Sampaio da Nóvoa que sem medos e despido do politicamente correcto, falou dos vários “Portugais” que existem em Portugal.
Com coragem, encarregou-se de levar o verdadeiro Portugal para o palco do circo dos políticos hipócritas que nos ligaram às máquinas do coma profundo.
O Portugal que os políticos jamais saberão que existe. O Portugal que jamais quererão saber que existe.
Saio da igreja após a hora e pouco que pelo menos uma vez por semana, ofereço a mim próprio, de paz e de gozo do privilégio da fé.
Lisboa continua linda e corre persistente a brisa enquanto a cidade se prepara para se oferecer à noite.
Já não há restos de alcatifas pelo chão, há carros estacionados e a gente que parte para os afazeres das duras vidas dos onzes de Junho do verdadeiro Portugal.
Que não nos falte a fé e que para sempre se mantenha vivo Portugal.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Perseguir as estrelas



A carreira, a sobrevivência e a incessante busca da global satisfação dos nossos objectivos profissionais, transformam-nos demasiadas vezes em cumpridores / tarefeiros de agendas e dias cheios, esquecidos de que a vida é afinal muito mais do que apenas isso.
O meu sobrinho Luís, de cinco anos, reclamava uma noite destas com o pai, o meu irmão que falava comigo ao telefone, por não se querer ir deitar sem antes espreitar pela janela e ver as estrelas.
Viver é nunca perder de vista as estrelas.
No domingo, exactamente na véspera do 34º aniversário do meu Crisma, acompanhei e fui padrinho da minha amiga Rita Pereira, na cerimónia em que também recebeu o Sacramento da Confirmação. À mesa do almoço em família, essa família única e fantástica escolhida por nós que são os amigos, enquanto saboreávamos o requinte da arte e mestria culinária do seu pai, e mais tarde durante a longa cerimónia, nas conversas que fomos trocando, senti orgulhoso e feliz, a forma como ela carrega em si, a garra de construir um futuro que sonha grande e legitimamente magnífico.
Viver é ter vontade e garra para agarrar os sonhos, chegar às estrelas.
Chegou-me hoje num e-mail enviado pelo meu amigo Manuel, a foto da oliveira que eu transformei em avião nos meus sonhos de infância e sobre a qual vos falei no dia 1 de Junho. Foram suficientes as discretas coordenadas expressas no texto, para que ele a identificasse claramente. E apenas e só porque, confidenciou-me na mensagem, também muitas vezes fazia dos seus ramos, o seu avião.
Viver é a felicidade e o conforto de nunca estarmos sós nesta permanente busca dos sonhos.

E viver é tudo isto, e também o desfrutar destas lições gratuitas e imprevistas dadas por Deus no mais simples gesto, acontecimento ou palavra.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Criança

Em Vila Viçosa, na minha escola ali ao Carrascal, existe do lado direito junto ao muro exterior, uma oliveira discreta mas carregada de nobreza e sinais de eternidade, a quem o tempo ofereceu uns troncos raros e disformes que ela generosamente me entregou em muitas manhãs e tardes de recreio, para que eu pudesse voar para lá de todos os meus sonhos.
A minha árvore, o meu brinquedo único e perfeito, uma oliveira tornada avião à boleia da minha ilusão, para que eu cumprisse o privilégio de ser criança, o privilégio de ter o mundo todo dentro de mim na fracção de segundos de uns olhos fechados ao mundo e abertos à mais doce e intensa fantasia.
Hoje e sempre, cerro os olhos, com força, e procuro em mim a criança de olhar sereno e tranquilo, que sorria sempre e falava muito, o menino da oliveira da escola…
Encontro-o. Está vivo.
Morrerá comigo.
Sou eu.
Serei eu, sempre.
À procura e a construir os dias perfeitos, os dias de para lá do sonho.