quinta-feira, 21 de junho de 2012

Fátima – Junho de 2012


Somos muitos. Impossível saber quantos, e de quantas línguas se compõe o som sussurrado e arrancado à alma, desta Babel de Avé Marias.
Viemos carregando cada um a sua história, que coincidiu e se cruzou neste exacto momento em chegámos aqui, vindos de tantos e diferentes mundos, à procura do silêncio que nos devolve a nós, à procura da paz.
E a paz maior chega de noite.
Nessa noite que deixa sempre correr uma leve brisa fria, e na qual nos fazemos presentes na modéstia de uma chama acesa, pequena como nós, gota de água no mar de luz que sem receios deixamos que nos envolva.
Olho para lá, no espaço que termina no verde da Serra.
Entrego-me à memória que me devolve o tempo de há vinte ou trinta anos, e vejo-me ali algures, sentado com os meus eternos amigos, a cantar os sonhos maiores do nosso compromisso com a felicidade.
Sinto-os a todos presentes, e sinto como os quero tanto quanto à vida.
Vejo-me com eles a descer os degraus da longa escadaria, alentejanos de camisola amarela da cor das searas maduras, e saboreio a recordação do olhar-abraço com que os nossos progenitores, sempre atentos e a cuidar-nos, nos recebiam e envolviam.
Com eles, com a fé e a nossa garra, fabricávamos o confortável sabor de nada temer.
Estou agora com os meus pais, agradeço-os a Deus como privilégio, mas sinto saudades pela ausência dos que já não posso ver ali e daqueles por quem me resta orar para que vão resistindo aos dias maus da doença.
Tocam os sinos a anunciar domingo.
Os pontos de luz que vieram da noite, têm agora a forma de mil rostos, todos diferentes, gigantescamente diferentes, mas unidos por uma misteriosa e imbatível serenidade.
Um encontro de serenidade, uma festa de paz, em tempos reconhecidamente difíceis.
Voltam a tocar os sinos.
É tempo de adeus.
As luzes da noite, os rostos da manhã, são agora lenços que esvoaçam no meio-dia de Fátima.
Olho para o lado e vejo uma sexagenária mulher do campo que desordenadamente e ao mais puro ritmo da alma, alterna o gesto do adeus, com o limpar das lágrimas que a emoção lhe faz aflorar ao rosto.
Há lágrimas a esvoaçar no meio-dia de Fátima.
Que germinem e se convertam em paz, porque um dia, qualquer dia, não resistiremos a voltar.

2 comentários:

  1. Sim, do mundo nada se leva. Mas é formidável ter uma porção de coisas a que dizer adeus.

    RUI PEREIRA

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