domingo, 31 de maio de 2015

A tomada do tempo segundo os heróis da Livraria Escolar


Os dias pareciam maiores nesses verões de Vila Viçosa porque não existia tempo que não fosse nosso.
Nem a televisão nos tomava minutos ou nos prendia, a não ser nos serões especiais dos Jogos sem Fronteiras.
Vivíamos de portas abertas e o ar circulava connosco nos corredores das casas entrando pela porta da rua e saindo pela do quintal, ou vice-versa.
Tu chegavas sempre no verão e ias ter connosco à Livraria Escolar da D. Joana Ruivo para juntos tomarmos a Corredora ali no passeio entre a loja do Senhor Domingos e o Café do Senhor Cândido.
Conhecíamos toda a gente e até os donos dos poucos carros que passavam. Já sabíamos a que horas chegavam os jornais da tarde à papelaria do Senhor Tibério e também quem passava por ali todos os dias para ir ler "A capital" na Sociedade Artística. Sabíamos que as "Manas Catatuas" chegavam sempre em Agosto para subirem a rua de braço dado, e a não ser que a sirene dos bombeiros nos desinquietasse a tarde, até a previsibilidade acrescentava tempo aos nossos dias.
Depois crescemos e um dia trocámos: eu vim viver para Lisboa e tu para o Alentejo. Fomo-nos vendo ocasionalmente quando os dias já eram muito mais curtos pela intensidade com que os vivíamos.
E as palavras... as mesmas dos livros da D. Joana voltaram a juntar-nos quase diariamente à sombra do Pomar das Laranjeiras. Tu és das leitoras mais assíduas das minhas partilhas.
Inexplicavelmente parece que não passaram por nós algumas décadas porque de cada vez que nos encontramos é como se eu ainda estivesse com o João Paulo e o Pedro atrás do balcão da Livraria e tu chegasses a sorrir cruzando uma das duas portas pintadas de vermelho, as portas que no verão estavam sempre abertas.
Tu cumpres hoje cinquenta anos, o João Paulo na próxima Sexta-feira e eu lá mais para o ano que vem.
Na vertigem destes anos pensarás por certo como eu que estamos demasiado longe de nos sentirmos com a idade de meio século; e sentimos isso pelo infinito que ainda queremos viver e pela intensidade com que o sonhamos...
Tomando o tempo todo para nós, tal qual nas tardes quentes da Corredora que só terminavam quando uma das mães nos chamava à janela para lembrar que chegara a hora do jantar.
Lena, muitos parabéns.

sábado, 30 de maio de 2015

Num beijo que me dás por entre a magia do fim da tarde


A terra é do Homem que a beija descalço, muito mais do que de quem a assinala com cercas, grades e muros com portões dourados…
O mar é da simplicidade do pescador que trata as ondas por tu e que o abraça no instante de puxar as redes, muito mais do que do Homem que o vê do alto do seu castelo nas varandas ricas adornadas de flores…
A vitória é daquele que corre para chegar à meta e nunca do outro que vive sentado na meta, confortável e feliz, vendo passar o tempo num cronómetro vazio de quaisquer ambições…
A fé é património do Homem que espera e luta para ser maior, muito mais do que daquele que se sente grande…
O sol é do olhar mais simples que o contempla na magia de um poente…
O sonho é de todos e a poesia é dos ousados e destemidos que não calam jamais o que alma sente…
E o amor…
O amor é tudo isso; a terra, o mar, a vitória, a fé, o sol, o sonho, a poesia…e a liberdade, tudo colhido no breve instante de um simples beijo.
Num beijo que me dás por entre a magia do fim da tarde.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Por entre o melhor destino…


A manhã explode de primavera porque a tua chegada é muito mais do que apenas uma premonição; tu virás por entre o perfume audaz dos lilases e a brisa quente que o faz voar.
Vejo-te e abraço-te a sentir que é o corpo todo que sorri.
Depois, tomo discretamente a tua mão, deixo os sentimentos à solta enquanto sigo pelas suas linhas; e sinto que aquilo que eu leio e palpo não são detalhes da tua sina… é a minha.
Os recantos secretos da tua mão a ditarem a minha sorte…
Sem importar se os meus dedos sulcam os caminhos da vida, do coração ou da mente, porque todas as tuas “ruas”, com independência da toponímia, se entrecruzam no melhor e mais doce destino que a vida me poderia ofertar.
Tu és a cidade aonde eu moro e eu amo-te em cada detalhe… cada rua, cada mais pequena viela.
Temos consciência das horas, mas deixamo-nos ir pela eternidade trocando beijos na partilha de um copo que enchemos de água límpida e fria.
No ar o teu perfume já calou o dos lilases e o meu corpo continua a sorrir.
Não é a manhã que que explode de primavera, sou eu.
Por entre o melhor destino que me traz a tua mão.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

QUINTA-FEIRA


Já hoje é Quinta-feira e ainda descubro entre os dedos muitos dos beijos da tua pele na magia do nosso domingo à tarde.
As mãos imitam-me o pensamento, essa morada das tuas muitas palavras que vão espreitando à janela no decurso das horas.
E o meu pensamento leu-te em tudo; nos lábios, na poesia que transpareceu do teu olhar e até nos silêncios de onde emerge sempre a paz que respiras e expiras... um canto perfeito.
O eléctrico subiu a colina por entre as casas de portas garridas e sardinheiras à janela. Tu ias sentado à minha frente.
Quando de repente, o dobrar de uma esquina cumpriu o sonho do sol e ele te iluminou a face, recordo-me de pensar nesse instante que ser feliz não pode ser mais nada para além de ti.
E guardei então mais um milhão de palavras tuas no pensamento.
Palavras eternas que mesmo que espreitem e se debrucem à janela viverão sempre comigo de domingo a Quinta-feira, de domingo e até todos os dias...
Queira o futuro ou não queira.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

O império da moral e o pecado da hipocrisia


A República da Irlanda é um dos países mais católicos do mundo, talvez não só pela dimensão da fé da gente, mas também porque a fidelidade ao Papa ajuda a delimitar as fronteiras relativamente à Coroa Britânica e à fidelidade Anglicana.
Segundo os dados de 2011, 84,2% da população afirma-se católica; e destes, 51,6% vão à missa pelo menos uma vez por semana, existindo ainda uma fracção de 20,9% que assume participar na Eucaristia em média uma vez por mês.
Foi neste contexto que no último sábado o “sim” ao casamento entre pessoas do mesmo sexo ganhou em referendo por 62%.
Numa reacção ontem à noite, o Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano, comentou estes resultados afirmando que “A Igreja deve ter em conta esta realidade, mas no sentido de reforçar o seu compromisso com a evangelização. Eu penso não poder falar-se apenas de uma derrota para os princípios Católicos, mas sim de uma derrota para a humanidade”.
Não fora a fé dos Homens e a soberba das religiões já teria apagado Deus do centro do universo.
Parece estranho…
Mas quando os Homens se substituem a Deus no juízo das atitudes e das opiniões dos outros, e até da maioria, quando se colocam a eles próprios no altar da clarividência que advém de terem “consumido” maior dose de Espírito Santo… pura e simplesmente acabam por matá-Lo, substituindo-O por uma humana face temperada de vãos interesses.
É o império da moral sobre o do amor e da fé.
As normas tecidas pelos interesses a calarem a essência divina, focando-se na banalidade da forma muito mais do que na riqueza do conteúdo.
Quer estejamos nos desertos da Síria ou entre altares barrocos do Vaticano, porque o terrorismo e “esta evangelização” são formas medievais ao estilo das cruzadas para impor “verdades indiscutíveis” em batalhas contra a inteligência e as convicções oferecidas pela fé dos demais.
Evangelizar a Irlanda no contexto em que sugere o Cardeal Parolin será atentar contra o amor e fazer o apelo à hipocrisia, essa mesma que corta os Homens ao meio, enchendo os púlpitos e as sacristias de virtudes, e os silêncios obscuros dos mais perversos vícios privados.
E tudo isto quando o Evangelho é na sua essência o maior e mais completo poema de amor que alguém um dia poderia ter escrito, a obra-mestra que casa o que se diz com o que se faz na expressão divina e inspiradora de Jesus Cristo.
O amor… aquele que nunca se esconde e para o qual o Homem foi feito.
O amor que é a essência da liberdade, da verdade e de tudo aquilo que mais importa.
Eu, Católico, muito me alegro pelo resultado do referendo na República da Irlanda.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Conheces o Camões?


Num dos dias da semana passada fui com o meu livro “As bolachas mágicas da Avó Inácia” até à sala de um infantário onde estavam cerca de quarenta crianças de quatro anos.
Todos de bibe azul aos quadradinhos e muito alinhados, ouvi-os cantar a canção do bom dia já predispostos para me ouvirem a contar a história, algo intrigados com a presença de um estranho ali pela manhã.
E a Educadora começou por falar de livros e lembrou-lhes o que já antes lhes havia explicado sobre os escritores. Um dos rapazes vendo que a minha cara correspondia à foto da contracapa do livro, rápido me questionou?
- Conheces o Camões?
A associação é demasiado lisonjeira para mim e fez-me pensar que talvez aquela criança ache que os escritores vivem todos num panteão qualquer, que se levantam da tumba todas as manhãs e tomam o pequeno-almoço juntos a debitarem sonetos e versos enquanto partilham as meias de leite e os pães com manteiga…
Uma espécie de “Clube de poetas”, por certo envolvendo os mortos e os ainda vivos.
Expliquei-lhe que o conheço apenas pelo que ele deixou escrito; e pensei mas não consegui pôr em palavras para quatro ano, esta ideia de que a humanidade dos anos que eu viva tem sempre a oportunidade de se cruzar com a eternidade dos heróis que cruzam os séculos.
Um benefício nosso.
Passei a contar a história e a conversa animou à volta da magia, da imaginação, da alegria de conseguirmos chegar até aquilo que mais queremos.
E quando um deles me fez a pergunta de um bilião de dólares:
- Porque é que escreves?
Respondi que utilizo as palavras para construir o mundo que eu quero e que eu desejo, não desistindo porém de tentar que o outro mundo, o real, herde também a arquitectura que expressa essa vontade.  
E confidenciei-lhes que a magia é afinal esse trilhar dos sonhos e a fidelidade ao que importa, nós.
Não sei se as crianças me entenderam enquanto comiam as bolachas e comentavam uns com outros, tudo aquilo que de mágico esperavam lhes pudesse acontecer de seguida.
Mas vocês meus queridos amigos entendem-me perfeitamente.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Aquele nosso instante de onde emergiu a insuficiência da palavra amor


O sol não resiste e tenta espreitar por entre nós. Sentimo-lo persistente a bater-nos nas costas, mas os nossos braços teceram uma concha perfeita enquanto nos sentamos nas escadas do cais e escutamos o discreto bater das ondas do rio.
A intensidade deste abraço oferece-me generosamente o ritmo calmo do teu respirar, do teu coração; e eu deixo de poder distingui-lo do meu… e também do Tejo.
Batem os três a um ritmo só e afinado que ninguém, nem o homem que toca guitarra ali tão perto, nem os turistas que gritam descalços tirando fotos, e nem o sol do fim da tarde, conseguem desassossegar.
Leio-te uma carta de amor, falamos das nossas peles que se sossegam uma à outra, da paz que tomou os nossos dias e do futuro inundado pela alegria deste querer.
Quem inventou as palavras esqueceu-se que um dia estaríamos aqui sentados os três, eu, tu e o rio, e que amor é pouco, muito pouco e demasiado banal para o tanto e para o especial daquilo que este instante nos oferece viver.
Depois, pela perseverança do astro-rei, acabamos por ceder, olhamos para trás e sem desmanchar o abraço, fazemos uma foto.
Olho-a agora enquanto escrevo.
Estamos os três vestidos de azul e a forma como enfrentamos o sol denuncia que definitivamente sentimos este momento como um privilégio.
A alma sorri ao ritmo de um só coração naquele ser perfeito que permanece órfão de nome, mas a que sempre poderemos chamar muito mais que amor.
Já passa da meia-noite e eu tirei o som à televisão para poder ouvir o discreto bater das ondas do Tejo enquanto escrevo.

domingo, 24 de maio de 2015

Os domingos que caminham para os abraços


Gosto muito destes domingos que se alinham com o meu desejo e caminham para os teus braços.
O dia faz-me a vontade, e a pouco e pouco, leva-me pelas ruas que tomaram voz do eco das palavras e dos beijos, da festa dos nossos olhares entrelaçados enfeitando todo o tempo que ousámos inventar.
Depois... o abraço; e sempre sem que nenhum dos sentidos se demita desse instante.
Amar-te é dar-te tudo, ficando eu estranhamente o mais rico de entre todos os Homens; amar-te é esquecer-me de mim para poder ser verdadeiramente eu na plenitude dos sonhos e dos mais exigentes desejos...
Amar-te será eternamente este abraço que perfuma e enfeita as horas, fazendo-as parecer perfeitas, quando somos nós que estamos a viver aquilo que de mais perfeito que a vida tem para nos dar.
Amar-te e este abraço; hoje por entre a explosão lilás da primavera de um domingo que pelas ruas de Lisboa já fez florir os jacarandás, e onde persiste o eco e a voz do nosso eterno amor.

sábado, 23 de maio de 2015

A primavera às vezes encontra-nos campeões


Já tomei o café e comprei o Expresso; é sábado, e como sempre, sentei-me e li os destaques da primeira página do caderno principal e vi qual o tema de fundo da revista.
Depois devolvi tudo ao saco e regressei a casa, cruzando-me de caminho com um arbusto de folhas verdes pequenas e umas flores brancas que perfumam intensamente o ar ao seu redor.
Lembro-me deste cheiro. Há arbustos iguais no lado direito de quem sobe a Avenida das Forças Armadas e eu passava por eles nos sábados de há trinta anos quando ia almoçar à Cantina Nova. Nesse tempo o metropolitano só chegava a Entrecampos.
O porteiro da cantina vendia o Expresso.
Penso em tudo isto enquanto me apercebo que aquilo que dá coerência a Maio e à primavera está muito para lá das flores e de quaisquer hábitos a que tenhamos dado estatuto de ritual.
Dispenso o espelho e os detalhes superficiais a que ele tem acesso, e sou eu pela fé quem oferece a coerência a todas as primaveras.
A fé, mas aquela de crer em nós, porque quem não o faz despreza tudo e até Deus.
Reconheço-me pois cruzando o tempo... cruzando os tempos todos que tecem a vida; e sou hoje como antes um homem a quem apetece viver.
Logo pela manhã deixei pendurada na cadeira do quarto, a camisola do Benfica que vou levar logo à festa no Estádio da Luz. Está preparada.
Por entre a fé, a primavera às vezes encontra-nos campeões.
Quando regressava da cantina tomava o metro em Entrecampos até ao Rossio e invariavelmente ia ver o Tejo, cumprindo de passagem o secreto prazer de entrar no Martinho da Arcada e tomar um café com a memória de Pessoa.
Agora vou contigo ver o Tejo e levo no bolso os poemas que escrevi e te leio na antecâmara de um abraço.
A coerência das primaveras expressa pela mesma fé, a mesma poesia mas com palavras infinitamente mais pobres, e aquela noção clara de que a primavera às vezes encontra-nos campeões.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

O Olimpo dos dias simples


O teu sorriso acode-me à lembrança na hora de adormecer. Já pousei o livro de poemas de Eugénio de Andrade e apaguei a luz; nos lábios um padre-nosso que quase nunca acaba…
Há uma estrada íngreme que contorna e revela os segredos da montanha; nós seguimos juntos pela sua rota.
Como quem passeia, subimos sem que saibamos se o caminho nos fez romper o céu, ou se o céu é ele próprio este passo lento entre o rubor das cerejas maduras, aqui e ali interrompido por um beijo à beira de uma fonte.
E a água assim bebida dos teus lábios tem sina de ambrósia e néctar dos deuses, enquanto tudo à volta tomou do sol e de Apolo as qualidades; e os grilos e as cigarras, o fulgor do vento entre as árvores, são o toque da lira, o canto das musas e a dança das cárites neste Olimpo sagrado com que tu vestes a montanha.
A casa de Zeus e Hera, e a eternidade perfeita entre os cristais e os doze deuses do monte sagrado que se eleva do mar Egeu.
Acordo sem que a noite e o sonho me tenham desmontado a lembrança; contínuo a ver o teu sorriso.
E enquanto ando descalço sentindo o fresco do chão da casa, e quando abro a janela, respiro a brisa das sete horas e sinto que a manhã me beija, eu nunca sei se o Olimpo e o céu são os sonhos de um poeta adormecido ou se são estes dias simples que aparentam quase nada mas que têm tudo e o teu rosto que sorri.
Mas aposto que são os dias.


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Eu sou o reflexo do teu amor sobre os meus dias


Ao cruzar a Ponte da Arrábida rumo ao sul, abdico da Foz e olho à esquerda, vendo de relance e enquanto conduzo, as curvas do abraço do Porto ao seu rio.
Há um deleite que se vê de ouro na cidade, tal qual nas águas que tão justo nome tomaram por baptismo.
E pressinto-te então comigo num abraço cúmplice deste e eterno como o Porto, a pátria do Amor de Perdição de Simão e Teresa... como de Camilo e Ana.
Não tardam cinco minutos e no bom dia que me mandas vem um "regaço de beijos de amor".
Não consigo deixar de sorrir fazendo-me à estrada rumo a Lisboa.
Sinto o vento a soprar forte e um tímido sol de primavera.
Muitos quilómetros à frente, um pouco depois de Santarém, uma ave de rapina cruza a auto-estrada em voo imponente. Vejo-lhe as asas e atento no reflexo gigante que as mesmas desenham sobre o asfalto à minha frente.
"Um regaço de beijos de amor"...
Eu sou o reflexo do teu amor sobre os meus dias.
E os meus sorrisos são as curvas deste abraço eterno e perfeito.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

“Tira a mãozinha daí…”


Seguindo pela Auto-estrada A1 e a poucos quilómetros do Porto vejo um outdoor que me diz ter chegado a casa. À primeira vista a mensagem parece-me simpática e adequada, até porque me sinto sempre no Porto como em casa; mas depois verifico que tal se refere ao Porto na vertente clube de futebol, e aí definitivamente e com todo o respeito, aqui não jogo em casa. Hoje até venho assim contente, bicampeão e de gravata vermelha.
Mais à frente vejo dois novos cartazes gigantes a anunciarem o disco de uma cantora chamada Maria Lisboa.
Com semelhante nome a querer vender discos no Porto?
Deve sentir-se por aqui tão em casa como eu no Dragão; apesar, e registo, o disco se chamar “Tenho fé em Deus”.
Pois… só mesmo com muita fé, já se vê.
Continuo a olhar para os oudoors e verifico que entrei na “Área Motel”. Há o “Silk” e o “Emoções”, e a avaliar pelos desenhos… saltos altos e champanhe serão coisas que não faltarão por lá a preços que vão desde os vinte e cinco Euros.
Depois da Maria Lisboa de mãos postas a expor as unhas de gel tratadas em algum corner de um Centro Comercial…
Não fora eu ter boa memória e poderia passar-me despercebido o facto desta cantora há já muitos anos, em tempos do saudoso top “Made in Portugal” que passava na RTP aos domingos à hora do almoço, ter tido um êxito chamado “Tira a mãozinha daí que eu sei que é bom mas não é para ti”.
E agora com a fé…
Bem pode dizer-se que não há assim tantas incompatibilidades históricas e há novas Madalenas a pairarem arrependidas sobre as emoções e a seda da mais objectiva e brejeira lascívia patrocinada a vinte cinco Euros… e com parque de estacionamento discreto.
Sigo…
Novo cartaz: “Alvaiázere, a Capital do Chícharo”.
Não sabia que tal leguminosa também tinha capital e anexo-a desde logo à minha lista das ditas onde consta, entre outras, a do Móvel, da Chanfana, da Pêra Rocha, do Cavalo, e até, imagine-se, a Capital do Palito, o Lorvão no Concelho de Penacova.
Outro cartaz muito bem situado, sobretudo se atentarmos que passámos perto de Alvaiázere há mais ou menos cento e vinte quilómetros e que depois de uma imersão em francesinhas e tripas, de volta ao sul dificilmente alguém se lembrará de sair da auto-estrada para ir comer aqueles primos direitos das ervilhas.
Vejo mais um cartaz do Continente (“O que rende…”) e depois e já no Porto, os outdoors da pré-campanha.
Também prometem “emoções” e “champanhe” para a nação, mas omitem naturalmente o preço, que é, e eu sei e sabemos todos, bem mais de vinte cinco Euros. Aposto que até o estacionamento será pago e muito pouco discreto pois terá a supervisão dos delegados da EMEL.
Avanço…
“Tenho fé…”…
Em Deus sim tenho, embora não faça cartazes de mãos postas e nem sequer tenha unhas de gel (e nem a unha do dedo mindinho crescida, ouviste Celso?).
Mas nesta gente não tenho fé nenhuma.
Confesso até que se pudesse fazia inversão de marcha e seguia o caminho contrário ao da Maria Lisboa, acabando a cantar “Tira a mãozinha daí que eu sei que é bom mas não é para ti”.
Sem lascívia mas com amor ao ordenado.
E já que fazia inversão de marcha talvez fosse a Alvaiázere comemorar com Chícharos o bicampeonato.
Com emoção.
As histórias contadas pelos outdoors da auto-estrada a um homem que viaja sozinho…

terça-feira, 19 de maio de 2015

Que importância tem o nome dos dias?


Que importância tem o nome das ruas se elas me oferecerem caminho na rota que o meu desejo escolheu?

De que importa o nome, o género, o filo... qualquer detalhe em latim que designe por baptismo uma flor lilás que brilha intensamente por entre os malmequeres e perfuma o jardim enquanto eu passo?

Que importância tem o nome dos dias se eles são todos nossos, meus e teus; e se juntos caminhamos por eles até aquela janela que é casa dos abraços, a casa onde sempre sonhámos morar?

E caminhamos por entre o aroma das flores lilases e de todas as mais perfumadas.

E caminhamos sabendo que sobre a mesa esperará por nós uma taça de rubras cerejas, o fruto mais cúmplice das palavras; de todas as palavras, mesmo as secretas e mudas palavras de amor que não hesitamos jamais em trocar por beijos.

Beijos também sem nome, mas perfeitos por serem nossos.





segunda-feira, 18 de maio de 2015

Entre o tempo e a poesia


Reinvento-me feliz à sombra do teu olhar.
Contigo a uma janela alta e enquanto luto contra o tempo que me arrasta inevitavelmente para o fim do serão e para o “beijo de até logo”, o primeiro segundo da saudade; vou tomando de ti a nova poesia, e alinho palavras sobre as linhas informais que me oferecem os telhados de Lisboa.
Subo e desço com o olhar ao ritmo do infinito perfeito que me ofereces viver, e da caligrafia ousada e louca dos poetas nascem versos sob o céu de um infinito luar.
Destemidas palavras de desejo.
Palavras e rimas como os beijos e como a vida que nos entrelaça; sem pontos finais e sem reticências.
Depois, pelas duas da manhã, estamos sentados frente a frente na Brasileira do Chiado.
Enquanto nos refrescamos na bênção de uma água tónica, eu tenho Pessoa atrás de mim, e tenho-te a ti à minha frente. Atrás de ti um relógio que parece ter nascido na mesma década daquelas paredes, um incansável corredor de fundo sem meta à vista na sua infinita maratona.
Estou feliz ali entre o tempo e a poesia.
Estou contigo entre o tempo e a poesia, e as palavras de amor e a eternidade são detalhes da vida perfeita que guardas em ti e que eu descubro sempre à sombra do teu olhar.

domingo, 17 de maio de 2015

Ao jeito dos poetas


Quando as partidas de Trivial Pursuit se prolongavam para lá da hora razoável de uma criança se deitar, e alguém dizia:
- Marta, tu tens que ir dormir porque estás com olhos de sono.
A filha dos meus amigos Manuela e José Maria respondia:
- Os meus olhos têm sono mas eu não tenho.
E os cafés que tomávamos nos sábados depois de almoço mereciam a presença da Marta quando eu estava em Vila Viçosa a passar o fim‑de‑semana com uma justificação muito lisonjeira para a minha pessoa:
- Hoje vou porque está lá o Quim e a conversa é interessante.
O interesse da conversa não era mais do que algum relato de viagem feito por mim; eu, baptizado pela Marta como "o amigo viajador", ou então algum exercício interessante de inventar Barbies:
- Para o Natal vou oferecer-te a Barbie Ceifeira ou a Barbie Deprimida. Qual preferes?
O tempo foi passando e nós fomos vivendo intensamente com ele...
Continuamos a conversar muito em viagens de carro que partilhamos entre Vila Viçosa e Lisboa, e segue interessante descobrir que há na Marta uma genética que eterniza o que foi e é a vida partilhada no contexto do meu grupo de amigos; o querer e a ousadia de sonhar.
Ontem apanhei um escaldão na testa porque o sol do meio-dia de Lisboa me atingiu durante a bênção dos finalistas na Alameda da Universidade. Vinte e seis anos depois de ter estado no Estádio Primeiro de Maio com as minhas fitas roxas fui ver a Marta a erguer as suas fitas amarelas e brancas de Medicina Dentária.
Por cima das nossas cabeças passavam aviões de três em três minutos, mas as asas criamo-las e alimentamo-las nós por sobre os sábados e todos os dias.
Destemidos e irreverentes a caminho do melhor destino: a coerência de sermos nós e sermos grandes.
E ali encostado à parede da Faculdade de Direito, entre o Senhor Patriarca que falava do “Sal da Terra” e uma vendedora que apregoava águas frescas a um Euro; eu tive a certeza de que por sobre quaisquer detalhes dos dias, entre a fé e a logística mais pragmática e objectiva, mesmo que os olhos a possam trair, a Marta sempre dirá com a alma:
- Os meus olhos têm sono mas eu não.
E seguiremos sempre amigos e de telemóveis na mão a tentar não desperdiçar o pôr-do-sol dos domingos de Lisboa enquanto cruzamos do sul pela Ponte Vasco da Gama.
Os dois ao jeito dos poetas.

sábado, 16 de maio de 2015

O infinito das coisas simples


O avô Joaquim tinha uma horta para onde nós íamos algumas vezes durante as férias e onde vibrávamos com a fertilidade da terra. O entusiasmo do meu irmão atingiu o ponto máximo numa altura em que resolveu contar o número de tomates e o anunciou; passava dos duzentos.

Algures num verão mais seco foi necessário pesquisar água. Depois de eleito o sítio, escavou-se, feriu-se uma veia do precioso líquido, e não tardou a que tivéssemos um pequeno poço.

Às vezes o avô Joaquim leva-nos até ao Colmeal da Silveirinha, íamos pelos Capuchos, Paraíso, o Carapiteiro, e depois sempre junto à parede da Tapada até cruzarmos para terras que já pertenciam ao concelho de Elvas. Uma caminhada longa que exigia o retemperar das forças com uma açorda.

Eu ia com o avô até às margens de uma ribeira e apanhávamos lá os poejos que usávamos depois na confecção da dita açorda que pela nossa fome ganhava estatuto de banquete requintado.

Esta semana e a propósito do livro NÓS alguém me falava da simplicidade das palavras que contam as minhas histórias.

É natural. 

Eu aprendi a contar histórias com o avô Joaquim e as minhas palavras têm de ser simples porque são "colhidas" da terra como a água ou os poejos que enfeitam de vida e aromas o estio da "planície rasa".

Um dia, teria eu uns treze anos, viemos a Fátima e o avô viu o mar pela primeira vez, alguns anos depois de mim que comecei a vê-lo desde muito cedo.

Não o senti impressionado pela majestade azul do oceano visto do Sítio na Nazaré. 

O que é realmente grande nesta vida arruma-se na alma, muito mais do que em qualquer espaço de memória que registe as bênçãos do olhar.

E quem acaricia a Terra e lhe toma a simplicidade nos seus mais pequenos detalhes, trata-a por tu, convive de perto com o infinito, jamais se intimidando com quaisquer horizontes.

Oxalá as minhas palavras sejam sempre simples e com aroma de poejo e eu nunca deixe de ser o Quim, o "mê gaiato".


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Amo-te sob a unanimidade da vida


Quando convoco as palavras para dizer o que sinto por ti, e inevitavelmente que te amo, sinto que a minha vida toda se reúne ao redor desse instante.
Nem um só milímetro cúbico se alheia, e o desejo que o meu olhar denuncia é a fala informal de uma inédita unanimidade de mim; eu completo, um homem novo encontrado por si mesmo nos meandros deste perder-se de amor.
E jamais entenderei o exacto porquê desta expressão “perder-se” aplicada aqui, se aquilo que se perde pouco importa perante o tudo que se ganha.
A vida recentra-se no essencial, e apenas morreram as mágoas que deitadas à terra e regadas pelas lágrimas de sorrir, apodrecem como sementes incansáveis de um dia novo.
Tacteei o mundo em busca da tua pele e nem sequer foi tempo perdido, o rol de anos que passaram: eu encontrei-te, e o resto, o próprio tempo, eu já esqueci.
Hoje cheguei cedo a casa, a tarde está clara e o mar faz-se próximo ao meu olhar quando espreito pela janela.
Fiz uma limonada, temperei-a de gelo e hortelã, e encostei-me depois a uma das ombreiras da janela, degustando-a e não vendo nada mais do que apenas o mar entre mim e o horizonte.
Pouso o copo por momentos e anoto no caderno:
“Amo-te sob a unanimidade da vida”
Depois bebo mais um pouco e espreito novamente pela janela.
Há quilómetros de verde e casas até ao azul, mas eu só quero ver o mar.
Eu amo-te…
O demais pouco importa.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

A noite que te trouxe


Há noites destas, de acordar com o vento, e ficar assim desperto no assumido gozo do prazer da manta colorida, temperando a hora de tudo aquilo que mais quero.

O pensamento nunca falha na hora de cumprir os desejos desta vontade, e breve te faz chegar aqui para "conversares" comigo.

Lá fora segue o breu... e o vento como que num esforço para que a sua voz acorde definitivamente a madrugada.

Peço-lhe que sossegue; tu já estás comigo...

Os dias são o que são, e as noites por serem mães de sonhos, são no seu silêncio e no escuro, tudo aquilo que queríamos que fossem os dias.

Eu agora sinto até o teu abraço, e ao ouvido vou dizendo tudo aquilo que às vezes te escrevo e que só nós e o Tejo que nos escuta, guardamos como segredo.

Consigo sentir os teus beijos, são diferentes de tantos esboços onde os ensaiei enquanto te procurava.

E sigo pelas palavras...

O vento já amainou e não tarda a amanhecer, eu adormeço contigo.

Já vamos ter muito pouco tempo para dormir, o dia não tarda, a hora de me levantar...

E mesmo que o dia não seja tão fiel a mim quanto foi esta noite, não me importo; sempre colho dele o céu que me lembra o teu olhar.

E sonharei acordado em ilhas de silêncio que abrirei na cidade.


quarta-feira, 13 de maio de 2015

O amor e… às vezes parece ser suficiente que alguém dê o mote


Às vezes parece ser suficiente que alguém dê o mote…
No mais puro jeito de confidência, ontem e no espaço de não mais de duas horas chegaram até mim duas histórias de amor.
Na primeira, um breve e inesperado cruzar de olhares algures na Europa durante um jantar de aniversário em Fevereiro foi o primeiro instante de uma história intensa que por estes dias de Maio transborda de flores no prenúncio de vidas que inevitavelmente se irão entrelaçar para poderem partilhar todos os dias do futuro.
Na segunda, um encontro há quatro anos a motivar uma paixão que trouxe até hoje o nada naquilo que se vê e o tudo encerrado no peito; aquele ser que dói tanto, quando o coração transborda de amor e as mãos permanecem inexplicavelmente vazias daquelas outras que realmente importam; quatro anos e tantas vidas em que elas em vão foram sendo procuradas...
E eu e tu e aquela poesia a que ofereci as palavras escritas e ditas na tarde de sábado no Chiado.
O mote.
Duas histórias, dois detalhes para um mesmo amor; que este, qualquer que seja o enquadramento e os protagonistas, nada mais pode ser para lá do perfumado e desejado destino, a praça virada ao mar, temperada de sardinheiras e cheia de sol… para onde a vida se dirige por regra da vontade.
A praça, a casa de onde nunca iremos querer sair.
É assim o amor no mote dado pela poesia e sem que jamais importe o tempo; porque breve ou longo é algo desprezível quando se é eterno na vida de alguém.
Como tu és eterno em mim.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Os pássaros e os Homens que gostam de voar


Um Homem resignado é um pássaro automutilado no poder de voo das suas asas, e um pássaro que entrega facilmente o seu quinhão de céu a todas as outras indistintas aves.
Então, prostrado e triste numa gaiola ou nas pedras duras do caminho, apenas verá do céu alguma qualquer pequena nesga de azul que as asas alheias em voo lhe quiserem deixar por dó e caridade.
E um pássaro assim, sem céu, é um pássaro morto na sua raiz, na sua essência, mesmo que ainda possa continuar a respirar… e até por muito tempo.
Pelo contrário, um Homem ousado é um pássaro que dá vida às asas e que chama a si, o céu, buscando-o sem reservas e sem temer sequer os perigos que espreitam por detrás dos arbustos na pontaria certeira de um qualquer “caçador”.
Poderá chegar o dia em que possa ficar ferido, quiçá morrer, mas nunca foi por si e por falta de ambição que o céu deixou de lhe sorrir e deixou de ser seu.
E já tem muito de nosso, tudo aquilo a que aspiramos e pelo qual lutamos, mesmo que jamais consigamos ter dele posse total e efectiva; para além de que a esperança que vive colada aos sonhos já nos faz sorrir.
É o irresistível açúcar da vontade.
Um pássaro que se faz ao céu fá-lo pois ao jeito de um Homem que dispensa as gaiolas, as grades, e que cumpre o destino que a alma lhe impõe em pleno e despudorado gozo da sua liberdade…
Um Homem que faz suas, todas as fontes; um Homem que não nega jamais um beijo aos seus amores, da mesma forma que um pássaro em voo, jamais se recusa pousar e entregar uma carícia à mais bonita das árvores do campo…
Um Homem que sonha e que assume assim a ousadia que a nada se rende; nem sequer à perspectiva desse tão desconfortável epíteto de louco, oferecido gratuitamente e de forma voluntária pela multidão gigante dos mestres e escravos da sensatez, “papagaios” mais ou menos coloridos e instalados em poleiros dourados entregues à monótona “cassete” de tantas frases feitas.
Um Homem…
Sou eu e sou tudo isso pelo impulso de voar para ti, para os teus braços…
Definitivamente, o meu céu.
E voar sem sentir medo.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Há uma paz imensa que se solta desta inquieta vontade de chegar…


Há uma paz imensa que se solta desta inquieta vontade de chegar…
Contradição do amor; tal qual este tanto gostar de mim mesmo que cresce à medida que descubro que te amo assim tão infinitamente, e penso em ti muito mais do que o faço em relação a tudo aquilo que existe em mim… ou ao redor de mim.
E a pressa de chegar…
Rogo às ruas que me encurtem a distância, ao tempo que me empurre pela tarde e à vontade que me vista asas e eu possa voar para ti.
Como um pássaro destemido.
Por entre a paz.
Eu sei que me espera aquele abraço, quando os nossos olhares já contaram os segredos todos no breve calor de cinco segundos e quando a história e os detalhes da pressa de chegar já se apagaram algures nos corredores do gélido panteão da memória.
Não me falta nada.
Sou eu finalmente.
A vida mima-me como se cada dia fosse um doce pedaço de Torrão de Alicante retirado de uma caixa de madeira comprada por aí.
Caminhamos os dois lado a lado pelas curvas e contracurvas de uma conversa que jamais terá fim.
As palavras nascem de nós e falam de amor.
Eu olho-te discretamente enquanto caminhamos e pela tua perfeição descubro-me o homem mais feliz do universo.
Contradição do amor.
Sou eu finalmente.
Por entre a paz.

domingo, 10 de maio de 2015

A poesia da festa de sermos NÓS


“Lisboa faz diferença”.
Assim comentava Carlos da Maia a João da Ega enquanto desciam ambos o Chiado numa brilhante descrição de Eça em “Os Maias”.
Faz diferença, mesmo, quando numa tarde de primavera e vestida de forma irresistível por um sol intenso, uma cor de tons infinitos e muita gente, eu e o Ângelo descemos o Chiado para uma festa de amigos.
A rua que tem nome de Garrett, que desce do Camões e passa pelo Chiado e por Pessoa na Brasileira, recebeu-nos aos dois com um “Nós” debaixo do braço, livro de palavras e imagens de duas vidas, duas expressões diferentes mas uma mesma e definitiva poesia.
A poesia da terra que pisámos e se fez berço e leito de crescer.
A poesia de romper com os dias inevitáveis que nos ofereciam e ousarmos sonhar ir muito mais além.
A poesia da festa de sermos nós.
A poesia que espalha flores pela vida em todos os dias e nestes momentos especiais em que nos cruzamos à esquina das mais fortes e saborosas cumplicidades.
A cumplicidade das muitas horas doces que foram a raiz deste livro.
A cumplicidade que criou esta tarde em que nos perdemos os dois nos sorrisos e nos abraços dos amigos.
“Lisboa faz a diferença”
E os amigos fizeram a diferença em Lisboa numa tarde que nasceu para ser eterna em nós.
Jamais a esquecerei.
Uma tarde doce e… “chique a valer”, para não fugirmos de “Os Maias”.

sábado, 9 de maio de 2015

Há dias que sonhámos muito

Há dias que sonhámos muito, amanheceres que são o cais da chegada de muitos passos, os dias para onde empurrámos o tempo por força da nossa mais imperiosa vontade.

Hoje acordo com a sensação de que conheço muito bem a brisa, a cor e todos os detalhes desta manhã. 

Tenho sobre a minha mesa um livro com palavras e imagens, "Nós" tecido nas horas em que Lisboa foi a casa de um afecto que juntou letras e instantes no privilégio de ter o Ângelo comigo.

A vida e a poesia que a celebra e que se solta por tantas e diferentes janelas.

Hoje iremos ao Chiado ter com os amigos para partilharmos a festa deste encontro, a mesma rua onde tantas palavras se soltaram... e de onde colhemos infinitas imagens.

E eu conheço bem esta manhã porque fomos nós que a inventámos.

Há dias bons... 

Até logo.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Nós sabemos tão bem!


Um dia convidar-te-ei para ires comigo ao teatro ver uma peça que fale de amor.
As pancadas de Molière pedirão silêncio imediatamente antes do pano se abrir, dos técnicos incendiarem a ribalta e de chamarem à cena todos os actores.
O espectáculo começará…
Estaremos atentos às palavras que narram a história de um tempo longínquo, dos amantes, dos maus e bons agoiros, de uma cidade junto ao mar… e que ressuscitam a poesia, que lhe dão corpo e voz de gente, como nós.
Ao fundo no palco, muito possivelmente existirá uma escada de ferro que sobe e desaparece na escuridão e no silêncio da bambolina; estarei atento a ela muitas vezes ao longo da noite para que o olhar se ocupe com algo enquanto a minha pele se entretém com o respirar da tua.
E talvez até exista uma velha actriz que cite Byron…
A poesia.  
Mas muito antes da peça terminar, de irromperem os aplausos e de entendermos finalmente o fim da história, seremos nós na plateia de um teatro; nós os dois e sem sequer recorrermos a uma só palavra, os heróis da mais bonita história de amor.
A minha pele e o respirar da tua a contrariarem Byron:
“Sabemos muito pouco o que somos e menos ainda o que podemos ser”.
Nós sabemos tão bem!
  

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Um beijo no instante em que te encontrei… quando voava sobre a seara


Trato a noite por tu; conheço-a há muito e até na intimidade desses recantos mais esconsos que parecem ter nascidos imunes ao luar.
Gosto da noite.
Sento-me com ela no sossego do sofá; a televisão desligada, uma música tímida e sem palavras, um chá de jasmim, o caderno de capas vermelhas que o Carlos me ofereceu no Natal…
E ali naquela intimidade e cumplicidade de amigos, eu e a noite vamos tecendo palavras que escrevo ao ritmo lento de quem dispensou o relógio e se espreguiça à vontade pelo tempo.
Já estou definitivamente em casa e não há quaisquer viagens para fazer.
Partilhamos segredos…
E a noite sabe há muito como te chamas, que o tanto que és e que eu amo, há muito mais tempo conhece dos sonhos que lhe fui contando.
Ontem, já depois de falar contigo, estava eu e a noite nesta costumeira tertúlia, mas com direito a biscoitos (doces mas sem açúcar), quando ela me contou uma história:
- Era uma vez um pássaro de asas soltas que vivia algures no cimo de uma árvore que benzia de sombras uma seara da planície. Saía todas as manhãs de primavera, cantava uma desgarrada com os grilos, dava os bons dias às papoilas… e fazia tudo isso ao jeito de quem vasculha o mais íntimo e melhor da vida para poder encontrar o seu grande amor.
Adormeci entretanto e já não ouvi o resto da história mas esta manhã acordei com a certeza de ter sonhado contigo e de te ter dado um beijo…
Um beijo no instante em que te encontrei… quando voava sobre a seara

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Cruzámos o impossível


O querer rasga veredas no impossível, e o lado de lá do previsível, a outra e desejada margem, fica à completa mercê dos nossos passos.

Passos acelerados tecidos pela pressa de chegar; passos... retalhos de conseguir sobre um chão que tomámos pelo alento e às vezes por uma imensa dor.

Olho a última foto que fizemos junto ao rio num passeio por Lisboa.

Revisito-a tantas vezes...

Tu ensinaste os meus lábios a beijar, perdidos que andavam por tantos rostos à espera de o conseguir.

Na foto estás a sorrir... estamos os dois assumidamente a sorrir.

Percebo olhando outra vez que há muito mudámos de margem e estamos naquela que sempre sonhámos.

Cruzámos o tempo e o impossível.

Rasgámos veredas.

Tu ensinaste-me a beijar...

Passos... retalhos de conseguir.

Cada beijo, um passo.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Há tanto de novo aqui... debaixo do sol

O despertador cumpre a sua função e acorda-me às cinco quebrando um sonho do qual esqueço o conteúdo diluído na irritação de sair da cama em hora contra-natura.

Tomo o duche com a sensação de que acordo o prédio todo, mesmo permanecendo em silêncio e não trauteando "O anzol" dos Rádio Macau, como é hábito pela manhã.

Depois...

Há sempre um vizinho que passeio um cão, a rádio tem programas estranhos a esta hora da manhã, a auto-estrada parece ter sido desenhada só para mim, Lisboa é a cidade que nunca apetece deixar, o aeroporto tomado pelo caos em dia de greve, o voo atrasado, o café, as colegas e os segredos para disfarçar olheiras, o tempo para escrever...

Agora.

Pedirei ao despertador que um dia me acorde sem me acordar; e sem ter de abandonar o sonho onde tu moras, tomaremos os dois a rota de todas as viagens que sonhamos e persistem na nossa vontade.

O café depois do duche, Lisboa a espreguiçar-se no amanhecer, os nossos sorrisos sem olheiras, e nós os dois envoltos numa música que trai deliberadamente os Rádio Macau: há tanto de novo aqui debaixo do sol.

Um beijo com a saudade de quem já viu no monitor o número da porta de embarque.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Jamais te deixarei morrer entre os silêncios


Jamais te deixarei morrer entre os silêncios, os vazios e calados instantes de onde sempre te resgatarei por força das palavras de amor que semeias em mim.
Essas mesmas palavras que acordam comigo em cada madrugada.
Abraçar-te-ei depois no velório do “mais ou menos”, a casa de onde ressuscitará a esperança mais fantástica e mágica do universo: a vida nova e boa que sonhamos.
Os dois, uma casa no campo debruada de amarelo, os castanheiros, as glicínias, as flores de todas as árvores que chegarão para enfeitarmos a primavera.
Os cucos que soltarão música do cimo de todas as árvores.
E a eternidade…
Quem goza de um amor com a marca de sempre despreza os dias e as horas; aqueles que como nós são “malta da eternidade” não se preocupam sequer com os incómodos e dores da saudade.
Há muito que tomámos o tempo, que o fizemos nosso.
E eu jamais te deixarei morrer.

domingo, 3 de maio de 2015

Maria Inácia


Há um instintivo não sei quê de coragem nas tuas mãos que ao primeiro afago me oferece alento e apaga todos os meus medos…
E por ti eu sou o mais forte e feliz de todos os Homens, um herói, sem deixar nunca de voar nas asas do menino que se aninha eternamente no teu colo para ouvir as histórias que tu inventas e que fazem superar o escuro do anoitecer… e todos os escuros guardados nas esquinas dos dias.
O teu abraço que nunca falha tem a paz e o sossego de estar em casa, na minha verdadeira casa…
E os teus beijos, o riso, os passos de dança que ensaiamos juntos, as palavras que o olhar dispensa que digamos, os gestos, os silêncios, as carícias, a fé… são detalhes perfeitos de um imenso e insuperável amor.
Sim, eu nasço em cada beijo que nos oferecemos.
E às vezes por me sentir tão bem nestes dias que por ti se enfeitam de flores e sabem a mel de urze, ouso pedir ao tempo que traia o seu ciclo inevitável e pare por aqui.
Que o tempo tome e imite a eternidade do nosso amor.
Um pedido de criança, do menino que serei sempre por ti e para ti, mãe.

sábado, 2 de maio de 2015

“Anita manda os políticos para Sete Rios”


Por muito que o Dr. Mário Soares afirme o contrário, compreenderá por certo o “pai” da nossa democracia que eu cumpra a essência da dita, e que, com base no principio de um Homem, uma opinião; eu não acredite na inocência de Sócrates.
Um político preso nem sempre é um preso político, sobretudo quando pesam sobre a criatura, suspeitas de corrupção; e como eu não acredito na honestidade de quem não trabalha e se dispõe a viver no luxo à custa dos amigos…
Entendo que os cravos atirados contra a prisão de Évora e as velas acesas são “cuspidelas” sobre a memória de Abril e de quem sonhou e construiu a liberdade.
E por muito que o Dr. Passos Coelho elogie o Dr. Dias Loureiro, eu jamais acreditarei na inocência de um dos homens do BPN, empreendedor por certo mas em proveito muito próprio, e por vias demasiado ilícitas que muitas e grandes facturas emitiram sobre os contribuintes.
Mas o homem que saltou do Conselho de Estado por indecente e má figura, continuará por certo a ser generoso na hora de financiar as campanhas partidárias, e só isso justificará estas estátuas de palavras erigidas nas rotundas da rota dos políticos da sua cor.
Palavras que são como pedras atiradas sobre a memória de Maio e da liberdade.
E assim no Dia do Trabalhador, com a simulação do IRS à minha frente e a evidência de que bem mais de cinquenta por cento dos meus rendimentos voou para financiar as PPP’s, os BPN’s e outras coisas que tais, eu contribuinte honesto da nação Portuguesa me sinto uma ilha no mar da imbecilidade.
Serão por certo os sintomas da orfandade política da classe média nacional.
Assalta-me aquela amarga sensação de Outubro estar muito próximo e ter no menu à minha frente o regresso à “Anita no país dos subsídios” e a “Anita vai à Alemanha e aprende a fazer contas”.
Ou as outras Anitas todas.
Valha-me continuar a acreditar na liberdade e em nome dela decretar tolerância zero aos políticos travestidos de heróis.
“Anita manda os políticos para Sete Rios”; para pentearem os macacos, claro.
E já agora façam-me um favor, não comentem este post a dizer quem são os menos maus pois não será por existir a Hepatite C que o Cancro do Cólon passa a ser algo simpático.