domingo, 25 de setembro de 2011

Acertar o passo

O Papa Bento XVI encontra-se em viagem pela sua Alemanha natal e nos discursos e homilias que já proferiu, para além de ter classificado de “chuva ácida” o nazismo e o comunismo, encontrou-se com algumas das vítimas da pedofilia em instituições católicas, tendo-se confessado perante elas “comovido e abalado”.
Ao mesmo tempo e num encontro de jovens, o Papa afirmou que a Igreja jamais poderá aceitar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Começa a ser um hábito estas desculpas tardias da Igreja e dos Papas relativamente a situações negativas do passado.
Se o combate ao comunismo foi recorrente no tempo em que a cortina de ferro dividia a Europa, não consta que Pio XII tenha sido veemente nas criticas e no combate ao nazismo quando milhões de judeus eram perseguidos e mortos na Europa, nem tão pouco se assistiu à implementação de medidas duras logo que a questão da pedofilia começou a ser denunciada em algumas instituições católicas.
As desculpas não se pedem, evitam-se.
Os tratamentos mais eficazes são os profilácticos e não os paliativos.
Mas para isso, é necessário acertar o passo com o tempo e viver o momento presente.
Não sei quanto tempo levará e nem sei sequer se estarei vivo na altura, mas estou certo que daqui a alguns anos, um Papa do futuro virá lamentar e pedir desculpa pela incompreensão e insensibilidade manifestada para com os homossexuais que resolveram assumir a verdade das suas vidas e que não abdicaram de dizer sim à vivência do sentimento mais completo e maior do universo: o amor.

Nossa Senhora das Descobertas

Quando viajo pelo país em ritmo de passeio, algo que não dispenso nunca, é visitar os santuários, capelas e ermidas que vou encontrando no meu caminho, muitas vezes em lugares ermos e de difícil acesso, mas que já me possibilitaram muitas vezes o encontro com verdadeiras pérolas da arquitectura religiosa e popular, assim como a descoberta de lendas fantásticas.
Nestes meus percursos de fim-de-semana e férias, em que me cruzei com as mais variadas e imaginativas evocações de Nossa Senhora, jamais tinha encontrado a de Nossa Senhora das Descobertas.
Só a descobri na semana passada quando procurava no site do Patriarcado de Lisboa, um horário de missa que fosse compatível com os meus afazeres dominicais.
Fiquei então a saber que a Igreja de Nossa Senhora das Descobertas se situa em Lisboa no sítio mais insuspeito que possamos imaginar: o piso -1 do Centro Comercial Colombo.
Foi lá que fui à missa no domingo passado.
O espaço não é grande mas é acolhedor, sobretudo se tivermos em conta que estamos paredes-meias com o estacionamento de um dos espaços comerciais maiores da Europa. Havia muita gente e pela presença de sacos das mais variadas marcas, mas sobretudo do hipermercado, fácil foi supor que muitos aproveitaram o dia para tratar do corpo e do espírito.
É interessante e diferente estar na missa e, quando alguém abre a porta, poder sentir o ruído típico de um Centro Comercial com aquela música de apelo ao consumo e as vozes que dão avisos e alertas aos clientes.
Prova-se assim mais uma vez que Deus cabe e deve estar em todos os sítios onde está o Homem.
E porque muitas vezes se fala em romarias de fim-de-semana aos Centros Comerciais, porque não entender que se o Homem deixou de ir às romarias de Deus, veio Deus até à romaria dos Homens.

sábado, 24 de setembro de 2011

A “velha” Europa

Numa das manhãs desta semana, cruzei-me na Área de Serviço de Pombal, na A1, com o casal Mário Soares e Maria Barroso, que tal como eu e as restantes pessoas, se encontravam ali a descansar a meio de uma viagem para algum sitio a norte.
Confesso-vos que nunca fui fã e adepto do Soarismo, nem nunca me senti identificado com o clã e a família, de sangue e política, que sempre gravitou à volta de Mário Soares, em jogos mais ou menos subtis pela conquista do poder das mais variadas instituições, mas tal não me impede de reconhecer nele um dos ícones maiores do Século XX Português, e, de entre os Portugueses actualmente vivos, reconhece-lo como aquele que mais positivamente influenciou a nossa história recente, pela conquista da liberdade e pela nossa integração na Europa.
Se há coisas que a vida nos oferece é esta virtude de aliviar o absoluto das certezas, e também a capacidade de aumentar o enfoque no que é realmente importante e positivo, e por isso, eu que não sou um Soarista, não pude deixar de sentir uma emoção especial na hora em que me cruzei de perto com Mário Soares.
O seu porte e afabilidade são os de sempre, procurando os olhares dos demais para sorrir e cumprimentar, apreciando simultaneamente o cumprimento e a saudação de todos os que passam, mas a carga e o peso dos anos tem pelo menos no seu aspecto uma marca inevitável de fragilidade, que não me parece que exista no seu pensamento, tal a lucidez e pertinência que reconheço a algumas das reflexões feitas e publicadas nos últimos tempos.
Para além disso, tanto ele como a sua mulher, transpiram a tranquilidade das pessoas que vivem bem consigo próprias, as pessoas que fizeram da vida exactamente aquilo que a vida sempre lhes pediu que fizessem.
Eu tinha acabado de fazer 170km a ouvir falar de Jardim, da Madeira, de buracos no orçamento, da troika, da Grécia e do desmoronar do Euro, das hesitações dos líderes europeus, e este encontro com Mário Soares, um dos grandes entusiastas e construtores da Europa unida, confrontou-me automaticamente com esta ideia de que a Europa sem fronteiras que foi sonhada e construída por uma geração, dificilmente irá sobreviver no futuro.
A Europa da União parece ter os dias contados porque a geração de tecnocratas e políticos fabricados nas incubadoras da própria política, Homens interessados na sua própria sobrevivência e que não vêem muito para além do seu umbigo, não soube e não sabe estar à altura da geração dos líderes que emergiram nas trincheiras da conquista da liberdade e que tiveram a coragem de em nome do colectivo, lutar e ir sempre em busca dos seus sonhos.
A Europa definha, consequência da falta de liderança e ousadia.

domingo, 18 de setembro de 2011

A infernal vertigem do tempo.

O velho Largo dos Capuchos, formado pelo triangulo das igrejas de S. Luís, S. Tiago e Senhora da Piedade, cumprindo a tradição calipolense de cada largo ter três igrejas, no segundo fim-de-semana de Setembro, cobre-se de festa e converte-se na sala de visitas de onde qualquer natural de Vila Viçosa jamais quer estar longe.
Ali, iluminados pelas luzes do arraial, andamos numa azáfama tão grande entre os Capuchinhos e as igrejas, a pesca ao pato, as farturas, as quermesses e o concerto da banda filarmónica no coreto, que até nem damos conta que às tantas já só respiramos pó, tal a quantidade de pés que se movimentam no piso amarelado e arenoso que cobre o largo.
Antes que chegue a madrugada e antes que soem os morteiros que dão fim ao fogo de artificio, verdadeiro tiro de partida da corrida que põe os calipolenses de regresso às suas casas na vila, a pé porque é mais saudável e não há espaço para carros, o mais divertido e saboroso da festa é encontrar os conhecidos, os amigos de muitos anos e matar as saudades.
Às vezes nem é preciso dizer nada, nem é necessário sequer ter um grande grau de intimidade com quem nos cruzamos. Basta olhar em volta e sentirmo-nos rodeados pela nossa gente, para que se nos aconchegue o espírito desse conforto que é feito de estarmos em nossa casa.
Este ano lá estive como sempre, e não sei se foi resultado de mais intensidade das lâmpadas do arraial ou quiçá resultado dos efeitos depressivos da troika, mas a frase que mais ouvi e que simultaneamente mais vezes me acorreu ao espírito para dizer a outros, foi:
-Eh pá. Estás tão velho(a)!
A Moody’s deve estar a fazer escola por cá e a arte de pôr no lixo, neste caso a auto-estima dos demais, deve estar a entranhar-se entre a malta lusitana.
Ou então as rugas, as carecas, os cabelos e barbas brancas, as barrigas, as ancas largas e a celulite, estiveram em grande evidência, mais do que nunca, na festa de gala da família calipolense.
Será culpa da própria crise?
Será que ela nos envelheceu abruptamente?
Ou será que neste ambiente de negativismo generalizado nos concentramos mais no lado lunar e escuro da vida?
Penso que não!
O problema está no tempo, na forma como nós o acelerámos criando uma espiral vertiginosa impossível de abrandar.
Os dias persistem com 24 horas e as horas com 60 minutos mas a vivência do “pacote de preocupações e prioridades” da nossa vida (carreira, casa, filhos, etc), impede-nos de ter a noção do valor do segundo e do minuto e, faz com que a nossa unidade mínima de contagem seja a década.
Empenhados nesta azáfama da vida, permanecemos frequentemente longe de quem gostamos, e porque os afectos persistem, alimentamo-nos das memórias dos tempos em que vivemos mais próximos, em que criámos cumplicidades e partilhámos tanta coisa das nossas vidas. Fazemos assim um convívio diário com imagens que já não existem hoje e nunca poderiam existir, porque o tempo passou e ele nunca passa sem deixar as suas marcas.
Quando após algumas décadas olhamos para a nova imagem do outro, fazemos automaticamente e instintivamente o confronto com a que a memória guardou, e a diferença é abissal.
E a terapêutica para isto?
Só há uma que é o prazer e deve ser dada sempre em profilaxia, em doses regulares e contínuas.
Entranhámos há muito que crescer é desprezar o prazer e convertermo-nos ao dever, e isso é profundamente errado.
A multidão de “senhores respeitados” tendo como lema de vida “muito riso e pouco siso”, é o maior centro de recrutamento de frustrações e graves depressões.
Dever e prazer equilibram a vida e fazem-na feliz, que é para isso que ela existe.
E se pensarmos bem, há sempre oportunidade para temperar a vida de prazer, e estar com os amigos ou com as pessoas que amamos é um elemento essencial desse gozo.
Não é justo para nós nem para quem gostamos, que deixemos os nossos cabelos brancos nascerem sozinhos.
Não adiemos nunca as bicas, os jantares, os petiscos, os passeios, as idas à praia, as sessões de gargalhada, as idas à bola, etc.
Um outro dia passei em Vila Viçosa, no Carrascal, na escola onde fiz a instrução primária porque o meu sobrinho João queria saber quais as janelas da minha sala de aula. Encostada ao muro que dá para a rua, do lado direito de quem olha para a escola, há uma oliveira de cujo tronco retorcido, eu e os meus amigos fazíamos o avião que nos levava pelos sonhos até às mais longínquas paragens do universo.
E já passaram quarenta anos…
Juro-vos que não dei conta do tempo passar e sei que existiram milhares de coisas que não fiz e poderia ter feito, mas prometo estar mais atento, porque só com muita sorte é que a vida me vai dar mais quarenta anos para eu viver e estar com quem amo.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Um cafezinho com… a amizade.

É sábado de manhã e o ambiente é de festa na praça maior de Vila Viçosa.
Já rebentaram foguetes pela madrugada, anuncia-se a tourada e a largada do dia seguinte, há um movimento anormalmente maior de gente, prepara-se a ida nocturna ao arraial…
Enfim, cheira a Capuchos e saboreia-se um dos mais agradáveis apelos de regresso a casa para a diáspora calipolense.
A um canto da abarrotada esplanada do Café Restauração, há uma mesa com quatro pessoas que conversam animadamente.
Há um pai de família, professor respeitado e empenhado, pessoa com militância católica muito activa sendo inclusive salmista nas celebrações litúrgicas da paróquia onde é um dos membros mais destacados.
Há uma celibatária artista plástica, mestra e professora de artes preocupada com o painel de azulejos que tem em mãos e que a traz muito ocupada.
Há uma senhora casada mas sem filhos, proprietária de um restaurante e de uma loja de artigos associados a práticas místicas e sobrenaturais, pessoa com reconhecido sucesso na leitura das cartas do Tarot.
E estou eu, este solteirão barbudo e quarentão que se dá aqui a conhecer a cada conversa à sombra das laranjeiras deste pomar virtual.
Falamos com a desenvoltura proporcionada pela saudade dos muitos anos em que nunca deixámos de pensar uns nos outros, mas em que estivemos privados de estar assim cara-a-cara, a poder usufruir do brilho dos olhares que nos complementa as palavras e lhes dá mais vida e verdade.
É possível que alguém se pergunte o que nos une no meio desta diversidade de vidas que fomos construindo pelos caminhos tão diferentes que percorremos.
Vila Viçosa? A Festa dos Capuchos? Uma manhã de sol de verão? A nossa história passada?
Todas são razões óbvias e inequívocas.
Mas há mais, há um motivo maior do que todos os outros: a amizade.
A amizade que cresceu enraizada nas muitas cumplicidades do passado desse tempo em que éramos meninos e em que brincávamos no pátio do Convento das Chagas, mantém-se no presente, menosprezando pela tolerância, liberdade e respeito, as diferenças do que temos e do que fazemos, porque para ela o que importa é apenas e só aquilo que somos.
E quanto ao ser? Quando cantamos salmos na missa, quando pintamos um painel de azulejos ou quando lançamos as cartas do Tarot, somos iguais.
Somos todos, uma parte desta gente que se realiza procurando viver intensamente a vida e fazendo dela uma festa partilhada com os outros, fazendo-o com o recurso a diferentes expressões e linguagens, apenas e só para que cada um cumpra o seu carisma e possa ser fiel ao muito que lhe compõe a alma.

domingo, 11 de setembro de 2011

A lição do medo


A foto acima recorda-me a tarde do dia 30 de Agosto de 1998, na primeira vez em que subi às torres gémeas do World Trade Center, em Nova Iorque. Guardei a foto e com ela o bilhete de 12 dólares que me possibilitou o acesso ao “topo do mundo” para ver de forma privilegiada a ilha de Manhattan, coração desta cidade que nunca dorme e que é definitivamente a cidade do mundo de que mais gosto.
Um dia há não muitos anos, numa candidatura de Nova Iorque à organização de uns Jogos Olímpicos, o lema escolhido foi o mais verdadeiro possível: “Nova Iorque – A cidade que é a segunda casa para toda a gente”.
Tenho dificuldade em enunciar os motivos pelos quais gosto de Nova Iorque. É sempre assim quando tentamos justificar pela razão o que é eleito pelo coração. Mas talvez o principal motivo seja o conforto que a cidade oferece a todos, fazendo com que as múltiplas culturas, religiões ou etnias não possam ser designadas por diferenças, sendo apenas e só, cores diferentes num painel perfeito e ilustrativo do que deveria ser o nosso mundo.
Voltei e voltarei sempre a Nova Iorque. Ao cimo do World Trade Center regressei em Março de 2011, sem ter a noção de que era a última vez que o poderia fazer.
Estava em trabalho num hotel em Berlim na tarde do dia 11 de Setembro de 2001 quando um colega irrompeu pela sala e nos alertou para umas imagens que a CNN estava a transmitir de um acidente que envolvia um avião comercial e uma das torres do World Trade Center de Nova Iorque.
Desci para o átrio com os meus colegas e juntámo-nos todos aos outros hóspedes do hotel que se encontravam em frente aos televisores, a tempo de ver o embate de outro avião com a torre gémea da primeira, entendendo que afinal o acidente era um ataque terrorista com uma marca brutal de crueldade.
Na perplexidade do momento, recordo-me de pensar nos colegas que tinha nessa altura em trabalho em Nova Iorque, de temer pelas suas vidas, e recordo o desconforto e a tristeza pela ferida aberta num espaço que afinal também já era meu.
O tempo e o espaço que nos fazem felizes são sempre adoptados e feitos nossos.
Não tive logo a noção, mas agora sei, nesse dia o mundo mudou.
A partir desse dia ficámos com uma noção imensa da nossa vulnerabilidade e de como a guerra, sobretudo a guerra imunda e cobarde chamada terrorismo, pode acontecer quando menos esperamos e a qualquer momento da nossa vida pacífica e tranquila de cidadãos comuns.
E em 11 de Março de anos depois, aprendemos através de Atocha em Madrid, como ela pode estar tão perto de nós.
No dia 14 de Setembro de 2001 apanhei um avião para fazer a viagem de regresso de Berlim a Lisboa.
Recordo-me de olhar em volta e ter medo, tal o aparato policial e militar nos aeroportos.
Ao contrário do que até aí acontecia em todas as viagens, recordo-me de olhar para as faces dos que me faziam companhia na sala de embarque, e em vez de os olhar como possíveis companheiros de lugar para uma viagem tranquila e até interessante por qualquer conversa que pudéssemos ter, tê-los olhado com medo de que algum deles pudesse ser um assassino que a todos nos fizesse explodir algures nos céus da Europa.
Quando o medo substitui assim a esperança, matamos a poesia que a vida sempre encerra em si e ficamos todos infinitamente mais pobres.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Eficiência à Portuguesa

São 10 horas e 30 minutos e eu chego à Estação dos CTT do Cacém para levantar uma encomenda.
Dirijo-me à máquina fornecedora de senhas, escolho a categoria de atendimento geral e recebo a dita com o número 94. Apercebo-me então, vendo um quadro electrónico que apita a cada mudança de número, que o último cliente a ser chamado para o atendimento geral foi o da senha 74 e compreendo então o motivo pelo qual a sala está tão repleta de gente.
Procuro um local que me permita ver o dito quadro que passa os números e não impeça a visão dos meus companheiros de sala, e inicio a minha espera.
A estação tem 8 balcões mas só 3 estão em funcionamento beneficiando da presença de uma funcionária.
A mudança dos números, sinal de mais um cliente que vai sair porta fora, é sempre antecedida pelo soar de um carimbo, que é batido com tal vigor, que mais parece o rebentamento de uma bazuca em cenário de guerra. Só que é longo o tempo de espera entre cada conjunto formado pela “carimbadela violenta” e a mudança de número.
Observo as três funcionárias e identifico perfis diferentes para cada uma delas.
A mais nova é despachada e até chama um outro número quando o cliente que acabou de atender ainda está a recolher os seus pertences para abandonar o balcão.
Há uma outra, penso que a mais velha, que é lenta e não olha para as pessoas. Atende com o olhar fixo no que deduzo seja um monitor de um computador que estará à sua frente tapado pelo balcão.
À terceira vou chamar de distraída. Quando acaba de atender alguém espera sempre uns momentos antes de chamar outro cliente, o tempo suficiente para fazer uns comentários com a despachada, que se encontra ao seu lado, ajeitar os óculos e compor o cabelo. A atender alguém, fá-lo num volume tal que nos oferece a todos a oportunidade de conhecer quais os motivos que trouxeram aquelas pobres criaturas aos CTT numa manhã de Setembro.
A determinada altura, a lenta, que tinha estado até aí a atender senhas que não eram de atendimento geral, levanta-se e desaparece.
Volta após uns 5 minutos do seu desaparecimento e quando eu levava já uns 20 minutos de espera. Começa a chamar as senhas do geral.
Aumenta-me a esperança e penso de mim para mim:
-Agora com três a atender, isto vai andar mais rápido.
Errado.
A distraída, que para além dos deficits de concentração e da voz potente também deve ser cafeinómana, informa as outras que tem de ir tomar um café e desaparece de vez. Nunca mais a vi.
A lenta, desde que regressou permanece com o mesmo cliente. Olha longamente para o seu suposto computador. Após 10 minutos passa para o computador do lado e após mais algum tempo apercebo-me que encontrou o que buscava: o registo de uma carta não levantada em 27 de Julho.
Não está mal. Sendo tão lenta não foi nada mau ter demorado 15 minutos para ir de Setembro a Julho.
Só que encontrado o registo, o cliente não ficou despachado porque ela teve de ir “lá dentro” pedir uns esclarecimentos à chefe.
Entretanto, a despachada é absorvida por uma funcionário de uma empresa que lhe leva um caixote de cartas e desaparece também do balcão.
Durante 5 minutos, ficamos todos a olhar para balcões vazios.
A minha impaciência aumenta mas apercebo-me que das dezenas de pessoas que sempre se vão mantendo no espaço, muitas delas entretidas a conversar umas com as outras e devidamente sentadas nos poucos bancos existentes, eu devo ser o único com alguma manifestação de ansiedade, pois os restantes, na sua maioria seniores, estão nas suas sete quintas, dando-me inclusive a sensação de que quanto maior for a espera, tanto melhor, pois assim sempre têm um motivo para estar fora de casa a conversar com alguém, poupando-se a ter de regressar ao seu domicilio para serem vitimados pelo Goucha ou pela estridente Júlia Pinheiro, que ainda deve ser prima da desaparecida funcionária distraída que foi à bica.
A despachada regressa, a lenta despacha finalmente o cliente de Julho e começam a chamar números a um ritmo razoável, havendo apenas a registar a chegada de alguns clientes pertencentes a essa classe tão lusitana dos “chicos-espertos”, que furam descaradamente a regra da espera colocando-se à quina do balcão e atacando com a sua arma favorita: “É só uma perguntinha”.
91, 92, 93 e 94. Coube-me a lenta em sorte.
Dirijo-me ao balcão, digo bom dia e ela, sem olhar para mim responde qualquer coisa indecifrável ao jeito de “oooon ia”, o que deduzo seja bom dia em “funcionarismopubliquês”.
Olha para o meu bilhete de identidade, sem olhar para mim e sem poder confirmar que é meu, levanta-se e desaparece, volta com a encomenda, entrega-ma, pede-me o dinheiro, recebe-o, conta-o, dá-me o troco e despede-se de mim com um amável: “Tá despachado”.
É verdade, estou finalmente despachado. São 11 horas e 20 minutos.
Demorei 50 minutos para recolher a minha encomenda, o que equivale a 3,47% do tempo do meu dia de hoje, 4,63% do tempo em que estarei acordado.
Saí da estação e peguei no carro com ganas de matar alguém.
Numa curva da estrada, passando o Tagus Park vislumbro o oceano azul, penso no dia lindo de verão, e após um diálogo interno entre o meu eu Dr. Jekyll e o meu eu Mr. Hyde, respiro fundo e penso:
- Tem lá calma. Isto é Portugal. Não te aborreças. Tu agora até vais a caminho de uma feijoada à Transmontana.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Abaixo o hambúrguer. Viva a bifana!


Engana-se redondamente quem alguma vez pense ou afirme que os Portugueses são destituídos de imaginação.
Na recente vertigem para encontrar formas extra de financiamento para o estado, têm surgido as propostas mais variadas e imaginativas, entre as quais a do célebre imposto sobre a “fast food”. A ideia seria taxar a comida rápida com um imposto adicional que não só ajudaria o estado a obter mais receita, como também funcionaria como incentivo à procura de alimentos mais saudáveis e indutores de mais saúde e melhor qualidade de vida.
Embora reconheça que ambos os objectivos são legítimos, financiamento e melhor saúde, não estou minimamente de acordo com esta medida.
Em primeiro lugar, discordo porque a grande maioria das pessoas que recorre a este tipo de alimentação, quando o faz, não é apenas por prazer e pura opção, fá-lo por este ser o tipo de comida que melhor se enquadra ao seu estilo e ritmo de vida, onde o tempo é um bem cada vez mais escasso.
Depois, numa altura em que as pessoas se confrontam com maiores dificuldades financeiras, sobrecarregar de impostos esta opção de alimentação que é para muitos um recurso e a única hipótese de adquirirem refeições minimamente decentes, é quase como prender chumbos aos pés de quem está em vias de sofrer um afogamento.
Pessoalmente não sou grande adepto desta comida, e confesso-me mais adepto do clube da bifana e da sardinha assada, mas às vezes quando a fome aperta por aqui ou no estrangeiro, quando não há muito tempo, quando quero algo que conheça o sabor e quando não estou disposto a pagar muito dinheiro por uma refeição, o hambúrguer ou a pizza são por vezes uma excelente companhia.
Hoje, dia 7 de Setembro de 2011 esteve por Lisboa um dia fantástico de sol, a fazer inveja a muitos dias de Agosto. Ao tomar o meu café pela manhã na zona de Cascais, fi-lo com a vista que aqui partilho convosco.
Perguntar-me-ão o que é que esta vista tem a ver com o tema da “fast-food” e eu tenho de vos responder que de facto não tem nada a ver.
Mas antes que alguém se lembre de taxar e carregar de impostos este privilégio de ver, cheirar e sentir o nosso maravilhoso atlântico, toca a aproveitar e a usufruir das vistas.
Com a imaginação que anda por aí…

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Rei Mono e o Senhor Sempre-em-pé

No cardápio de políticos da nossa terra, confesso-vos que há dois nomes pelos quais não nutro a menor das simpatias e a quem jamais daria o meu voto em qualquer eleição: Jardim e Santana.
Na forma, no conteúdo, no percurso e no estilo, estão ambos nos antípodas do que eu considero um estadista, não lhe reconhecendo perfil e mérito para poderem gerir ou liderar alguma causa ou instituição.
O primeiro é o populismo na sua máxima expressão em terras lusitanas.
Com túneis, pontes, auto-estradas e muita verborreia, tem ao longo de anos disfarçado uma gestão que sobrevive à custa de um anormal suporte financeiro dado pelo poder central, sempre com a desculpa de se estar a ajudar à inclusão de uma região periférica, o mesmo poder central com o qual Jardim luta todos os dias, fazendo-o papão e desgraça, numa vergonhosa atitude de quem despreza a mão que lhe dá de comer.
Não tenho nada contra apoios extraordinários e acho que a insularidade deve merecer uma atenção especial por quem está no poder, mas por favor com regras e sobretudo com respeito pelos milhões de outros Portugueses que não estando rodeados por água, estão isolados por quilómetros de indiferença e esquecimento. Um Português de Bragança é em direitos e deveres, igual a um cidadão de Porto Moniz ou da Ponta da Sol.
E depois há que não esquecer que autonomia, a tão apregoada e desejada autonomia da qual Jardim se apresenta como herói, conceptualmente, implica maior responsabilidade e independência.
Para além disso e porque considero válido o principio de que à mulher de César não basta ser, mas também é preciso parecer, jamais gostaria de ser liderado por um individuo que desfila em corsos de Carnaval e que até já se deixou fotografar em cuecas aquando da troca de roupa para poder alinhar nos cortejos do rei mono.
Santana é o oposto de Jardim porque jamais se eternizou em algum cargo e eterna tem apenas a sua inconstância.
Deputado europeu sem história, secretário de estado da cultura em mandato de equívocos de palas de estádios e concertos para violino de Chopin, presidente do Sporting sem ser campeão, presidente da Câmara da Figueira da Foz e de Lisboa, com túneis e casino mas sem Gehry e Parque Mayer, primeiro-ministro com mandato errante e de governo de caos total, líder do PSD com a maior derrota de sempre em legislativas…
É este o percurso de um homem que parece ter nascido apenas e só para povoar palanques de congressos, écrans de televisão e discussões polémicas.
E para além do dom da palavra e do discurso, reconheça-se este mérito que carrega de atravessar o deserto sempre em tempo record pois quando mal se pensa que está acabado por alguma má experiência, logo e rapidamente ele aparece em mais alguma função ou aventura.
Muito se tem falado de Jardim e Santana nos últimos dias. O primeiro pela terrível situação financeira da Madeira e o segundo pela nomeação para Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Em tempos de austeridade rigorosa e quando todos estamos a ver os cintos apertados de forma impensável para compensar os muitos anos de má gestão de quem passou pelo poder, o mínimo que se exige ao governo da República é de que não facilite em nada no grau de exigência para com a Madeira, o seu governo e o seu presidente, e por favor não nomeiem para instituições respeitadas e que exigem respeito, aqueles mesmos que um dia passaram pelo governo da nossa terra e contribuíram para nos fazer chegar até aqui onde estamos.
A credibilidade da política estará sempre dependente da credibilidade dos seus intérpretes, e, de Jardim e Santana, não queremos mais nada, muito obrigado.