segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Os poetas sonham e tiram apontamentos…


Já há muito que os sinos de Viena assinalam a meia-noite, e no quarto do hotel, com a cortina da janela não completamente corrida, eu pressinto o verde no semáforo dos peões quando as luzes dos carros que percorrem a Ringstrasse desistem por momentos de riscar a parede em frente à secretária.

Recebi os golos do Benfica, escrevi e mandei os beijos todos que o coração ditou, e entreguei-me finalmente à hora do poeta, o silêncio sem pressa que se predispõe a ser tudo aquilo que eu quiser.

A hora dos sonhos em estado vígil, que não se apagam nunca às mãos da madrugada e por capricho da memória; os sonhos que persistem.

Quantos dias habitam na noite dos poetas…

Amanhã será Carnaval e acender-se-ão luzes e máscaras sobre o racional sentido dos dias. Irão impor-se gargalhadas que morrerão depois amarfanhadas no terreiro onde as cinzas de quarta-feira se entregam ao vento.

Como se a espontaneidade feliz morasse obrigatoriamente no inverso daquilo que somos e tivesse o prazo de validade de um modesto fim de semana prolongado.

Quando as luzes suspendem os traços na parede, há Homens de todos os momentos que avançam pelo silêncio da noite cumprindo o seu destino e tomando a cidade.

Sem máscaras e sempre a sorrir, enquanto os poetas sonham e tiram apontamentos.

 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O rapaz que não conhecia a letra “a”


Quase no cimo da colina onde o moinho respira o vento que sopra do rio e onde as gaivotas vêm repousar ao fim da tarde; numa rua muito estreita, de casas com flores nas janelas e rodapé azul ou encarnado, vive um rapaz que todos acham estranho, apenas porque não conhece, e jamais conhecerá a letra “a”.

Nasceu e será sempre assim, mas aquilo que é diferente não é forçoso ser coisa ruim.

Igual a todos os outros rapazes, apenas busca novas palavras, perdão, novas expressões.

Assim, em vez de dizer que gosta de sonhar, diz:

- Eu pinto e invento o mundo. Ofereço-lhe um tom novo, que é só meu e que encontro bem no fundo.

Não se esconde atrás de nenhum biombo ou véu, e para dizer que gosta de saltar, diz:

- Eu gosto muito e brinco com o céu.

Chama a mãe e o pai por mundo, esquece as horas e foca-se nos minutos, uma rosa é uma flor, o pão é sustento, uma bola é um esférico, um desafio é um jogo, e uma derrota é um tormento

No outro dia, na aula de Português, a professora pediu uma quadra sobre a mão, fez um concurso e ele ganhou, mesmo sem poder usar tal expressão:

“Emerjo do solo, em prece,

Sou pelo céu, um grito só

Tronco que o sonho tece

Unindo o mundo com um nó”.

Encarnado é vermelho, o amarelo é desespero, o verde é verde, o azul é céu, e até uma maçã pode sempre ser um pero.

Amar é viver, amor é querer, a alma é um verso, o mar é o horizonte líquido que se une com o infinito, ter valor e ser raro, são sinónimos de ouro, e não têm nada de esquisito.

Vive feliz e contente, mesmo não sendo igual a toda gente.

E agora apenas para terminar, sempre digo que as pessoas ditas normais, e que conhecem todas as letras, nunca terão uma história assim que de si possam contar.

Quase no cimo da colina mais alta, depois de treparem pelas ruas estreitas da cidade, rapazes e raparigas, são pupilos das gaivotas escutando lições de liberdade.

 

Fevereiro é um mês raro e dedicado particularmente às pessoas com doenças raras. Deixo-lhes aqui o meu abraço.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

As cartas de amor não têm data nem hora…


Meu amor,

Escrevo-te esta carta sem data e sem hora, porque a qualquer momento que a leias, tudo aquilo que de mim ela revela, persistirá inteiro; ou não fosse o amor, ele próprio, a eternidade…

A minha vida está nos teus beijos, muito mais do que em respirar, e sobre o instante em que te conheci, eu construí a casa onde moro contigo; tomando, porém, o cuidado de numerar todas as pedras para assegurar que ela jamais se torne vulnerável ao tempo, e continue assim, eterna, cruzando comigo todos os dias do futuro.

Na sua varanda que olha o mar, há sardinheiras que se acendem nas tardes de primavera, e que se entretêm a brincar com as gaivotas que redesenham o céu enquanto beijam o ar salgado. Recostado numa cadeira de assento de buinho, construída pelos meus avós, eu agarro o tempo como se fosse linho, e sobre ele, bordo letras azuis em versos de formas que só o desejo ensina.

Pode ser que o silêncio me revisite enquanto estiveres longe, mas aí eu porei a mesa com essa toalha, e deixarei que a memória se solte e me venha beijar à vontade.

Eu sei, meu amor, que a solidão fala comigo, tal qual as nuvens inscrevem poemas de sombras na superfície do mar.

E se não fosse a saudade, se não existisse em mim esta ânsia de te procurar, como poderia eu saber que o mundo é imenso, mas que é muito maior a vontade de te abraçar?

Por isso, e pelo amor, cruzaremos juntos, Fevereiro e o tempo todo, o Outono, a Primavera das nêsperas maduras; poremos letras de canções, na música do vento e da chuva, bailaremos viras, fandangos, malhões; tropeçaremos na pedra lavada do ribeiro, beberemos a água gelada das fontes e deixar-nos-emos cair entre giesta e rosmaninho nos dias que se espreguiçam pela Páscoa, por Abril e pela liberdade…

Meu amor, e mesmo que demores, eu prometo não chorar por ti, de verdade, e prometo que de todo o meu corpo farei um coração que te espera; até das mãos vazias, para que quando chegues, não percamos tempo e soterremos rapidamente a saudade.

Meu amor, eu amo-te muito para lá de onde só os poetas entram e nascem as palavras de amor.

Mil beijos.

Teu,

Francisco

sábado, 11 de fevereiro de 2017

A minha casa com flores


Trouxemos na mochila uma música de Einaudi, há muito em pausa, tal qual o beijo que pendurámos de um minuto triste e saliente, também lá muito para trás.

Tomámo-nos as mãos para podermos repousar da longa viagem enquanto as nossas palavras se cruzavam com o Chá de Rooibos, que, em contramão, se deixava guiar pelos desígnios do desejo e, aos poucos, nos ia tomando os lábios que sorriam no mesmo tom rubro dos morangos.

Quisera eu agora tocar-te assim como a chávena branca cumprindo o beijo roubado à pausa e trazido a tiracolo entre a "tralha" de tanta história.

Talvez o amor não tenha mesmo contramão por não ter regra, sendo como é propriedade da alma e marinheiro livre a navegar pelo ímpeto dos sentidos; e talvez aquele minuto saliente não seja mais do que uma esquina com que a razão nos tentou querendo rasgar-nos o tempo de sermos nós.

Depois reparo que o chá arrefeceu quando eu já repouso na casa que o teu olhar me oferece. Finalmente a minha casa.

As palavras também adormeceram para nos deixarem a sós com o beijo que maturou em Outonos de saudade.

Lá atrás persiste apenas uma ténue marca no tempo, uma cicatriz da razão e do silêncio, um detalhe que os nossos sorrisos disfarçam agora por entre o amor maior.

O amor és tu, sim, o verde inscrito no amanhecer, a minha casa com flores em vez de um muro…

E aquilo que melhor poderá definir um Homem é a intensidade com que ele se propõe viver todos os dias inscritos no futuro.

 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Ausência


Nós sabemos bem que a ausência impõe a dor que persiste sobre a própria morte, tornando-nos cadáveres dentro do corpo consciente e que ainda respira.

Aquele adeus ao fim da tarde depois de um chá frio no Chiado...

O adeus é uma prece ardente ao tempo, e eu acreditei que ele seria capaz de me resgatar do teu mundo onde às vezes me sentia perdido.

Julguei ser fugaz o silêncio que eu trouxe desse instante, e que a solidão se dissolveria aos poucos nas lágrimas das noites passadas de braços vazios.

Pelo acaso, passei por ti às vezes nas ruas da cidade, e em todas ensaiámos ser desconhecidos, mas sempre por entre a doce traição dos olhares.

Passaram-se anos, demasiados anos segundo a dor, o silêncio e a solidão que persistiram; até há pouco.

Eu nunca deixei de estar sentado no teu mundo, ali sozinho bebendo as palavras de Eugénio e de Sophia nos livros que me deixaste à cabeceira.

O amor quando nos nasce assim do sonho é impenetrável ao tempo. Nada mexe como numa manhã de verão em que não corra o mínimo sopro do vento.

E eu quero ficar para sempre aqui sentado ao pé de ti, porque mesmo que às vezes me sinta perdido pelas horas que parecem não ter fim, eu sei meu amor que quanto mais duro e difícil for o caminho, melhor gosto terá o instante de chegar... a mim.

 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

É hora de resistir


A terra onde brincámos e de onde o limoeiro tomou alento e inspiração para namorar com o sol, guardará para sempre a memória dos traços que lhe oferecemos quando usávamos o pedaço de um tronco ou de uma pedra, para dar forma ao mundo que inventávamos.

No nosso sonho não cabiam fronteiras.

E a casa de tijoleira ao canto do bar da escola guarda ainda o eco dessas tardes em que o pudor sucumbia perante a força dos sentidos, deixando que andasse à solta, um jeito tão nosso e tão livre de falar de amor.

Saltávamos as convenções e jurávamos jamais deixar que as fronteiras se interpusessem entre os nossos beijos.

Quaisquer fronteiras.

E o Deus que levávamos connosco para a margem das ribeiras onde o poejo se espreguiçava de odores pelas manhãs do sul, era afinal a expressão maior da vida e desse mesmo amor.

Um Deus lembrado em palavras e acariciado por Padre Nossos, mas que jamais será bandeira de alguém ou de alguns, porque Ele é o universo inteiro.

Acho que nunca nos passou pela ideia que o vento forte regressaria, como descrito nos livros de História, para apagar os contornos que tomávamos pela liberdade de tudo aquilo que ousávamos sonhar.

Também jamais pensámos que alguém nos traísse os beijos, impondo-lhes regra de género, credo e cor; ou que alguém separasse Deus do Seu projeto único de um eterno amor.

Homens de mão esquerda sobre a Bíblia e a mão direita à solta a matar a liberdade e a trair a fé.

Oxalá a nossa fé persista e consiga galgar connosco este tempo que rasga a terra com os alicerces dos muros e das fronteiras, matando à fome a esperança... e os limoeiros.

É hora de resistir.