sábado, 30 de novembro de 2013

A lição de uma velha árvore já morta

Gosto destes dias em que a visão do sol nos alimenta uma secreta ilusão, mascarando o típico frio de um Outono que a copa amarelecida ou avermelhada das árvores denuncia a qualquer instante.
No campo dispensamos o calendário, e pelos aromas, pelas cores e por estas sensações, conseguimos sempre saber qual a estação do ano em que nos encontramos.
Na casa de Vila Viçosa, quando olhamos o Terreiro do Paço pela janela da cozinha ou pela varanda, uma velha árvore implantada no quintal da Vizinha Clotilde, sempre nos ajudou nesta tarefa de aferição do tempo, porque no Inverno tinha os troncos à mostra, na Primavera revestia-se de folhas verdes que cairiam depois já amarelecidas no Outono, e nos dava centenas de alperces doces durante o Verão.
No quintal todas as árvores tinham uma história: o pessegueiro rasgou-se ao meio por acção dos helicópteros que trouxeram o Papa em 1982, ano em que a nespereira deu fruto que parecia milagre, e esta árvore, contava a vizinha Clotilde, tinha sido trazida de uma outra existente num quintal de uma casa em Lisboa onde vivia uma sua prima, casa onde pelos vistos tinha nascido o Américo Tomás.
As histórias das árvores ou afinal, pedaços das nossas histórias criadas à sua sombra e na bênção dos seus frutos.
O ano passado só comemos meia dúzia de alperces e logo de seguida a árvore deixou-se morrer na sua pose imperial, em pé. Já não teve qualquer folha este ano e dela, mais do que dos frutos, sentimos uma enorme saudade da sombra que sempre nos proporcionava nos dias mais quentes de verão.
Continuou no entanto a oferecer-nos os troncos para eu poder colocar uma pequena roldana e brincar com os meus sobrinhos, e continuou a ser o trampolim para os gatos da vizinhança que gostam de nos visitar aqui no primeiro andar e com quem partilhamos alguns “petiscos”.
Esta semana teve de ser cortada por razões de segurança e já não se interpõe mais entre mim e a alva parede de cal da casa da frente que nunca tinha visto assim tão próxima. Senti saudades dela hoje de manhã ao acordar, e senti a sua falta entre mim e um dia solarengo de Outono.
A árvore cumpriu o seu ciclo de uma vida que se cruzou tantas vezes com a nossa própria vida, e hoje, mesmo já morta e apenas ressuscitada na minha memória por efeito da saudade, ensinou-me a pensar como a grandeza da criação está muito para lá do próprio Homem e como “todas as vidas” para lá do Homem nos devem merecer o maior respeito e cuidado.
E não é só pela utilidade que podem ter para o próprio Homem.
Só que andamos tantas vezes distraídos e demasiado focados em nós num estranho comodismo que tem efeitos devastadores.
Eis a lição de hoje, a lição de uma velha árvore já morta.
E eu?
Poeta? Romântico? Ambientalista?
Não.
Apenas crente na vida e em Deus, que é como quem diz uma e a mesma coisa.
E um Homem do campo, sempre.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O aroma intenso da mais perfeita flor do campo

Sei que nunca ninguém me olhará assim na bênção desse amor que me impele a abraçar-te em cada instante, quando sorrimos os dois, e o teu sorriso é cimento da minha fé e o meu sorriso me devolve ao conforto da criança que me recuso sempre a deixar de ser junto a ti.
Perfeitos são os dias em que a manhã me traz o teu olhar e ao redor do café e do pão, doces são as palavras que sempre falam de nós e soltam todos os afectos, as palavras que trazem para redor da nossa camilha que tem vista para o Terreiro do Paço, todos aqueles que ambos tanto amamos.
Depois gosto quando me vês e comprovas se o meu vestir está alinhado com o frio ou o calor da nossa Vila Viçosa, e mais uma vez me deixo ser menino quando me perguntas:
- Levas lenço de assoar?
Ou:
- Tens moedas para o ofertório da missa?
As duas perguntas que nunca falham, e que, peço a Deus, tarde ou nunca me faltem, mesmo sabendo que já só lhes consigo responder com um breve sorriso e sem palavras.
Sabe bem regressar a casa quando já fumegam sobre a mesa as Sopas da Panela ou as Sopas de Tomate, as minhas preferidas, as que têm o teu toque, e que por terem o gosto do teu amor por mim, nunca ninguém as saberá preparar assim tão perfeitas.
E a tarde é melhor quando a passamos juntos e à conversa, quer aguardemos o momento do chá ao redor da braseira acesa, ou então nos demos o braço na alegria de algum passeio que sempre começa com Ave-Marias na Senhora da Conceição.  
Quando cai a noite e já depois do relógio da torre do Paço calar as horas e todos os quartos, contigo o serão tem o sentido perfeito de estar em casa… e tudo faz mais sentido.
E eu sou mais uma vez, sempre, e como o Zé Artur, um dos teus eternos meninos.
Hoje, quando o sino chamar para a primeira novena da Senhora da Conceição, o momento em que nasceste há setenta e um anos, quero estar contigo e dar-te um beijo.
Um beijo de amor e de uma eterna gratidão por seres tão só a melhor mãe de todo o universo.
Amo-te muito.
Parabéns mãe.  

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Os anjos que ainda respiram

Há uma velha lareira que o tempo e o fumo pintaram de negro, e há um madeiro gigante que se deixa consumir lentamente por um fogo sem chama e perfuma a casa de um conforto alinhado com o sol que brilha intenso para lá das vidraças.
O brilho intenso do astro-rei por sobre o Atlântico aqui tão perto e que resplandece de azul na ilusão de um dia que é afinal de frio e de um Outono quase Inverno.
As paredes têm a cor de um papel já gasto, e gastas estão as gravuras espalhadas pela sala, mais pelos olhares que dias inteiros repousam e se abandonam sobre si, do que pela acção do sol nos dias em que brilha assim como hoje o faz.
Na velha mesa quadrada e com brilho de verniz que está colocada no canto junto à janela, repousa um velho baralho de cartas que tem ar de tudo menos de sorte, e um jornal que ali abandonado já perdeu a altivez da sua melhor cor, e carrega as palavras de tantas histórias de muito antes de hoje. Há muito se perdeu a conta ao número de vezes que as suas páginas foram revisitadas naquele lento passar de quem não lê e não quer ler nada, porque só quer mesmo passar o tempo.
E o tempo passa por ali ao ritmo lento dos Homens que repousam o olhar num sono tranquilo e que sorriem no seu dormitar, por certo embalados pelos sonhos que sempre se recusam a morrer; porque acelerado, só o tricotar da Senhora D. Aurora que sofregamente se atira a um novelo de lã de cor azul, da cor do mar, que cedo será Natal, e a camisola para o bisneto que imagina ter, rapidamente terá de estar pronta.
O velho soalho dispõe-se a fazer ressoar os passos naquele templo de silêncio que reduziu as palavras a um monte de letras alinhadas num jornal amarelecido e abandonado junto à janela. Talvez em breve, e quando chegar o chá que antecede o pôr-do-sol, regressem as palavras que carregam memórias de tanta vida e tanta gente, palavras soltas e quantas vezes sem sentido, palavras ditas com gosto a saudade, que não há maior saudade do que aquela que nasce da solidão de estar aqui.
Não fosse o bolo que chega em cada aniversário, e os dias seriam iguais, como iguais seriam as idades de toda a gente, que pouco a idade importa por aqui nesta confortável mas triste sala de uma tão solitária espera, o local onde a morte sempre passa para recolher passageiros de entre os homens e mulheres que apenas carregam memórias, porque de afectos, há muito lhes esvaziaram tudo e também a bagagem.
A morte tratada por tu na proximidade de um estranho estatuto de família.
Quando o sol partir e para lá da vidraça o mar não passar de uma memória, o velho rádio ganhará voz e soltará a oração de um terço vivido por aqui apenas no acariciar das contas já muito gastas, que poucas forças carregam os lábios para acompanhar o ritmo de tamanha fé, a fé da gente que de Deus se sente apenas a um passo tão curto e tão breve…
A fé da sabedoria dos velhos… os anjos que ainda respiram.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Os abutres na vil caçada ao subsídio

Ao melhor jeito de Lucky Luke, o cowboy que é mais rápido a disparar do que a sua própria sombra, antes da chegada do recibo de vencimento ou de qualquer ida ao multibanco com acesso ao meu extracto bancário, fiquei a saber por uma funcionária do meu banco que na passada sexta-feira me tinha sido pago o subsídio de Natal que eu optei por não receber em duodécimos, um verdadeiro luxo num país com elevados índices de desemprego e onde as claras dificuldades financeiras da maioria da população perspectiva um Natal mais carregado de dificuldades do que de bacalhau ou bolo-rei.
Actualmente em Portugal uma das situações mais pornográficas com que somos confrontados (e a “Casa dos Segredos” quando comparada com isto até parece o “Clube das Virgens Inocentes”) é o despudorado ataque aos subsídios de Natal e de Férias, em grande parte pelo Estado que se inspira na Troika e não consegue controlar a sua própria despesa, mas também pela banca e afins.
Como se entre Estado e banca existisse assim uma fronteira muito marcada e não fossem hoje uma e a mesma coisa na vil e explosiva cumplicidade que há muito casou o poder com o dinheiro?
Mas voltando ao meu subsidio, depois de morto 49% do seu valor às mãos de IRS, taxas e sobretaxas, o “meu banco”, o tal do “aguenta, aguenta”, resolveu como abutre voar por sobre o “resto”, atacar em força e apoderar-se rapidamente dele.
Mandou então a dita funcionária convidar-me para fazer aplicações financeiras que me foram apresentadas na forma de um menu, do qual eu simpaticamente recusei todas as ofertas até porque o dinheiro em causa já tem destino no contexto da apertada e correcta gestão de meios da minha economia doméstica.
O tal planeamento e a gestão correcta de recursos que o Estado não consegue copiar.
Mas o abutre não desistiu…
Segunda-feira recebo uma nova mensagem a convidar-me à compra de acções dos CTT com a garantia de que tirarei do investimento uma rentabilidade extraordinária.
Recuso novamente e volto a dar a mesma justificação durante a resposta em que ainda consigo manter algum tom de simpatia.
Mas quem é que diz que o abutre desiste facilmente quando voa sobre uma presa?
Terça-feira é dia da chegada de novo e-mail e desta vez acompanhado de um folheto em que me é proposta a compra de garrafas de vinho da Quinta do Crasto a uma média de 33 Euros por garrafa. Não se desse o caso de eu querer adquirir uma maior quantidade de vinho, mandam-me também em anexo todos os mecanismos de acesso ao crédito a que eu posso recorrer salientando os juros fantásticos.
Continuam os estímulos ao crédito bancário para coisas tão essenciais à vida como… o vinho.
Já não respondi para não ter de ser inconveniente na forma e no conteúdo da mensagem para a funcionária que faz o que lhe mandam fazer e que também é por certo uma das vítimas do “aguenta, aguenta”.
E o silêncio já é por si, e neste caso, uma forma de desprezo.
Está a passar a Quarta-feira e ainda não recebi novo e-mail, mas temo que da perseverança dos meus interlocutores ainda possa vir a caminho qualquer proposta para a compra directamente ao banco, de alheiras, polvo, peru, aletria, arroz doce, bacalhau, fofos, broas castelares, filhós, sonhos de abóbora, bolo-rei ou até couves.
Mantenho-me na expectativa e sobretudo vigilante para defender esta porção de dinheiro que restou depois do ataque legalizado da pirataria do Estado que me tira cada vez mais para me dar cada vez menos, com uma nova temporada da saga “Os dias do desespero” já aprovada para 2014 por via do Orçamento de Estado, essa “novela” que mata definitivamente o espírito de Robin Hood e coloca o roubo aos pobres no suporte à loucura dos “ricos” e dos bancos com dimensão de tasca (com todo o devido respeito que reconheço dever ter para com as tascas).
Hoje ao chegar a casa deparei-me com um panfleto por debaixo da porta que tem como destaque: “Será que os mortos podem voltar a viver”? Eu não iria tão longe pois bastar-me-ia saber se os vivos o poderão um dia voltar a fazer.
Relativamente ao banco, e se for caso disso lá terei de mandar dizer ao senhor Ulrich que “aguente os cavalos” e me deixe em paz até porque será só uma questão de tempo: entre IVA, portagens, imposto sobre combustíveis, taxas moderadoras, etc; todo o dinheiro acabará por chegar às suas mãos e às dos seus amigos.
Mas deixe-me pelo menos ter a ilusão de que serei eu a “cozinhar” o meu Natal, já que infelizmente e à partida, muitos há que não o poderão fazer.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

O intenso e eterno sabor doce que têm os dias de todos os sonhos

Nas muitas vezes que as obrigações profissionais me levam ao Hospital de Santa Maria, não resisto nunca a olhar para a Faculdade onde entre 1984 e 1989 me fiz farmacêutico.
O “desenvolvimento” implantou betão no espaço que então era ocupado pelas árvores de generosas copas que foram nossas cúmplices nesse tempo em que o microondas do bar de Medicina Dentária, por ser o único na região, era uma atracção que motivava verdadeiras peregrinações em busca de um folhado aquecido; o Professor Nascimento lançou uma campanha para que cada um de nós adoptasse um buraco do asfalto e assim melhor pudéssemos circular entre o Anfiteatro, o “Supositório”, o “Galinheiro” e o “Castelinho”; as senhoras da biblioteca eram insuportáveis com o seu “meninas pouco barulho”; o Sr. Samju era o rei das fotocópias; fazíamos batons nas mesmas formas metálicas que serviam para fazer supositórios; ir ao ISCTE era o Top da Modernidade pela possibilidade de nos cruzarmos com o Miguel Esteves Cardoso; o almoço decidia-se entre a Cantina Nova e a Velha, com esta última a ser mais atractiva pela possibilidade de uma refeição macrobiótica; a Teresa Salgueiro já afinava a voz para cantar uma Lisboa moderna que nós encontrávamos à noite passeando nas vielas até aqui quase proibidas do Bairro Alto; o Metro só ia até Entrecampos e nós conversávamos muito enquanto descíamos ou subíamos a Avenida das Forças Armadas, ousando parar por vezes para um café com natas na geladaria Pindô…
E um tempo em que saboreámos desse prazer imenso e doce que tem sempre a partilha dos nossos maiores e melhores sonhos.
A liberdade não tinha chegado há muito, a “Europa” estava a chegar, e tudo parecia rimar com essa vontade férrea que não via limites no impulso de mudar o mundo e construir algo de magnífico sobre a herança brilhante que os nossos pais, os reais inventores da liberdade, nos passavam diariamente.
Sentíamos força para acreditar que por nós nada ficaria igual e tudo ficaria infinitamente melhor.
Até porque havia essa amizade grande que nos ligava, que a todos tornava mais fortes e que a todos acolhia num espaço de família porque feito de intensos afectos.
Passaram-se décadas sobre esses anos que a vida nos vai mostrando que foram dos melhores das nossas vidas, vamos aqui e ali encontrando esses colegas que as cumplicidades fizeram amigos e vamo-nos certificando nesses encontros do ponto em que vai a tarefa de “mudar o mundo”.
Reencontrei a Cristina há algum tempo quando as nossas duas empresas nos envolveram num projecto comum. Fizemos uma festa pela alegria de nos voltarmos a ver e sobretudo por nos certificarmos de que a “nossa energia genética” continuava activa neste cumprir dos dias e torná-los intensamente felizes.
Mostrou-me orgulhosa a foto dos seus quatro filhos rapazes e de como lhes estava a passar essa herança e esse gosto pelos sonhos que por certo perdurariam no tempo.
E passava-lhes também a garra e a força pela forma como lutava intensamente contra um problema de saúde que poderia ser grave e que já estava presente e algo visível, talvez em tudo, excepto nesse sorriso que se exprime pelo olhar muito mais do que pelos lábios.
Soube hoje de manhã que a Cristina partiu ontem exactamente no dia em que cumpria o seu 47º aniversário, a minha idade, a nossa idade.
O seu sorriso não morrerá jamais e brilhará para mim por entre as memórias dos nossos sonhos quando eu passar pela Cidade Universitária e continuar a ver as árvores das sombras cúmplices desses anos em que ousámos ser jovens diferentes.
Continuará viva sobretudo na vida dos seus quatro “rapazes” que ainda há pouco tempo no Facebook designou como os seus braços direitos e esquerdos, e, digo eu, quem diz braços diz um enorme coração.
E brilhará com a intensidade que no céu sempre têm as estrelas mais importantes.
Nós continuaremos por cá e por sobre a saudade, a construir os dias dos sonhos e do querer, sabendo que um dia iremos todos brilhar juntos, nesse momento em que nos reencontrarmos para retomar a conversa e o riso que por agora só ficam momentaneamente suspensos porque Deus insiste sempre em chamar para junto de si os que são grandes, os que são verdadeiramente maiores.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Honestidade, coerência e democracia

Só com a ajuda do Google consigo identificar o dia em que durante a campanha para as primeiras Eleições Presidenciais pós revolução, vi o General Eanes num pequeno comício em Vila Viçosa. Foi ao inicio da tarde do dia 18 de Junho de 1976, horas antes do célebre comício na Praça de Touros de Évora e do seu muito célebre percurso em pé no tejadilho de um carro enquanto ecoavam balas na zona do Jardim Público.
O palco em Vila Viçosa estava montado junto à rotunda da Fonte da Praça e de costas para a Igreja de São Bartolomeu. Desde as janelas da casa do meu amigo Manuel tive uma visão privilegiada para o acontecimento e para os distúrbios que começaram antes mesmo da chegada do candidato com trocas de socos, e algum sangue à mistura, entre os seus apoiantes e os de Otelo Saraiva de Carvalho.
Do alto da janela e sobretudo do alto dos meus quase dez anos só me recordo de ter achado que para herói ele era demasiado franzino. E como ousava um homem com aquele aspecto frágil vir falar de forma tão convicta de democracia numa terra então demasiado aquecida por outros “valores”?
Ganhou as presidenciais e regressa a Vila Viçosa, e aí recordo-me perfeitamente da data, no dia 1 de Dezembro de 1980. Homenageou D. João IV na sua estátua no Terreiro do Paço, falou ali mesmo à população, e quase se cruzava com o General Soares Carneiro que exactamente á mesma hora fez um comício no Cine-Teatro que então ainda não se chamava Florbela Espanca.
Três dias antes da morte de Sá Carneiro, Vila Viçosa esteve no epicentro das presidenciais, e o General Eanes voltou a falar de democracia e da consolidação da mesma, politicamente no mesmo sítio onde sempre esteve, embora desta vez o perigo para a sua reeleição viesse da direita.
Então, do alto dos meus catorze anos, já consegui reter melhor as suas palavras, e entende-las.
Foi reeleito para o seu segundo mandato.
Fui hoje buscar estas minhas memórias do General Ramalho Eanes no dia em que lhe é prestada uma homenagem nacional e através delas encontrei desde logo uma das suas grandes virtudes: não importa a direita ou a esquerda, importam sempre as nossas convicções e a total coerência com os nossos valores.
Não importa contra quem lutamos, importa pelo que lutamos e a força com que o fazemos.
E os heróis até podem ser franzinos de corpo porque o que realmente importa é a grandeza que lhes vai na alma.
Fiz simultaneamente o exercício de tentar encontrar alguém que tendo ocupado um lugar de relevo na hierarquia do Estado, pudesse ser hoje uma referência clara e inequívoca para Portugal.
Por uma razão ou por outra, não arranjei ninguém que se lhe equipare nesse estatuto.
O General Eanes carrega a história da luta pela implantação real e efectiva de um regime democrático em Portugal, cultivou sempre a honestidade, nunca andou atrás de patrocínios para benefícios pessoais, familiares ou outros, e jamais mergulhou nessa sôfrega ambição cega por cargos, pelo poder e pelo engrossar das contas bancárias (directas ou indirectas como por exemplo, via fundações), tentações que tantos “santos” têm feito cair dos altares da pátria lusitana.
A homenagem é pois mais do que merecida, mas deveria ser muito mais do que isso, e ser uma inspiração para quem hoje assume o poder ou quem se prepara para o fazer pois vai demasiado escasso o exercício da honestidade e do real respeito pelo povo eleitor, essa raiz mais profunda da democracia. 

sábado, 23 de novembro de 2013

O inferno “d’antes” e de agora

Se este país já vai sendo ele próprio um inferno, porque o que resta de paraíso refere-se apenas à componente fiscal e destina-se a um grupo muito selecto e altamente elitista, não é difícil escolher a que será a imagem mais infernal da semana.
E aí, imaginar a Margarida Rebelo Pinto e o Prof. César das Neves a brindarem com Pepsi a uma mesa de um restaurante de bifes gerido pela Isabel Jonet, estabelecimento dedicado a uma clientela de âmbito muito familiar e tendo como relações públicas a Bárbara Guimarães, um espaço decorado ao jeito de marquise com fotos de Passos, Portas, Cavaco e Maria, Seguro, Sócrates… num revisitar da Família Adams, e onde os plasmas distribuídos pela sala vão transmitindo a Casa dos Segredos e os programas da Cristina Ferreira, da Júlia Pineiro, do Jorge Gabriel e do Nuno Eiró a apresentar o Leonel Nunes e o seu êxito “Porque não tem talo o nabo?”… ganha a qualquer outro inferno que possamos imaginar.
E o que restava de paraíso?
Os anjos da guarda (assim como os da polícia) fizeram greve, manifestaram-se e foram trepar a escadaria que dá acesso aos deuses instalados nos seus tronos, ameaçando-lhes o conforto. Comprovou-se mais uma vez que só Jesus os consegue pôr na ordem mas mesmo esse é só um, anda entretido com a “Champs” e até acabou em tribunal e condenado a um mês de ausência da “catedral”.
Os arcanjos celestiais, Miguel, Rafael e Gabriel, renderam-se e tomaram todos, o apelido “Carreira”, pelo que as aleluias e os glórias foram todos trocados por ritmadas baladas de fazer chorar as pedras da calçada e fazer enlouquecer as “Marias” todas da terra, virando as peregrinações mais para os Coliseus ou para o Pavilhão Atlântico do que para qualquer santuário nacional de maior ou menor relevo.
O purgatório, que ainda permitia alguma esperança de paraíso após alguns anos de subsídios de Natal e Férias, foi desmantelado por recomendação do Memorandum de Entendimento com a Troika e substituído directamente pelo inferno, com o objectivo de equilibrar as contas públicas.
Em auto de fé onde se esturricaram os professores em processos sem culpa formada, os “doutores da lei” aproveitam o fogo e “mataram” juízes na praça pública, e o juízo final (do orçamento e não só) é agora assegurado pelos financeiros que a todos aplicam a pena máxima do sofrimento e da escassez, condenando-nos ao “aguenta, aguenta”.
Milagres? Já não há, à excepção da raspadinha, do Euromilhões ou das chamadas de valor acrescentado que as televisões convidam a fazer directamente para os seus cofres.
Santos? Continuam por cá mas agora sobretudo os membros do ramo Angolano da família e muito mais entretidos a comprar empresas e lojas de luxo na Avenida da Liberdade, do que a fazer qualquer outra coisa em prol do desenvolvimento do povo.
Velas? Continuamos a usá-las mas cada vez menos nos altares pois acabam por nos fazer muito mais falta em casa para nos oferecer alguma claridade quando os Chineses da EDP nos mandam cortar a electricidade por falta de pagamento.
E neste deserto (de ideias e de esperança), com o povo em fuga e sem que qualquer “mar” (vermelho ou de qualquer outra cor) se abra para nos deixar passar, não admira que um homem de trinta anos que marque três golos num jogo de futebol seja convertido numa estátua dourada, o “bezerro de ouro” do século XXI.
No fundo, aquilo que nos faz falta, mesmo, e aquilo que realmente pode fazer a diferença a nosso favor, é um Moisés que desça do monte com as tábuas da lei (não confundir com os decretos assinados por mentecaptos) e nos conduza até à terra prometida fazendo-nos esquecer os tempos de escravidão da Alemanha, perdão, do Egipto.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Zé Maria

Já que gozo da fama de ter boa memória (de elefante, segundo o nosso amigo Manuel), com toda a legitimidade tiro dela o proveito, e desde muito cedo me recordo de te ver pela nossa Vila Viçosa.
E talvez a memória mais longínqua me venha da missa das dezoito horas de domingo na Igreja de São Bartolomeu que ambos frequentávamos com as nossas mães. Já nem sei há quantos anos e acho até que só eu é que me recordo dessa missa.
Desde aí fomos crescendo e foi mais tarde no grupo Sementes de Esperança e nos Convívios Fraternos que acabámos por nos cruzar de uma forma mais intensa e demos lugar à amizade…
Tu tocavas viola e quase nos davas com ela na cabeça quando as nossas vozes (de cana rachada) frequentemente saiam do tom; fazíamos teatros e tu até apresentaste uma réplica do “1,2,3” que foi ganha pelo meu pai em parceria com a mãe dos manos Fradique; imitámos o Herman na "Jaquina, Jaquina, Jaquina", em que eu fazia a Assalariada Rural e tu a Doméstica; fazíamos letras alinhadas com o Rock lusitano da altura e acabávamos a cantar coisas do género: “E não me irrites oh oh, e não me irrites oh oh, se não… eu mordo-te uma orelha”; dançávamos nas festas de garagem por entre os desgostos de amor das nossas amigas; nas camaratas dos convívios e após a ingestão de feijoadas, atribuíamos ao Almeida Garret obras que ele definitivamente não tinha escrito…
Depois fomos estudar para Estremoz. Íamos de automotora com assentos de madeira e disputávamos o lugar perto do motor por ser o mais quente, passávamos as madrugadas à conversa no “Águias d’Ouro”, jogávamos matraquilhos no “Convívio”, e não havia vez nenhuma que passássemos pelo túnel antes da estação, sem que um de nós roubasse o chapéu que a Guida Paulino usava para ser moderna…
Casaste com a Manuela e foste viver para a casa onde tive as melhores sessões de “Trivial Pursuit” (e tu sempre te recusaste a aceitar que o que dá a mostarda é a mostardeira), e recordo-me de estarmos na esplanada da “Cambaya” aí pelo verão de 1991, a ver a pequena Marta, em fase pré-parto, a dar pontapés que sobressaiam no vestido da mãe, uns anitos antes de eu inventar títulos de “Barbies” que a deixavam louca ou de lhe chamar “Marta Gouveia – Miss Portugal 1979” e ela me responder: “eu não sou Golveia”…
Foste estudar para Faro e vieste de lá engenheiro, partilhámos viagens e muitos fins-de-semana, comemos e bebemos como ninguém consegue fazer uma ideia, cimentámos todas as nossas cumplicidades de vida, de fé…e sobretudo, e isso ninguém nos tira, demos das melhores gargalhadas que é possível dar.
Cumpres hoje cinquenta anos.
Sei que o melhor que te posso oferecer para além da minha amizade que é imensa, que me enche de orgulho e que será eterna, são estas memórias que nos fazem sorrir e, quiçá aqui e ali, fazem aflorar ao rosto algum vestígio húmido de saudade.
És um dos melhores exemplos de perseverança que carrego na minha existência e admiro-te por essa abolição da palavra “desistir” que fizeste na tua vida, ao mesmo tempo que “lutar” se tornou o teu verbo favorito e mais frequente.
Sei que carregas os genes da tua mãe, por certo a pessoa que conheço que mais se aproxima da heroína a que um dia Bertolt Brecht designou por “Mãe coragem”, tens o privilégio de partilhar a vida com uma grande mulher e tens uma filha fantástica que vai dar continuidade a esse ramo dos “Coragem” que tu próprio encarnas.
Sei que o próximo meio século vai ser para ti um sucesso porque se és bom a pintar com carvão e aguarela, és muito melhor a fazer da tua vida aquilo que ela é: uma obra-prima.
E despeço-me com aquele abraço de parabéns, informando-te que estás dispensado de imediatamente a seguir à leitura deste texto, cantares a tua costumeira:
“É boa, é boa, é boa sim senhor, se não sabes outra melhor canta essa que essa é boa, é boa…”
Até domingo para a festa do cozido.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Pedro Álvares “Ronaldo” e a (re) descoberta do Brasil

Já está. O Ronaldo demonstrou ser melhor a tratar as bolas do que os Suecos produtores de almôndegas e o Paulo Bento provou que monta estratégias de vitória de uma forma muito mais eficaz do que os senhores do IKEA na hora de montar psichés de pinho, e por isso… vamos ao Mundial de Futebol que no próximo ano se realizará no Brasil.
A nação vibrou com o feito, embora talvez com menos entusiasmo do que é normal nas vitórias dos clubes, porque isto de eu ganhar e o meu vizinho também, não tem lá muita graça. Vamos fazer pirraça a quem? E vamos assobiar para onde? Para a porta da Volvo? Da Atlas Copco? Do próprio IKEA?
Perante os festejos logo se levantou também um coro de críticas ao jeito de tragédia e com acusações de alienação.
Com a crise que vivemos como é possível que alguém possa festejar e gritar golo? Como se o momento exigisse que nos fechássemos todos numas caves e envoltos em panos negros a escutar em perfusão sonora os discursos do Jerónimo de Sousa, da Heloísa Apolónia ou da Catarina Martins.
Por favor, a forma como o Ronaldo dá pontapés na bola pode ser muito mais inspiradora na hora de dar pontapés nas ditas dos patrocinadores da nossa crise, mas claro, se lhe encontrarmos as bolas, pois é coisa que neles raramente se encontra no sítio.
Como se o facto de festejarmos a vitória num jogo de futebol nos fizesse esquecer que há o Passos, o Portas, o Orçamento de Estado e os cortes que nos deixam mais pobres?
Estão todos infelizmente tão presentes que uns golos e uns goles de cerveja até servem para nos aliviar a dor.
Não deixa também de ser irónico, ver os pretensos defensores do povo a passar-lhe um atestado de estupidez assumindo que o futebol poderá fazer esquecer tudo o resto. O povo é inteligente e sabe distinguir os territórios onde se movimenta. Que o digam alguns políticos após as últimas autárquicas?
Do outro lado da “barricada” e perante os festejos do Ronaldo, outro coro se levantou desde logo: é tão vaidoso!
Na Antena Aberta que há pouco escutei na Antena 1, um ouvinte Português afirmou desejar o pior para Portugal no Mundial do Brasil e odiar o Ronaldo porque ele nunca fazia adeus ao povo quando ia com os colegas no autocarro da selecção.
Por favor, por mim ele até pode ir a jogar às cartas com a Irina no banco de trás.
Num país de baixa auto-estima, o mínimo de amor-próprio é facilmente e desde logo confundido com vaidade. O Ronaldo é mesmo bom, tem consciência disso e desfruta naturalmente desse benefício de ser o melhor do mundo. É normal.
Patético seria o homem dizer que era bom e depois ser realmente péssimo, por exemplo, a figurinha que o Sócrates faz semanalmente na RTP.
Mas, Portugal é o único país do mundo que é auto-suficiente na crítica de má índole. Ao contrário de outras matérias, nesta não precisamos mesmo de importar nada porque somos muito mais eficazes a criticar-nos do que qualquer estrangeiro que possa referir-se a nós.
E então quando falamos de êxitos…
Homem bonito ou mulher bonita que tenha êxito foi porque se “deitou” com alguém, se são feios é porque devem ter bons padrinhos e, em algumas situações, ainda se arrastam os feios para os territórios da cama colocando aquela terrífica hipótese de os seus genitais terem encantos que o rosto desconhece.
Porque Portugal convive bem melhor com a desgraça e com a derrota, tendo sido por aqui que se inventou aquele conceito do “sair de cabeça erguida” que é uma posição anatómica que eu não entendo: a cabeça erguida é para não perdermos pitada do ar de gozo dos nossos adversários?
Se um dia tiverem tempo vão ao youtube e procurem o festival da Eurovisão de 1974 em Brighton, Reino Unido, e vejam as actuações de Portugal e da Suécia. Um senhor chamado Paulo de Carvalho, sozinho em palco, arrasa toda a delegação Sueca na sua actuação. No final, ele sai do concurso em último lugar e os Suecos saem como vencedores no momento que revelou ao mundo um grupo chamado Abba.
Ontem foi ao contrário e mudou-se o paradigma da desgraça e da bendita “cabeça erguida” e até fomos nós que “esmagámos” a Pepsi.
Para o ano, lá para o mês de Junho, entre o fim ou não da Troika e os programas cautelares da União Europeia e dos leilões da dívida, se pudermos aliviar a pressão nuns pulos patrocinados pelos golos do Ronaldo seremos por certo bem mais felizes.
E viva PORTUGAL.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A essência doce do medronho

Procuro num envelope branco da Livraria Escolar que o tempo já fez mudar de cor, e que conservo na gaveta das minhas “relíquias” muito pessoais, esses pedaços demasiado simples do passado, que só eu sou capaz de descodificar e que me avivam a memória de todas as vezes que os procuro.
Encontro um velho cartão-de-visita devidamente rubricado, muitos cartões de boas festas, uma edição de “A bruxa do Castelo de Vila Viçosa”…
Sei de cor a história de cada um destes objectos e todos eles me transportam para os dias em que eu não dispensava a companhia da D. Joana Ruivo e fazia da sua Livraria Escolar, a minha segunda casa.
Antes ou depois das aulas, nas férias de Natal, da Páscoa ou nas férias grandes, em todos os minutos livres da minha infância e juventude, foi ali e por esta amiga que me afeiçoei às palavras escritas, tantas e em tantas estantes espalhadas por toda a casa, em dias passados à conversa, a ler ou então em jogos e brincadeiras com o grupo de amigos que por ali se foi formando: o João Paulo, o Pedro, a Antónia, a Lena, a São…
Sem qualquer vínculo de família, mas por uma amizade como nunca outra, ela foi por certo um dos complementos mais importantes de toda a herança que os meus pais me iam passando em casa, e foi um privilégio tê-la como “mestra” em lições que me ensinaram de tudo, mas sobretudo o inquestionável valor da liberdade, da justiça, do respeito e da simplicidade.
Sobretudo pelo exemplo, mas também pelas conversas alimentadas por algum livro retirado da prateleira e onde o mote poderia ser dado por Florbela no apreciar da ousadia da diferença e do amor que não se verga a convenções imbecis; por Torga, com o enorme amor à terra e às gentes; por Eça, no humor requintado de saber rir de nós próprios; por Pessoa, no gigantesco valor de saber e ousar sonhar seguindo todos os instintos da alma, até os que parecem mais desprezíveis.
Por tantas conversas que tínhamos quando ambos nos encostávamos ao balcão e esquecíamos as horas, sei que lhe devo esta ousadia de nunca temer os fantasmas das diferenças, fazendo do usufruto da verdade de nós mesmos e da simplicidade do que somos, mais do que qualquer coisa que possamos aparentar, as raízes para uma felicidade completa.
Comunista e ateia, é eternamente para mim a maior prova de que as pessoas quando são grandes de valores podem estar nos antípodas das nossas crenças e das nossas ideologias, mas nunca deixam de ser grandes.
Hoje, dia 19 de Novembro, fui à gaveta das minhas relíquias à procura do número exacto de anos que cumpriria a D. Joana Ruivo, que com uma enorme saudade nos deixou em 1991. Não encontrei mas estou seguro que será algures entre os noventa e os cem, a idade da mulher mais moderna que alguma vez eu conheci.
Mas a data não esqueço jamais e relembro-a ao ritmo da saudade desses fins de tarde em que comemorávamos o seu aniversário assando bolotas num aquecedor e bebendo licor um licor de medronho que ela mesmo preparava com os frutos que apanhava no castelo.
Ríamo-nos sempre quando referia estar mais velha e nos recomendava que na sua morte dispensássemos o caixão e a enrolássemos apenas em qualquer cartão que tinha acumulado no armazém, daquele cartão que formava as caixas que traziam os livros até Vila Viçosa em encomendas que nós íamos buscar à estação do Caminho de Ferro no seu elegante e sempre bem tratado automóvel NSU em tons de cinza.
Nesses dias do seu aniversário nunca queria que eu lhe comprasse nada, queria antes que eu lhe fizesse o presente. E eu fazia tudo o que ia aprendendo nos Trabalhos Manuais do ciclo e do liceu, quer fosse em ráfia, lã, corda… e um ano até lhe ofereci uma boneca que desenhei numa folha branca de tamanho A4 usando a letra “x” da velha máquina de escrever.
Hoje, mando-lhe desde aqui este presente alinhado em palavras muito simples garantindo-lhe a eternidade no universo dos meus maiores afectos, e na presença dos amigos de sempre, faço-lhe um brinde com o inevitável licor de medronho, agradecendo-lhe por nos ter ensinado a todos que a vida toma sempre o gosto da essência que nós lhe dermos, tal qual a aguardente onde “afogamos” os medronhos.
Ah, é verdade… quase me esquecia de vos dizer que o cartão-de-visita rubricado que ainda hoje guardo na gaveta, entregou-mo no dia em que eu fui estudar para Estremoz. Fez-me a recomendação de o usar sempre na carteira para que quando um dia necessitasse de algo fosse com ele ao pronto-a-vestir do seu irmão e conseguisse assim resolver o meu problema.
Nunca é por acaso que há pessoas eternas em nós e que amaremos até ao fim dos nossos dias. 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Um curto e simples passeio pelo Outono

O frio de Outono que chegou durante o fim-de-semana, convidava a permanecer tranquilamente junto à braseira com o alto patrocínio de uma boa leitura, aguardando o momento quente em que o chá fumegaria na chaminé e o apito da chaleira desse o pontapé de saída para a merenda.
Foi Novembro que nos fez sair.
Pelas placas de mármore que perpetuam nomes e rostos, deixámo-nos guiar por um roteiro de afectos, percurso de encontros facultados pelas memórias e celebrados a Padres-nosso e Ave-Marias.
Eu e a minha mãe, os dois sós, deixámo-nos ir de braço dado rebobinando vida, soltando palavras nesse panteão do meu povo que na tarde fria estava deserto e à mercê de tantas histórias com que fizemos presentes todos os nossos.
É entre muralhas e em chão nobre, a terra que eterniza a minha gente, à sombra da fé na Senhora da Conceição, a rainha e a proa de uma nau de heróis entregues ao sono perpétuo no Olimpo dos simples.
Já de saída lanço um olhar a Florbela e é com ela que subo as escadas para o adro da igreja lamentando que a muralha não me permita espreitar o pôr-do-sol que aquela hora, mágico se anuncia por detrás do Paço:
“Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viu o amor
Onde tenho o meu pão e a minha casa…”
E não tarda muito até ao momento em que subindo pela lateral do lado do Santíssimo, eu estarei com a minha mãe aos pés da Senhora da Conceição.
Jamais saberei o dia em que pela primeira vez ali estivemos os dois, mas foi por certo algures em Julho de 1966, que a Maria Inácia nunca foi de deixar de cumprir esse mandamento que em Vila Viçosa faz as mães oferecerem o seu filho à Senhora na primeira vez que saiam juntos de casa.
Passaram quarenta e sete anos e estamos os dois ali na meta de um roteiro de memórias numa tarde fria, na festa de um amor eterno de mãe e filho, a traçar planos de futuro que vamos partilhando quando descemos pelo lado de São Pedro, e depois quando avistando os medronheiros pela encosta acima, dirigimos os nossos passos para o carro que deixámos debaixo de uma oliveira.
Havia azeitonas maduras sobre o carro quando arranquei em direcção às Portas de Évora onde acabei por parar, não resistindo a saborear por segundos a beleza do Outono no Pomar das Laranjeiras.
No espaço de uma hora: memórias, afectos, amor, fé e poesia.
Um tão curto pedaço de tempo e afinal, tudo o que mais importa numa vida inteira.
O passado que nos fez grandes, o presente que saboreamos intensamente e o futuro, de cujos planos são a prova de estarmos vivos.
Tudo numa tarde fria de Outono e no privilégio de um passeio com a minha mãe, de braço dado e na ilusão de que sou eu quem agora a ampara… como se pudesse existir melhor amparo do que o do seu olhar que eternamente me grita: amor?
Há momentos perfeitos porque tecidos pela maior felicidade do universo.
E o tear?
Está sempre à mão. É a simplicidade. 

domingo, 17 de novembro de 2013

A perseverança e a salvação do corpo

Não é que tenha de se ser pobre para ganhar legitimidade para abordar a pobreza, mas recomenda o bom senso e o pudor, que os bem instalados na vida se abstenham de sugerir conformação aos que vivem com pouco e em dificuldades.
Por muito pertinentes que sejam os argumentos, as palavras destes terão sempre o efeito de uma bem afiada lâmina de navalha.
João César das Neves, professor de Economia na Universidade Católica por profissão, católico por confissão e consultor para os Assuntos Económicos da Presidência da República por nomeação, afirmou hoje que aumentar o Salário Mínimo é uma agressão aos mais pobres porque os empresários se inibirão de dar emprego a pessoas mais pobres e desqualificadas. Acrescentou ainda que a maior parte dos pensionistas não são pobres, disfarçam-se de pobres, e que tem visto nesta crise situações muito positivas.
Se a moda pega, qualquer dia ainda alguém vem afirmar que a fome é uma excelente oportunidade para baixar os níveis de colesterol e melhorar a saúde cardiovascular das populações… e os cómicos perdem o emprego.
Registo em primeiro lugar nestas afirmações, a criatividade, algo que dá sempre jeito a um professor de economia, mas onde ficou a razoabilidade e sobretudo o decoro?
Eu bem sei que há um instinto de sobrevivência a justificar a defesa das elites dos banqueiros e dos empresários, que por certo lhe mandarão mais clientes para as suas aulas do que os “pobrezinhos”, mas onde fica o católico neste escavar da diferença entre os Homens e na definição clara entre uns e outros?
Ah claro, ficará para a esmola das instituições de caridade e para as ceias de Natal que o “tio” e os seus meninos alunos promoverão ao abrigo de uma responsabilidade social qualquer.
Também sei que se trata de uma pessoa de fé, mas será que ainda acredita que os empresários empregarão mais gente se o salário mínimo for reduzido?
Duvido que ele acredite mesmo naquilo que nos quer fazer acreditar e as pessoas que “vendem” aquilo em que eles próprios não acreditam, não beneficiam de uma definição muito simpática no que aos vernáculos populares diz respeito.
Defensor dos valores da família e homófobo confesso saberá Deus porquê, admire-se-lhe a perspicácia na identificação da pobreza travestida dos pensionistas. O homem é mesmo bom a desmascarar o falso.
Claro, também é evidente que um reformado que ganhe trezentos Euros por mês e que tenha de pagar com eles medicamentos, alimentos, casa, água, luz… nunca pode ser pobre.
Uma coisa temos de lhe agradecer no final desta entrevista, como consultor económico do Presidente da República, muita coisa estranha passou a ficar explicada.
Acredito que sendo Católico, o Professor César das Neves tenha ido hoje à missa dominical.
Eu fui.
Na primeira leitura, do antigo testamento, ouvi dizer que “para vós virá o Sol da Justiça”.
O salmo cantou que “o Senhor virá governar com justiça”.
No evangelho de São Lucas afirmou-se que “pela vossa perseverança salvareis as vossas almas”.
Não sei o que o Senhor Professor opinará sobre a Justiça e a Perseverança, mas no meu caso confesso que tenho fé na chegada do dia em que os hipócritas e imbecis serão condenados ao inferno da fogueira da indiferença que eles próprios atearam para os outros.
E como a fé é inimiga da inacção, persevero eu nesta luta de não dar tréguas a estes falsos profetas que mais não são do que o demónio a pedir ser expulso por um belo par de bofetadas.
A perseverança para salvar a alma e o corpo porque a fome e a miséria jamais serão salmos no louvor à criação. 

sábado, 16 de novembro de 2013

Um dia de Outono

O relógio da torre do Paço pressente o dia, e desde as sete alinha o toque com os pavões que aos gritos saúdam o sol nos recantos mais secretos do Bosque e do Jardim da Duquesa, em badaladas arrastadas que assinalam os quartos de todas as horas.
Numa doce ilusão, o céu de um intenso tom de azul parece querer desmentir o Outono pintado pelo tapete tecido pelo vento e que infinitas folhas amarelecidas dos plátanos semeou sobre a calçada e sobre a raiz das laranjeiras plantadas junto à Porta da Senhora da Graça, ao Convento dos Agostinhos, onde já reluzem frutos maduros. Mas o ar frio que se respira ao abrir da vidraça, e que o corpo empurra efusivamente para o quente da braseira acesa sob a camilha mata todas as dúvidas e confirma que é de Outono este meu dia em Vila Viçosa.
Enquanto caminho Corredora acima e entrego o olhar ao branco do casario que o brio da gente adornou com uma esquadria de barras azuis e amarelas que parecem querer elevar ao céu a cor do rodapé que nos acompanha os passos; sinto na memória o canto da gente a sair em ranchos para o campo, para sob as ordens do “manageiro”, apanhar a azeitona que é precursora do melhor azeite; sinto o cheiro dos madeiros a arder nas casas térreas habitadas por esta altura pelos “ratinhos” e pelos “sacaínhos” que desde as suas aldeias, e tantas vezes desde a Beira, se acercavam para ajudar nas lidas do campo; escuto o estalido das castanhas assadas pelo “Sr. Musgado” no seu carro de madeira junto ao mercado; provo o vinho novo que já escorre das pipas da taberna do “Belhuca” ou das tascas do Rossio; provo os dióspiros e as bolotas que nos divertimos a assar na beira da braseira de picão; cheiro os marmelos que cozem na preparação da marmelada que em breve será colocada ao sol protegida por um recorte de papel vegetal; escuto a voz da avó Natividade a sair para o campo de madrugada vestindo uma saia quente que com alfinetes e muita arte se transformava numas calças, gritando alegre para os vizinhos: “temos de lá ir”…
Sinto a minha gente e definitivamente sinto-me no conforto de estar na minha eterna casa quando finalmente chego à Praça e me faço à rotunda da Fonte conhecendo de cor essas brisas, que do lado de São Bartolomeu ou do Castelo, aqui se cruzam quando atravessamos em direcção ao Restauração para um café que nos aquece pelo efeito de uma boa conversa entre os melhores amigos.
Jamais saberei se venho aqui por ser quem sou, por ser eu, ou se venho aqui para me alimentar de Alentejo e continuar a ser aquilo que jamais quererei deixar de ser.
Ou serão talvez as duas coisas, a origem e o destino, e o Alentejo definitivamente eterno em mim.
Pela genética e sobretudo… pela força de um profundo e perpétuo amor.
No Outono ou em qualquer outro dia.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Aquela força de muito querer viver

O semáforo obriga-me a parar na esquina da Politécnica com o Rato, instante aproveitado por uma Romena com mais ouro na dentição do que o Banco de Portugal nas suas reservas, para através de gestos, em vão me tentar vender o “Borda D’Água”.
Recuso a oferta até porque já sei à partida que o “clima” nas suas múltiplas vertentes não vai estar bom, e ao abrir do sinal verde, mergulho na rua de Lisboa que mais vezes calcorreei.
A viver no Príncipe Real, ia à missa a São Mamede, tomava a bica na pastelaria “Alsaciana”, comprava peúgas na “Poli”, frequentava a padaria com a mulher mais antipática do universo e que só vendendo carcaças me obrigava a comer três para compensar a minha fome de uma fatia do pão Alentejano a que eu estava acostumado, comprava bolachas na mercearia em frente à Casa das Cortiças e acabava sempre a partilhar memórias do Alentejo e da Beira Baixa com os seus proprietários, dava dois dedos de conversa com o meu conterrâneo Sr. Sousa Meneses à esquina da Imprensa Nacional onde também comprava morangos no verão em cartuxos de papel pardo e castanhas assadas no Outono embrulhadas em folhas da lista telefónica das Páginas Amarelas, ganhava o dia quando me cruzava com o Luís Miguel Cintra de quem nunca perdia uma peça no teatro ali tão perto, via as montras dos antiquários e, sobretudo, almoçava e jantava na Cantina da Faculdade de Ciências que estava instalada no privilégio do Jardim Botânico, tendo sido por ali, debaixo das copas de espécies vegetais raras, que, devido ao excesso de consumo, eu passei a “odiar” solha frita.
Cada local, cada esquina, cada porta, e até cada rosto daqueles que ainda reconheço, encerra hoje memórias dos meus anos oitenta, memórias que vou desfiando ao ritmo deste pára e arranca definido pelos peões no cruzar das passadeiras.
Do meio deste meu viajar como antes entre o Rato e o Príncipe Real, fácil é recordar-me também das preocupações de então e que invariavelmente comportavam a Química Orgânica, a Farmácia Galénica, a Botânica Farmacêutica, a Análise Química ou a Farmacognosia, porque qualquer descuido nos meses de Fevereiro e Julho, os tais que sendo de exames, obrigavam a uma vida monástica e de escravatura às mãos da “solha frita”, poderia “matar” a bolsa da Gulbenkian e complicar um pouco as contas familiares. Para além de naturalmente ser um beliscão na auto-estima que sempre se deseja em alta.
Vistas agora, assim de longe e passados quase trinta anos, estas preocupações que antes me tiravam o sono, fazem-me sorrir quando chego à esquina do jardim e dou de caras com o quiosque onde comprava “A Bola” às quintas-feiras depois de uma vitória do meu Benfica nos jogos europeus da véspera, e onde nos dias em que regressava de um exame sempre comprava o vespertino “A Capital” para me entreter à noite a fazer as palavras cruzadas temáticas ao som do “Oceano Pacífico” que chegou à antena quase ao mesmo tempo em que eu cheguei a Lisboa.
O tempo tem quase sempre esse condão de rotular de patéticas as preocupações que um dia achámos que seriam capazes de nos derrotar, ou pelo menos beliscar a nossa paz, num processo em que as memórias menos positivas vão vendo emergir todas as claramente positivas, que são sempre as que importam.
À excepção da solha frita, claro.
Mas o tempo não é algo abstracto e é tão só o que fizermos dele, colhendo o maior benefício quando perante uma adversidade a enfrentamos de um jeito que por palavras pode ser algo como:
- Anda cá “filha” que tu vais ver com quem te meteste. O último a rir serei eu.
E um dia rimo-nos da desforra.
E uma rua de Lisboa carregada de memórias é um filme de décadas das nossas vidas que tem sempre a festa de um final… de uma chegada feliz.
Abordo então a D. Pedro V, São Pedro de Alcântara e depois a Rua da Misericórdia, alimentando-me dessa esperança e aplicando-a hoje às preocupações de alguns amigos que por ora enfrentam alguns “desafios”, daqueles muito aborrecidos porque mexem com a saúde.
À esquina da Misericórdia com o Camões quando me preparo para estacionar e espreito ao longe o Tejo e o pórtico da Lisnave, há uma Romena sem ouro no sorriso que tenta vender-me o “Borda D’Água”.
Recuso mais uma vez mas por uma razão nos antípodas da esquina do Rato.
O clima vai afinal estar bom.
Impõe-nos a vontade e a força de muito, e muito bem, querer viver.
E sorrio para o Camões piscando o olho ao Chiado… que o contrário poderia ser interpretado como gozo pelo poeta de “Os Lusíadas”.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Os roubos “à LAGARDEre”

Há cerca de um ano, em Outubro de 2012, o Fundo Monetário Internacional (FMI), instituição presidida pela francesa Christine Lagarde que beneficiou dos efeitos secundários dos impulsos sexuais do seu antecessor, assumiu num relatório, o erro na avaliação prévia do impacto da austeridade nos países do Euro sob assistência financeira. Os modelos de projecção estimavam que por cada euro de austeridade se perdia 0,5 Euros no PIB e os dados reais revelaram que por cada Euro de corte na despesa pública ou agravamento de impostos, o PIB perdeu entre 0,9 e 1,7 Euros.
Na mesma linha, num relatório da mesma instituição apresentado no passado mês de Setembro, uma equipa liderada por Olivier Blanchard (Economista Chefe) defendeu que as políticas defendidas pela instituição ao nível orçamental mostraram, desde o início da crise financeira em 2008, estar erradas em muitos pontos essenciais, defendendo que ao contrário do até aí praticado, a austeridade deve ser aplicada de forma progressiva, com cuidado, para não provocar um efeito contraproducente na economia.
Ontem, numa teleconferência desde Washington, o chefe da missão do FMI para Portugal, Subir Lall, afirmou ser necessária mais austeridade em Portugal reduzindo salários e pensões, mas assegurando que a economia cresça de uma forma sustentada.
Perante esta sucessão de afirmações fico sem saber como classificar esta relação do FMI com Portugal. Será doença bipolar, esquizofrenia, sadismo ou tão só incompetência?
Esta hesitação assiste-nos apenas quando abordamos a questão de uma forma clínica, porque se o fizermos de uma forma popular e algo brejeira, não teremos dúvidas de que se trata de uma real e verdadeira palhaçada pois não é necessário ser um grande economista para entender que não se estimula o engordar de uma porca cortando-lhe na ração.
E certo, certo… é que a incompetência de quem nos governou e de quem nos governa, nos colocou inteiramente à mercê de loucos, tendo com isso comprometido decisivamente a nossa independência como nação soberana.
Na conferência de ontem, para além de considerações sobre a crise política em Portugal que ocorreu no último verão, inadmissíveis se pensarmos que um técnico de uma instituição internacional não deve julgar assuntos que são do foro exclusivamente interno de uma nação fundadora e contribuinte dessa instituição, é feita um pressão asquerosa sobre o Tribunal Constitucional num claro desrespeito pela instituição que salvaguarda o cumprimento da carta magna da nossa república, a “lei suprema” que até o Presidente da República jura cumprir e fazer cumprir, mas que nos últimos tempos tem sido sujeita a estes ataques sem que ele recrimine os autores de tal atentado à dignidade e à essência da nação.
O Sr. Lall apontou novamente para o papão dos “Mercados” e para os riscos de tudo aquilo que os põe de mau humor e a castigar-nos, muito ao jeito do inferno que está sempre preparado para receber os meninos maus e que roubem rebuçados.
Acredito que pelo ritmo que levamos, chegaremos de facto aos “Mercados” em 2014 mas como mendigos esfarrapados à porta dos ditos e de mão estendida a pedir esmola, tal o roubo “à LAGARDEre” de que os nossos bolsos têm sido vítimas.
E quem diz “à LAGARDEre” pode dizer à grande e “à Francesa” pois sendo Madame Lagarde do país que invadia os outros para roubar e violar, sempre podemos dizer que uma coisa lhe assiste: a coerência de sair aos seus.
Com tudo isto acho que nós também devemos actuar como os nossos antepassados e aplicar-lhes o tratamento que sempre ouvi dizer lhes foi aplicado em Alcains, morder-lhe como cães.
Mas com os nossos melhores dentes.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

As lições improváveis

Há muito confirmei que a vida é um processo contínuo de aprendizagem, sendo a própria idade a desmontar aquela falsa ideia que nos acode em jovens, de que chegará o dia em que seremos essencialmente emissores de informação, “mestres” do alto de uma cátedra legitimada em grande parte pelo muito que já vivemos.
O tempo vai de facto ensinando muita coisa, sobretudo através das experiências que vivenciamos e das pessoas que connosco se cruzam e partilham os dias, mas estar vivo é sinónimo de abordar cada amanhecer com a sofreguidão de aprender, muito mais do que com a certeza do muito que vamos ensinar ao mundo.
Até porque o que de melhor temos para ensinar aos outros, passamo-lo de forma natural e espontânea na virtude de sermos nós próprios e sendo grandes no que somos e fazemos, com o exemplo a ser muito mais eficaz do que a conversa na concretização desse desiderato.
E dos dias vamos colhendo lições que nos surgem quando menos esperamos e inspirações que podem chegar dos “professores” mais improváveis e das circunstâncias aparentemente mais banais.
Do alto dos meus quarenta e sete anos tenho recebido lições extraordinárias dos meus sobrinhos que têm oito e seis anos.
Basta estar atento e disponível para aprender…
O Luís, com seis anos, não gosta de se deitar e adormecer sem espreitar a lua. Se for caso disso até pode solicitar a reabertura das persianas para concretizar o seu objectivo, ensinando-me dessa forma que “adormecer” sobre o que quer que seja sem antes saborear o seu lado mais luminoso, quer seja da noite ou da própria vida, é um verdadeiro desperdício.
Até parece irrelevante pois a lua, mais ou menos cheia consoante a fase do seu ciclo, todas as noites brilha por entre as estrelas, mas é um facto que adormecer depois da poesia de a “saborear” é mesmo outra coisa e quantas vezes, um bom substituto para os indutores do sono.
O João, com oito anos, desenvolveu uma técnica que combina no mesmo espaço de tempo, a higiene oral e as orações da noite, e é vê-lo a esfregar os dentes ao mesmo tempo que reza, acelerando dessa forma a ida para a cama e a possibilidade de adormecer de mão dada com o irmão, o Luís, que já viu a lua e está deitado na cama de baixo do beliche que partilham.
Mais do que uma lição de optimização do tempo ou então uma demonstração da complementaridade no que ao tratamento do corpo e da alma diz respeito, chamou-me a atenção, esta possibilidade que tantas vezes desprezamos de transformar as pequenas coisas em acções de louvor a Deus ou tão-só à própria vida, o que no caso de um crente será uma e a mesma coisa. 
Porque mais do que debitar palavras decoradas há mais ou menos tempo na catequese (e rezar uma Ave Maria ou um Padre Nosso enquanto esfregamos os dentes com Colgate é algo que só o João consegue com os seus super-poderes), louva a Deus e à vida quem vive intensamente, quem vive com brilho, com prazer, quem se cuida e cuida dos outros, e sobretudo, quem em cada instante corre para o momento de dar a mão ao seu “irmão” para juntos poderem mergulhar nos sonhos mais profundos e saborosos.
Com a bênção da lua ou do então do sol, que muito bons são os sonhos que nos apanham acordados e em pleno dia.
É tudo afinal, demasiado simples, e como vêem as lições estão aí à mão de semear.
As lições… e a poesia que tem sempre lugar assegurado nas coisas mais simples da vida.
E poeta, eu?
Não.
Definitivamente, gosto apenas de saborear os detalhes, que nenhum é desprezível quando se gosta de viver.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Acelerar para o futuro

No dia em que recebi o convite para a festa das Bodas de Prata que assinalam os vinte e cinco anos de casamento de uns amigos de infância, fiquei também a saber que o meu irmão, cinco anos mais novo, vai ter no sábado um jantar para comemorar os vinte anos de curso, fui confrontado com o facto de uma colega cuja idade anda pela casa dos trinta desconhecer em absoluto o filme com a Julie Andrews, “Millie, uma rapariga moderna” que eu sei de cor e salteado, e acabei sentado na cadeira do barbeiro a ouvir no melhor sotaque da Baía:
- O siô todos os méis tem maisss cabelos brancos na cabeça e na barrrba.
E tivesse eu tendência para a depressão e sairia a correr directamente para o sofá de um psicólogo ou quiçá a afogar-me em alguns químicos do arsenal terapêutico que a minha condição de farmacêutico me permite conhecer perfeitamente.
Mas não.
Acabei a responder ao barbeiro que por este ritmo talvez em Dezembro já esteja apto a ser um “Pai Natal” muito credível sem necessidade de recorrer a pastas de algodão; e quando foi colocado por detrás de mim aquele espelho que me permite ver se o altinho da nuca ficou bem disfarçado no corte com o pente três, até consegui olhar para o espelho à minha frente e pensar de mim para mim:
- Até nem estás nada mal.
E desculpem-me a presunção mas como cada um pode tomar a que quer… auto-estima para cima.
Já no regresso a casa, não pude no entanto deixar de pensar como o tempo passou demasiado depressa. Parece ter sido ontem que andávamos atarefadíssimos a ajudar os nossos amigos a ultimar os preparativos para a festa da boda ou a montar as patifarias costumeiras na ocasião, que por certo serão objecto de um post num futuro próximo.
Mas, tempo por tempo, sempre é melhor olhar para o futuro, por muito boas que sejam as memórias ou as histórias que coleccionámos num percurso mais ou menos longo, onde a maior dificuldade esteve sempre associada aos momentos da despedida de gente tão grata para nós num processo indutor daquela saudade que dói.
E olhando para o futuro, activo se torna em nós nestes momentos em que o espelho nos reflecte uma cara muito próxima daquela que nos habituámos a ver nos nossos pais, um elevado sentido de urgência, para que não haja nenhum sonho ou vontade que deixemos ficar órfão.
Que não fique nenhum beijo por dar, nenhum momento de amor assassinado às mãos da vil solidão, nenhum olhar castrado na sua vontade de gritar e cantar o amor, nenhuma palavra por dizer ou escrever, nenhum livro por ler ou poema por dizer, nenhum quadro por pintar, nenhuma canção por trautear, nenhum filme ou peça de teatro por ver, nenhuma música por escutar, nenhum pôr-do-sol deixado ao abandono, nenhum horizonte por espreitar, nenhuma praia sem os nossos passos marcados na areia num caminhar conjunto e de mão dada, nenhuma árvore por plantar e nenhum fruto por colher, nenhum perfume por roubar na carícia de uma rosa ou de um manjerico, nenhuma montanha por subir, nenhum pão por amassar, nenhuma dança ou ritmo por bailar, nenhum amanhecer sem o conforto de um abraço e de um espreguiçar conjunto, nenhum sorriso por libertar, nenhum petisco por saborear, nenhum copo de bom vinho por beber depois de um brinde com quem o coração nos pede que o façamos, nenhuma viagem por fazer, nenhum gesto por cumprir, nenhuma conversa abafada, nenhuma anedota ou piada sem o epílogo da melhor gargalhada…
E adiar será talvez a morte da oportunidade de cumprir estas por vezes tão pequenas coisas, privando-nos assim definitivamente de ser um pouco mais feliz.
Eu sei que a vida nos é por vezes madrasta, obrigando-nos a adiar e a suspender estes sonhos e vontades. Mas se isso acontecer que seja sempre por factores exteriores a nós e que jamais carreguemos aquele duro fardo que se chama arrependimento.
Vou então despachar-me…
Não é por mais nada, é que quando os meus amigos Manuela e Zé Maria fizerem as Bodas de Ouro eu terei setenta e dois anos, e se agora já tenho hipertensão, diabetes, estigmatismo e miopia, dores nas costas… para além de mau feitio, nessa altura já devo ter doenças de todas as letras do glossário, devo ser um “velho” podre de aborrecido, para além de que não terei quaisquer dúvidas das minhas apetências para fazer de Pai Natal.
Tenho no entanto quase a certeza de que continuarei a gostar de me ver ao espelho… e juro-vos que tal não será por culpa do agravamento da miopia.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Os vampiros pimba do “Show Biz”

Depois de um agradável passeio por Lisboa num domingo de Outono e quando a brisa fresca que se intensificou com o pôr-do-sol, nos convida a um par de horas de sofá antes de chegar o momento do jantar, começa o baile em ritmo de vira ou baile mandado com o comando da televisão a fazer-nos passar pelas dezenas de canais sem que algum deles nos prenda a atenção.
Os três canais generalistas transmitem sessões de variedades de música pimba directamente de um recanto algures em Portugal, com um casal de apresentadores a utilizar o espaço entre as cantigas que falam dos desgostos de amor, do bacalhau ou dos talos do nabo, para permitir ao público o envio de beijinhos para a família, repetindo também até à exaustão, um número de valor acrescentado que habilita o telespectador para o sorteio de uma agradável quantia de dinheiro.
E todos os argumentos servem para convencer o público a pagar os sessenta cêntimos mais IVA por cada chamada para o tal número mágico.
Numa destas passagens assisto a um apresentador na TVI a utilizar o argumento mais cretino da tarde, referindo o grande número de desempregados neste momento em Portugal e como qualquer deles se sentiria feliz se antes do telejornal lhe caíssem quarenta mil euros na conta bancária. Convida então os desempregados a pagarem sessenta cêntimos mais IVA por cada chamada para um número que, afinal de contas, vai tão-só engrossar as contas da produção do programa.
A crise existe e já provocou um elevado número de vítimas, indivíduos em verdadeiro desespero, mas é indigna esta utilização da miséria dos outros como degrau a pisar na subida para uma descarada promoção dos interesses pessoais e comerciais de pessoas e de entidades sem quaisquer escrúpulos, este puxar do desespero de outrem para um programa de variedades e “roubar” descaradamente a quem já tem muito pouco acenando com uma doce mas apenas ilusão.
Demasiadas vezes se abusa da dor e da miséria dos outros numa atitude desprovida de quaisquer escrúpulos.
Objectivamente, à hora do jantar haverá a mesma (pouca) comida na mesa e a carteira estará mais vazia porque se gastou dinheiro nas chamadas telefónicas… e não ligou ninguém da TVI.
E num programa em que supostamente se estaria a comemorar o S. Martinho, em directo e ao vivo a partir de Penafiel, o apresentador faz o contrário do Santo que um dia rasgou a sua capa ao meio para dar a um mendigo fazendo com que o sol brilhasse no primeiro verão com o seu nome, São Martinho, no momento em que por causa do seu sagrado pedaço de capa que restou e que passou a ser objecto de devoção num espaço de reduzidas dimensões, todas as pequenas igrejas se passassem a chamar “Capelas”: rouba o pouco que o mendigo ainda tem e segue feliz embrulhado na sua capa, passando o microfone a alguma Ruth Marlene ou Bruno Vanderley para que actuem na companhia dos seus animados grupos de bailarinos que se mexem todos, e também os lábios, como se de cor soubessem as letras picantes das cantigas.
Revoltado avanço mais um pouco nos números do meu comando da Zon e apercebo-me que os canais de notícias estão a transmitir em directo o comício que comemora os cem anos de Álvaro Cunhal.
Como declaração prévia de interesses devo dizer que politicamente me considero nos antípodas de Cunhal, mas não posso deixar de lhe reconhecer um enorme mérito pela luta de uma vida, pela sua enorme coerência e pela convicção com que buscou a liberdade no país do Estado Novo, pagando um elevadíssimo preço a nível pessoal e familiar.
Adepto ou não dos seus ideais, é impossível não lhe reconhecer esse mérito e não posso eu deixar de lamentar que os líderes de hoje não o acompanhem no valor e sobretudo na força de buscar aquilo em que se acredita, numa perspectiva de comunidade e não apenas do desafogo económico e comodismo de âmbito pessoal.
Afinal de contas, é por isso que estamos na situação difícil de “mendigos” e à mercê dos vampiros que já não atacam só pela “noite calada” como os que cantava Zeca Afonso, atacam ao final da tarde e enquanto nos distraem e nos dão música.