terça-feira, 5 de novembro de 2013

Não separe o Homem…

Num breve passeio em Roma na tarde de um sábado muito recente e na onda de aproveitar para espreitar a infinidade de igrejas que se cruzam no nosso caminho, algures perto da Fontana di Trevi e num templo do qual não me recordo o nome deparei-me com uma disposição diferente dos bancos destinados aos fiéis, em semi-circulo junto ao altar.
Achei interessante porque mesmo sem ter assistido a algum acto de culto fiquei com a clara sensação de que naquele local, a comunicação por palavras, gestos e sobretudo olhares, encerrava em si os dois sentidos naturais, não condenando ninguém ao estatuto de só emissor ou só receptor, numa clara e assumida morte do púlpito como máquina de emissão de verdades a uma massa de gente anónima a quem só era permitido abrir a boca no final para dizer:
- Ámen.
Visita profética, aquela.
Ao preparar o sínodo do próximo ano cujo tema será a família, o Papa Francisco decidiu de uma forma inédita auscultar a opinião dos fiéis, a até aqui “multidão dos ámen’s”, convidando-os a partilhar a sua forma de pensar e ver todos os assuntos mais “quentes” relativos à família.
De uma assentada colheu dois frutos. O primeiro foi dar voz efectiva aos leigos concretizando o respeito que a hierarquia da igreja sempre publicitou ter mas pouco concretizou ao longo dos séculos. O segundo foi tão-só reconhecer que há diferenças que devem ser tidas em conta e discutidas, sem que perante elas se assuma a atitude hipócrita da avestruz. Escrevê-las tratando-as pelo nome correcto e real, já foi um grande passo em frente.
Como católico e à luz da minha fé e das minhas convicções, li atentamente as questões colocadas pelo Papa à reflexão dos leigos e não me parece difícil expressar a minha opinião.
Deve a fé centrar-se mais no conteúdo do que na forma, nos valores de carácter e nas virtudes, muito mais do que nas aparências, e sempre, no amor entre os Homens como expressão de amor a Deus e supremo louvor pela obra da criação.
A família é a unidade central e um micro território de crescimento da fé, dos valores, das virtudes de carácter e do próprio amor, amor presente desde logo na raiz de uma partilha real de vida que me é perfeitamente indiferente se é estabelecida entre um homem e uma mulher, dois homens, duas mulheres, ou então e no caso de famílias monoparentais, no compromisso consigo próprio de um homem ou de uma mulher.
O que importa, reforço, é somente o amor. E não há amor que possa assentar em algo que não seja a verdade de nós mesmos por muito diferentes que possamos ser.
E um contexto de amor, independentemente da forma, é sempre o ideal para educar uma criança e para fazer dela um Homem maior e recheado dos maiores valores.
No casamento, Deus une o que o Homem Lhe pede que una quando expressa no altar, um “sim” que algures no tempo e por várias circunstâncias se pode transformar num rotundo “não”.
A mudança é inerente ao próprio Homem, é natural, não sendo nunca sinónimo de obrigatória redução de virtudes. Pelo contrário, a mudança ocorre muitas vezes no sentido da lucidez e da verdade.
Restringir o acesso aos sacramentos das pessoas divorciadas que mais tarde “afinaram” as suas famílias é claramente uma injustiça, uma condenação feita com base apenas na forma visível e à luz das leis dos Homens que sempre persistem no tempo em olhar Deus como um “carrasco” que efectivamente não é.
É exigente, o que é bem diferente.
Numa situação extrema, quem é que de forma mais efectiva louva a Deus através do respeito por si próprio, uma mulher que comunga todos os dias porque se mantém casada com um homem que a sova diariamente? Ou será a mulher que assume o fim do seu casamento e que mais tarde refaz a sua vida com outro homem ficando dessa forma afastada dos sacramentos?
E mesmo que não haja violência envolvida, a vontade consciente do Homem num determinado momento e a sua coerência tornam legítimo o afinar de todas as opções.
Para estas situações que aqui abordei, considero que o princípio é sempre o mesmo e consiste basicamente no respeito pelo Homem e na vivência efectiva da caridade porque é por aí que se respeita e louva a Deus, e o mundo pode avançar de encontro ao amor.
Quanto ao resultado desta consulta aos leigos espero que o Homem não separe mais uma vez aquilo que Deus uniu quando na essência criou o Homem com uma infinita capacidade de amar.
E já agora que morra de vez a hipocrisia.

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