domingo, 17 de novembro de 2013

A perseverança e a salvação do corpo

Não é que tenha de se ser pobre para ganhar legitimidade para abordar a pobreza, mas recomenda o bom senso e o pudor, que os bem instalados na vida se abstenham de sugerir conformação aos que vivem com pouco e em dificuldades.
Por muito pertinentes que sejam os argumentos, as palavras destes terão sempre o efeito de uma bem afiada lâmina de navalha.
João César das Neves, professor de Economia na Universidade Católica por profissão, católico por confissão e consultor para os Assuntos Económicos da Presidência da República por nomeação, afirmou hoje que aumentar o Salário Mínimo é uma agressão aos mais pobres porque os empresários se inibirão de dar emprego a pessoas mais pobres e desqualificadas. Acrescentou ainda que a maior parte dos pensionistas não são pobres, disfarçam-se de pobres, e que tem visto nesta crise situações muito positivas.
Se a moda pega, qualquer dia ainda alguém vem afirmar que a fome é uma excelente oportunidade para baixar os níveis de colesterol e melhorar a saúde cardiovascular das populações… e os cómicos perdem o emprego.
Registo em primeiro lugar nestas afirmações, a criatividade, algo que dá sempre jeito a um professor de economia, mas onde ficou a razoabilidade e sobretudo o decoro?
Eu bem sei que há um instinto de sobrevivência a justificar a defesa das elites dos banqueiros e dos empresários, que por certo lhe mandarão mais clientes para as suas aulas do que os “pobrezinhos”, mas onde fica o católico neste escavar da diferença entre os Homens e na definição clara entre uns e outros?
Ah claro, ficará para a esmola das instituições de caridade e para as ceias de Natal que o “tio” e os seus meninos alunos promoverão ao abrigo de uma responsabilidade social qualquer.
Também sei que se trata de uma pessoa de fé, mas será que ainda acredita que os empresários empregarão mais gente se o salário mínimo for reduzido?
Duvido que ele acredite mesmo naquilo que nos quer fazer acreditar e as pessoas que “vendem” aquilo em que eles próprios não acreditam, não beneficiam de uma definição muito simpática no que aos vernáculos populares diz respeito.
Defensor dos valores da família e homófobo confesso saberá Deus porquê, admire-se-lhe a perspicácia na identificação da pobreza travestida dos pensionistas. O homem é mesmo bom a desmascarar o falso.
Claro, também é evidente que um reformado que ganhe trezentos Euros por mês e que tenha de pagar com eles medicamentos, alimentos, casa, água, luz… nunca pode ser pobre.
Uma coisa temos de lhe agradecer no final desta entrevista, como consultor económico do Presidente da República, muita coisa estranha passou a ficar explicada.
Acredito que sendo Católico, o Professor César das Neves tenha ido hoje à missa dominical.
Eu fui.
Na primeira leitura, do antigo testamento, ouvi dizer que “para vós virá o Sol da Justiça”.
O salmo cantou que “o Senhor virá governar com justiça”.
No evangelho de São Lucas afirmou-se que “pela vossa perseverança salvareis as vossas almas”.
Não sei o que o Senhor Professor opinará sobre a Justiça e a Perseverança, mas no meu caso confesso que tenho fé na chegada do dia em que os hipócritas e imbecis serão condenados ao inferno da fogueira da indiferença que eles próprios atearam para os outros.
E como a fé é inimiga da inacção, persevero eu nesta luta de não dar tréguas a estes falsos profetas que mais não são do que o demónio a pedir ser expulso por um belo par de bofetadas.
A perseverança para salvar a alma e o corpo porque a fome e a miséria jamais serão salmos no louvor à criação. 

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