quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O fado da Tininha

Nobre moça de Alvalade
Fina e tia por nascença
Grande mulher sem idade
E alma de grande crença

No Frutalmeidas almoça
Toma a bica no Vá-vá
Onde “às jezes” já faz troça
Dos cromos que por lá há

E andava assim repimpada
Numa vidinha catita
A Tininha bem descansada
Quando o coração lhe apita

Numa noite a colar cartazes
Da cidadania por Lisboa
De entre o grupo de rapazes
Há um que lhe atira a “broa”:

“Escuta lá ó Tininha
Vem comigo para Alfama
Mudemos a nossa vidinha
Com garra invertamos a trama”

E a Tininha lá partiu
Atrás de um grande amor
Em Alvalade nunca mais se viu
Nem Tininha nem cantor

E agora, de xaile a preceito
Maquilhada com rigor
Em tasca de grande respeito
Canta o fado com ardor

De tia a grande fadista
E de Alvalade a Alfama
A Tininha fez a nobre conquista
Que só consegue quem ama


terça-feira, 29 de outubro de 2013

“Antes muerta que sencilla”

Chegar a Madrid e apanhar um taxista Castelhano (e digo Castelhano e não Espanhol porque a unidade política do país vizinho há muito que voou e a unidade cultural nunca existiu) que ao descobrir que somos Portugueses, nos diz que adora Portugal e o bacalhau, não é novidade nenhuma, com a malta a falar das mil maneiras de cozinhar o dito e ele a dizer que o “dourado” é o que mais gosta; mas perguntar pela crise e pela Troika, já encerra alguma inovação.
Sentimos que o taxista puxa por nós para que comecemos a enunciar a longa lista de atrocidades que cometem sobre a lusa nação, mas rapidamente nos apercebemos que o faz para colher algum prazer, assegurando-se que Portugal está no seu sítio habitual: algures pior que a Espanha.
Apetece-me mandá-lo a comer bacalhau ali para os lados de Aljubarrota recomendando-lhe que passe de caminho por uma padaria comandada há sete séculos por uma tal de D. Brites, que diga que vá da minha parte e que ela faça o favor de lhe aplicar a receita que preparou para os inimigos de D. Nuno…
Mas como o rádio nos traz um relato de futebol acabamos a falar do inevitável Mourinho, de quem ele não gosta, claro.
Eu digo que sou fã e pergunto-lhe se a antipatia que nutre pelo Mourinho e a arrogância que lhe atribui, não se deve ao facto de ele ousar falar de igual para igual com qualquer Espanhol, quando não é suposto que nenhum Português o faça.
Finge que não me entende e antes que ele me obrigasse a explicar-lhe o que faziam as Espanholas nos romances do Eça de Queirós, por sorte chegámos ao destino.
E chegámos com o nacionalismo ao rubro.
Antes que a loja fechasse a Catarina mergulhou nos “probadores” do pronto-a-vestir e depois de uma prova em tempo record, venham de lá agora as Espanholas a dizer que são mais “guapas” que as Portuguesas.
“Antes muerta que sencilla” que quer dizer mais ou menos, “antes morta que uma pirosa mal cuidada”, que foi título de canção interpretada por uma criança que encarnava o flamenco, e que é mais ou menos um lema das “nuestras hermanas”, definitivamente não é um exclusivo seu.
A Catarina saiu da loja como uma “Mourinha da Elegância” e bem mais chique que as Castelhanas que se cruzaram connosco na Puerta del Sol e que têm mais camadas de base na cara a tapar os buços, do que anos tem a Sé de Braga.
E saiu uma estrela sem ser preciso recorrer a doping pois enquanto ela provava sempre descobri um segredo escondido das “Letizias” e que consiste num creme com múltiplas funções, mais propriamente 8: alisa, corrige, uniformiza, hidrata, protege, nutre, tem efeito de lifting e acção anti-oxidante.
Um creme 8:1 que definitivamente não deve fazer parte do arsenal de “beleza” da Duquesa de Alva que ainda deve estar entregue aos cuidados do Heno de Pravia ou das Madeiras do Oriente.
O creme a juntar às camadas de base…
Ainda em acto de profundo nacionalismo fomos à loja do Real Madrid a tirar fotos com o manequim do Ronaldo e conseguimos logo que um grupo de Colombianas com umas ancas que pareciam ter sido desenhadas pelo Botero, nos imitassem e desprezassem qualquer jogador Espanhol.
Passei na FNAC e comprei discos de cantautores catalães (toma!) e fomos jantar Gaspacho que é Andaluz e não Castelhano acabando a declamar à mesa em bom Português.
Quando regressámos ao hotel o taxista não abriu a boca e nós também não perguntámos nada pois ainda corríamos o risco de lhe ter que passar a receita do Bacalhau à Gomes Sá ou então explicar-lhe porque é que temos os carros mais caros do que eles.
Preferimos antes mostrar o nosso charme e provar-lhe que para cá de Vilar Formoso é que é: “antes muerta que sencilla”.

domingo, 27 de outubro de 2013

O impacto positivo de Bergoglio

A hora tardia do voo para Lisboa liberta um pouco da tarde para um almoço no Campo di Fiori, o Capuccino no Santo Eustáquio com as suas máquinas tapadas para esconder o segredo do melhor café do mundo, um gelado (sem açúcar) com vista para o Panteão e um brevíssimo olhar para a Fontana de Trevi e a Piazza di Spagna com a escadaria da Trinitá dei Monti que hoje não tem manequins a desfilar, mas tem turistas sentados, e manifestantes por uma causa de paz que não entendemos bem qual é.
A Via Condoti, corredor que é “albergue” das marcas mais caras do mundo, só a vemos pejada de gente desde a esquina que de um lado tem a Prada e do outro, um popular vendedor de castanhas.
As duas faces nas esquinas opostas de uma mesma rua ou a complementaridade que dá vida a Roma no casamento perfeito entre o povo e a nobreza dos impérios, os dos Homens, e os da fé que não há praça ou rua que não tenha um altar ou uma igreja.
Já não há tempo para mais visitas e só desde o Táxi e a caminho do aeroporto conseguimos olhar para o Capitólio e, muito ao longe, para o Fórum e o Coliseu.
Por momentos, sinto saudades do melhor passeio que dei em Roma, em Agosto de 2011 na companhia dos meus pais quando num fim de tarde e em passeio pela Praça de São Pedro então quase deserta, saboreámos o gosto de um momento único e feliz de uma "viagem" em família que tanto tem valido a pena.
Um espaço eterno a convidar-nos para os inevitáveis balanços de toda uma vida.
Agora é a primeira vez que estou em Roma desde a eleição do Papa Francisco e dou conta que o merchandising rapidamente alinhou calendários, quadros e até chupa-chupas com a cara do "Novo Pedro".
Olhando em volta reparo que para além da mudança de rosto do Papa, há mudanças no rosto da gente e mais descontracção nos rostos da multidão que vai para São Pedro ou então que já veio de lá.
E é impossível que veja tal mudança, as pessoas são as mesmas e iguais às que tantas vezes vi em Roma.
Apercebo-me então que a mudança está efectivamente em mim porque de uma forma que não sei se é muito ou pouco racional, alimentei essa ideia de descontracção a partir do rosto do Papa Bergoglio impresso em todo o lado, em oposição à imagem de antes, a de alguma inacessibilidade do Papa Ratzinger.
Pode ser percepção, admito que o seja, mas prefiro acreditar que em seis meses apenas, a postura, os gestos e as palavras do Papa Francisco aproximaram-no mais de todos os Homens, aproximando a Igreja de todos esses Homens.
Se isso se confirmar ficarei muito feliz e, perdoem-me a imodéstia e essa estranha contradição do orgulho pela fé que professo.
Estou certo que Jesus Cristo também preferiria o homem das castanhas em detrimento dos "vendilhões" da Prada.
Breve chego ao avião e que bem sabe ler "Lisboa" nos mostradores da porta de embarque.
Fala-se Português na fila para o avião onde o mais apetrechado de marcas de roupa é um frade franciscano que quase todos conhecemos.
Há ainda muito para afinar na escolha dos caminhos mas estou certo que Francisco “incendiará” a Igreja.
É longo o caminho.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

As malditas comadres

Em algumas ruas mais estreitas das nossas vilas e cidades, e porque as chaminés se constituíam muitas vezes como verdadeiras caixas de som daquelas que existem em palcos destinado à ópera, era frequente a sua utilização com vista à escuta de conversas que reproduziam a vida alheia.
O método e os conteúdos escutados acabavam muitas vezes por conduzir a zaragatas que nunca iam para lá das ofensas verbais com mais ou menos puxões de cabelos à mistura.
Conta-se que um dia e numa briga entre duas jovens casadoiras que estavam a ser apoiadas pelas respectivas mães que se constituíam como as suas fervorosas claques, uma das progenitoras terá gritado à sua cria num tom entre o conselho e a ordem:
- Filha chama-lhe p... antes que ela te chame a ti.
Num tempo em que não havia televisão estas brigas serviam inclusive para distrair e animar as ruas até porque os envolvidos, mais cedo ou mais tarde acabavam por reatar as suas normais e agradáveis relações continuando amigos.
Ao ler o jornal e depois de constatar que Catroga acha que Sócrates deve ser julgado, da mesma forma que Soares acha que Cavaco deve ser julgado, e depois de o PS ter dito que andava a ser escutado e o Presidente ter dito que também andava a ser escutado...
E depois de lido que Basílio Horta considera que um orçamento de Estado feito por Gaspar carregaria em si uma maior sensibilidade social e que Sócrates terá convidado Passos Coelho para vice-primeiro ministro do seu segundo governo, o minoritário...
Só me poderia mesmo ter recordado das mulheres das ruas estreitas e dos becos, com todo o respeito por elas que de todo merecem o desprestígio de tal comparação.
As brigas parecem ser aconselhadas pelo "chama-lhe ladrão antes que ele te chame a ti" e no final, mais cedo ou mais tarde, acaba tudo novamente aos beijinhos.
Bem me parece a mim que todos se conhecem demasiado bem e que a diferença está apenas no tom do papel que embrulha a comum desonestidade que nos oferecem diariamente.
De qualquer forma e como medida preventiva, não vão as comadres incendiar os ódios e descobrir mais verdades, e não vá a justiça lembrar-se de começar a funcionar, não parece de todo má ideia pensar no alargamento da prisão da Carregueira, esse autêntico jazigo do nosso regime e dos pecados do novo-riquismo que fabricou os homens de sucesso.
Alargamento… e já agora a montagem de um recinto anexo no exterior para colocação de roulottes de comes e bebes pois há por aí muitas eleições à porta e a malta merece comemorar as vitórias com o mínimo de “dignidade”. 

A viagem de uma tarde de Outono

Há nuvens muito carregadas que esperam a primeira oportunidade para se imolarem por sobre a cidade em bombas de chuva que batendo no pára-brisas quase abafam por completo qualquer outro som. E só a consulta do relógio me faz acreditar que esta escuridão ainda está longe de ser um sinal do entardecer.
Em competição com o irrequieto bater da chuva, escuto a guitarra com a exclusiva e muito lusa marca de fado, em fusão perfeita com a voz de António Zambujo, que num dia assim, e quase que por magia, de Alentejo e pelo eco dolente da planície, me embalam neste "caminhar" anónimo pelas ruas de Lisboa.
E bebo das palavras, a poesia, prefácio perfeito desse instante em que o teu olhar, que até é cúmplice do sul, me dará o norte nesse vagabundo errar pelas calçadas desenhadas a preto e branco da cidade irmã do Tejo.
O olhar de um beijo.
O olhar que eterniza um tão pequeno instante marcado no calendário das nossas vidas.
Ao deixar-te, e no regresso às palavras cantadas por Zambujo, é de saudade o gosto com que rima a poesia, esse irracional e desenho das letras a que a guitarra e a voz continuam a acrescentar verdade.
A chuva parou finalmente.
Comprovo-o desde a oval e minúscula janela do avião que se prepara para me levar até à cidade eterna, Roma.
Agora sim, já é noite, quando o "Eça de Queiroz" dá a volta e me despeço da ponte e do Cristo Rei fazendo-me voar por sobre o campo e todas as serras, embalando-me num sonho que me trará por momentos a tão breve ilusão da morte das saudades, e me trará as lembranças de uma triste tarde de Outono em que pela cidade te procurei, e encontrando-te… acho que me encontrei. 

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Insensibilidade e falta de senso

A hora, que sendo já manhã ainda não oferece à cidade quaisquer raios de sol, deixa no ar um indisfarçável toque de sonolência na gente que circula no aeroporto buscando as portas de embarque e também naqueles que nos atendem quando buscamos atestar de café.
Numa das esplanadas pedimos dois cafés, uma sandes de queijo e uma sandes mista.
Obtemos como resposta:
- Sandes mistas não temos. Só tostas mistas.
- E não pode vender-me uma sandes mista antes de ela ser torrada?
- Não posso porque tal não tem preço e não está no sistema?
- Mas se eu lhe pagar ao preço de uma tosta mista? O seu patrão até fica a ganhar pois não gasta a energia para a torrar.
Olha para mim com um ar tão incrédulo como se eu lhe tivesse pedido para me cantar um fado da Amália.
E responde:
- Não posso porque os pedidos “lá para dentro” são feitos por computador e eu não tenho como passar esse código para a cozinha.
Eu desisto.
- Venham então duas sandes de queijo.
Os computadores viram as suas costas superdesenvolvidas e muito alargadas por culpa da imbecilidade humana e deste “cómodo” encosto ao não pensar e ao não comunicar.
Mas nos aeroportos os serviços maus pagam-se a preços de muito bons. Pagamos e seguimos.
A bordo do avião da TAP de nome Teófilo Braga somos recebidos por duas assistentes de bordo, uma delas com um sorriso metálico, daquelas que nem mesmo a menopausa as demove de terem os dentes devidamente alinhados.
Há muito que as “meninas” da TAP deixaram de ser modelos de beleza mas o hábito que criaram da dispensa dos espelhos faz com que nós tenhamos que nos confrontar amiúde com estes monstros que estão convencidas que estão a um passo de ser Miss Universo.
Paramos para que um senhor coloque as suas malas por cima do assento e chama-me a atenção o facto da “hospedeira metálica” comentar em tom audível para a mais nova:
- Que horror. Ainda por cima vai em executiva. Tenho esperança que esteja enganado.
O passageiro em causa até pode ter o pior dos aspectos mas das meninas da TAP merece tanto respeito como eu (pobre mortal que viaja em económica), como qualquer presidente ou ministro, ou até como a imagem de Nossa Senhora de Fátima que por estes dias viajou em executiva.
Aqui o problema já não é de comunicação que até é em excesso e mal dirigida mas mantém-se um problema de imbecilidade.
E o facto de ser muito cedo e todos estarmos com sono não justifica estes comportamentos arrogantes que mais tarde têm expressão na forma como nos servem os cafés de uma forma tão antipática e dolorosa que não sabemos se tal se deve a algum ataque de reumatismo súbito ou pelo facto dos sapatos lhes estarem a apertar o joanete.
Da manhã sobra-me esta atitude incorrecta de quem presta serviços ao cliente, o mau profissionalismo, a antipatia e uma manifesta falta de educação básica e de bom senso.
O cliente é a salvaguarda do emprego “desta gente” que para além do mais, num país onde há um quinto das pessoas que quer trabalhar e não pode, deveriam agradecer o facto de ter emprego, dando o melhor de si.
É que se a noite lhes correu mal em casa com as companhias, eu é que não tenho culpa nenhuma disso.

domingo, 20 de outubro de 2013

De portas fechadas

Na altura em que Abril abriu as portas e deixou entrar a liberdade existiram portas que simultaneamente se fecharam, e falo de uma forma objectiva e sem quaisquer conotações políticas.
É que nos entrou a febre das discotecas e dos pub’s e desenvolveu-se em nós um especial estímulo libertador de adrenalina pelo facto de tocarmos uma campainha e alguém nos vir abrir a porta para que pudéssemos tomar um copo.
Em Vila Viçosa, onde os cafés e as tascas eram de porta aberta, diria mesmo, escancarada, num impulso de modernidade, alguém se lembrou de comprar a tasca ao Sr. Ai-ai (o peso das alcunhas é tal que nem me recordo do efectivo nome da criatura), retirar o ramo de louro e o garrafão vazio que existiam sempre na fachada, varrer a serradura que se espalhava pelo piso em dias de chuva, trancando a porta e criando um pub que baptizou de “A colmeia”.
Ficava na Rua das Vaqueiras e a sua inauguração teve ares de escândalo na terra.
O que se passava dentro de semelhante “antro” passou a ser objecto de especulação e da infinita imaginação da vizinhança que nunca perde tempo em arquitectar as mais depravadas cenas no âmbito afectivo-sexual, ao jeito de perfeitos realizadores de filmes pornográficos.
Da vizinhança fazia parte a minha prima Cizita, catequista das catequistas e verdadeiramente uma santa mulher, que não perdeu tempo a reconhecer que o diabo se tinha instalado muito perto do seu domicílio e que a existência daquela porta fechada era um claro sinal de que o ano 2000 já estava próximo e que inevitavelmente traria com ele o fim do mundo.
Efectivamente, pouco ou nada de especial se passava lá dentro. Para lá da emoção do toque da campainha, só há mesmo a registar a existência de algo que era objecto da nossa afeição e que nos punha completamente fora de nós: uma bola de espelhos.
Uma bola de espelhos era o top da modernidade e tinha esse efeito catalisador de acelerar a nossa transformação automática em Travolta’s logo que se apagavam as luzes e o artefacto começava a fazer alguns efeitos de desdobramento dos focos coloridos que nele faziam incidir.
Era a loucura.
Era então frequente anunciar-se o sucesso de uma festa de aniversário com base no facto de alguém ter disponibilizado uma bola de espelhos para pendurar no tecto da garagem e dar ao ambiente um ar de discoteca semelhante à que diariamente víamos na telenovela, no Dallas ou no Barco do Amor.
Depois passávamos a tarde a beber Tónica Schweppes e sentíamo-nos super importantes, modernos e, como todos os adolescentes de borbulhas no rosto, sentíamos esse gosto de estar a reforçar as fronteiras para a geração dos nossos pais que só tinham frequentado os bailes das Sociedades Recreativas… e sem direito a bolas de espelho.
As novas gerações abriram as portas dos bares e os clientes trazem os copos para debaixo da minha janela, um verdadeiro corner nas docas secas de Vila Viçosa onde por vezes dou por mim a barafustar por não me deixarem dormir.
Mas contenho-me.
Ainda estou novo demais para “Prima Cizita”, não acredito no Diabo, o ano 2000 já passou sem que o mundo tivesse acabado e não serei eu a deixar que a nova geração deixe de delimitar as fronteiras em relação à minha.
Mantenho-me acordado na cama e vou pensando e deixando correr as memórias à espera de adormecer embalado por elas e pelo efeito fantástico que ainda hoje aprecio de uma bola de espelhos.

sábado, 19 de outubro de 2013

A BBC fala…

Durante a segunda guerra mundial, um conflito muito dominado pela informação e contra-informação, a mensagem promocional associada à estação estatal britânica era: “A BBC fala e o mundo acredita”.
Recordei-me desta frase há dias quando vi a entrevista de Passos Coelho na RTP e hoje voltei a recordar-me dela quando, mais por fidelidade ao Expresso do que interesse pela criatura em causa, dediquei parte da manhã à leitura da entrevista de José Sócrates, actividade que carrega em si algo de mórbido e masoquista, reconheço.
Em ambos os casos, as afirmações e as respostas dos entrevistados passaram a ser a notícia suplantando as verdades reais e objectivas perante os factos.
Para que “o mundo acredite”.
No caso de Sócrates, a sua imagem de “estadista exemplar” é reforçada por uma crónica da Clara Ferreira Alves, mulher que há muito admiro e que escreve sempre o que primeiro leio da revista do Expresso, mas que desta vez se deixou enredar pelo “eixo da vulgaridade” e… esteve mal.
É que vir afirmar que Sócrates é bom só porque Passos é pior, é quase como afirmar que a SIDA até nem é má uma vez que existe o cancro.
E a Clara Ferreira Alves cai na vulgaridade porque em grande parte a situação de Portugal fica a dever-se a esta tentação de ilibarmos os incompetentes com base na existência de outros que ainda são piores do que eles, jamais abandonado os territórios da mediocridade.
É o contexto em que se festejam vitórias eleitorais à porta das prisões que acolhem políticos que a justiça condenou por corrupção.
Objectivamente, Sócrates é mau porque esbanjou recursos alimentando o seu ego e dando pão às clientelas que o serviam, comprometendo o futuro do país e de toda uma geração que será escrava das PPP’s.
Objectivamente, Passos é mau porque não tem qualquer visão de futuro para o país e carrega em si uma obstinada insensibilidade social que nos porá a todos a pão e água algures num muito curto prazo.
Tudo o mais que ambos disserem um do outro com o patrocínio dos jornalistas em acções de desinfestação de imagem, sobre reuniões em São Bento, telefonemas para a Merkel, pressões e jogos de bastidores, é perfeitamente irrelevante quando comparado com o preço da sua incompetência que todos os meses vem “escarrapachado” nos nossos recibos de ordenado.
O Expresso oferece hoje o quinto volume de uma série dedicada às grandes batalhas da história de Portugal. Este debruça-se sobre o período de 1640 a 1668 e sobre a Restauração da Independência. Foi o que acabei a ler depois da entrevista de Sócrates.
Porque será?
Confesso que a procura de inspiração mais do que o saudosismo que até seria aceitável. 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

“Posso dizer uma quadra do António Aleixo?”

No dia a seguir à apresentação do Orçamento de Estado para 2014 que carrega mais uma fortíssima dose de austeridade e um novo aumento de impostos, com o Estado a arrecadar mais 646 milhões de Euros directamente dos meus bolsos e dos meus concidadãos, desloco-me para o trabalho na companhia das notícias veiculadas através do rádio.
A esquerda discute a desistência da CGTP relativamente à manifestação a pé sobre a Ponte 25 de Abril no próximo sábado e a sua transformação numa excursão de autocarros com partida de Alcântara, num entretém verbal que se assemelha a um misto de Festa do Avante e Feira Popular, gentil entretém que o governo por certo agradecerá.
Esta desadequação de discurso faz-me lembrar o “Casino Royal” do Herman José quando a propósito de nada um personagem irrompia numa cena que nada tinha a ver com ele e perguntava:
- Posso dizer uma quadra do António Aleixo?
E já que falamos em quadra, esta não é do Aleixo e não tem a marca da sua genialidade de mestre, mas é minha:
Viúvas, órfãos e até reformados,
Não há quem o orçamento não afronte.
E a solução para tantos enfados
Parece estar em passar a ponte.
José Sócrates, um dos muitos “pais” da crise, afirmou numa entrevista ao Expresso que é, e cito, “o chefe democrático que a direita sempre quis ter” num descaradíssimo e despudorado piscar de olho à direita que terá em vista o aluguer do Palácio de Belém no próximo leilão. Sócrates, o homem que fez exames por fax em cadeiras ministradas em universidades de qualidade duvidosa, lançará um livro no próximo dia 23 na companhia de Mário Soares e Lula da Silva, duas confessas personalidades de esquerda.
Esquerda e direita… ou a prova da ambidextria política com laivos também de comprovada esquizofrenia.
E já que falámos de quadras:
Esquerda, centro ou direita?
Para o Sócrates tanto faz.
Desde que a conta siga perfeita
E mantenha o ar de bom rapaz.
O presidente de Angola, um dos homens mais ricos do mundo e líder de um país onde continua a haver pessoas que morrem à fome, decide pôr fim à parceria estratégia que mantinha com Portugal pelo facto de alguns altos quadros Angolanos estarem a ser alvo de investigação pela justiça Portuguesa, situação que já tinha merecido um subserviente e mal amanhado pedido de desculpas do chefe da diplomacia de Portugal.
A reclamada moralidade feita dos imorais, e:
Lá se foi o petróleo, os diamantes
Mais a fortuna da filhinha Isabel
Na Avenida nada será como antes
Porque de Angola se acabou o mel
E em tempos difíceis, nem a nossa selecção nacional de futebol se salva (e nos salva) dando-nos algum ânimo, condenada que está à disputa de um play-off para ir ao Mundial do Brasil.
Paulo Bento no seu jeito de falar aos arranques e com um ânimo que denuncia a permanente zanga que mantém com o cosmos, chega à antena e expressa a sua resignação por este segundo lugar (e que bem que ele conhece os segundos lugares!) atrás da selecção da Rússia.
Não sei se ele próprio terá a noção, mas o Paulo Bento é naturalmente o presidente dos treinadores antónimos do Mourinho, o homem brilhante que paga a factura da arrogância apenas e só porque nasceu com uma elevada auto-estima num país em que a norma é ter uma auto-estima ao estilo de Paulo Bento: baixíssima.
E assim:
Brasil, de Cabral foi ambição
E para o Bento é uma miragem,
Está de parabéns a Federação
Que assim poupa na viagem.
Fez-se curto o meu caminho com estas notícias por companhia e chego ao fim da viagem na altura em que o jornal acaba e entre jingles de publicidade se anuncia uma rubrica de humor.
Tivesse tudo isto alguma graça, que não tem, e nós, os sponsors involuntários via Orçamento de Estado até poderíamos prescindir de tal rubrica.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ser do campo

Em conversa outro dia com um conhecido, e porque Vila Viçosa é um tema mais do que recorrente nas minhas histórias, fui confrontado com uma afirmação que não sendo inédita me deixa sempre com uma certa irritação cutânea:
- Eu não sei onde é Vila Viçosa e nunca lá fui.
Vestindo-me eu de toda a boa vontade para começar a passar-lhe algumas coordenadas, quase nem pude abrir a boca porque fui desde logo atacado com nova bomba:
- Sabes, nós os que nascemos em Lisboa não sentimos grande necessidade e estímulo para conhecer outras coisas.
Uau!
Não conhecesse eu Lisboetas inteligentes (felizmente, a grandíssima maioria) e poderia assumir que este “terreirodopacismo” e esta adoração umbilical seriam norma, o que de todo não é.
Mas pelo menos encontrei aquele “gajo” que inspira os ódios contra a capital.
Pus aquele sorriso amarelo que é ponto final, parágrafo, e calei-me, que isto de conversar com gente sem cérebro é um verdadeiro desperdício, de tempo e de palavras, não sem antes lhe responder:
- Pois… mas eu sou do campo.
Olhou para mim com um ar estranho como que colando-me o rótulo de tolo neste assumir-me como “do campo”, algo que ele só conhece associado às melhores galinhas que lhe vendem no Pingo Doce para fazer a canja.
Talvez ele possa um dia ler este texto…
Quando frequentei a escola primária em Vila Viçosa, algures entre 1972 e 76 e com direito a uma revolução pelo meio, para além da sala de aula nas instalações da escola do Carrascal, sempre que o tempo o permitia, dispúnhamos do depósito das águas, a chamada Varandinha dos Namorados situada no alto de São Bento, para onde muitas vezes o professor nos levava.
À escala de criança e desde ali, o ponto mais elevado da minha terra e de onde é possível avistar terra do nosso concelho mas também de Elvas, Borba, Alandroal e até terras de Espanha, além Guadiana, aprendi a apreciar a extraordinária dimensão do universo, alimentando em mim essa vontade que nos faz ganhar asas para galgar horizontes porque como dizia o professor, para lá do que a nossa vista alcança há sempre mais terra e mais gente com quem iremos aprender coisas novas que nos farão crescer.
Primeira vantagem do campo: mais céu e maiores horizontes, muito para lá da egocêntrica fixação com o próprio umbigo entre os prédios das avenidas novas… ou velhas da cidade.
E por entre os aromas do campo que sublinham as estações que o calendário nos vai trazendo, na companhia dos amigos que ficaram para sempre, aprendi… a voar, que é isso que faz quem não se demite de sonhar.
Regresso muitas vezes a este miradouro que tem agora uma “varandinha” gémea ao seu lado, respiro os aromas do campo e certifico-me que à escala de hoje, tudo é muito mais pequeno. Mas isso não beliscou jamais a minha disponibilidade para sonhar e a vontade para ir mais além.
Pudesse eu ter dúvidas (que em absoluto não tenho) de que pertenço a esta terra e sou do campo, que estes momentos viriam em auxílio de me acrescentar a certeza.
E ser do campo é isto e é todo o contrário do meu conhecido de Campo… de Ourique, ser do campo é ser cúmplice da terra e sonhar com uma ambição à dimensão infinita da escala do universo.
Para terminar sempre digo que ser “do campo” é verdadeiramente um estado de espírito, muito mais do que uma consequência do sítio onde se nasceu. Afinal, como na grande maioria das coisas da vida, podendo sofrer as influências de tudo e mais alguma coisa, a última palavra do que somos, é sempre nossa, pertence-nos.
E neste caso é apenas uma questão de querer ser “simples” para poder ser muito maior.
E tolos? Há em todo o lado.

A casa dos segredos

Há alguns anos, algures pelo inicio dos anos noventa, deliciei-me com uma encenação de “A gaivota”, de Tchekhov, no Teatro da Graça, ali para as lados da Voz do Operário. A actriz Alexandra Lencastre encarnava então a Nina Mihailovna, uma das personagens centrais do enredo que o autor definiu como uma comédia e os críticos e o público rotularam de tragédia, o que não é de todo usual.
Recordo-me da excelente performance da actriz.
Por esses anos de noventa, Portugal rompia com o monopólio da RTP e aprovava dois canais privados de televisão. Durante o processo de escolha destes dois canais, para o qual se apresentaram três projectos, a Igreja Católica, à boleia do sucesso da Rádio Renascença, reclamava que uma das licenças lhe fosse atribuída, o que veio a concretizar-se, e a TVI, canal de inspiração cristã, emparelhou com a SIC nestas novas estações com marca não estatal.
Ontem ao serão, e durante um processo desesperado de zapping, daquele que até faz deitar fumo ao comando, juntei estes dois pedaços de memória quando vi a Alexandra Lencastre a apresentar na TVI um programa de “A Casa dos Segredos”.
Na guerra pelo sucesso comercial que deriva dos maiores níveis de audiência, a TVI há muito resolveu ir de encontro aos mais básicos instintos voyeuristas dos cidadãos colocando-se na posição de montra de bordel, algo inédito num país onde os ditos para além das vidraças também tinham janelas com tabuinhas.
Pelo caminho, a inspiração cristã ficou definitivamente arrumada e quem antes apoiou de forma enérgica a existência de um canal para a Igreja Católica deve sentir-se agora como um espectador que tendo comprado bilhete para a Traviata no São Carlos, chega lá e só pode assistir a um show da Cicciolina.
A única relação que a TVI mantém com o divino é o “valha-me Deus” que sai da boca dos espectadores quando confrontados com estas manifestas exibições de mau gosto.
E pela sua sobrevivência, os grandes actores surfam na onda e numa televisão cristã… vendem a alma ao diabo.
Jamais me assumirei como um apóstolo do apocalipse vendo nestes “perversos” percursos uma aproximação ao fim do mundo, muito longe disso, mas não posso deixar de registar como a frivolidade, a banalidade e o mau gosto vão dominando uma certa estética patrocinada pelo bom senso.
Pela minha parte, vou dando uso ao leitor de DVD’s.

domingo, 13 de outubro de 2013

A Casa Portuguesa

Uma semana com o privilégio dos pais aqui em casa é uma semana de serões em família onde a televisão é dispensada para que emerja a conversa inevitavelmente sermos conduzidos para as memórias do Portugal dos anos quarenta e cinquenta.
Por estas décadas, a minha mãe aprendia a profissão de costureira em casa da Mestra Hermenegilda, e com a outra meia dúzia de raparigas que a acompanhavam no desenhar de um círculo feito de cadeiras baixas com assento de buínho, aprendia a arte dos alinhavos e dos chuleios, parando de vez em quando para, todas juntas e em quase segredo, lerem os sonetos da conterrânea Florbela Espanca, que ousavam falar de prazer, de amor e que por isso tinham um enorme gosto a proibido pecado.
O meu pai aprendia a arte de barbeiro na companhia do padrinho e trabalhava aos sábados até para lá da meia-noite, possibilitando que os clientes que saiam do trabalho quando o sol se punha, pudessem ir fazer a barba antes de chegarem a casa e tomarem o banho semanal que era invariavelmente tomado num alguidar no centro do quarto pois banheira, para além de casa de banho e água corrente, era algo que dificilmente existia nos seus domicílios.
Este era o tempo em que o ditado “pão quente, nem a são nem a doente” prevenia que a tentação do consumo excessivo do dito alimento logo à saída do forno impedisse que ele durasse até à semana seguinte. O tempo em que as mães davam sempre dois pedaços de pão, um maior e outro mais pequeno que pela imaginação fazia as vezes de queijo ou de qualquer outro acompanhamento.
E as canções da época?
Davam uma virtual pancadinha nas costas apelando ao conformar-se com a pobreza que rimava estranhamente com “Casa Portuguesa” e de cuja alegria se dizia ser esta “grande riqueza de dar e ficar contente”.
Porque nessa época só havia pobres e ricos.
Mas nos serões desta semana abrimos uma excepção e deixámos que a televisão se sobrepusesse à nossa conversa e trouxesse até nós a mensagem do Primeiro-Ministro de Portugal dando resposta a vinte concidadãos que foram rigorosamente seleccionados para o entrevistar.
Ficámos a saber que a classe média é que está a pagar a crise abandonando assim a sua “mediania”, baixando de nível e juntando-se aos pobres.
Mas cada um tem o que merece pois esta mesma classe média é que está a obrigar ao encerramento dos restaurantes na medida que “decidiu” deixar de os frequentar obrigando os proprietários a pensar que a sua desgraça se ficou a dever ao aumento do IVA.
E acautele-se a classe média pois com o aumento de impostos, a redução dos salários e, qualquer dia o apoio aos pais e avós que deixarão de ter condições económicas para sobreviver autonomamente, morrerá inevitavelmente cedendo o “palco” aos pobres e… aos ricos que serão os de sempre.
A morte da classe média através da asfixia de professores, profissionais liberais e quadros do Estado, de uma forma absolutamente cega e ilibando as infinitas nomeações de “boys” e “girls”, devolverá inevitavelmente Portugal aos tempos da salazarenta pobreza em rima com a Casa Portuguesa.
E quer o Senhor Primeiro-Ministro que o consideremos um herói no cumprimento da sua missão.
Os heróis não são os que aceitam submissos a inevitabilidade dos dias e a herança de um fado, pelo contrário, são os que dão passos em frente rompendo com esses mesmos destinos, mesmo os que envolvem maiores riscos.
Onde estaria Portugal se os conjurados de 1640 tivessem optado por desenvolver uma submissa e cómoda amizade com a Duquesa de Mântua e Filipe III?
Mesmo sabendo que a vida decorre em ciclos, é estranho sentir que estas partilhas familiares ao serão, de um passado que em tempos nos pareceu enterrado de vez, não estará agora tão longe de nós como estão supusemos.
Faltam heróis e inspiração para rompermos o destino.
Mas desistir, nunca.

sábado, 12 de outubro de 2013

Eu, um vagabundo

A manhã de Lisboa cheira a um irreverente verão pela bênção do sol rebelde e mouro que insiste por estes dias em contrariar o Outono que o calendário já trouxe há semanas.
O Rossio fervilha de turistas que em pequenos grupos caminham em direcção às Portas de Santo Antão e que inevitavelmente se dispõem em semi-circulo e prestam vassalagem às pequenas montras que ladeiam a Ginjinha do Eduardinho.
Vejo-os `através de uma das janelas do Palácio da Independência e estou na sala baptizada com nome do poeta dos meus poetas: Fernando Pessoa.
Já estão no pátio do palácio e entrarão de aqui a pouco na sala, os homens e as mulheres que vagueiam errantes pela cidade e a quem hoje eu e a Joana nos quisemos juntar.
São curtíssimos os minutos até ao momento em que estão sentados em frente a nós para que a pretexto de uma conversa sobre saúde brindemos com afectos na festa do encontro de todos.
Vagabundos, pessoas sem-abrigo, toxicodependentes, alcoólicos?
Pouco contam aqui os detalhes circunstanciais se nos une o essencial e o mais importante: sermos gente.
Somos todos iguais na partilha desta raiz.
E os conselhos sobre a aspirina ou o sabonete valem muito pouco nestas horas em que são os sorrisos, os apertos de mão, os abraços, os beijos e as palavras de afecto com o lustro dos olhares, o que mais conta e o que faz realmente a festa.
O valor inquestionável dos afectos na vida da gente posta à margem e abandonada à solidão e ao vazio das calçadas de Lisboa, a única “casa” que lhes resta.
Ali, todos juntos nesta partilha, a minha vida, onde sobram casas, ganha também um sentido maior.
E talvez nunca como hoje tenham feito sentido os anos passados na faculdade a aprender os detalhes do valor do ácido acetilsalicílico.
No palácio onde Portugal se reinventou em 1640 e na sala do poeta que pela Mensagem cantou a glória do país, a prova do tão simples que nos faria diferentes e maiores.
Bastaria apenas que a alma emergisse destes imbecis dias do “ter”.
Devolvo-me ao sol de Lisboa pelas três da tarde que continua quente e remando contra os turistas que continuam o seu percurso, impele-me a vontade que entre na Igreja de São Domingos, ali tão perto.
Também está pejada de turistas quando me ajoelho e rezo naquele estranho ambiente criado pelo fogo na sua passagem pela igreja mais rica de Lisboa, o templo que foi anfitrião dos casamentos da dinastia de Bragança.
O fogo foi de facto cruel e marcou-a para sempre sem conseguir no entanto apagar-lhe a nobreza que ainda transpira.
Os templos, cúmplices das pessoas na preservação do que é nobre e essencial, por maior que seja o “fogo” que nos empurre para as ruas frias da noite de Lisboa.
Saio passados alguns minutos e também eu me faço à Rua das Portas de Santo Antão, agora seguindo a rota dos turistas.
E sou eu, cidadão anónimo na tarde quente de Lisboa, um eterno vagabundo buscando sempre um sentido maior e melhor para a vida.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Zumba 0 – GAP 1

No inicio dos anos noventa, na altura em que eu trabalhei numa farmácia, Zumba era a marca comercial de um produto destinado a melhorar a performance sexual masculina. Rivalizava com o HiperSex, produto que eu aconselhava mais vezes porque sempre tinha um nome que oferecia mais credibilidade que o concorrente, inevitavelmente associado ao “Zumba na Caneca” da inesquecível “Menina do Alto da Serra”, a Tonicha.
Recentemente fiquei a saber que Zumba é também uma especialidade desportiva que entusiasma muitas das minhas amigas na sua luta diária contra a celulite, a obesidade e os seus derivados, alguns de natureza psicossomática; e na recuperação da boa forma. E digo amigas porque na turma que frequentam não existe nenhum homem, apesar dos árduos esforços para conseguirem que tal aconteça.
Ontem convidaram-me para entrar na “dança” mas eu recusei como medida profiláctica de situações do género:
- Olá Joaquim, de onde vens?
- Olá, venho do Zumba.
Não me soa bem.
É um pouco ao jeito de “venho do Pimba” e já tenho piadas e riso de sobra quando digo que me chamo “Quim Barreiros”.
Mas se a minha decisão se apoiou apenas em critérios musicais, fiquei hoje a saber à hora do café que esta especialidade perde em eficácia para a GAP, que aqui também não se refere a qualquer marca americana de roupa (a Zara dos americanos que as tias de Cascais vestem por cá como se fosse super chique), mas sim a uma outra especialidade desportiva, sendo como é a abreviatura de “Glúteos, Abdominais e Pernas”.
E a colega que defendia a GAP ganhou em argumentos à colega do Zumba, embora uma vitória tangencial ao estilo de Jorge Jesus na nova versão 2013-2014 e por sobre a suspeita de doping pois ficou comprovado que ingere diariamente litros de um preparado à base de melancia, café verde sem cafeína, Garcinia e Cambodja, o que a faz verter mais líquidos do que um funil roto.
O esgrimir de opiniões até poderia ter chegado à goleada mas o jogo foi interrompido aquando da chegada de uma outra amiga que resolveu explicar a um outro, as vantagens da recolha automática do leite versus a recolha feita à mão.
Para os devidos efeitos sempre esclareço que este amigo foi pai recentemente e se referiam à recolha do leite materno para dar à criança.
Mas o que importa é que a GAP ganhou e eu tenho agora argumentos sérios e científicos para não escolher a tão desconfortável disciplina de Zumba.
Há dias assim, ao jeito do telejornal de ontem que noticiou os argumentos do Ministro dos Negócios Estrangeiros que se foi defender no Parlamento através da leitura de um texto escrito tendo acabado a discutir a sua honra com uma vergonhosa ligeireza como se de uma discussão de Zumba ou GAP se tratasse (e com doping SLN); em que foram noticiados os cortes nos salários e nas pensões que se anunciam para 2014, e a noticia que refere que os sindicalistas da CGTP estão muito empenhados em reivindicar que a sua marcha de revolta possa atravessar a Ponte 25 de Abril, como se esta manifestação ao jeito de Mini-maratona mas sem patrocínio de marcas desportivas fosse o problema nuclear do país.
Talvez seja culpa deste prolongado período de verão, na minha terra designado por “Verão dos Marmelos”, que irrompeu aqui pelo nosso Outono e abriu uma janela de “Silly Season”, ou “Estação Tonta” se preferirmos a língua de Camões.
Mas se este impacto do sol intenso nas moleirinhas já calibradas para o tempo nublado de Outono, não tem importância nenhuma quando nos referimos a uma reunião de amigos durante dez minutos em torno da bica matinal, já no que se refere a BPN’s, Diplomacia, Parlamentos e afins, a coisa é um pouco mais séria.
No entanto, como todas estas diferenças estão esbatidas, e tudo parece alinhado com o non-sense da brincadeira, sempre ganho legitimidade para afirmar que andam a brincar connosco em coisas muito sérias, não sendo de estranhar que brevemente os Glúteos, os Abdominais e as Pernas voltem à “boa forma” pela falta de verba para a ingestão de “substâncias pecaminosas”, leia-se alimentos básicos e calóricos, a mesma carência que restituirá o Zumba ao âmbito restrito da Tonicha já que até a aplicação terapêutica deixa de fazer sentido com tanta gente a… lixar-nos, e a tirar-nos o leite desta forma tão inconstitucionalmente automática e dolorosa.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Os contrastes no velório da dignidade

No dia em que o número de mortos resgatados do mar de Lampedusa, na sequência do naufrágio da passada semana, ultrapassa já as duas centenas, uma amiga recebeu o conselho de uma senhora africana no sentido de se deslocar a Paris, aos Campos Elíseos e à loja da Louis Vuitton, para comprar adereços para a sua cadela de pequeníssimo porte, uma vez que a referida loja tem uma secção especializada em adornos para animais de estimação.
A cliente Louis Vuitton aterrará por certo centenas de vezes nos aeroportos de Paris em viagem iniciada no continente de que é natural, a mesma origem das pessoas que se amontoaram numa embarcação insegura em busca da ilha mediterrânica do arquipélago das Pelágias, Lampedusa, em termos geográficos, parte do território africano, mas politicamente o ponto mais a sul da Europa. Uma ilha cujo nome ironicamente nos transpõe para a ideia de lâmpada, de luz.
A “madame” desembarcará vestindo padrões de leopardo ou tigre em roupas contendo as etiquetas de grandes costureiros, enquanto os candidatos a imigrantes que conseguiram chegar à ilha o fizeram sem roupa, depois de as terem oferecido como combustível na emissão de um pedido de socorro perante o iminente naufrágio.
O mundo e os seus contrastes…
Mas desengane-se quem julga que terá de abandonar as fronteiras do país para comprovar tais situações.
A Avenida da Liberdade é uma das artérias mais conceituadas do mundo que tem as suas fachadas enfeitadas pelas marcas mais caras do universo, e diz-se que outras tantas marcas aguardam em lista de espera para se instalarem nos seus edifícios.
É agradável caminhar pela Avenida e ver as montras, faço-o muitas vezes e a última foi ontem, mas é bom que o façamos com o cuidado de ir olhando para o chão pois se não o fizermos termos fortíssimas probabilidades de tropeçar nas improvisadas camas dos sem-abrigo.
Por ali, a luz de cabeceira de muita gente, é a montra da Cartier, da Boss ou da Prada.
O mundo e os seus contrastes que inundam de vergonha a humanidade, aquelas gritantes diferenças que acreditámos jamais sobreviveriam à passagem para o nosso terceiro milénio.
Dirão os resignados que sempre existiram pobres e ricos justificando assim a sua inacção.
Digamos nós, os insubmissos e que nunca tememos a alcunha de loucos, que esta vergonha não é obra do acaso, tem responsáveis e que eles devem ser punidos.
Quem gere as nações com o objectivo único de se governar a si próprio e engrossar as suas contas bancárias, e aqueles que pela sua incompetência na gestão dos bens comuns obrigam as nações a pagar os juros de elevadíssimos empréstimos, bóias financeiras de elevado custo disponibilizadas pelas instituições internacionais; são indiscutivelmente réus que importa “sentar” na lista de culpados.
E em Portugal o preço da incompetência está a ultrapassar os valores admissíveis ferindo de morte a sobrevivência e a dignidade dos indivíduos através de um ataque asqueroso sobre os rendimentos de pessoas vulneráveis e de um vil ataque sobre classes profissionais injustamente classificadas como incompetentes e dispendiosas.
A incompetência de quem nos governou e governa, também leiloou a soberania a preço de saldo e já não somos nós quem manda no nosso próprio destino.
São os contrastes no velório da dignidade do Homem em capela enfeitada pelas coroas de flores da mentira e da hipocrisia com o “alto” patrocínio dos próprios assassinos, mestres de palavras de boas intenções.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Tomate, pingo e espargos sob uma coroa de poejo

Ontem à saída da missa das onze e meia em Vila Viçosa perguntei a uma pequeníssima amiga que foi há pouco para a Escola Preparatória frequentar o quinto ano de escolaridade, do que é que gostava mais nesta nova etapa da sua vida escolar.
Ela não hesitou na resposta: dos cacifos.
Que inveja!
No final dos nos setenta, inicio dos oitenta, a juntar ao Passeio dos Alegres, as nossas tardes televisivas de fim-de-semana continham sempre um episódio da série Fame, e para além dos bailados e das peças do Leroy e companhia, que inveja daqueles cacifos no corredor personalizados com fotos e mensagens, refúgio para os intervalos menos interessantes e para aqueles em que emergia algum terrível desgosto de amor.
Mas já não sou do tempo das escolas preparatórias ou secundárias terem cacifo.
A minha Escola Secundária, instalada em versão provisória nas cavalariças do Paço Ducal tinha manjedouras, o que não é de todo a mesma coisa, mas acabava por ser um bom local para nos sentarmos a conversar, e a festa ou os desgostos de amor não eram “tratados” na solidão da cabeça enfiada num paralelepípedo de metal com porta e com uma tranca associada a um cadeado, mas antes na tertúlia dos amigos, verdadeira terapia de grupo.
Talvez por sermos dessa geração que conversava, com olhos e com a boca, ao contrário desta geração dos cacifos que fala com os dedos, e claro, porque sobrou tempo para nos conhecermos muito profundamente e por esse conhecimento termos enraizado uma fortíssima amizade, ficou-nos o gosto, muito mais do que apenas o hábito, de nos sentarmos a conversar e a partilhar a vida.
Ontem foi dia de almoço de amigos.
A Manuela, o Zé Maria e a Marta convidaram-nos para a sua mesa familiar. Com o Padre Simões, a Natália, a Mina, a Fernanda, a Xana, o Manuel, a Ana Cristina, a Joana e o Fábio fomos três alegres gerações à mesa na roda dos amigos.
E com tanta energia que a mesa a determinada altura até “quebrou”.
Somos amigos da escola e também dos Convívios Fraternos que fizeram parte desses dias que já vemos à distância de décadas.
Décadas em que cada minuto foi uma oportunidade para cimentarmos a nossa amizade e nunca um pretexto para justificar qualquer tipo de afastamento. O tempo constrói ou destrói, nós ditamos o seu aproveitamento, e aqui imperou esta amizade que para todos tem marca de indestrutível e está inscrita no coração de cada um com marca de indispensável.
O pretexto, e apenas e só o pretexto, uma Festa das Migas.
E assim, ao contrário do que o título possa sugerir, este não é um texto destinado à análise de alguma cantiga do Festival da Canção que possa ter sido escrita pela Rosa Lobato Faria, é apenas um breve resumo dos aromas do menu: Migas de Tomate, Migas do Pingo e Migas de Espargos.
E o poejo?
O aroma do licor que me serviu de digestivo.
E se a comida estava excelente, e estava mesmo, ela é como disse, apenas o pretexto para nos reencontramos e estarmos juntos partilhando o riso que nasce desse à-vontade de sabermos rir de nós próprios, dos nossos tiques e das nossas assumidas manias; compartirmos as faces fechadas e sérias que às vezes se desfazem em lágrimas sempre que a vida não corre como gostaríamos que corresse e… partilhar até os silêncios.
Porque de tudo isso se compõe a vida, essa dádiva perfeita que sabe sempre melhor num momento como este: uma tarde solarenga de Outono, Alentejo no seu melhor, porque isso é Vila Viçosa; e grandes, grandíssimos e eternos amigos.
E os invejados cacifos não nos fizeram falta alguma.

sábado, 5 de outubro de 2013

Uma viagem na República Portuguesa

Há uma intensa neblina sobre o Douro quando de manhã chego à Alfândega ao mesmo tempo de uma “multidão” de pescadores que munidos das suas canas se perfilam alinhados gritando uns aos outros promessas de sucesso na sua actividade matinal.
Quando desço à hora de almoço já não estão nos seus postos ficando eu sem saber se desistiram ou se, tal como eu, foram engolidos pelos nabos, couves e garrafas de vinho do Continente em Feira de Sabores no majestoso edifício do Porto. Anuncia-se o Tony Carreira e por isso já há grades metálicas à frente das bilheteiras que vendem pulseiras cor de laranja, em tom fluorescente, ao jeito do “tudo incluído” nas estâncias de férias.
E a Alfândega ganhou ares de Pavilhão Atlântico.
Caminho ao longo do rio na companhia do meu querido amigo e colega Paulo Chinopa e acabamos por nos sentar numa mesa que espreita o Douro. Hoje tivemos sorte, ao contrário da noite de ontem em que só à segunda tentativa conseguimos jantar depois de numa primeira nos terem feito esperar meia hora sem receber o pedido e de terem apelado para a nossa compreensão pela falta de pessoal.
Depois de eu ter dito que falta de pessoal num país com 18% de desemprego não é compreensível, saímos deste restaurante que estando instalado na auto-designada “Capital do Trabalho” tem claros pecados que os Portuenses atribuem aos “mouros” de Lisboa.
E faço-me à estrada rumo a sul passando o Douro na Ponte do Infante falando ao telefone com os amigos para combinar as Migas Alentejanas que serão o pretexto do nosso macro almoço de amanhã. Quando passo por Gaia já falamos do Sericá e da sobremesa.
Só paro em Fátima onde já há ambiente de treze de Outubro e onde já se montam as estruturas que receberão os peregrinos que vindo a pé, de longe, de norte e de sul já se puseram a caminho. Mas hoje tive de parar em Fátima pois há uma amiga que está apreensiva este fim-de-semana.
E depois do Douro, do Vouga e do Mondego que passei nas pontes da A1, do Tejo que passei em Santarém na Ponte Salgueiro Maia e do Sorraia na Ponte de Coruche, chego a Vila Viçosa.
Percorri 460 quilómetros e passei por sete dos dezoito distritos do continente: Porto, Aveiro, Coimbra, Leiria, Santarém, Portalegre e Évora, ou seja 40% dos distritos.
Acresce que em todos os locais e com todas as pessoas com quem falei, o fiz na mesma língua, o Português, enriquecida e apimentada pelos diferentes sotaques, que a viagem foi acompanhada pelo mesmo sol com intensidade de Portugal e de que a roupa estendida nas janelas da Ribeira do Porto tinha o mesmo tom limpíssima da roupa que vi estendida durante todo o meu percurso.
No dia cinco de Outubro, data do Tratado de Zamora que ditou a independência de Portugal, e em 1910 da implantação da República, o meu dia acaba por contrariar quaisquer intuitos separatistas e regionalistas, apresentando-me eu como um certificado vivo e com pernas da unidade nacional.
O que nos une é muito mais do que o pouco que nos separa. E os quilómetros de norte até sul até se percorrem numa só tarde.
Com um prazer enorme de ser Português e um orgulho gigantesco pela terra que somos.
Viva Portugal.
Viva a República.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Lutas fratricidas em tempos de “laboráveis cincos de Outubro”

É interessante constatar que na vida, e em algumas circunstâncias muito próprias, as situações de vitória e de derrota, que parecem opor-se diametralmente, acabam por ter exactamente as mesmas consequências e motivar o mesmo tipo de comportamentos.
Estas situações acontecem habitualmente em “jogos” disputados por equipas que não o são verdadeiramente pois no seu seio emergem as individualidades de cada “jogador”, que mesmo quando têm que marcar golos numa única baliza, têm como prioridade serem eles a marcá-los para poderem ganhar sempre o título de “homem do jogo”, o tal da melhor exibição.
Depois das recentes eleições autárquicas não estranhei o ambiente tenso no interior do PSD, a caça às bruxas e o aproveitar do momento de fragilidade de quem detém o poder. É normal que assim aconteça perante as derrotas.
Mas, e no interior do PS?
De dentro do grande vencedor das autárquicas, António Costa, o homem que obteve melhor resultado em Lisboa do que o partido no seu todo à escala nacional, afirmou ontem na SIC Notícias que o PS tem ainda um longo caminho a percorrer, não estando pois preparado para assumir o poder. Alimenta assim e mais uma vez a guerra surda (e às vezes, muda) que vem mantendo com Seguro.
É a guerra pelo título de “homem do jogo” no fim da partida que disputaram e ganharam.
Este fenómeno que importa comportamentos do desporto para o seio da política, tem raízes no facto de a solidariedade ser um triste conjunto vazio quando falamos de poder e glória porque no espaço no primeiro lugar do pódio é sempre demasiado curto para que lá possam coexistir duas criaturas.
E se isto acontece ao nível dos partidos porque é que estes agentes iriam munir-se de boas intenções na hora de administrar os bens e a causa pública?
Se não são capazes de administrar convenientemente e entender-se dentro da sua própria casa, porque razão iriam conseguir gerir todo o condomínio e as zonas ajardinadas adjacentes?
Nada acontece por acaso e cá estamos nós para, percentagem a percentagem dos nossos pequenos salários, irmos equilibrando as contas públicas.
E amanhã, dia 5 de Outubro, não fosse sábado e pela primeira vez desde que me conheço, todos iríamos abdicar das comemorações da implantação da República para ajudar a minorar o deficit, numa daquelas medidas que tem tanto impacto no orçamento como uma colher de chá de limão no tratamento de uma tuberculose.
Por acaso, não só pela implantação da República, mas também porque foi em 5 de Outubro de 1143 que na Conferência de Zamora, o Rei Afonso VII de Castela reconheceu a independência de Portugal, esta até é a data mais importante da História de Portugal.
Mas isso não interessa nada.
Agora.
Já lá vai o tempo em que os Homens lutavam pelas causas que envolviam o bem-estar dos seus semelhantes, muito mais do que apenas e só, por causa de si próprios.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Gaiolas muito pouco douradas

É Romeno, o bem-parecido motorista de táxi que entre vivendas rodeadas por jardins, me transporta pelos estreitos caminhos da velha Inglaterra até ao aeroporto de Gatwick onde vou apanhar o avião para regressar a Portugal.
A conversa leva-nos pelo futebol, pela miragem que a Comunidade Económica Europeia / União Europeia constituiu para os nossos povos após as mortes de Oliveira Salazar e Nicolae Ceausescu (tão longe e afinal tão próximos), a desilusão após a adesão, a morte anunciada do Euro e a constatação do facto de os tratados apenas expressarem fictícias uniões políticas numa Europa onde persistem as desigualdades e onde continua a existir o conjunto dos povos que servem e dos povos que são servidos, ou se quiserem, os pobres e os ricos, respectivamente.
A união permitiu que os “criados” se sentem à mesa com os “senhores” mas na hora da festa só os últimos se divertem porque os outros vão para a cozinha tratar da louça.
A conduzir um Mercedes, à esquerda como mandam as regras do país onde trabalha, este rapaz concordou comigo quando comentei a beleza das casas que íamos vendo no caminho, mas logo me disse:
- Para mim são bonitas e impossíveis pois as mais baratas custam meio milhão de libras.
Qualquer coisa como seiscentos mil euros.
Ele é dos que lava a louça.
Já no aeroporto resolvo entrar num dos restaurantes para concretizar um almoço tardio em que acabei por comer a pior pizza do meu curriculum, uma roda de massa crua enfeitada de rúcula e de camarões que não acabaram de descongelar.
No imenso restaurante não consegui visualizar nenhum empregado que não fosse Português. E todos simpáticos na hora em que descobriram que eu também era, desarmando-me da coragem de reclamar pela pouca qualidade da malfadada pizza, numa assumida solidariedade lusíada.
Não sei o nome da rapariga de Barcelos que mais falou comigo e me disse que o regresso a Portugal se vislumbra impossível. Trabalha muito por aqui, tem imensas saudades da família, mas este é o melhor sítio que tem para viver.
Definitivamente, nós também somos dos que lavamos a louça.
Depois de me despedir dos meus “amigos” Portugueses, encaminhei-me para a porta de embarque passando antes na emigração para mostrar o passaporte. Não fazendo parte do Espaço Schengen talvez o Reino Unido seja menos hipócrita não aceitando ser conivente neste disfarce de uma Europa sem fronteiras quando as verdadeiras fronteiras, as sociais, são muros intransponíveis.
O caminho é longo até ao avião e oferece-me tempo mais do que suficiente para rever o “filme” da minha última hora de vida, de buscar justificações e de me recordar das palavras do meu taxista Romeno na altura em que lhe expliquei que de adepto de Mao Tse Tung até presidente da Comissão Europeia apoiado pelos partidos mais à direita, se fez o percurso do Mister Barroso que ele sistematicamente colocava na conversa e o homem que em 2004 se demitiu de primeiro-ministro para assumir o cargo garantindo o apoio ao desenvolvimento do país (está à vista!):
- Os políticos são na verdade como as prostitutas, e vendem-se para chegar ao poder.
Só em parte concordo pois as prostitutas só vendem o corpo e não a alma, e para além disso, fazem-no muitas vezes para poderem subsistir, e não apenas pela sede do poder e dos seus associados e pérfidos benefícios que estão muito para lá das necessidades básicas.
A comparação é pois desprestigiante para as prostitutas.
E a Europa é assim porque tem de ser assim, tendo como tem, semelhantes líderes ao leme.
Quando saí do edifício onde me encontrava antes de ir para o aeroporto, o rapaz Romeno estava entretido a dar brilho ao carro e, garanto-vos, tinha o mesmo ar da fantástica Rita Blanco, a Maria do filme “A Gaiola Dourada”, quando passava o pano pelo corrimão do imponente prédio de Paris.
Tiques e gestos dos povos que servem, na ficção, e pior, na realidade.