quinta-feira, 30 de abril de 2015

Os poetas não compram flores


Não deixo nunca que os sonhos se apaguem na inevitabilidade do tempo; com eles vou moldando o mundo, e às vezes tomo notas desenhando e construindo “os meus mundos”, detalhes de brincar que um dia, mais cedo ou mais tarde, transportarei para a dimensão real que têm os dias.
Desenho a face de uma cidade colorida banhada por um rio, o Tejo; e encho-a de árvores, de ruas com chão desenhado a preto e branco, um castelo, paredes vestidas de todas as cores… e gente; uma cidade onde só pelo olhar se intui a banda sonora tecida a toque de guitarra e voz apaixonada de um fado.
Lisboa, a cidade onde cada detalhe me conta uma história.
O rio cruza-se desde o Terreiro do Paço em direcção ao comboio que ruma a sul e sueste…
E na outra face e em tom de férias desenho as planícies que conduzem à foz de um outro rio, o Guadiana; que os rios são apenas distintos pormenores geográficos para o canto e o passo da mesma água.
Aqui dispenso a ponte, tenho o barco que me levará sempre com a mão entrelaçada à mão da minha avó até às ruas de um falar diferente onde há caramelos e chocolate.
Voltamos ao fim da tarde; o mesmo barco, as mesmas mãos… e ainda e sempre as mesmas águas.
À noite acendem-se luzes, candeeiros nas ruas de Lisboa, no Sotavento, luzeiros pela planície fora…
Na minha maqueta de brincar, nos meus Legos…como as estrelas que me sorriem em todas as noites e que imitam a persistente vontade expressa em todos os meus sonhos: nunca se apagam.
“Sempre fui habituado a ser forte, a ser capaz de tudo, e não me vou abaixo”.

Ricardo, um abraço.
Os poetas não compram flores, tecem-nas com palavras e oferecem-nas assim, às vezes nos dias menos simpáticos que a vida tem.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

As lembranças de Lear e a busca incessante das palavras certas


Trouxe da tarde uma foto que tirámos junto ao rio, e escrevo olhando-a fixamente à luz das lembranças, buscando arduamente as palavras que melhor desenhem a verdade sobre o sentir a que ela reporta.
Às vezes faço uma pausa e fecho os olhos para regressar ao recanto perfeito que arquitectaste em mim.
Sento-me e descanso um pouco por lá.
Depois regresso à foto e à folha branca.
Que bom seria se os dicionários de todas as línguas do universo tomassem das musas o encanto e pudessem ajudar-me…
Escrevo, leio e releio, volto a escrever… mas nada se assemelha ao tudo perfeito que os nossos olhos há pouco tão bem disseram um ao outro.
A imbatível poesia dos olhares na nudez despojada de quaisquer pudores.
Alguém plantou um sofá no cais da estação para que nós nos pudéssemos sentar a partilhar a nossa história. Passámos tantas vezes por aqui e nunca pensámos que um dia o tempo nos faria juntar; o Castelo iluminado ao fundo, o D. Maria no sossego de uma noite sem teatro.
"Assim que nós nascemos, choramos por nos vermos neste imenso palco de loucos."
Acodem-me à memória estas palavras do Rei Lear que um dia ouvi por aqui.
E sigo perdendo-me no número de vezes em que senti o impulso de te tomar e acariciar a mão, ou então no número de instantes em que o brilho dos nossos olhos esteve quase prestes a explodir…
Mas a noite reservou para nós um beijo.
Sinto-o em mim e é ele o recanto, o palco a que regresso enquanto busco as palavras certas.
Louco?
Só se assim se chamar o instante perfeito desenhado por todos os sentidos.
Um beijo…
E subo a Avenida da Liberdade a chorar e com a sensação de que hoje renasci.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Perspectivas … e o muito que não se vê


Quem assumir que o mar é da cor da água que a onda lhe faz rebentar aos pés algures numa praia, jamais pensará pelo tom alvo da espuma que ele é azul; e quem olhar para uma rosa cingindo-se ao pé verde cravejado de espinhos, viverá para sempre na ignorância do esplendor que a flor oferece a quem a vê e “respira”.
Quem olhar para mim todos os dias ao fim da tarde no regresso a casa: mochila às costas, algum ou outro saco de compras, papéis, um assobio a enfeitar os lábios…
Assumirá por certo que o homem de barba grisalha que vive no sexto andar, que em dias de jogo sai de casa com a camisola do Benfica devidamente vestida, que escuta a Anne Marie David na canção que venceu a Eurovisão em 1973, e que tem um vaso de coentros à janela; é um solitário com tiques de alguma excentricidade.
O teu amor é a festa entrelaçada em todos os segundos que a vida me oferece, e eu sou muito mais… sou precisamente o oposto da solidão que alguém possa vislumbrar nos meus dias.
Esta noite eram precisamente zero horas e sete minutos quando tocou uma mensagem tua, li-a na cama onde estava só entretido a ler algumas crónicas do livro “Pesca à linha” do Alçada Baptista.
Li-a e juro-te que adormeci a pensar que não trocava a minha por qualquer outra vida.
E li-a por entre o perfume de todas as rosas e a certeza de que o mar é azul.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Este compromisso que atravessa todas as idades


De repente, apercebo-me, passaram 25 anos sobre o dia em que acabei o curso de Farmácia: 27 de Abril de 1990.
Com os muros a caírem na Europa, com Lisboa a ganhar uma cor diferente, e a poesia e a liberdade a ousarem enfeitar as noites do Bairro Alto que nos oferecia as ruas e as “tascas” para podermos pôr palavras nos sonhos e partilhá-los em voz alta; lembro-me bem dos meus 23 anos e dos regressos a casa a pé desde o cimo da Rua Rodrigo da Fonseca e da Farmácia Ronil onde estagiei, até ao Príncipe Real onde morava.
Eu e os meus pensamentos numa Lisboa que já era irremediavelmente a minha casa; e um privilégio.
Acho que nunca planeei nada de muito concreto por entre o desejo de ser feliz, independente e fiel ao compromisso de nunca me trair a mim próprio nos desejos, nas minhas mais férreas vontades. Custasse o que custasse.
E passaram 25 anos…
Quase não dei conta; penso-o quando desfruto hoje da vista desde a janela da sala de minha casa, vejo o mar e sinto o conforto de uma caneca de café que ainda há pouco pingou na máquina e perfumou todo o espaço que me envolve.
Escrevo como habitualmente ao pequeno-almoço que é a altura do dia de que mais gosto.
E acho que continuo igual no desejo de ser fiel a mim, mas hoje infinitamente mais feliz.
Amar-te é ter-te entrelaçado permanentemente em todos os pensamentos num privilégio que apaga qualquer detalhe de solidão.
Amar-te foi e será sempre a confluência dos meus desejos.
Lembras-te do primeiro passeio que demos por Lisboa quando a Feira do Livro enfeitava o Parque e os jacarandás davam cor lilás ao tecto sobre os nossos passos inebriados pela magia de se encontrarem?
Desde então que penso que era contigo que eu sonhava por entre a vontade e o compromisso de ser feliz e ser eu.
Impossível era planear-te assim tão concreto na perfeição de um amor infinito que me completa. 

domingo, 26 de abril de 2015

O sol e as palavras que teço para ti


Voltei hoje a sentar-me no recanto de onde te escrevo ao jeito de quem namora, a mesa onde teço palavras e lhes peço que cresçam e voem para que te abracem.
Na sexta-feira trouxe um cravo vermelho de uma tertúlia sobre a liberdade, e ontem no campo escolhi duas rosas, também vermelhas, que mais tarde juntei ao cravo numa jarra que está agora à minha frente.
As flores olham-me enquanto te escrevo…
E entre elas e eu, o homem que procura e escolhe as palavras; entre a liberdade, a paixão e o meu pensamento que te resgata da distância, há uma sintonia perpétua e perfeita.
Eu amo-te com o vigor rubro de uma rosa e o teu amor é a expressão suprema da minha liberdade.
A paixão conta bem mais para a vida do que o sangue que em mim pulsa e corre…
E é repousado nos teus ombros que me encontro, e é nos teus beijos que nada de mim sobra ou falta. Sou eu completo e de verdade, sou eu pleno e coerente, sou eu a respirar o aroma doce da minha liberdade.
Toda a noite choveu copiosamente contra as vidraças, mas o dia parece querer revestir-se de sol. Já o vi aqui timidamente a beijar as flores à minha frente.
Eu amo-te com o vigor rubro de uma rosa…
E escolho cuidadosamente as letras, teço as palavras e deixo-as depois aqui para que o sol as beije e as possa ler com cuidado.
O sol alimenta-se das flores, e também de nós, para assim poder falar de amor a toda a gente.

sábado, 25 de abril de 2015

O post número 1.000 / "E vão buscar-me para ir para casa"


Em 1987 tu já estavas em Lisboa a terminar a faculdade e eu ainda andava por Vila Viçosa a tentar seguir-te os passos. Como era costume nas férias do Natal, eu e a mãe já tínhamos feito o presépio e encomendado as prendas que era difícil arranjar no Alentejo. Eu queria um disco de vinil de um grupo que agora não recordo. Apesar de ter 16 anos, mantinha(o) a curiosidade das crianças de verificar se o meu desejo estava em vias de ser realizado e a existência, no cimo de um guarda-fato, de um volume com as medidas de um LP era bom sinal…
Mas surpresa das surpresas, no momento em que me entregaste a prenda, o LP foi facilmente dobrado pelas tuas mãos e eu devo ter feito a maior cara de espanto: lá dentro estava o cartão de sócio do nosso Benfica e umas quadras que ainda hoje guardo onde falavas daquilo que são realmente os nossos desejos.
Já sabes que não sei fazer quadras, nem limitar textos a 75 palavras, mas quero que saibas que eu, os pais, e toda a família te apoiamos naquilo que são os teus desejos.

José Artur Barreiros


O dia de ramos,
Já tenho o loureiro, o alecrim e umas pontas de oliveira, é dia de ir à casa grande pedir as flores para enfeitar os ramos.
O percurso para a casa grande fazia-se através dos campos, num caminho de terra batida ladeado por franjas de ervas daninhas, à sua volta os terrenos eram canteiros arrumados por retalhos de sementeiras feitas e nabais floridos à espera de serem lavrados.
Estava uma tarde amena, o céu era um mar calmo, o calor do sol fazia com que odor da terra se misturasse com o cheiro das flores e o que se ouvia era o zunir das abelhas. Assim se fez o caminho para a casa grande.
As cameleiras formavam uma das alas dos jardins, as flores já se encontravam cortadas em pequenos pés, jaziam em montes por cima das camélias caídas e murchas que atapetavam o chão.
Enchemos o cesto, agradecemos e partimos. No regresso, a meio do caminho, a Clara a tirou do cesto uma camélia e deu-a ao João a cheirar, este respondeu - As camélias não tem cheiro, mas estas até tem! – Cheiram a esta tarde! Cheiram a este campo!

Ângelo Rodrigues



El valor de los números
El tiempo en ciclos de cinco
años en los estudios en los destinos
en las ciudades amadas apropiadas
como pertenencias del corazón
en sus múltiplos
en la cuenta de los días que faltaban para la vuelta
sobrevolando con la memoria alerta invencible al sueño
en el círculo descrito por los paseos del domingo
en la celebraciones cómplices
el valor de los números vencedores.

Iniciando la noche del 23 de abril de 2015, con Londres al frente.

Juan Blas Delgado



Pediste que escrevesse umas linhas para o teu blog 1000. Que tarefa tão complicada para quem, como eu, não encontra quaisquer dons pessoais, muito menos os da escrita!
Levantei-me hoje cedo, olhei para o espelho e repeti (como tu me ensinaste)
“Tu és bem capaz!”
Sentei-me à secretária e tentei aproveitar as doses de energia positiva que tentara infiltrar mas…
Nada, absolutamente nada de jeito saía!
Comecei em jeito de poesia, pensava ter dose de inspiração suficiente… risquei!
Passei à prosa, invocando a nossa doce infância tão cheia e rica, mas comparei as tuas memórias e …rasguei!
Bem, de hoje não passa, em prole da nossa velha amizade…
Obrigada, porque quando estou contigo, sinto que posso ser sempre espontânea que tu estás lá com um olhar cúmplice! E brotam as gargalhadas soltas…
Bem hajas Quim.

Zinha Duarte

Desde que me conheço que me lembro do Quim.  Brincamos  juntos, partilhamos aventuras, descobrimos Lisboa juntos ,  fizemos imensas viagens e atravessamos continentes juntos.
Falamos e rimos sempre muito de nós, dos outros e do que nos ia acontecendo.
Hoje já não falamos tantas vezes, mas sempre que sinto a falta do meu amigo ou das suas palavras vou ao Pomar para (re)ler os seus textos / poemas e voltar a soltar uma boa gargalhada, sorrir simplesmente ou emocionar-me até sentir as lágrimas nos olhos.
Obrigado Joaquim por este esplêndido laranjal e que o mesmo continue a florescer por muitas estações, de modo a que sempre que nós lá formos colher uma laranja ela nos traga alegria, verdade, emoções e afectos.

João Alves da Silva


Somos o Outro…
Outro, que sempre será um LUGAR e uma oportunidade de melhorar a nossa relação com o mundo e connosco mesmos, pois é o eco de um vale profundo e simultaneamente um abismo ou um multidimensional e magnífico espelho, que nos ajuda a evitar o desalinho, onde, por excelência, se situa o reduto da aprendizagem, fruto da observação, da tentativa e do erro, sem os quais, a Vida perderia todo o seu sentido.

Ezequiel Coelho


O Pomar das Laranjeiras apresenta-nos o Amor vestido de amizade, de liberdade, de humor, ou até mascarado de laranja podre. E como poderia ser de outra maneira pois se é Ele o alicerce e o fio condutor da vida do autor?
Posts deliciosos que nos ensinam que o Amor é uma busca que nos põe em busca do Bem.

“Todos os dias quando acordo, vou correndo tirar a poeira da palavra amor…”
Clarice Lispector
Mina e Natália Sousa


Para comemorar o milésimo post do blog e respondendo ao desafio proposto, aqui deixo um pequeno copo de sumo espremido das laranjas colhidas daquele que é também o “nosso” pomar, desejando que o autor e nosso amigo Joaquim Barreiros, continue a arar as terras que alimentam as laranjeiras e a presentear-nos diariamente com os seus actuais, interessantes, divertidos e, quando necessário, diria …  “acutilantes” textos.
Parabéns, até ao post 2000.

Álvaro Coelho


Amizade sincera e profunda, aquela que nos une.
Momentos únicos são aqueles em que estivemos, estamos e estaremos juntos, nos quais partilhámos, partilhamos e partilharemos as nossas vidas.
Intensidade, a forma como consegues transmitir o dom da vida, da alegria, da palavra que dá que pensar, que faz rir, chorar e recordar.
Grandiosidade é aquele dom que transborda do teu coração.
O elo que consegues ser, pois juntas os amigos que mesmo estando perto muitas vezes estão distantes.

Bem hajas pelo dom da AMIZADE que existe entre nós desde “os banhos de luz”.

Manuel Almas


Os afectos calam as distâncias, e os amigos, sempre presentes, são os “ingredientes” fundamentais para que disfrutemos dos dias em que somos felizes.
O sal, as especiarias, os aromas e os sabores…
Brindamos com gargalhadas, com cumplicidades, com o calor bom de estar próximo, e a vida é um banquete rico e inesquecível; horas e minutos inscritos no cardápio dos nossos desejos e dos nossos sonhos.
Às vezes, tudo isto envolto no gosto doce das melhores laranjas, como as que colhemos aqui neste Pomar.

Rui Pereira


O primeiro texto do Pomar
Sem grande inspiração, mas com o tempo a avançar como um cavalo, sento-me à frente do computador à espera que só esse facto me forneça o que necessito: o mote para o desafio de contribuir par ao post número mil deste blog.
Dou por mim a pensar em como tudo começou, quando numa conversa o seu autor me disse que iria iniciar um blog e que, mais tarde, enviaria o link. Resolvi, então, ir ver o primeiro post. Retirei dele as seguintes palavras/expressões: “Existir”, “Vila Viçosa”, “laços com os amigos”. Para mim, elas definem o que tem sido o Pomar, porque definem também o seu autor e a sua saudável relação com a vida. Quase diariamente nos presenteia com um texto que nos pode fazer rir ou chorar, mas que, essencialmente, nos faz reflectir sobre o quotidiano, em coisas tão simples e, por outro lado, tão complexas. Há dias em que parece transmitir aquilo que acabámos de pensar, mas que não somos capazes de dizer assim!
Ficamos à espera dos próximos mil!

Manuela e Zé Maria Barreiros


Olá,
Eu sou o João Barreiros e tenho 9 anos. Estou no 4º ano e gosto de fazer origamis. A minha escola é na Estrela (João de Deus) e estou a escrever esta história no dia antes de uma visita de estudo aos dias da música no CCB e ao Mosteiro dos Jerónimos, inaugurado por D. Manuel I.
O meu dia é assim:
Vou para a escola;
Trabalho;
Recreio;
Trabalho;
Almoço;
Recreio;
Trabalho;
Recreio;
E vão buscar-me para ir para casa.

João Barreiros


sexta-feira, 24 de abril de 2015

O post número 999


Publiquei o primeiro post deste “Pomar das Laranjeiras” no dia 20 de Junho de 2010. Foi num domingo, o título era também “Pomar das Laranjeiras” e o conteúdo mereceu os comentários dos meus queridos amigos Manuela e José Barreiros.
Em Portugal comentava-se a partida de Saramago, Sócrates era um primeiro-ministro “à solta” e o jornal Público falava do projecto do chip nas matrículas dos automóveis.
Passaram entretanto quase cinco anos, o “Pomar das Laranjeiras” tem 90 seguidores, regista 90.814 visualizações de página e já deu origem à publicação de dois livros de crónicas.
O post “Os desempregados e o Facebook”, uma crítica às polémicas declarações de Isabel Jonet, publicado no dia 4 de Abril de 2014, foi o mais lido com 482 visualizações; logo seguido de “As magnificas previsões astrológicas do Professor Karambola”, uma sátira às leituras nos astros realizadas no início de cada ano, com 436 visualizações.
E este é o post número 999.
Por uma agradável coincidência, a publicação número 1000 ocorrerá amanhã, exactamente 40 anos depois do dia em que eu acompanhei os meus avós na sua estreia como eleitores livres, o dia 25 de Abril de 1975.
Festejo assim essa data de uma forma que muito me apraz, porque este tem sido um espaço onde tenho usufruído dessa herança única de liberdade.
E porque este é também um espaço de amigos, resolvi que o post número 1.000 fosse escrito por algumas das pessoas que me fazem os dias felizes.
Assim, amanhã a palavra pertencerá a Álvaro Coelho, Ângelo Rodrigues, Ezequiel Coelho, Guilhermina e Natália Sousa, João Barreiros, João Paulo Silva, José Artur Barreiros, Juan Blas Delgado, Manuel Almas, Manuela e José Barreiros, Rui Pereira e Zinha Duarte.
Um naipe de pessoas especiais com idades entre os 9 anos do meu sobrinho João e os 61 anos do/a…
Obrigado a todos eles pelas palavras e pelo afecto.
E um obrigado muito especial a todos vocês que se sentam aqui comigo diariamente à sombra das laranjeiras; umas vezes para rir, outras para chorar, para pensar, gritar… enfim, para fazermos tudo aquilo que os dias nos vão inspirando.
Um abraço e até… depois de amanhã.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O passeio nocturno das crianças invisíveis


Caminho por entre a aragem calma de um início de noite de primavera em Lisboa.
As casas com jardim, uma nespereira que galga os muros e nos oferece um tecto de frutos ao breve instante de três passos, a gente que corre, aquela outra que passeia os cães e brinca com eles nos relvados e nos passeios…
Estou algures por Alvalade e acabei de dar um abraço a um amigo que perdeu o pai; levo a sensação de que o choro dessa perda é feito por nós e pela consciência dos dias que jamais terão a presença de quem nos faz sentir crianças.
Continuo…
Tenho o carro estacionado na rua paralela à linha do comboio e enquanto caminho cruzo-me com uma família que chega a casa após o dia de trabalho e escola.
- Amanhã é o dia da mãe.
Grita o filho mais novo que vai às cavalitas do pai.
Cruzamo-nos e já não consigo escutar mais nada para lá do início da explicação do pai de que esse dia está para breve mas ainda não é amanhã.
Chego ao carro, ponho-o em marcha, no rádio toca um CD com a Orquestra Sinfónica de Londres a interpretar o “Here there and everywhere” dos Beatles…
Estou à porta do antigo cinema King e vem-me à cabeça “All the invisible children” com as histórias de Kusturica e amigos. Vi-o por aqui há alguns anos.
No carro já soa o “Yesterday”.
As imagens e as memórias de um homem que caminha só pela cidade.
Ontem?
Sempre.
Aqui, ali e em todos os lugares.
Sim…
Eu também sou uma das invisíveis crianças que viaja à boleia da alma de um homem.
Eternamente às cavalitas da heróica e eterna herança do pai, na busca incessante pelos dias da mãe e os beijos doces que eles contêm…
E com uma incrível tentação de colher aquela nêspera que passou tão perto da minha cabeça.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

É tão fácil descobrir a primavera por entre tudo o que nos acontece


Na janela da cozinha está um vaso de cartão de onde brotam viçosos coentros. O “kit” composto por vaso, sementes e terra foi-me oferecido no Natal pela minha querida amida Teresa Lopes e a “sementeira” ocorreu durante um pós-jantar de família lá em casa, com o meu sobrinho João muito entusiasmado pelo facto da actividade agrícola ter lugar sobre a mesa da sala, ainda que devidamente protegida.
Já me estreei a comer uma Alentejaníssima açorda preparada com os ditos coentros.
Sempre que saio de casa pela manhã trago no bolso um guardanapo de papel com migalhas de pão do pequeno-almoço. Um melro muito simpático espera por mim no relvado de acesso ao parque de estacionamento e eu partilho com ele a primeira refeição do dia.
Já se aproxima a menos de um metro e eu até o baptizei com o mesmo nome da pessoa que por via do pensamento toma o pequeno-almoço comigo todas as manhãs. Chamo-lhe…
Na estrada entre Leião e Porto Salvo, onde eu passo todos os dias, há um campo que por esta altura é leito para uma seara de trigo que cresce a olhos vistos e que eu já vejo bailar ao sol todas as manhãs.
Sinto-a como uma privada nesga de Alentejo que veio até aqui para me abraçar.
E é tão bom ver o Alentejo e lá ao fundo o amor a tingir o horizonte.
A noite passada, como em todas as noites, adormeci ao som das palavras que me mandaste escritas numa mensagem e que li em voz alta como cantiga do privilégio de um ninar que eu sei jamais ter fim.   
E adormeci sem me lembrar de absolutamente mais nada; só me recordo que sorria.
A sorrir…
Da mesma forma que acordo, rego os vasos, falo com o melro e me entrego ao abraço da seara de trigo.
Quando nós amamos e nos sentimos amados, é tão fácil descobrir a primavera por entre tudo o que nos acontece.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Morremos… mas apenas demos mais um passo


Tudo parece pequeno perante a fome que persiste e que sentimos nos arranca a vida; e até o mar é um lago que se pode fazer nosso à mercê de uma pobre balsa.
Morremos…
Mas apenas demos mais um passo, um pequeníssimo passo num destino inevitável.
Arriscámos tão pouco perante a morte que sentíamos chegar nesta aridez onde o nada, o é em absoluto e tão demasiado cruel.
Nós morremos aqui à superfície deste mar onde as praias ousam beijar oliveiras.
E a paz?
Sentimo-la nós enquanto subimos para enfeitar o céu nas noites longas e doces, e nos cruzamos com a dignidade dos Homens que se afunda com a Jangada da Vergonha que nos ofereceram como passo, numa triste ilusão de liberdade.
Ontem à tarde o jornal Espanhol El país publicava na sua edição online a seguinte notícia:
“Paquete de luxo com 700 turistas europeus afunda-se ao largo da ilha de Malta e provoca a morte de todos os passageiros”.
E seguindo o link chegávamos à noticia cujo primeiro parágrafo era:
“Esta notícia é falsa, mas se fosse verdadeira durante quantos dias e quantas horas falaríamos sobre esta tragédia?”.
Morreram 900 pessoas num naufrágio no Mediterrâneo, imigrantes ilegais que buscavam o sonho da Europa.
O mundo faz o escrutínio entre vidas de primeira e de segunda perante o verdadeiro naufrágio: o da dignidade do Homem.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

A tarde adoptou-nos, calou a orfandade das palavras de amor e passeou connosco por entre a gente e o riso de um domingo de primavera.


A tarde adoptou-nos, calou a orfandade das palavras de amor e passeou connosco por entre a gente e o riso de um domingo de primavera.
A tarde fez-se tempo perfeito para namorar…
E por mais que eu tente e faça apelo à mestra mão das ninfas que inspiram os poetas, jamais conseguirei ser justo para com a vida que me oferece o teu abraço.
É tão maior do que todos os superlativos daquilo que se pode dizer.
Numa última tentativa… resgato da banca uma flor que pago à pressa, ali algures numa esquina onde o Tejo nos espreita cúmplice no seu azul.
Peço-lhe que seja ela a falar por mim em canto tom púrpura sobre o chão de Abril e Lisboa, a pátria mãe da liberdade.
Tu sorris.
Depois acendemos uma mesa com dois copos de cidra e tu embalas-me contando cada detalhe de uma história que leste há pouco; e eu deixo-me caminhar de regresso ao tempo de menino indo pelas palavras que tu vais ilustrando com o olhar.
A flor está ali em baixo dentro de um saco e encostada ao pé da mesa, as palavras de ambos andam em volta de uma história que não é a nossa…
A tarde pegou-nos pela mão e trouxe-nos devagar até esta noite…
E não é preciso dizer mais nada, o amor está aqui, explicito e à solta no espaço perfeito deste eterno abraço.

domingo, 19 de abril de 2015

Empresta-me o teu olhar, esta tarde eu quero ver Lisboa vestida de primavera


Empresta-me o teu olhar, esta tarde eu quero ver Lisboa vestida de primavera.
Oferece-me casa e repouso num abraço, e deixa que eu escancare as janelas quando as minhas mãos se sentarem pelos parapeitos doces da tua pele.
Janelas com vista para o rio e abertas a todos os sentidos.
Esses parapeitos que tu sabes serem mote do meu desejo.
Coze os meus passos aos teus com linha tom de azul de infinito e eternidade, e trepemos juntos as colinas enfeitando-as de beijos, semeando palavras de amor que florirão por entre as sardinheiras e os jacarandás.
Empresta-me o teu olhar...
Preciso que ele veja e confirme ao meu como são perfeitos os dias alinhados com o sonho.
Nunca nada expressará tanta verdade de nós quanto aquilo que sonhamos.
E há tantos anos que eu esperava por ti para uma tarde em Lisboa, só nossa, um recanto da primavera que usamos para namorar.

sábado, 18 de abril de 2015

O amor é este fluir de vida por entre a liberdade


Existiu um papagaio que pertencia ao vizinho Ezequiel, que estava numa janela mesmo em frente à nossa da Rua de Três e que me ensinou a dizer a minha primeira palavra: olá; mas a razão mais profunda para eu gostar tanto de falar será a genética e toda a herança que por ela recebi do meu pai.
Não será portanto de estranhar que nem um segundo de silêncio existiu no espaço do meu carro quando viajámos de Évora para Vila Viçosa num fim de tarde desta semana.
Sob um céu de um tom negro que descarregou chuva quando já estávamos entre o Alandroal e Pardais, acho que não houve tema que deixássemos órfão até que chegámos, e nem sei por qual caminho, aos namoros de antigamente.
- Eu comecei a namorar a mãe num baile ao ar livre no casão do “Cai nessas”.
As alcunhas alentejanas dão cabo de nós.
Continua o pai…
- Eu tinha uma namorada de Bencatel que estava zangada comigo e não queria dançar, e eu fui à procura da rapariga mais bonita que havia por ali para lhe fazer inveja. Encontrei a mãe.
Fiquei eu então com vontade de ir procurar a tal senhora de Bencatel para lhe enviar um ramo de rosas em sinal de agradecimento.
- E deu logo em namoro?
Perguntei.
- Não porque ela fez-se difícil. Mas já viste como nasceu um amor que já tem mais de 56 anos.
Um filho comove-se quando o seu pai com mais de setenta anos lhe fala de um amor que persiste; e a família é essencialmente este espaço onde os afectos fluem livremente e sem travões, a genética de um amor sobreposta a todas as outras… até ao vício de falar muito.
Os meus pais lêem avidamente o que publico, e num outro dia em que estavam aqui por casa e eu tive de sair, deixei-os com quinze poemas que publiquei numa colectânea. Todos falam de amor.
Quando cheguei perguntei-lhes se tinham gostado. A minha mãe antecipou-se a responder, e por entre elogios que me fizeram corar e sem que alguma vez caísse na banalidade de me perguntar a quem se destinavam tais palavras, disse-me:
- São todos muito bonitos e eu fico muito vaidosa; é que sendo tu a escrevê-los, fui também eu que os escrevi.
E o amor é este fluir de vida por entre a liberdade.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Este querer intenso com que te abriguei em mim


A força imensa com que te desejo arquitecta recantos para onde eu vou namorar contigo…
E tece de beijos todos os instantes.
O tempo todo e todos os lugares que nascem em mim revestem-se assim da eternidade imune aos humanos cansaços, e tu, meu amor, és meu e só meu, por entre um intenso aroma de infinito, irmão daquele que nasce das flores mais viçosas dos campos regados pela primavera nas chuvas generosas de Abril.
E eu apago as distâncias quando o pensamento te resgata seja de onde for só para vires até aqui afagar-me a mão com doces beliscos; e eu incendeio os sentidos quando elevo os meus braços cansados e pousados sobre o velho sofá, até ao desenho sonhado do mais perfeito e mais quente abraço.
Não há ruas que não sejam nossas, não há árvores que não sejam berços de sombras para o eco doce das nossas histórias, não há palavras ditadas pela alma que permaneçam órfãs, se todas se soltam para irem a correr abraçar-te tal qual os meus braços.
Porque jamais a realidade poderá alguma vez superar o querer de um poeta; este querer intenso com que te abriguei em mim.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Eu sou desta noite onde te espreito numa tela que se confunde com o horizonte


A hora avança cumprindo o irreversível destino do tempo, e há uma cortina escura que cala o sol e o empurra para lá do horizonte numa despedida lenta ornada de laranja, púrpura, lilás e uma infinidade de outras cores.
Caiu a noite sobre a planície.
As luzes do carro imitam-me o pensamento e fazem incidir sobre a estrada a claridade que indica o caminho.
O pensamento projecta a nossa história, que é a nossa vida; e a minha viagem nocturna pelo Alentejo é a imersão numa imensa sala onde brilham as imagens alinhadas pelas mãos mestras do melhor realizador do universo.
Eu vejo-me e vejo-te na tela com a dimensão completa de todos os meus sentidos.
E há beijos por entre uma infinita festa, que não apenas no final feliz de um “cinema” que é ele próprio, o paraíso.
Uma festa que não acaba nunca porque mesmo quando os dias sabem a ponto final é por faltarem as palavras para descrever com verdade um amor assim.
É só questão de descansar um pouco num abraço como quem muda de parágrafo… e seguimos pelas palavras novas e pela poesia.
Sem nunca deixar que termine… o romance e a película.
Caiu a noite sobre a planície…
Nós somos filhos da terra onde somos felizes, e por isso eu sou dos teus braços; berço dos sorrisos, do desatinar dos sentidos que alimentam os melhores beijos.
Por isso eu sou desta noite onde te espreito numa tela que se confunde com o horizonte.  

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O Dia Internacional de Qualquer Coisa


Eu comprador de flores confesso aqui publicamente que o momento que mais detesto é aquele em após uma guerra com o/a florista para o/a impedir de colocar papel celofane ou plissado de cores inenarráveis a envolver as ditas flores, a criatura me pergunta qual o autocolante que deve anexar ao ramo.
“Rápidas melhoras”, “Felicidades”, “Parabéns”, “Amo-te muito”, “Eterna saudade”, “Sentidos Pêsames”…
Tudo existe na forma de corações e outras, e impressas em papéis onde predominam os tons dourado ou prateado.
- Não quero nada.
É que para além de não ter que dar conhecimento a estranhos do objectivo de uma compra de natureza tantas vezes íntima, as flores já falam por si em todos os enquadramentos em que as queiramos oferecer.
Por exemplo, não será preciso um autocolante para que num velório percebam que não estamos ali com flores para desejar “Rápidas melhoras”.
E mesmo em situações em que seja necessário acrescentar algumas palavras à oferta, digo-as eu.
Ora vem isto a propósito das sucessivas comemorações atribuídas aos dias, todas de cariz internacional. Esta semana já houve o “Dia Internacional dos Irmãos”, o “Dia Internacional do Beijo” e o “Dia Internacional do Café”.
Os dias são como as flores e “falam” por si na expressão da nossa vontade e da nossa liberdade; dispensam rótulos.
Dou beijos todos os dias, bebo café todos os dias (é aliás uma das primeiras coisas que faço pela manhã na companhia insubstituível da minha colega Carla Antunes) e gosto e lembro-me do meu irmão todos os dias.
Por este andar eu já não estranharei se surgir o “Dia Internacional da Sogra”, o “Dia Internacional da Mordidela Sensual na Orelha Esquerda” ou o até, e porque não, o “Dia Internacional do Arroz de Lampreia”.
Há que ser razoável e deixar os dias para que cada um os preencha com o que lhes sai da real gana e com aquilo que o faça feliz.
Se a febre persistir, estarei tentado a propor a existência de um “Dia Internacional Livre de Evocação e Comemoração Internacional”.


terça-feira, 14 de abril de 2015

"Auf wiedersehen"


O Bayern de Munique já está no Porto e arrastou com ele uma multidão de Alemães. Comprovei isso no hotel ao pequeno-almoço e mais tarde pelo centro da cidade.

Meio-dia.

Paro para tomar um café na altura exacta em que o relógio e os sinos do "altar" barroco mais fantástico do país, a torre de Nicolau Nasoni, sinalizam a hora nos Clérigos, através das badaladas e o Ave de Fátima.

Os turistas Alemães param, puxam das câmaras e filmam o momento.

"Sobre os braços da azinheira..."

A música puxa pela memória e traz a letra.

Desconheço se os Alemães conhecem a história por detrás desta música e a existência há 98 anos de uma mensagem relativa a uma guerra por eles patrocinada e que rasgou trincheiras pela Europa fora.

Presumo que não façam a mínima ideia, embora desse imenso jeito que o fizessem para que tal pudesse ajudar a ganharem consciência de quão imbecil é a recorrente ambição de esmagar a liberdade dos outros, condenando-os por ataques mais ou menos bélicos às trincheiras num destino de fome e sede.

"Wie schön ist diese".

Mais bonito seria ainda se a Europa toda cantasse a liberdade desde o cimo de todas as suas torres.

Regresso à minha bica...

Na televisão passa um anúncio da Opel e a modelo Cláudia Schiffer conclui com um:

"Tinha de ser Alemão".

Acabo de beber, pago e saio.

Valha-me a Senhora de Fátima, estamos rodeados e por todos os lados.

"Auf wiedersehen".



segunda-feira, 13 de abril de 2015

Se eu pudesse afogava todas as Segundas-feiras


Se eu pudesse afogava todas as Segundas-feiras, preferencialmente no oceano de beijos de um passeio de Domingo à tarde; daqueles que às vezes as semanas nos oferecem.
Calávamos o despertador, adiávamos docemente o pequeno-almoço, virávamo-nos e revirávamo-nos para todos os lados do quarto às escuras, e deixávamo-nos ficar todas as vinte e quatro horas no condomínio fechado e secreto onde os sentidos se soltam livremente.
Sempre sem hora marcada para o duche de água tépida que se constitui como a última etapa no processo de acordar.
Fazendo um drible irreverente às refeições e às horas em que habitualmente acontecem.
Depois eu escreveria sentado à mesa junto à janela, tu lerias o teu livro num canto do sofá que a minha vista pudesse alcançar, e só faríamos pausas para um beijo ou um café que nos perfumasse as horas.
E quando o dia já estivesse para terminar e a Terça-feira se aproximasse timidamente como se fosse Segunda, nós conspiraríamos e chegaríamos a um consenso sobre a estratégia mais eficaz para também a conseguirmos afogar…
Quiçá novamente nos beijos de um domingo à tarde. 

domingo, 12 de abril de 2015

O amor desenha traços sobre as paredes vazias


O amor desenha traços sobre as paredes vazias, traços coloridos como astrolábios e balsas na rota para os dias que queremos muito e ousamos viver.
E nos serões passados em casa e alumiados de forma ténue por um pequeníssimo candeeiro, libertamos do mundo o olhar, quiçá de um livro, da poesia... e fixando-nos nas paredes à nossa frente, deixamo-nos ir colhendo vida ao jeito de quem apanha maçãs maduras num pomar, tomando coordenadas de instantes de onde invariavelmente nascem flores… porque os sonhámos intensamente.
Flores, pequenas e azuis, aquelas que não se vêem mas que se sentem.
Flores inscritas nas paredes... mas iguais às que levamos tatuadas em nós nesta viagem feita tantas vezes com a cumplicidade terna da luz de qualquer lua.
Porque o amor desenha traços… em nós.
E as paredes e o mundo são apenas espelhos que tomam do nosso olhar o tudo perfeito que o amor nos dá.
Nesses dias que queremos muito e ousamos viver.

sábado, 11 de abril de 2015

Fui-te procurando por entre todas as horas e todas as árvores


Alguém gritou na rua:
- Olha o sol.
E de facto, pelas sete as nuvens dissiparam-se e a tarde abriu um céu de muitas cores.
A primavera também já vestiu de folhas as árvores até aqui despidas de Lisboa, e da mesa onde espero por ti sentado no café consigo entreter-me agora a “beber” as histórias que as sombras desenham sobre um soalho intemporal.
Mar fora, um barco leva de uma cidade a memória da paixão de dois amantes que na cumplicidade das águas de um rio se sentam para namorar.
E o vento, que toma o aroma dos seus abraços, eleva as águas e as mágoas ao céu, impondo-as ao sol em algumas tardes de primavera.
Tu anuncias que estás a chegar… e não tardas.
Os teus passos esmagam então as sombras sobre o soalho e o teu beijo subtrai definitivamente a mágoa a esta tarde.
As sombras que nós vemos pressupõem sempre que o sol está algures a brilhar; é só uma questão de sair e ir procurá-lo por entre as árvores e os telhados de Lisboa.
Procurar o sol ao jeito de quem te beija.
E as mágoas, aquelas que o vento às vezes eleva ao céu, são apenas detalhes de uma espera…
Quando não estás comigo e mesmo quando não anuncias que já não tardas, eu sei que tu irás sempre chegar.
Fui-te procurando por entre todas as horas e todas as árvores. 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A minha história é o rasto das pegadas que deixei vincadas no tempo quando te procurava

Instalo-me no momento que decalca a minha vontade, e acode-me um déjà vu... foram  tantos e tão intensos os dias em que sonhei contigo.
Depois, vou por este instante confirmando detalhe a detalhe que nada ficou por cumprir.
E o teu olhar que me beija como se o universo todo se tornasse minha propriedade…
Não, muito antes pelo contrário, tu és infinitamente maior do que a mais perfeita das minhas oníricas ambições.
Persisto…
Liberto as minhas mãos do pudor e dos medos e vou acariciando o teu rosto como quem te procura e procura uma prova táctil para o seu estado vígil e consciente.
Tu és mesmo tu.
Sim, estou acordado.
Os sentidos todos reagem comigo no instante em que explode um sorriso, e os beijos e os abraços se soltam na celebração e na festa de te ter aqui.
A minha história...
é o rasto das pegadas que deixei vincadas no tempo quando te procurava.
E agora vou contigo pelo tempo de uma história que sonhamos.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

CSI, Priscillas e… menos mal que ainda há flores


Atravesso o parque de estacionamento e no meio de um canteiro abandonado ao destino de terra seca e árida descubro um pequeníssimo “bouquet” de amores-perfeitos.
Não resisto e fotografo-os.
Avanço até à rotunda que se encontra por ali, onde duas agentes da Polícia Municipal estão em delírio a passar multas aos donos dos carros que estão mal estacionados. Pela azáfama consigo percepcionar que foram recrutadas em alguma equipa que tenha ido representar Portugal nos falecidos “Jogos sem Fronteiras”.
Há um individuo vítima desta acção que descobre o carro das agentes, um Smart, estacionado no mesmo local das viaturas multadas, e resolve fazer uma foto.
Uma agente para outra:
- Olha o espertinho…
E uma das agentes para o individuo:
- Olha, não te esqueças de sorrir para a fotografia.
E o homem para elas poupa-se nas palavras e acena com a mão direita; dedo médio esticado e devidamente ladeado pelo anelar e o indicador em pose de reverência à sua majestade.
Eu fujo definitivamente deste “CSI – Mercado do Bolhão”.
No hall enquanto espero pelo elevador vejo uma mulher alta e algo espampanante. Tem pelo menos uns quinze centímetros de salto e tem base na cara que dava para pintar as paredes da minha sala.
É interessante como os travestis surgiram como imitação de mulheres, as Drag Queens levaram a imitação ao exagero, e agora são as próprias mulheres que assumem a pose e o tudo das suas imitações, como se o Carnaval de Torres Vedras fosse como o Natal e ocorresse todos os dias.
Entramos juntos, nós e mais uma dezena de pessoas, num filme a que se poderia chamar “Priscilla, a Rainha do Elevador”.
Fecham-se as portas atrás de nós e a “Priscilla” descobre que vamos parar em todos os pisos até ao décimo.
Desabafa:
- Que chatice. Vamos parar em todas as “estações”.
Eu tenho vontade de lhe perguntar:
- Olha filha tu sabes quando é que vais ser estrela?
Mas contenho-me, pois no final teria de lhe dizer que isso só aconteceria se algum dia lhe caísse um cometa em cima da “mise-en-plis”.
E a “Priscilla” sai num piso antes de mim deixando-nos o odor de um perfume que deverá ter sido comprado na “Perfumes & Co” aproveitando as promoções que anunciam por SMS aí umas dez vezes por semana.
Eu saio depois, volto a ter rede e vejo que me enviaste uma mensagem de bom dia.
Sorrio e penso nos amores-perfeitos do parque de estacionamento.
Menos mal que ainda há flores que “explodem” no deserto…

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Viver é o exercício da minha liberdade



É destino obrigatório para quem ama, a impotência das palavras na expressão da verdade daquilo que sente.

Dir-me-ão que os poetas rompem este fado, como afinal tantos outros humanos destinos.

Os poetas aproximam-se muito mais da verdade dos sentimentos mas não tanto pelos méritos do seu léxico; será muito mais pela ousadia que rompe os tabus na hora de o fazerem.

Eu poeta me confesso...

Na tarde da última Quinta-feira, quando te dei um abraço antes de irmos cada um para a sua Páscoa, eu percebi claramente que jamais poderia descrever com exactidão o que senti.

Por ser o maior de todos os sentimentos.

Mas não temo dizer que o senti, e não me privo de convocar palavras para escrever aqui o que disse por entre a festa dos nossos olhares:

- Há uma vida inteira que esperava por ti.

Destemido...

E digo-o sempre sem dizer como te chamas, fixando-me na essência do abraço e do sentir, muito mais do que no teu nome, que como qualquer outro detalhe que conste do Cartão de Cidadão, enferma como as palavras na impotência de expressar o que é enorme pela forma como se sente.

Os nomes, tal qual as palavras, colocam fronteiras naquilo que se sente com dimensão de infinito.

Viver é o exercício da minha liberdade.

E se algum nome te assentará bem, ele é ... Liberdade.

A minha liberdade, claro.

Ou não te amasse eu assim... na tua essência perfeita.