sábado, 4 de abril de 2015

A casa dos poetas é o coração de quem os sente


O João não se esquece de nada, e quando ao princípio da noite vamos os dois em direcção ao Castelo e à igreja de Nossa Senhora para a procissão do enterro do Senhor, passando junto ao busto da Públia Hortênsia de Castro volta a um dos temas do passeio da tarde:
- Porque é que as mulheres não podiam estudar e falar em público como os homens?
Haja alguém, mesmo com nove anos, que tenha interiorizado tão bem a igualdade de género, a quem faça confusão a existência de um tempo, talvez não só passado, de desigualdades.
Seguimos os dois a falar da liberdade até ao sítio onde colocaram uma ombreira em mármore que assinala o suposto local da casa onde nasceu Florbela Espanca, um edifício na velha Rua de Angerino que foi destruído na intervenção dos anos quarenta do Século XX quando foi rasgada a Avenida dos Duques de Bragança.
A pergunta inevitável do João:
- Como é que eles têm a certeza de que era aqui no passeio e não ali no meio da estrada?
E seguimos os dois a falar de poesia explicando-lhe eu que a casa dos poetas é o coração de quem os sente nas palavras que nos deixam.
Pouco importa onde nasceram...
Um tema difícil mas apetecível numa noite quente de primavera em que se sente a festa das laranjeiras em flor.
Entramos no Castelo pela porta da Torre de Menagem e mostro ao João uma figueira que nasceu com raízes entre as pedras da parede alta da torre.
- Como é que podemos ir lá colher os frutos?
Eu nunca tinha pensado nisso por entre a "poesia" de ver uma árvore a inventar as suas próprias raízes; e em boa verdade também nunca vi figos a espreitarem lá do cimo...
E dali até à igreja fomos inventando uma história sobre a árvore.
- Estás a ver... já temos uma história, o que significa que já colhemos um "fruto" mesmo sem termos qualquer escada.
Depois...
A vela acesa, a matraca, o penitente, a Maria Madalena, a descida da cruz, porque é que mataram Jesus?
E seguimos os dois de mão dada pisando a terra dos nossos avós. À nossa frente e atrás caminhavam amigos da rua onde nasci num abraço doce que nunca nos faz sentir sós... até o som da banda filarmónica era familiar.
Ao sair do Castelo pelas Portas de Estremoz o João baixou-se para apanhar uma pequena pedra branca que colocou no bolso.
- Para que queres a pedra?
- Para amanhã me lembrar que estivemos aqui e assim não me esquecer de nada.
Sorrio.
Eu farei o mesmo, sem apanhar uma pedra mas escrevendo um texto para o Pomar, logo que chegue a casa.
Há lições nascidas de histórias e de instantes perfeitos que não se podem perder.
E escrevi a pensar no aroma das laranjeiras em flor.

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