sábado, 31 de dezembro de 2011

2011

Estão descascadas e saboreadas as laranjas da colheita de 2011.
Hoje, último dia do ano, sentados à volta de uma lareira que nos aquece aqui algures entre as laranjeiras deste “Pomar” e sempre à laia de balanço, partilho convosco todas aquelas laranjas que gomo a gomo se foram impondo à minha memória:

LARANJA DOCE – Revoluções nos países árabes
Saúda-se o fim de regimes totalitários pela força do povo unido nas ruas.
Foi de dentro do Egipto ou da Líbia que nasceu este desejo de democracia, tendo os líderes das grandes nações secundado esta vontade, após anos de convivências e complacências hipócritas feitas ao sabor dos mais variados interesses.

LARANJA AMARGA – Crise Financeira / Troika
De PEC em PEC chegámos à Troika, e fomos obrigados a pedir empréstimo às instituições internacionais.
Ataque à zona Euro? Crise financeira mundial?
Nada servirá para disfarçar a incompetência de quem nos governou ao longo de décadas.

LARANJA SUMARENTA – Eduardo Souto Moura
O presidente Obama entregou a Souto Moura, o prémio maior da Arquitectura Universal, o Pritzker, vulgarmente designado como o Nobel da Arquitectura.
Quem já visitou o Estádio de Braga, a Casa das Histórias ou a Pousada de Santa Maria do Bouro, não estranha este prémio pois estará habituado à genialidade de Eduardo Souto Moura.

LARANJA SECA – Aníbal Cavaco Silva
Cumpriu a regra da reeleição dos Presidentes da Republica do pós 25 de Abril, mas fê-lo com muito menor percentagem que Eanes, Soares ou Sampaio.
O discurso da noite da reeleição e o da tomada de posse no Parlamento, dividiram mais do que uniram. Num momento crítico para a nossa soberania não tem tido argumentos para criar sinergias entre os Portugueses e colocar reflexões no facebook é muito pouco relativamente ao que se lhe competia.
Ele e os seus próximos, um dos quais sentou no Conselho de Estado, estão demasiado envolvidos no escândalo BPN.

LARANJA MECÂNICA – Euro versus Mercados
Num processo demasiado amargo, o sistema de ataque dos Mercados ao Euro é de um rigor mecânico assinalável. E tem dado frutos.
Não será com políticos como Merkl ou Sarkozi que a nossa moeda europeia se irá salvar. É demasiada fragilidade para tão concertada acção.

SUMO GASEIFICADO DE LARANJA – Energia nuclear
O sismo no Japão e o consequente risco de um brutal acidente na Central de Fukushima puseram a nu a verdade do risco da energia nuclear.
Perderam gás os argumentos a seu favor.
Nuclear, não obrigado.

SUMO NATURAL DE LARANJA – Fado reconhecido como Património Imaterial da Humanidade
Já era há muito património nacional, esta música que é a expressão sonora da alma Portuguesa.
O rótulo mundial é mais do que legítimo e afinal quem desta decisão sai engrandecido, é o próprio mundo.

REFRESCO ARTIFICIAL DE LARANJA – Justiça em Portugal
É tudo uma questão de parecer e afinal não ser.
A justiça em Portugal não existe e de recurso em recurso se constrói o caminho da impunidade dos ricos e dos poderosos.
Um país sem justiça é um país sem critério e que merece muito pouco respeito e credibilidade.

LARANJA VERDE – André Villas Boas
Para mal do meu coração benfiquista, André Villas Boas ganhou com o Futebol Clube do Porto, quase tudo o que tinha para ganhar em Portugal e na Europa.
Abandonou a sua “cadeira de sonho” para responder afirmativamente aos milhões de Abramovich, o dono do Chelsea, mas os tempos mais recentes comprovam que ainda lhe falta amadurecer.
Pelos vistos, Mourinho há só mesmo um.

LARANJA PÔDRE – A dívida da Madeira / Alberto João Jardim
A factura das décadas do desenvolvimento feito de pontes, túneis, auto-estradas, carnavais e festas das flores, colocou a nu o descalabro financeiro de uma região que à custa do estatuto de periférica, liquidou a sua autonomia, cravando-se como sanguessuga ao resto do país.
E sempre com o beneplácito do poder central, independentemente da cor, que foi apontando a Madeira em múltiplas ocasiões como uma região modelo.
Afinal de contas há deficit gordo não Madeira e infelizmente para as bolsas de todos nós contribuintes, não é só democrático.

LARANJA CALIPOLENSE – Música na Pedreira
Original no contexto nacional, este aproveitamento de uma pedreira desactivada, das muitas que existem no nosso concelho, para sala de concertos, é uma ideia excelente e que pode trazer até nós excelentes momentos musicais num ambiente único.
A continuar e a melhorar em acessos, estacionamento, programas e conforto.

COMPOTA DE LARANJA - 2011 deixará para sempre a saudade de Vaclav Havel, o pai da Revolução de Veludo na ex-Checoslováquia, de Steve Jobs, o génio da Apple, Artur Agostinho e Cesária Évora.
E despeço-me ao som da guitarra Portuguesa de Luís Guerreiro e das vozes de Pablo Alboran e Carminho. “Perdoname” é para mim a canção do ano, a provar que de Espanha podem não vir bons ventos mas podem chegar bons casamentos, pelo menos os musicais.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A terapia do Feijão com Mogango e das Migas de Tomate

Por estes dias de entre Natal e Ano Novo, o Alentejo cumpre esta contradição que é parte da sua magia, de um sol fantástico e de um frio que enregela até as partes mais recônditas do esqueleto.
Não me importo mesmo nada com isso. Se não fosse assim não era verdadeiramente Alentejo, não seria Vila Viçosa e eu jamais me sentiria em casa como agora me sinto.
Quanto mais mundo conheço, mais reforço a convicção de pertencer a esta terra e de ser este verdadeiramente o meu espaço.
Aconchegado de dia pela braseira que se encontra debaixo da minha camilha e de noite pelas pesadas mantas coloridas de Reguengos, faço por estes dias o meu atestar de paz, tranquilidade, amizade e força para enfrentar mais um ano.
Não sei se por andar a fugir à televisão e à rádio, ou se por ainda não ter comprado sequer um jornal, numa assumida atitude quase monástica de um Cartuxo, mas até parece que já estou mais optimista quanto a 2012.
O pior será quando eu acordar do sonho com o despertador da Troika a tocar. Mas isso a seu tempo se verá e tratará.
Quem me conhece bem, sabe que jamais coloco o estômago fora de qualquer festa, e o “retiro” destes dias não poderia ser excepção. Ao ritmo da saudade e com a ajuda das artes culinárias da minha mãe, comprometida que parece estar em dar-me tudo o que de melhor sabe fazer, já me deliciei com Feijão com Mogango (abóbora, para quem não domine “Alentejanês”), Migas de Tomate, Sopas de Hortelã, Carne do Alguidar, etc.
Por ser Natal, o combate à minha diabetes fez também uma abençoada trégua e até Sericá, Arroz Doce e Azevias de Grão, não se ficaram pelo armário e vieram também ao sacrifício anual no altar desta minha gula de marca Alentejana.
E a semana ainda não chegou a meio.
No outro dia, o meu sobrinho João, que do alto dos seus seis anos é um dos meus maiores inspiradores e um dos meus filósofos favoritos, chorou quando descobriu que jamais conseguiria saber contar até ao último dos números. Perturbou-o o facto de os números serem infinitos.
São infinitos os números e infinito é também o tempo, não o nosso tempo nem o tempo dos que gostamos, porque esse é limitado e por vezes nos parece tão escasso.
É curioso como a vida nos molda e transforma.
Primeiro choramos porque não conseguimos agarrar o mundo nas nossas mãos e mais tarde choramos porque o mundo que nos chega às mãos é afinal tão curto em relação ao muito e ao grande que ambicionámos que fosse.
Não me importo pelo facto da semana terminar daqui a alguns dias. Sei que matarei as saudades do futuro com a esperança de poder voltar sempre aqui onde sou mais eu e onde sou feliz.
Bendito seja este Alentejo que me aconchega o corpo e sobretudo a alma.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Os Natais dos dias simples

A simplicidade dos nossos dias Calipolenses fazia sobressair enormemente os dias especiais que eram os dos nossos Natais.
Não que deixassem também de ser simples, nós é que os tornávamos diferentes pelo que melhor que nos vestíamos, comíamos, bebíamos e também, e sobretudo, pela alegria com que os preenchíamos, celebrando o estarmos juntos e em família.
A alegria expressava-se pelo canto tradicional e acompanhávamos o “Eu hei-de dar ao Menino…” com as Roncas que construíamos colocando a pele de um animal, geralmente de um coelho, a tapar a boca de um recipiente de barro ou de lata, sendo esta cobertura perfurada ao centro por uma cana que friccionávamos molhada, criando uma ressonância perfeita para acompanhar as nossas vozes mais ou menos afinadas. Há medida que a noite avançava e os copos se iam esvaziando, aumentava a vontade de cantar, mas também a desafinação.
No jantar do dia 24 comíamos peixe e este no Alentejo é sinónimo de Sopa de Cação. A moda do bacalhau com couves veio mais tarde após o processo de globalização gastronómica à escala nacional.
Depois da meia-noite e pelo dia 25 regalávamo-nos com carne de porco frita temperada com pimentão vermelho, peru assado, canja de galinha do campo, filhoses enroladas, azevias de gila, de grão e de amêndoa, nógados, borrachos, sericá, arroz doce, etc. Acompanhávamos os doces com chocolate quente, o melhor que já bebi até hoje, feito a partir de um preparado que se comprava a peso e em sacos de plástico transparentes, na saudosa mercearia, requintadíssima, Pérola Calipolense.
É impossível esquecer o sabor destas iguarias e esquecer também a preparação destas refeições, sobretudo se tivermos em conta que os animais, galinhas e perus, eram comprados vivos e mortos em casa.
A propósito de perus vivos, recordo-me de um Natal em que nos juntámos em Lisboa em casa dos meus tios, tendo a minha avó decidido que nesse ano ensinaria aos meus primos nados e criados na capital, como era um peru vivo e com penas.
Fizemos a viagem de comboio entre Vila Viçosa e o Barreiro, depois a travessia do Tejo de barco e mais tarde a viagem na carreira 18 do eléctrico entre o Terreiro do Paço e a Ajuda, com uma perua viva dentro de uma cesta, semi-camuflada para que pudesse respirar sem ser descoberta.
Quanto mais nós queríamos que ela permanecesse calada mais ela cantava quando algum revisor se aproximava, numa verdadeira saga de “Maria Papoila” na versão anos setenta.
Não sei como ficaram os meus primos no fim da história, mas suspeito que muito traumatizados pois a imagem da bicha a esvair-se em sangue no chão da cozinha, ultrapassou qualquer prazer pelo encontro com o animal vivo.
O número de presentes era inversamente proporcional ao desejo que tínhamos de os ter.
O dinheiro não abundava e, brinquedos, tínhamos em geral apenas um, pois os familiares e amigos aliavam-se aos nossos pais e ajudavam-nos a compor os guarda-fatos, oferecendo-nos pijamas, camisolas, de malha e interiores, meias, cuecas e até ceroulas, que quase todos usávamos por essa altura.
Para nós crianças, quem trazia os presentes não era o Pai Natal mas sim o Menino Jesus, aliás, o próprio presente era muitas vezes designado por Menino Jesus, sendo frequente ouvir expressões como “aqui tens o meu Menino Jesus para ti”, num interessante e bonito gesto, chamando Jesus aquilo que partilhávamos uns com outros, expressando o amor ou a amizade que nos unia.
Também isso hoje é diferente e com frequência recebemos felicitações com “Seasons Greetings” em vez do habitual “Merry Christmas” pois há o medo de ofender os não cristãos.
É estranho este acto de retirar Jesus do Natal pois assemelha-se a comemorar um aniversário impedindo o aniversariante de entrar na festa.
Ou então é apenas e só mais uma marca da superficialidade onde hoje nos situamos nunca procurando os porquês, pouca vezes nos interrogando sobre as razões para o que fazemos e vivemos.
No meio da sofisticação da nossa existência falta-nos tempo para procurar a essência e voltar às coisas simples, preocupando-nos apenas com o ser feliz e com fazer os outros felizes, no fundo os segredos de um grande Natal, a receita para um verdadeiro Natal.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Natal 2011

Conta a história que há milénios atrás,
quando Herodes era rei,
só a pobreza de uma lapa fria,
estava livre para acolher o carpinteiro José,
que juntamente com a Virgem Maria,
fizeram brilhar a Luz e a Paz,
concretizando esse Mistério maior da história,
de um Deus que se fez Homem e nasceu rapaz.

Brilharam estrelas por todo o universo,
viajaram com ouro, Magos de longe,
pastores dançaram e alegrou-se o povo,
acreditando que a vida seria uma festa,
neste eclodir de um tempo novo,
imaginado de Homens iguais entre si, sem ódios, rancores ou guerra,
um tempo em que a justiça e a concórdia,
viriam colorir e restaurar a Terra.

Mas se foi Deus que fez o Homem,
será sempre o Homem quem traçará a sua história.
E se a bússola for o ter e a perversidade da ambição,
jamais se chegará ao tempo
de Homens solidários estendendo a mão,
apostando em força na igualdade,
na tolerância, na fé, na humildade e no respeito,
que permitem construir a mais doce liberdade.

Como era bom se o amor fosse rei,
se matássemos a fome, a dor e os prantos,
banindo dos dias o ódio e a discriminação,
podendo expressar livres as convicções da alma,
sendo genuínos no ser e fiéis ao coração,
temperando este tempo nosso de um amor vivo e na essência natural
que permitisse acontecer a festa do universo,
a festa da chegada de Deus ,a alegria de ser e viver Natal.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Quatro horas de Natal

Com a total cumplicidade da alma, aceitei o repto e reservei quatro horas do meu calendário do Natal 2011, para o voluntariado na festa dos sem abrigo organizada em Lisboa pela Comunidade Vida e Paz.
Quatro horas apenas, o suficiente para que centenas de histórias se cruzassem com a minha, histórias de gente que não precisa de falar para expressar a dor de uma vida triste e sem rumo, pois os olhares, os gestos, as rugas, a tez, denunciam desde logo esse destino de uma existência madrasta.
Cruzam-se todos os dias connosco na cidade e nós não os vemos ou não os queremos ver, são uma multidão de gente que carrega às costas em mochilas sujas, todo o muito pouco a que podem chamar seu, gente que pela persistência no infortúnio, já incorporou a pobreza no seu código genético e que com a mesma naturalidade com que respira, afirma dormir na rua ou em alguma estação “quente” da cidade.
É uma multidão que chega ávida de pão, mas também e sobretudo de afectos.
Mais de vinte anos depois, reentro na Cantina da Universidade onde tantas vezes almocei e jantei com os meus colegas, apresentam-me as minhas funções como voluntário e cedo, ao abrir da porta à longa fila que já se encontrava no exterior do edifício, descubro que os sorrisos, as palavras, os carinhos e a atenção, são tudo o que de melhor posso dar.
Aperto as mãos, escuto, falo, olho nos olhos e sinto em mim esse conforto maior e esse privilégio feito da certeza de que as minhas mãos, os meus ouvidos, a minha boca, os meus olhos, o todo que sou eu, estão no sítio onde mais fazem falta, estão ao serviço das pessoas que nessa tarde soalheira mas fria de domingo, mais precisam deles.
Há milénios atrás, fez-se o Natal, quando um Deus se tornou menino para vir dizer aos Homens que só o amor vale a pena.
E eu, talvez daqui até dia 25 não venha a sentir de forma tão marcada, a alegria do verdadeiro Natal.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Os infantis no campeonato dos seniores

Imaginem se de repente Portugal decidisse apresentar-se num importante campeonato internacional de futebol de escalão sénior e com um elevado grau de exigência, com uma equipa de infantis…
Não será difícil de prognosticar que perderíamos todos os jogos por goleadas vergonhosas e que o desfecho seria a descida de divisão.
Revejam por favor o debate quinzenal que teve lugar ontem na Assembleia da Republica e que opôs Passos Coelho a Seguro, atentem ao nível abaixo de zero da discussão e confirmem por favor…
…não temos jogadores para este campeonato tão duro.
A guerra é feia e árdua e sem generais e com tais soldados, venha de lá mais um Alcácer Quibir.

Eduardo Lourenço

Foi ontem anunciado o vencedor do Prémio Pessoa 2011, e não posso deixar de me congratular com o facto de ele ser Eduardo Lourenço.
Há muito que me habituei a ler e a ouvir Eduardo Lourenço, desenvolvendo por ele uma enorme admiração com raízes na lucidez, na inteligência e na oportunidade com que este Homem Maior pensa a vida e o mundo em geral, e Portugal, de uma forma muito particular.
Não tenho dúvidas de que aos 88 anos, ele é um dos maiores Portugueses vivos, e por certo o mais importante humanista Português do nosso tempo.
Afirmou o júri do Prémio Pessoa de que estando deprimida por estes tempos a nação lusa, era necessário premiar algo de grande que a ela pertence. E maior e melhor, digo-vos eu, era impossível.
Um dia Eduardo Lourenço retratou assim Portugal:

"Nação pequena que foi maior do que os deuses em geral o permitem, Portugal precisa dessa espécie de delírio manso, desse sonho acordado que, às vezes, se assemelha ao dos videntes (Voyants no sentido de Rimbaud) e, outras, à pura inconsciência, para estar à altura de si mesmo. Poucos povos serão como o nosso tão intimamente quixotescos, quer dizer, tão indistintamente Quixote e Sancho. Quando se sonharam sonhos maiores do que nós, mesmo a parte de Sancho que nos enraíza na realidade está sempre pronta a tomar os moinhos por gigantes. A nossa última aventura quixotesca tirou-nos a venda dos olhos, e a nossa imagem é hoje mais serena e mais harmoniosa que noutras épocas de desvairo o pôde ser. Mas não nos muda os sonhos".

E que nunca esmoreçam os nossos sonhos porque já nos resta muito pouco para além deles.
Há uns anos atrás, Eduardo Lourenço recebeu o prémio Camões e afirmou que os prémios não se agradecem, honram-se.
Mais do que honrar Camões, Pessoa ou qualquer outro prémio, não tenho dúvidas de que Eduardo Lourenço tem honrado e espero que continue a honrar por muitos anos, Portugal e a cultura e a língua Portuguesa.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Essa insuspeita ligação entre as cavalariças e a amizade

Tenho a noção de que estou em pleno gozo do meu último fim-de-semana prolongado pois com a reforma “troikiana” dos feriados, as pontes ficarão reduzidas a estruturas de engenharia para cruzar estradas ou cursos de água, deixando definitivamente de existir as que ligam feriados a fins-de-semana e vice-versa.
Por isso, tal como acontece com o último pedaço do bolo, o último bombom da caixa ou a última gota de cerveja, ele me está a saber tão bem.
E depois, para saborear Vila Viçosa em plenitude, é preciso muito mais tempo do que apenas e só o que nos é oferecido entre sexta e domingo. Para entrar com eficácia na dimensão mais profunda das memórias é necessário esquecer o relógio e relaxar, deixando-nos embalar pela “calma” alentejana.
Ontem resolvi deixar o carro na garagem e “viajar” a pé até à zona dos supermercados onde se abastecem os meus conterrâneos, tendo assim a possibilidade de passar ao portão da minha Escola Secundária, a antiga, a que teve as suas instalações provisoriamente instaladas durante anos nas cavalariças do Paço Ducal.
A Vila terminava então ali e para lá do vizinho Depósito das Águas que tinha uma cegonha metálica com uma mensagem de boa viagem aos forasteiros que nos visitavam, só ousavam passar os atrevidos casais de namorados que pagavam com o beliscar da sua reputação, a ousadia de responder afirmativamente aos impulsos das primeiras paixões.
A rua íngreme do Terreiro do Paço até ao portão da escola, está agora vazia de gente e preenchida por este tempo, apenas pelos milhares de folhas de plátanos que não resistem à invernia. Era então a rua mais concorrida da Vila e a que, tendo em conta os habituais transeuntes, tinha uma média etária mais baixa. Circulava a juventude Calipolense e também, e se bem me lembro, a de Borba, Alandroal, Bencatel, Pardais, São Romão, Mina do Bugalho, Cabeça de Carneiro, Terena, Ribeira, São Tiago de Rio de Moinhos, Rosário, etc. Não podendo esquecer as dezenas de rapazes que habitavam então o Seminário de S. José e que também frequentavam a mesma escola que nós. Mais vocacionados para o matrimónio do que para o sacerdócio, eram eles também muitas vezes “isco” para as meninas namoradeiras da Vila e das redondezas, numa versão “Morangos com Açucar” versão religiosa e anos oitenta.
Não resisto a espreitar ao portão de ferro e constato que embora tenham feito algumas alterações ao espaço para o devolverem às suas funções de cavalariça, e acolher parte da exposição do Museu dos Coches, os edifícios principais que acolhiam a escola, estão lá todos.
À direita está o picadeiro que servia de ginásio e onde só nos era permitido ter aulas se não chovesse pois o telhado pouca resistência colocava à passagem da água. As traves metálicas deste mesmo telhado serviam de pretexto para adaptações locais de todos os desportos pois impedindo a livre circulação das bolas, era necessário criar regras específicas para que os jogos não se apagassem e deixassem de ter interesse. Por exemplo, se no voleibol a bola batesse duas vezes seguidas na trave do tecto, o jogo passava para a outra equipa.
Em frente estão os dois pavilhões, o da esquerda onde tínhamos aulas e o da direita, que permanecia com mais aspecto de cavalariça, e que nos servia de bar e sala de convívio.
No pavilhão das aulas, um simples pano de tijolo que ligava as colunas centrais permitia dividir as salas do corredor, permanecendo neste último as manjedouras de pedra, com as argolas para prender os animais, havendo castigos para aqueles que em períodos de aulas as fizéssemos bater contra as pedras, criando um ruído não muito agradável.
Ainda lá estão as casas do lado esquerdo onde funcionava a cantina, a secretaria e algumas salas de aula num corredor estreito no primeiro andar que se assemelhava ao corredor de um comboio.
Desapareceram obviamente os pavilhões pré-fabricados que tinham implantado ao fundo do espaço e onde tínhamos as oficinas de mecânica ou as aulas de desenho.
Também eram míticas as histórias contadas sobre encontros amorosos por detrás destes pavilhões, mais uma vez e sempre, tendo a descarga hormonal da adolescência como justificação.
Olho para o espaço e vejo como está bonito, e como ficam bem os limoeiros que salpicam de verde e amarelo o brando alvo com que mantêm todas as construções.
Mas não resisto a ter saudades dos amigos que comigo partilhavam as aulas, os momentos de recreio e que comigo saiam depois ao portão para juntos voltarmos a casa cruzando o Terreiro do Paço, a Rua dos Fidalgos e a Praça.
Com a Zinha, a Zé Ramalho, a Tina, a Guida Paulino e o Paulo Ratado, talvez inspirados por aquele ambiente de reis e rainhas, sonhávamos alto e partilhávamos esses sonhos e as muitas ambições que carregávamos para o futuro.
E quem um dia partilha sonhos, constrói uma amizade indestrutível porque assente naquilo que é mais íntimo em nós.
Hoje, senti saudades desse tempo, senti orgulho por tê-lo vivido e senti sobretudo gratidão pela vida me ter dado o privilégio de não crescer sozinho e ter crescido rodeado pela melhor gente.
Viva a amizade.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Avé Maria

Mãe de Jesus: Senhora da Anunciação, da Encarnação, do Ó, da Visitação, da Natividade, de Belém, da Lapa, das Dores, da Piedade, do Pé da Cruz, dos Anjos, da Assunção, …

Mãe nossa: Senhora do Amparo, dos Remédios, da Saúde, da Cabeça, da Vitória, da Pranto, da Agonia, da Graça, da Glória, da Vitória, dos Navegantes, da Boa Viagem, Auxiliadora, da Paz, da Boa Morte, do Parto, do Bom Sucesso, do Carmo, da Consolação, da Guia, do Leite, dos Mares, das Mercês, dos Milagres, da Misericórdia, das Neves, da Purificação, do Perpétuo Socorro, dos Prazeres, do Rosário, do Amor Admirável, do Bom Despacho, do Alívio,…

Mãe de Portugal: Senhora da Oliveira, de Fátima, do Sameiro, da Nazaré, do cabo, do Monte, dos Mártires, do Incenso, D’Aires, da Enxara, da Abadia, da Ponte, da Boa Hora, da Boa Nova, da Luz, das Candeias, da Estrela, da Escada, do Livramento, da Pena, da Rocha, da Lapinha, da Fé, do Almortão, do Antime, da Serra, de Balsemão, do Nazo, da Ribeira, do Viso, dos Montes Ermos, da Tocha, do Monte Alto, do Cardal, do Castelo, das Brotas, da Póvoa, de Cárquere, da Ouvida, da Veiga, do Fetal, da Rocha, da Merceana, de Mércules, da Flor da Rosa, da Vandoma, da Silva, do Castelinho, do Mó, de Tróia, do Viso, do Minho, da Vinha, das Rosas, da Bonança, da Peneda, do Castro,…

Nossa Senhora da Conceição, de Vila Viçosa, de Portugal e de todo o mundo, dai-nos a inspiração da paz e dai-nos força e coragem para buscar com garra, o nosso crescimento como pessoas e como nação.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Restaurar a independência

No passado dia 1 de Dezembro comemorou-se o 371º aniversário da restauração da independência de Portugal.
Após 60 anos sob o domínio da coroa Espanhola, um grupo de bravos Portugueses correu com nuestros vizinhos para o seu lugar para lá da fronteira, e fez rei o Duque de Bragança, o Calipolense meu conterrâneo D. João, o IV na lista dos Soberanos de Portugal.
O dia 1 de Dezembro não significou o fim do processo de restauração da independência, foi antes o inicio de uma longa guerra que demorou 28 anos.
Passados quase quatro séculos, é triste mas inevitável pensar que Portugal persiste mas a independência, nem pensar.
Não há “Filipes”, Duquesas de Mântua ou “Miguéis de Vasconcelos”, mas sobram “Mercados”, “Troikas” e sobretudo, um brutal endividamento.
Na nossa economia doméstica como na economia de um país, se não dispomos de meios e dependemos de terceiros, até podemos dizer que existimos mas nunca poderemos sustentar que somos independentes.
Sem pretensões a economista, político ou guru de Wall Street, a mim, um modesto farmacêutico da terra do Rei Restaurador, parece-me que as batalhas a vencer para sair em triunfo desta guerra pela nossa independência, passam apenas e só por uma estratégia: aumentar a produtividade.
Operacionalizar esta estratégia também é simples e passa inevitavelmente pelo trabalho, pela motivação e pelo reconhecimento de quem mais trabalha, mais produz e mais cria riqueza para si e para o país.
Ao Estado compete ser juiz nesta avaliação e para tal e para que possa dispor de legitimidade, exige-se o exemplo no muito produzir e no pouco ou nada desperdiçar.
Até aqui tudo tem sido feito ao contrário pois não se premeia o trabalho, é-se tolerante para com a preguiça e permeável ao desperdício.
Qual é o estimulo e o reconhecimento dado a quem trabalhou durante décadas, nunca aderiu às baixas fraudulentas e sempre pagou os seus impostos?
Quantas pessoas “sobrevivem” à conta de subsídios dados pelo Estado sob a forma de Rendimentos de Inserção ou Cursos de Formação quando dispunham de condições pessoais e profissionais para exercerem uma actividade profissional que sistematicamente rejeitam optando pela comodidade do nada fazer?
Continuem a permitir que estas questões sejam classificadas de demagógicas e depois não se queixem da morte do “Estado Social” e da morte do próprio Estado.
Há pouco ao ler os meus jornais de domingo, cruzei-me com a entrevista feita a um dos pescadores das Caxinas que na sexta-feira foram resgatados após dois dias à deriva no mar. Quando o jornalista o questionou sobre o futuro, respondeu:
- Vou voltar ao mar. Tenho a minha família e necessito trabalhar.
É uma resposta normal de uma pessoa honesta e trabalhadora que se cruzou com a desventura algures no exercício da sua profissão mas que de forma responsável sabe que tem de continuar a trabalhar para assegurar a sua independência e da sua família.
Mas não deixa de ser interessante ver como o jornalista lhe dá destaque e rótulo de heroicidade pois talvez sem termos a noção disso, já quase todos interiorizámos que no país dos subsídios, este acontecimento seria razão mais do que suficiente para justificar um distúrbio de ordem psíquica, a incapacidade para trabalhar, assegurando uma “reformazinha jeitosa” que permitisse passar o resto dos longos dias a fumar cigarros na marginal de Caxinas ou sentado num café a jogar ao dominó.
Voltando à questão da nossa independência, tenho a certeza de que será pelo trabalho que lá chegaremos, e já agora com esperança, pois apesar de cada vez mais raros, ainda há, e bem vivos, Heróis do Mar.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Feriados, "pontes" e dias de descanso

Empenhados os anéis do novo-riquismo e da falsa abundância das décadas do nosso passado mais recente, de volta à triste e quase eterna condição de pobres, laboriosa tem sido a busca nos últimos tempos, de formas e mecanismos de mais produzir e de maior poupança.
Os feriados têm estado no centro deste labor e à quase unanimidade em torno da necessidade de redução do seu número, junta-se o total desacerto quanto aos dias que deverão permanecer ou não como festivos.
Sobre este assunto, há uma discussão entre Igreja Católica e Estado, impondo-se mutuamente quotas, num processo que tenho dificuldade em entender à luz da laicidade do Estado.
Discute-se nos jornais e discutem os líderes de opinião porque à população em geral importa apenas o número total de dias de descanso e de “pontes”, pouco importando os que ficam e os que vão. Aposto que mais de 80% da população Portuguesa desconhece os motivos que se celebram nos dias feriados.
Se nos fixarmos nos quatro feriados que se diz que deixarão de o ser já em 2012, tenho a mais firme convicção de que para a generalidade das pessoas:

• O dia de Corpo de Deus é aquele feriado jeitoso que calha sempre a uma quinta-feira e que permite fazer uma “ponte” entre finais de Maio e Junho numa altura em que no Algarve a água do mar já está quente;
• O dia da Assunção de Nossa Senhora (15 de Agosto) é aquele feriado fantástico que há em Agosto que nos permite colocar sempre um dia extra nas férias de verão, se nos fixarmos na quantidade de dias úteis atribuídos às ditas férias;
• O dia da Implantação da República (5 de Outubro) é aquele feriado por alturas do Outono que nos permite ir à terra tratar das vindimas e das colheitas, ou então apenas para caçar;
• O dia da Restauração da Independência (1 de Dezembro) é aquele dia de descanso em que já tendo recebido o subsídio de Natal, podemos ir fazer compras, tendo sempre a possibilidade de optar por faze-las em Espanha dado que por ali não se descansa nesse dia.

Cortar estes ou outros quatro feriados seria praticamente indiferente para a generalidade das pessoas.
Para além disso, se nos fixarmos na história dos feriados em Portugal, verificamos que a quantidade e a natureza destes dias festivos são claramente influenciadas pelo regime político que se encontra no poder. Por exemplo, a República acabou com os feriados religiosos, o Estado Novo restaurou-os e acrescentou o dia 28 de Maio, o 25 de Abril matou o 28 de Maio e instituiu-se como feriado.
Neste contexto, permitam-me que apresente aqui a minha proposta de revisão dos feriados, proposta assente num critério major que é o respeito pela tradição Portuguesa que atravessa e atravessará regimes e momentos históricos:

• 1 de Janeiro / Dia da Fraternidade Universal;
• Terça-feira de Carnaval / Carnaval;
• Sexta-feira Santa / Páscoa;
• Domingo de Páscoa / Páscoa;
• 1 de Maio / Dia do Trabalhador;
• 10 de Junho / Dia de Portugal, Camões, das Comunidades e da Língua Portuguesa;
• 1 de Novembro / Dia da Memória e dos Heróis da Pátria;
• 25 de Dezembro / Natal.

Deixaria ainda um feriado de cariz municipal, fazendo com que de um total de 14 feriados passássemos a ter apenas 9, estando eu também a contribuir para irmos mais além do estipulado pela plataforma de entendimento com a “troika”.

domingo, 27 de novembro de 2011

Fado – Património de Lisboa, de Portugal e da Humanidade

Quem um dia te viveu, Lisboa,
Conhece de cor as voltas do teu canto,
E sabe que o fado que a gente entoa,
É o canto da saudade em tom de pranto.

A viela mais estreita do bairro antigo
A que a sardinha vem dar o cheiro a mar,
Oferece-me o eco para o pregão que eu digo
E é palco perfeito para o fado cantar.

Cerro os olhos com alma e com garra
E ofereço ao corpo um ar sério ou gingão,
Para que ao primeiro triste acorde da guitarra
Me salte para voz o que está no coração.

Um dia quis também Deus fazer Seu,
Este canto luso da alma de todos nós
E marca de perfeição então lhe deu
Criando Amália e lhe dando a voz.

E assim com esta marca de divino
O fado ganhou asas e foi pelo mundo
Mostrando que de Portugal é mais que um hino
É saudade, é povo e amor profundo.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O parque temático

Por manifesta falta de tempo no passado fim-de-semana, tenho aproveitado os dias desta semana para ler os volumosos periódicos publicados ao sábado e domingo, que compro religiosamente e que até serem lidos, conservo na sala junto ao meu sofá.
Fico a saber que:

- A presidente do Parlamento Português optou por manter a reforma em detrimento do salário que lhe correspondia pelas actuais funções. É que a reforma, conseguida aos 42 anos de idade e após 10 anos como juíza do tribunal constitucional, tem o valor de cerca de 7.000 € mensais, sendo portanto superior ao dito salário;

- O líder do Bloco de Esquerda afirmou que a Greve Geral de dia 24 de Novembro é, ou poderá ser, o início de um novo 25 de Abril;

- O líder da UGT deixou-se fotografar na piscina de um hotel de luxo em Maputo, onde por certo se encontrava em visita de trabalho, a fumar charuto e com ares de estar no paraíso;

- As sagas BPN e Face Oculta prosseguem a bom ritmo, com renovados argumentos, conseguindo superar em número de episódios as telenovelas-maratona da TVI;

- Na Madeira, o Natal vai ser ter o brilho de muitas lâmpadas pagas com um total de 3 milhões de Euros que irão directamente para uma empresa de um ex-deputado do partido que gere o governo da região.

Ou seja, em Portugal:

- A presidente da Assembleia que aprova o orçamento que corta e congela pensões da ordem das centenas de Euros a indivíduos que tiveram de trabalhar e fazer os seus descontos até aos 65 anos, governa-se com uma prematura e choruda reforma que é cerca de 15 vezes superior ao salário mínimo nacional;

- Um líder partidário escandalosamente agarrado ao poder, que não assume derrotas e não dá a voz e liberdade aos militantes do seu partido, para que digam ou não se o querem continuar a ver na liderança, faz bandeira com a liberdade e exige um novo 25 de Abril;

- Os defensores profissionais dos trabalhadores vivem em condições económicas muito acima dos trabalhadores que dizem representar;

- Os anos no poder de Cavaco, Guterres e Sócrates foram paraísos perfeitos para uma corja de aldrabões que usaram e abusaram do poder sempre em proveito próprio;

- Continua a não haver vergonha relativamente à gestão financeira da Madeira. Na Pérola do Atlântico como em qualquer outra localidade de Portugal, cada lâmpada acesa em iluminações de Natal, constitui uma manifesta ofensa aos trabalhadores portugueses.

Donde concluo que hoje Portugal é um Parque Temático ao jeito de um país, onde tudo o que é visível é irreal e onde a realidade suja se conserva nos bastidores, raramente emergindo e deixando que a observemos à superfície.
Eu estaria mais tranquilo e cómodo se não estivesse a pagar caro o combustível para os motores dos carrocéis desta “Feira Popular”.
A pagar e sem direito a divertir-me.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

TUGAlidades


Não sei se devido ao facto de nos últimos tempos, por acção desses seres poderosos e dominadores do mundo agrupados no designado e abundantemente referido “Mercado”, passarem o tempo a associar Portugal a lixo, ou então por obra de uma tal senhora Merkel oriunda da ex-RDA e filha de um Pastor Evangélico, empenhada em fazer pagar o desrespeito pelas regras da Zona Euro, com perda de soberania, o que é facto, é que hoje acordei rouco depois de ontem ter entoado três vezes o hino nacional a plenos pulmões, durante o Portugal – Bósnia que se jogou no Estádio da Luz, que ganhámos por seis a dois e que nos apurou para o Euro 2012.
Haja pelo menos um Euro em que estamos por mérito, nem que seja apenas e só o do futebol.
Mas voltando ao jogo de ontem, tenho de facto de vos reconhecer que durante o mesmo me apercebi de que este “pisar de calos” ao orgulho lusitano de que temos sido vítimas num passado mais recente, me aguça a garra patriota e ontem, para além do hino cantado por três vezes, confesso ainda que não resisti a abrir a mão e a dizer adeus por alturas do quinto golo da selecção das quinas, a um casal de Bósnios que se encontrava atrás de mim e que legitima e naturalmente se tinham manifestado aquando dos seus dois golos.
Após o sexto golo já não estavam no seu sítio. Ou foram bem mandados e saíram quando eu lhes disse adeus ou então, suspeitando que haveria mais golos, recusaram-se a oferecer-me mais um momento de manifestação exacerbada do meu orgulho de ser Português.
Esteja o patriotismo aguçado ou não, há momentos que a vida nos oferece o privilégio de viver, que são únicos e que nos marcam duplamente. Por um lado pela beleza e arte que têm na sua essência, e por outro pela carga simbólica que carregam, sobretudo quando envolvem figuras cuja genialidade indiscutível ganhou estatuto de marca e afirmação da nação a que pertencem, eles e nós.
Jamais esquecerei a noite em que no Coliseu dos Recreios e durante um concerto dos Madredeus, me foi dado o privilégio de ver tocar Carlos Paredes.
Como eu gostaria de ter podido estar num espectáculo da Amália ou de ter podido aplaudir num estádio um golo do Eusébio.
Ontem, quando o Cristiano Ronaldo correu para a bola, rematou e fez o primeiro golo de Portugal, tive essa sensação de estar a viver um momento mágico e único, um momento destes que não se esquecem.
Porque novo-riquismo e exibicionismos à parte, o rapaz é mesmo o melhor jogador da Europa e quiçá do mundo.
Que ele nos inspire e nos incuta auto-estima na hora de dar um pontapé forte e certeiro na malfadada crise.
Viva Portugal!

domingo, 13 de novembro de 2011

Ai, Timor!

Passaram ontem vinte anos sobre o massacre ocorrido em Dili, Timor Leste, no Cemitério de Santa Cruz, quando as forças militares Indonésias disparam brutalmente sobre civis.
A presença no terreno de alguns jornalistas internacionais, permitiu que o mundo espreitasse a repressão de que os Timorenses eram vitimas desde a ocupação Indonésia ocorrida no período em que Portugal conjugava o verbo descolonizar no presente do indicativo.
Quando comecei a ouvir falar de Timor, recordo-me que a palavra já rimava com guerra.
No final dos anos setenta, chegaram ao Seminário de Vila Viçosa, alguns rapazes que expressando-se no mesmo Português que nós, nos falavam de uma terra distante, em guerra, e a viver o sofrimento e a dor de famílias desfeitas, separadas entre a própria guerra e a miséria oferecida pela pátria da língua mãe, ali algures para os lados do Jamor.
Foi o meu primeiro contacto com Timor.
Anos mais tarde, numa tarde e serão de Julho de 1984, com o objectivo de participar num Convívio Fraterno em Proença-a-Nova, fiz a viagem desde Vila Viçosa no carro do então Padre Basílio do Nascimento, um dos responsáveis pelo Seminário de Évora, numa boleia patrocinada pelo nosso amigo comum, o Padre António Simões.
Durante a longa viagem e também o jantar que fizemos em Portalegre pelas bandas do Semeador, ouvi falar de um povo unido a nós pela língua e pela fé, que lutava com a força das armas e sobretudo pela força da própria fé, para que um dia pudesse ser dono do seu destino, deixando de ser escravo dos poderosos senhores do mundo.
Pela primeira vez ouvi falar de Xanana Gusmão, Ramos Horta ou D. Ximenes Belo, heróis maiores de Timor, respectivamente, pela força das armas, da diplomacia e da fé, unidos pela convicção e pelo muito querer a liberdade.
Comecei a interessar-me por Timor, a ler e a ouvir aqueles que nunca deixaram cair a sua causa no esquecimento, sendo neste campo obrigatória uma referência a D. Duarte de Bragança, de tal forma que as imagens do massacre de Santa Cruz apanharam o mundo de surpresa, mas a mim nem por isso. Confirmavam apenas o que há muito eu sabia.
Mas o mundo despertou para esta causa e o sangue dos heróis de Santa Cruz, foi alerta e a semente da liberdade cuja conquista seria concretizada com a independência a 20 de Maio de 2002.
E talvez até as ave-marias em Português, rezadas em fundo no filme do massacre, tenham sensibilizado o Papa João Paulo II, para a injustiça da ausência do seu gesto de beijar o solo Timorense, distinguindo-o do solo Indonésio, quando visitou Timor em 12 de Outubro de 1989.
Do massacre de 1991 até à independência em 2002, há um longo caminho que é feito de esperança e temperado pelo crescendo da revolta ao nível global para a causa deste pequeno país de heróis.
O Prémio Nobel da Paz atribuído a D. Ximenes Belo e Ramos Horta em 1996, confirma que a causa de Timor jamais iria cair como antes no esquecimento.
Os acontecimentos de 1999 que culminam com a entrada da ONU em Timor-Leste, assumindo os anseios deste povo como um dos seus objectivos e do mundo, oferecem a Portugal a oportunidade da união por uma causa.
Como muito poucas vezes tinha antes ocorrido, colocaram-se de lado as divisões políticas, sociais, religiosas e de qualquer outra espécie, e em vigílias, manifestações, cordões humanos, trajes brancos, velas acesas nas varandas e janelas, Portugal uniu-se por Timor e pela conquista da liberdade, permitindo o acerto da História.
Nunca mais falei com D. Basílio do Nascimento, entretanto nomeado Bispo e também ele num agente activo e herói no caminho para a liberdade do seu povo, mas se um dia o puder fazer não perderei a oportunidade de lhe agradecer o mote que me deu naquela viagem entre o Alentejo e a Beira Baixa, para a lição de que o sonho e a fé são tudo quanto necessitamos para ter força e ganhar a convicção que nos leva ao que queremos ser e até onde queremos estar.
E já agora, não menosprezem qualquer segundo das vossas vidas, porque até aquilo que parece mais simples e vulgar, como uma simples e banal viagem de automóvel, pode vir a transformar-se num dos momentos mais fantásticos e memoráveis da nossa existência.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Luzes, câmara e… imbecilidade.

Segundo os dados da Marktest relativos a Outubro de 2011, o programa com maiores níveis de audiência na televisão portuguesa foi o jogo de futebol entre Portugal e a Dinamarca, transmitido pela RTP1 no dia 11. Este programa teve um Share de 52,5%.
Dos cinco programas mais vistos, quatro são jogos de futebol, havendo também um episódio de uma telenovela.
O sexto programa mais visto foi A Casa dos Segredos, transmitido pela TVI também no dia 11 de Outubro, com um Share de 35,7%.
Daí até ao final do Top 10, nada mais existe para além de jogos de futebol e Casa dos Segredos.
Tendo em conta estas escolhas dos portugueses na hora de manipular o comando da televisão, fica claro que em Portugal quem quiser ser famoso e ter uma elevada notoriedade junto do grande público, tem apenas três opções: jogar futebol, ser actor de telenovelas ou então disponibilizar-se para se enfiar numa casa com um bando de energúmenos a fazer as mais tristes figuras que seja capaz.
Dado que às duas primeiras opções se exige talento, ou, no caso das telenovelas, alguns atributos de natureza física, fica explicado porque é tão procurada a terceira via, a dos “Big Brothers”. É a que resta para quem não sabe jogar à bola e não seja uma estampa.
Fui à procura destes números não por acaso, mas buscando as razões pelas quais mais um grupo de estudantes, desta vez de uma escola dos arredores de Sintra, colocou na Internet imagens de um comportamento anormal durante uma aula da disciplina de Português. Pelo conteúdo filmado, a este filme só será possível atribuir um título do género: “As cuecas cá da malta”.
Não restam dúvidas de que tudo vale a pena, até mesmo a imbecilidade, para conseguir captar a atenção do público e alcançar a tão ambicionada fama.
Numa das raras vezes em que se dispôs a prestar serviço público, a RTP iniciou em Outubro a transmissão de uma série de qualidade, “Portugueses Extraordinários”, que retrata a história de compatriotas nossos que por obras valorosas se vão distinguindo, sendo muitos deles indivíduos notáveis que se despojaram de si para se entregarem a causas fantásticas, pondo-se inteiramente ao serviço dos outros.
Dos programas desta série emitidos em Outubro, o que teve maior audiência foi o de dia 28, com um Share de 17,8%, exactamente metade das audiências das cenas temperadas de estupidez e sexo da Casa dos Segredos.
Assim, em Portugal em 2011, uma pessoa que por exemplo crie uma fundação para ajudar no desenvolvimento de centenas de cidadãos deficientes, tem metade das probabilidades de obter notoriedade pela sua obra, do que uma ninfomaníaca que se rebole com homens debaixo de lençóis e que afirme que a África é um país da América do Norte.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O Paço a bordo


A edição de Novembro da revista de bordo da TAP, traz entre outros temas muito interessantes, uma entrevista com uma passageira frequente, Manuela Saldanha, Directora de Marketing da Loja das Meias.
No conjunto de sugestões apresentadas relativas aos lugares “Made in Portugal” que não esquece e aos quais recomenda uma visita, Manuela Saldanha inclui o Paço Ducal de Vila Viçosa, juntamente com o Museu Nacional de Arte Antiga ou o Museu Berardo.
Nós já sabemos que é um sítio único e que muito nos envaidece que seja nosso, mas é sempre bom ver assim reconhecida a beleza da nossa terra e dos seus lugares, sobretudo por gente que já calcorreou meio mundo e que trabalha e se movimenta em áreas onde se cultiva o bom gosto.

Sementes de Esperança II


Ainda a propósito da partida do Padre Armando, uma vez regressado de Londres, não resisti a “mergulhar” no meu baú das recordações, à procura de uma imagem fotográfica que pudesse juntar às muitas e boas imagens do grupo Sementes de Esperança, que gravei e conservo num dos lugares mais seguros da memória.
Encontrei esta foto que foi tirada na tarde do dia 13 de Maio de 1982, precisamente a véspera da visita do Papa João Paulo II a Vila Viçosa.
Estamos no claustro do Convento das Chagas, que muito antes de ser a Pousada D. João IV, foi o nosso poiso em muitas tardes de convívio e de festa.
Há um palco onde os grupos de jovens das diferentes localidades se preparavam para actuar, estando a usar da palavra, sempre no seu jeito ousado e diferente, o Padre Manuel Barros.
No canto inferior esquerdo da foto, vemos o Padre Armando em conversa com os artistas da viola que nos iam acompanhar. Não se vê o rosto dos músicos mas quase de certeza que um deles é o meu amigo José Maria.
De frente na foto há uma pequena tabuleta que sinaliza Vila Viçosa e lá estamos nós mais do que preparados para o nosso momento.
Eu e a São Duarte líamos o texto, quais Eládio e Zanatti à escala do Pátio das Chagas, e os restantes elementos subiam ao palco, cada um de sua vez, expressando por mímica o sentido das palavras ditas por nós. Se bem me lembro, o texto era relativo aos méritos e virtudes que reconhecíamos na figura do Papa e tinha sido elaborado por todos durante um encontro em que tínhamos participado no Monte da Virgem, na Serra D’ Ossa.
A qualidade da foto não permite identificar todos os amigos mas vejo o Manuel Almas, o João Paulo Silva, o Paulo Quinteiro e o Paulo Geadas, a Zinha Duarte, a Manuela Silvério, a Madalena Barros, a Célia Costa, a Mena Espiguinha e a Zé Bexiga.
Se conseguirem identificar-se ou identificar mais alguém, por favor partilhem por aqui.
Recordo-me que para além desta actuação, eu dei uma entrevista para a RDP e o João Paulo participou no palco, de alva vestida, num momento nocturno de oração.
Lembro-me também que jantámos o inevitável Arroz à Valenciana cozinhado pelas Irmãs do Seminário de S. José, e de que iria já longo o serão quando nos dirigimos para a Avenida com o objectivo de tomar o melhor lugar para ver e estar com João Paulo II.
Com mantas, casacos e muita animação, passámos a noite todos juntos na barreira do Castelo na zona em frente ao Correio e à Caixa Agrícola, naquela que foi uma das mais fantásticas noites que me lembro de ter passado acordado.
E era assim destas coisas simples e pequenas, que fazíamos grandes os nossos dias de há trinta anos.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Sementes de Esperança

Estaria eu a entrar na minha segunda década de vida quando o Padre Armando Tavares chegou a Vila Viçosa à Paróquia de S. Bartolomeu.
Neste final dos anos setenta, o clima político era quente nas terras do sul, e frescas, eram só mesmo as memórias da revolução recente, fazendo-se do combate à Igreja Católica, uma marca forte dos dias da contestação e de uma juventude a crescer para as novas liberdades.
Em contra-ciclo nesta lógica anticlerical, após os anos da catequese da instrução primária, eu e mais uns amigos, tínhamo-nos mantido unidos num grupo dinamizado pelo Padre José Luís Francisco e pela minha querida e eterna catequista Bárbara Elisa.
O Padre Armando chegou e juntou-se a nós para nos conduzir até aos dias mais bonitos e felizes das nossas vidas.
Com uma paciência infinita, uma generosidade sem igual e a humildade que gera as maiores cumplicidades, o Padre Armando “aturou-nos” na idade difícil e insuportável das nossas certezas absolutas, levando-nos pela mão por esses trilhos desafiantes mas certos onde se saboreia a presença de Deus e que desembocam na felicidade.
Reuníamo-nos todas as quartas-feiras à noite na Casa Paroquial de Nossa Senhora, na Corredoura, para aí partilharmos o todo das nossas vidas, sem tabus e olhando sempre tudo pelo prisma da fé e da Palavra de Deus. Por nos sentirmos a crescer e porque o fazíamos com a perspectiva de um futuro grande e bom, chamámo-nos com toda a legitimidade, Sementes de Esperança.
Com a companhia do Padre Armando, fizemos tudo o que faziam os jovens da nossa idade: caminhámos pelo campo, nadámos nas albufeiras, fizemos piqueniques, petiscos, viagens, mas sempre, em todos os momentos, rezámos e unidos uns aos outros, provámos o doce da presença de Deus.
Com o Padre Armando rezámos laudes na Ermida de S. Jerónimo, na Tapada, celebrámos a eucaristia no Monte dos Apóstolos, e celebrámos a penitência e a eucaristia no Bosque de Borba, em momentos que jamais se apagarão da minha memória e que para sempre ficarão gravados a ouro no curriculum da minha existência.
Um dia o Padre Armando partiu de volta a Proença e nós partimos também pelos caminhos que nos fizeram Homens, fazendo germinar a semente e dar corpo à esperança.
Em Março passado, numa tarde escura de um domingo de primavera envergonhada, fui até ao Seminário de Proença-a-Nova com uns amigos, para estar com o Padre Armando, fazer-lhe companhia e dar-lhe um pouco de alento na doença que há muito o atormentava.
Reunimo-nos à volta dele como há trinta anos atrás.
Rimo-nos muito, comovemo-nos, lembrámos os ausentes, recordámos as nossas famílias, falámos da vida, da doença e da morte, falámos de fé, falámos de Deus.
Com tranquilidade, o Padre Armando partilhou connosco a forma como a doença o tinha feito crescer na fé e aproximado de Deus, e deu-nos sinais e provas de como serenamente aguardava a chamada para a viagem dos eleitos, a viagem para a casa do Pai.
O Padre Armando presenteou-me com um raro testemunho de fé e uma das mais fortes lições de vida.
Depois do jantar, despedimo-nos à porta do Seminário com o brilho nos olhos que é prova deste humano sentimento de saudade de quem sabe que só se voltará a ver um dia mais tarde, mas noutro lugar que não sobre a terra.
Recebi hoje a notícia de que o Padre Armando partiu para o Céu, e aqui no meio de Londres a olhar um Hyde Park tingido de Outono, as lágrimas que o coração me faz aflorar aos olhos, são mais do que de saudade, são de comoção por esta bênção maior de um dia Deus me ter feito beneficiário da presença de um seu apóstolo eleito que chegou para me injectar vida e fazer-me feliz.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Feira dos Santos

O dia do ano em que a estrada de paralelos entre Vila Viçosa e Borba se tornava mais curta era sem dúvida o dia 1 de Novembro. E o motivo era a Feira dos Santos na localidade nossa vizinha.
A pé, de bicicleta, de moto, de carro ou de autocarro na versão de permanente vai-vem, tudo servia para nos ajudar a percorrer os cinco quilómetros de um caminho que antes da explosão do mármore, era ladeado por olivais e muros caiados de branco.
Em família, com os meus pais, o meu irmão, os meus tios, os meus avós, e anos mais tarde já com os meus amigos, sempre elegemos o autocarro como nosso meio de transporte. Apesar das filas no Rossio junto ao mercado serem habitualmente grandes, sempre tínhamos a oportunidade de pôr a conversa em dia com algum parente ou amigo que estivesse por perto.
Apesar do Outono, o tempo geralmente ajudava. A excepção terá sido mesmo o ano em que a força da chuva e o peso da água, fizeram com que uma tenda caísse em cima da minha amiga São Duarte.
Não me recordo de uma feira maior do que esta em toda a região, e guardo a imagem das barracas a invadir muitas das ruas de Borba, num cocktail extraordinário de residentes, visitantes e feirantes, não se conseguindo distinguir quem era quem.
Numa época pré centros comerciais e hipermercados, eram dois os atractivos especiais desta sessão especial e anual de compras, fruto da sua boa e estratégica colocação no calendário: as iguarias do Outono e o vestuário para o Inverno.
Imagino eu que para além disso, a extraordinária profusão de tascas e o vinho novo chegado às pipas, também pudessem ser atractivo especial para alguns seres mais empenhados em aconchegar o corpo e a alma com os néctares de Baco.
No geral e para o conforto do estômago, comprávamos castanhas, nozes, passas de figo e peros (desculpem mas eu pertenço a essa categoria de seres raros que conseguem distinguir peros de maçãs). Nunca esquecíamos também o inevitável Torrão de Alicante, o melhor amigo dos nossos dentistas.
Para enfrentar o Inverno, adquiríamos botas, capotes, samarras, blusões, impermeáveis, camisolas de lã, cuecas, ceroulas, camisolas interiores com pelo e meias de lã.
Era ver-nos todos catitas na escola no dia seguinte, de roupinha nova e com as botas de couro a cheirar a sebo, encarregando-se sempre o meu avô Joaquim deste untar das botas para que elas tivessem maior resistência, maleabilidade e melhorassem a sua impermeabilidade.
No final do dia, para regressar da feira, apanhávamos o autocarro de volta a casa, depois de o vermos usar e abusar da marcha-atrás em manobras difíceis na apertada estrada, pois por esse tempo os autarcas ainda não tinham inventado as agora famosas rotundas.
Vínhamos felizes e jamais o cansaço de um dia diferente, nos impedia de ir para o quintal acender o fogareiro de carvão para assarmos as castanhas, que quentes e boas, eram a inevitável sobremesa no jantar desse dia.
Hoje, dia 1 de Novembro de 2011, fui ao Cascais Shopping comprar o presente para o meu pai que faz anos daqui a dias, e no meio da sofisticação das marcas e das lojas, senti saudades desse tempo que aqui decidi partilhar convosco, um tempo que era marcado sobretudo pela simplicidade e pelo facto de termos tempo e arte para saborear as pequenas coisas, tornando-as grandes, e fazendo santos, estes dias de todos e de todos os Santos.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

No poupar é que está o ganho

Os especialistas em demografia estimam que durante o dia de hoje nascerá algures no mundo uma criança que fará com que a população mundial atinja o incrível número de sete mil milhões.
Sendo difícil de identificar com precisão o local onde ocorrerá esse nascimento, a Índia, país com níveis de natalidade muito elevados, surge como o berço mais provável para essa criança.
Se pensarmos que em meados do século XIX a população mundial era de aproximadamente mil milhões, vemos como o século XX foi explosivo em termos demográficos, ritmo que parece manter-se no século XXI pois desde que entrámos nos anos de 2000, a população já cresceu mil milhões.
Não deixa de ser interessante, a coincidência do nascimento deste habitante sete mil milhões ocorrer no Dia Mundial da Poupança, pois na ordem do dia está mais do que nunca, a existência e a disponibilidade de recursos que permitam qualidade e dignidade para a vida de todos os seres humanos do planeta terra.
Para essa qualidade nunca contribuirá a distribuição desigual da riqueza que vai alimentando o fosso entre ricos e pobres, quer se fale de pessoas ou de nações, tornando cada vez maior o escândalo da coabitação do desperdício e da carência.
E se ao nível das nações a nossa intervenção no combate à desigualdade carrega de algumas limitações, ao nível pessoal, esta consciência deve mover-nos à solidariedade e à partilha com os demais. Não faltam instituições credíveis para activamente fazermos esta partilha.
Em todo este contexto de desigualdade, choca-me o consumo e o desperdício sem pudor, sendo eu defensor da poupança, não no sentido do aferrolhar dinheiro debaixo do colchão, mas sim no contexto positivo da utilização racional dos recursos à medida das nossas reais necessidades.
Desde os anos da minha infância calipolense que fui treinado nesta atitude de poupança.
Através dos mealheiros de barro onde juntava as moedas, mais as pretas de tostões do que as brancas de escudos, que os tios, avós, pais e amigos me iam oferecendo, consegui tornar realidade alguns dos meus sonhos, e consegui sobretudo, aprender o real valor das coisas e de como, se lutarmos muito, temos fortes probabilidades de as conseguir.
Em Portugal, nas décadas da ilusão de riqueza pós integração europeia, perdemos o hábito da poupança, rotulando-a de fora de moda, e tornámo-nos hábeis no processo inverso: já não poupamos para adquirir algo, adquirimos algo e depois não nos poupamos ao pagamento de juros aos bancos para o pagarmos.
A competição e a afirmação pelo ter colocou-nos na espiral do consumo desenfreado e hoje uma criança já não necessita de desejar muito alguma coisa, pois ainda ela não pensou muito nisso, e já os seus pais a compraram para que ela não faça má figura na sua sala de aula junto aos filhos dos seus amigos e colegas de trabalho.
Este tique de novo-riquismo da não poupança será um dos maiores desafios que teremos de enfrentar no futuro, caídos das nuvens da nossa aparente riqueza, em plena gestão “troikiana” do nosso país.
Se quisermos evitar o descalabro das nossas finanças pessoais e evitar o consumo de anti-depressivos, será bom voltar a criar hábitos de poupança, e, diga-se de passagem, não nos fará mal nenhum.
Regressem os mealheiros, regresse a poupança e regresse sobretudo o bom senso.
Apesar de cada um de nós ser apenas um em sete mil milhões, há muito que nos compete a nós fazer, e a começar nas mais pequenas coisas.

domingo, 30 de outubro de 2011

Alpendres, orgasmos e … vinho verde

Estimulado por uma excelente imitação do actor Manuel Marques no programa Estado de Graça, não resisti a espreitar por esse cyber buraco da fechadura que é o YouTube, entrando por escassos momentos no mundo até então para mim desconhecido que é a Casa dos Segredos, verdadeiro “Estupidiário”, onde se encontram em cativeiro alguns exemplares da estupidez nacional, que ao que parece e para grande pena nossa, não estão em vias de extinção, estando pelo contrário em grande desenvolvimento.
Com um ar feliz, super divertido e sem a mínima expressão de incomodidade, há uma concorrente que demonstra desconhecer o que é um alpendre, durante uma aula de geografia em que lhe entregam um globo terrestre para o qual ela olha com o mesmo ar inteligente com que um jerico mira um palácio.
Saberá Deus em que outros globos ou bolas se empenhará ela em mexer com mais assiduidade e gosto!
Mas esta Miss Alpendre 2011 não é exemplar único e descobre-se mais tarde que todos os presentes nesta residência que tem paredes de vidro que são uma montra para Portugal inteiro, enfermam da mesma falta de cultura geral de nível mais do que básico.
A excepção é mesmo quando se fala de sexo, porque aí meus amigos e perante tantas lições de sapiência, o estúpido sou eu.
Após um brevíssimo trabalho de campo feito de contactos com alguns amigos que convivem de perto com estas espécies, ou melhor, que têm de conviver com elas nas suas actividades laborais de âmbito lectivo, concluo então que de facto estes seres não são excepção, são antes, a regra.
Apesar de não ter ainda obtido a respectiva comprovação cientifica, e perdoem-me por isso, sou então conduzido ao lançamento de uma teoria: por uma qualquer actividade cósmica anormal, o centro de coordenação dos organismos humanos está a passar do cérebro para os genitais.
A actividade cerebral está a sofrer uma atrofia na razão inversa da cada vez maior actividade genital, o prazer do conhecimento foi dominado pelo dos orgasmos múltiplos, intensos e variados e até as discussões e as tertúlias que tinham por base o pensamento e as reflexões, estão a ser substituídas por orgias e encontros na base do muito sexo.
Com a mesma facilidade com que antes se dizia:
- Vamos ali trocar umas impressões.
Diz-se agora:
- Vamos ali ter relações.
E até a frase “quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga” está em vias de ser corrigida para a nova versão “quando o corpo não tem juízo, até a cabeça se apaga”.
E no meio disto tudo e olhando para o titulo deste post, perguntam vocês:
- E onde entra aqui o Vinho Verde?
- É simples e é para mim pois a outra malta alinha mais em Vodka. É para pôr uma garrafinha no frio e tê-la sempre à mão.
Não há nada como refrescar as ideias e estimular a cabeça, não vá este ataque cósmico potente ter foros de doença contagiosa.
Não é que eu menospreze o sexo, mas não me dava nada jeito perder a cabeça.
Não sei se a campanha que lançaram há alguns anos permitiu que salvassem o lince na Serra da Malcata, mas inspirado na dita, proponho:
- Salvem o cérebro na cabeça dos Homens.
É que com cérebro tudo faz mais sentido. Até o sexo.

domingo, 23 de outubro de 2011

João

As crianças temperam de esperança a nossa vida, e os seus olhares, o seu riso, os seus sonhos e ilusões, são o melhor e mais eficaz antídoto para as agruras que os nossos dias por vezes nos oferecem.
O segredo é sabermos sair da nossa cátedra de adultos e não ter vergonha de entrar no seu mundo que nos devolve sempre aos tempos em que fomos crianças, os tempos em que vivíamos munidos da força de acreditar, da coragem para galgar impossíveis.
O meu sobrinho João cumpriu hoje seis anos de vida e na festa que fez com os seus amigos, todos com meia dúzia de anos de idade, bebi e alimentei-me dessa magia, da cor e da alegria que gostaria jamais poder esquecer e sempre conservar em lugar cativo no mais íntimo de mim, tornando mentirosa a imagem exterior da carapaça carcomida pelo peso dos anos, marcados a rugas e cabelos brancos.
Pelo que vos conto, e ao contrário do que possam pensar, nesta minha relação com o João, relação de tio e sobrinho, é ele o meu mestre pelas lições de vida, energia e fé que sistematicamente se encarrega de me dar.
Quando o João diz por exemplo que a noite é má porque os sonhos não entraram, aprendo ou reaprendo a importância dos sonhos, e de como, quer as noites quer os dias, fazem sentido quando deixamos que os sonhos entrem e nos injectem vida e garra na nossa própria vida.
Ou quando o João chora porque descobre que nunca poderá saber contar os números até fim, no dia em que lhe explicámos que os ditos são infinitos e que atrás de um virá sempre outro, choro que é afinal dor do crescimento, porque crescer é ganhar a consciência do que é possível, e eu aprendo que o envelhecimento se trava mantendo os nossos objectivos muito para além do que ao mundo parece razoável, nos territórios que por vezes nos parecem ter a marca do impossível.
Neste primeiro domingo de verdadeiro Outono, terminada a festa do João, termino eu o meu dia na Igreja de Fátima em Lisboa, a ouvir à luz dessa arte suprema expressa nos vitrais de Almada Negreiros, o evangelho que fala na importância de amar, de amar os outros, de nos amarmos e amarmos a vida.
Ser criança, termos sonhos, ambicionarmos para além do óbvio e sabermos amar.
O que é que necessitamos aprender mais para sermos e vivermos felizes?

sábado, 22 de outubro de 2011

O povo unido

Numa entrevista a que assisti esta semana na RTP Memória, uma fadista pertencente a essa classe elitista dos intérpretes do fado de salão, manifestou o seu incómodo quando o entrevistador, o excelente profissional Eládio Clímaco, de uma forma perfeitamente apolítica, desabafava que o povo deveria ser mais unido.
Pelos vistos persistem as saudades do Estado Novo ou então o que persiste é a síndrome pós-traumática do PREC, esse momento da revolução em que o povo gritava com legitimidade e naturalidade que unido jamais seria vencido.
A semana decorre e no contexto das notícias emergem dois nomes: ETA e Kadhafi.
Após anos de atentados terroristas e de milhares de vítimas mortais, a ETA, o grupo separatista Basco, anunciou o fim das suas actividades, pondo um ponto final nessa guerra hipócrita que é o terrorismo, uma actividade que jamais ganhará legitimidade por mais nobre que seja a causa e o ideal.
Kadhafi, ditador, tirano, excêntrico e líder louco da Líbia, após décadas de ditadura e tirania, é barbaramente assassinado às mãos de populares, ficando o seu corpo exposto no chão sujo de um mercado, a fazer lembrar Mussolini há algumas décadas atrás pendurado num talho em Itália. Embora se compreenda a revolta e seja legitimo exigir justiça, um linchamento popular jamais poderá ser aceite como desfecho por mais cruel que seja o individuo em causa.
Nos dois acontecimentos desta semana, cessar-fogo da ETA e morte de Kadhafi, o que fez a diferença foi o povo.
Em Espanha, mais do que os políticos que fugiam sistematicamente a este tema controverso, foi o povo que sempre saiu à rua sem medo e que de forma mais eficaz se opôs às actividades do grupo terrorista. Para além disso faltou sempre à ETA a força do povo Basco, que na sua grande maioria, e por muito forte que seja o seu anseio pela independência do reino de Espanha, jamais alinhou e suportou os seus métodos.
Kadhafi e o seu regime só terminaram após o povo Líbio, alinhado com os ventos de liberdade que varreram os países árabes, se ter manifestado nas ruas e ter lutado com garra e convicção pela mudança do seu destino. A NATO só entrou em acção depois do povo ter decretado o fim do regime Kadhafi pois durante anos e anos, os mais importantes líderes mundiais se sentaram à mesa com ele apesar do seu reconhecido curriculum menos positivo.
Afinal, ETA e Kadhafi comprovam que o povo unido jamais será vencido no seu querer e na sua força.
Ao contrário da "nobre" fadista-tia, digo eu:
- Ainda bem.
Digo mais:
- Queira Deus que sempre assim continue.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

As marcas do parecer e as marcas do ser.

Foi com alguma perplexidade que esta semana ao receber o extracto trimestral da minha conta bancária, verifiquei que o mesmo vinha acompanhado de um desdobrável que publicitava uma linha especial de crédito para a aquisição de produtos de luxo de uma muito conhecida marca internacional de canetas e de acessórios para homem.
O meu espanto prende-se por um lado com o facto dos bancos continuarem a fazer apelo ao crédito para a aquisição de produtos de luxo e perfeitamente desnecessários, no momento em que muitos dos clientes que recorreram no passado a estas auto-estradas para o consumo, não têm capacidade para pagar as suas prestações, e por outro lado, pela dificuldade em aceitar que no actual enquadramento de crise, haja alguém que admita poder dizer sim a esta sugestão de compra.
Nem sei porque ainda me surpreendo com estas situações.
Há muito que deveria saber que os tempos que vivemos são tempos mais de parecer do que de ser, e que a busca ou reforço de um estatuto dado por uma marca, é algo que justifica que coloquemos de lado a prudência e o bom senso que o momento financeiro nos exige.
Estava eu envolto nestes pensamentos enquanto assistia ao jornal das oito na TVI, quando ao ver uma excelente reportagem sobre a mente e as doenças psiquiátricas, fui surpreendido pelas declarações de uma amiga de Vila Viçosa, pessoa que não sendo muito próxima de mim, há muito estimo.
Com a maior dignidade que possamos imaginar, falou da sua patologia crónica do foro psiquiátrico, da forma como se trata e de como naturalmente lida com uma doença que não a impede de ser feliz, de ter um bom emprego e de ter uma relação excelente com todos os que a rodeiam.
Num mundo que estigmatiza estes doentes, assumiu com coragem a sua doença, afirmando que vencia o desconforto de o fazer para dar força e encorajar todos os que como ela sofrem deste tipo de patologias.
Senti um carinho enorme por ela, um orgulho pela sua coragem e pela forma abnegada como se expôs.
Afinal nem tudo é mau neste nosso tempo.
Afinal ainda há corajosos que vencem a comodidade do bem parecer para se assumirem tal como são, fazendo-o sempre porque colocam os outros à frente de si próprios e dos seus interesses.
A humildade, a dignidade e a generosidade, são e serão sempre as marcas que distinguem os Homens e criam heróis.
Eu sei que são marcas raras, mas têm uma enorme vantagem, não necessitamos de nos empenhar financeiramente para as conseguir.
Basta apenas que nos empenhemos em ser grandes e demos asas ao poder sem limites que sem saber carregamos no coração.

domingo, 16 de outubro de 2011

2012

Há algum tempo atrás andou por aí um filme que, com base numa profecia antiga, ficcionava o fim do mundo em 2012.
O mundo não sei se acabará efectiva e realmente no próximo ano, mas para nós Portugueses, o Natal e as férias já morreram de vez.
Pode ser um principio…
A vida funciona em ciclos e já todos deveríamos ter aprendido que à bebedeira se segue a ressaca, ao Carnaval a Quaresma e a uma refeição abundante, o pagamento de uma factura gorda.
Já deveríamos saber mas por vezes esquecemo-nos ou então fazem-nos esquecer essa dura realidade transportando-nos para o reino da ilusão e da fantasia.
Há vinte e cinco anos atrás, recordo-me, éramos um povo pobre: havia fome em Setúbal, no Vale do Ave e em muitas outras regiões do país, havia muito desemprego, salários em atraso, falências de empresas, etc.
Entrámos na União Europeia, então CEE, e de um momento para o outro, tornámo-nos ricos.
Construímos auto-estradas, pontes, túneis e rotundas, organizámos Exposições Mundiais e Europeus de Futebol, comprámos casas de luxo, comprámos férias eternas em “time sharing”, deixámos de cultivar a terra e até nos pagavam para o fazer, construímos os maiores Centros Comerciais da Europa e abrimos as lojas de todas as marcas mais caras e conhecidas que há por esse mundo fora, passámos a ter subsídios para tudo e até para não trabalhar, construímos hospitais ao desbarato até quando e onde não eram necessários, renovámos o parque automóvel apostando sempre na velocidade e no luxo, desaprendemos de poupar porque isso era coisa de pobre.
Esquecemo-nos ou fizeram com que nos esquecêssemos que a factura para pagar haveria de chegar um dia.
Ao longo deste tempo tivemos cinco primeiros-ministros que com a arte das sereias nos fizeram acreditar que éramos um país desenvolvido e do pelotão da frente da União Europeia, que em Portugal as pessoas estavam em primeiro lugar, que não havia crise que nos atingisse e que já estávamos definitivamente na parte final e agradável dos contos de fadas que é aquela em que vivemos felizes para sempre.
Todos estes cinco primeiros-ministros, sem excepção, foram mestres da ilusão por conveniência própria e por interesse da sua sobrevivência politica e económica. Da sua e de todos quantos gravitavam à sua volta.
Na passada quinta-feira fomos confrontados com uma elevada factura que teremos de pagar e quando procuramos os responsáveis, onde os encontramos hoje?
Cavaco Silva, o pai da geração BPN, é Presidente da República, Guterres, o “subsidiólogo”, é Alto Comissário para os Refugiados na ONU, Durão Barroso, o fugitivo, é Presidente da Comissão Europeia, Santana Lopes, o fugaz, é Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e Sócrates, o artista do teleponto, é um senhor a estudar em Paris.
E nós?
Nós continuamos a trabalhar, enquanto tivermos emprego, e a pagar a factura das suas incompetências.
Pela minha parte, pago o que tiver de pagar. Revoltado, mas pago.
Só faço duas exigências a Passos Coelho para que ele não se torne o sexto do cesto de “Luíses de Matos” da nossa política: verdade e coragem.
Verdade nas contas e verdade expressa na coerência do rigor e do sacrifício em todos os sectores do país e da governação.
Coragem para apontar culpados e denunciar todas as situações “anómalas”.
E neste último ponto já houve uma falha grave porque a confiança política em Jardim já deveria ter sido retirada.Há muito e antes das eleições na Madeira.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Doce

A visita que uns amigos de Lisboa me fizeram a Vila Viçosa neste fim-de-semana, tirou-me de casa na noite de sábado, nas horas em que habitualmente já estou imerso nos lençóis, contactando com a “movida” calipolense dos bares da zona do Terreiro do Paço, apenas pelo ruído que até de madrugada, as trupes de adolescentes e jovens resolvem fazer por debaixo da janela do meu quarto.
Desta vez foi diferente, e fui vê-los.
Passámos pelas portas dos bares mais conhecidos na tentativa de encontrar um que nos agradasse.
É claro que o meu desconhecimento dos locais não ajudou nada na escolha.
Pelas ruas e à porta dos bares, o facto de não conhecer a maioria das pessoas, e a forma como era olhado com prova de manifesto desconhecimento, deu-me logo essa estranha e incómoda sensação dos “penetras”, sentindo-me um estranho apesar de estar na minha própria terra
Acabámos por optar por um dos locais mais antigos e cujo nome me era mais familiar.
Resolvemos entrar, claramente à descoberta.
Logo à porta tive um encontro imprevisto com o filho de uns amigos meus, de copo na mão, super simpático e educado, que logo me cumprimentou, mas que não evitou que me assolasse uma súbita depressão ao interiorizar:
- Este “miúdo”, na festa dos meus 30 anos, ia ao colo da mãe com um pau a fazer de espingarda e nós rimo-nos muito porque ele, a aprender as primeiras palavras, chamava-lhe “pingada”. E agora está aqui de copo na mão. Definitivamente, estás velho!
Permitam que faça uma pausa nesta narrativa para dizer que a bebida do jovem em causa tinha todo o aspecto de algo não alcoólico, portanto amigas e amigos, evitem telefonar-me pois já sabem que eu nunca pactuarei com as vossas actividades de espionagem sobre a vida nocturna dos vossos filhos.
Tio “porreiraço”, hein?
Mas voltando à depressão, deixem que vos diga ainda que ao pôr os pés no interior do bar, tive a sensação de que a média de idades das pessoas presentes tinha subido automaticamente uns dez anos, e só à minha custa.
Para já não falar nos olhares que alguns me deitaram, incrédulos como que a perguntar-se:
-O que faz aqui o Pai Natal numa festa em Outubro.
Não fosse eu pedir algo que não devesse, pedi que um dos meus amigos o fizesse por mim e foi já com o conforto de um copo na mão que comecei a sentir-me mais ambientado, e afinal, naquele mar de jovens marcados pelo acne da adolescência, ainda existiam alguns exemplares de velhos conhecidos dos meus tempos de liceu.
A coisa ficou mais composta.
Entretanto, a um canto da sala, um aparelho de Karaoke desafiava a que todos cantassem, algumas canções com mais sucesso do que outras, como é normal.
De repente, começa a tocar uma música e a sala repleta canta forte a uma só voz. Grande êxito. O maior de todos até aí. “Amanhã de manhã” das Doce.
Recordo-me perfeitamente desta canção e sei que ela tem 31 anos e juro-vos que nunca imaginei que ela viesse a cruzar gerações.
Ainda me recordo da letra e também canto mesmo sem olhar para o monitor.
Estou ambientado.
E eu, um diabético, fui salvo pelas “Doce”.
Será esta “Girls Band” um clássico da música portuguesa? Possivelmente já atingiu esse estatuto.
Mas o que é verdadeiramente um clássico e que atravessa todas as gerações e modos de viver, é este gosto e amor pela vida, é esta ambição por sermos e estarmos felizes.
E isso basta.
E isso é o segredo que a todos nos pode resgatar da incomodidade das situações por mais hostis que nos pareçam.
Assim nos fixemos nos denominadores comuns porque eles existem sempre.
“Vem amor a noite é uma criança e depois quem ama por gosto não cansa…”

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Telelixo

Faz hoje precisamente 19 anos que acabou em Portugal o monopólio da RTP, com o início das emissões da SIC.
Confesso-vos que sempre alimentei uma enorme expectativa relativamente ao aparecimento das televisões privadas, sobretudo para que fosse possível ter uma informação mais isenta relativamente à sempre governamentalizada estação do estado, por esses tempos de maiorias cavaquistas, de cor escandalosamente alaranjada.
Para além disso tinha a natural expectativa de mais variedade e melhores programas.
Confesso-vos que passados estes anos, e apesar de continuar a pensar que é importante termos mais do que apenas o canal do estado, e até não me perturbar a ideia de um do canais da RTP poder ser privatizado, sendo apenas uma questão de coerência, pois há já muito tempo que a RTP1 alinha pelo mesmo diapasão das privadas, tenho de reconhecer que a qualidade que eu esperava da diversidade, não foi concretizada.
Basta pensar em programas como o Perdoa-me, All you need is love, Amiga Olga, Bar da TV, Acorrentados, Big Brother, Casa dos Segredos, Malucos do Riso e a Quinta das Celebridades, para entender do que vos falo.
Verdadeiros atentados ao bom gosto e verdadeiras rolhas de entupimento cerebral.
A informação melhorou, sobretudo quando cada canal resolveu criar canais específicos só com noticias, embora por vezes e para preencher a emissão usem e abusem de discussões com painéis de entendidos mais entediantes que especialistas.
Na noite de ontem liguei a televisão para que esta me acompanhasse no serão.
A TVI estava em ligação a uma Casa onde colocaram cerca de duas dezenas de cromos representativos da sociedade do Silicone, do Bótox e das Tatuagens, que falam uma linguagem que ninguém entende e guardam segredos de fazer corar o mais descarado e tolerante dos seres.
A SIC estava a dar um programa rodado numa quinta no Alentejo, onde um monte de gordos, que se encontram em competição pela perda de quilos, se encontravam em volta de uma mesa com uma fonte de chocolate, para ver quem comia ou resistia ao dito.
A RTP estava a passar um concurso com perguntas de cultura geral, em que um apresentador-actor, com ar tão “inteligente” como os concorrentes, salvo apenas pelo teleponto da sua ignorância, manda as pessoas para casa atribuindo-lhes o título de elo mais fraco.
Desliguei a televisão e assumi comigo mesmo:
- O elo mais fraco sou eu.
Fui para a cama.
Há lá nada melhor que o silêncio quando só estamos rodeados de telelixo?

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

República

Há quanto tempo vos traímos heróis da Rotunda, inventores da república, sonhadores de uma pátria de justiça e igualdade, lutadores sem medo por um tempo novo e uma lusa alma renascida em nova fé e novos ideais.
Neste pouco mais de um século, em quantos dias nos esquecemos ou nos fizeram esquecer da liberdade, vivendo cativos e saboreando este amargo fel de ter de ser aquilo que o coração não nos manda ser.
Quantos dias de fome, de escravidão, de cansaços, de tormentas e luto. Quanta resignação ao fado de um destino assumido assim pobre e triste.
Quantas ilusões em madrugadas que acreditámos seriam de um tempo novo, que nos fizeram sair à rua de braços dados e cravo rubro ao peito, a gritar que a mudança seria agora e nos entregaríamos a um novo destino.
Quanta desilusão nesta descoberta da ausência de heróis, na consciência da esperança soterrada pela ganância vil dos que vestem a capa do patriotismo mas que são monstros cruéis que querem apenas ter, e sobreviver, nem que para isso tenham de destruir a vida de um povo inteiro.
E hoje? O que somos e o que queremos?
Hoje, fizeram-nos acreditar e converter à religião do facilitismo. Trocámos o trabalho pelo subsídio, a educação pelos diplomas, trocámos a cultura pela banalidade, o catecismo pelo manual do enriquecimento ilícito, desprezámos o ser para comprar a crédito a aparência do ter que acreditamos nos faz ser alguém, vendemos a justiça aos poderosos e tornámos a impunidade vendável em euros, matámos Deus como referência e substituímo-Lo por banais heróis do audiovisual…
Enfim, hoje somos o mesmo povo triste e sobretudo pobre de há cem anos atrás. Uma pobreza diferente, é certo, mas pior, porque é uma pobreza que ultrapassou as barreiras do corpo e nos invadiu a reserva do espírito, ferindo-nos a dignidade.
Nestes dias difíceis não se vislumbram heróis de pistola em punho talvez porque os heróis, os verdadeiros, terão de nascer de nós próprios, em cada dia, com garra, na luta contra a vulgaridade, exigindo a coerência e reactivando o eficaz julgamento do que está certo e do que está errado, no contexto do bem comum, do desenvolvimento, da paz e da liberdade.
Eu acredito que ainda é possível e peço a Deus que não nos faltem as forças.
Para que se cumpra a república, para que se cumpra Portugal.

sábado, 1 de outubro de 2011

Viva a música!

Hesito entre assumir se a minha vida dava um filme ou uma telenovela da TVI, mas a avaliar pelo já elevado número de episódios, muitos deles “escabrosos”, talvez a segunda hipótese seja mais realista.
Sobre o que não tenho a menor dúvida, é de que seja uma coisa ou outra, nunca lhe faltará uma rica e variada banda sonora.
Hoje é dia mundial da música e decidi partilhar convosco algumas das canções que pela arte das suas palavras, melodias ou interpretações, ou tudo isso junto, sublinharam momentos importantes da minha existência.
Não estão ordenadas por nenhum critério particular e acreditem que faltam aqui muitas outras que talvez num outro dia venha a partilhar convosco.

Gaivota (Amália Rodrigues)
À medida que se cresce e que o coração se exercita na arte de amar, aprende-se o real valor da saudade. Alexandre O’Neill fala como ninguém de Lisboa, do amor e da saudade, e a voz de Amália, a mais fiel expressão sonora do coração português, dá o toque de perfeição a uma canção que viverá para sempre comigo.

O Pastor (Madredeus)
Não sei se são as cordas, o acordeão, as teclas do Rodrigo Leão ou a voz da Teresa Salgueiro, sei é que para quem gosta de viver a sonhar, esta canção é um mote e um grito feito de vontade: “O meu sonho acaba tarde, acordar é que eu não queria”.

As Baleias (Roberto Carlos)
A mensagem é de veras ecologista, mas a recordação desta música transporta-me para as festas da minha adolescência, no tempo em que os aniversários dos meus queridos amigos da família Duarte eram passaportes para os melhores e mais animados momentos do ano. Quantas danças românticas entre croquetes e empadinhas de galinha.

Streets of Philadelphia (Bruce Springsteen)
Um filme fantástico ou o despertar da minha consciência social…

Menina dos Olhos de Água (Pedro Barroso)
O Tejo aquém Lisboa cantado através do olhar de uma menina e pela voz de um dos cantores portugueses que oferece mais fidelidade às palavras dos poetas. Mais uma vez e sempre o sonho.

Silêncio e Tanta Gente (Maria Guinot)
Em 1984 esta canção venceu o festival da canção e representou Portugal na Eurovisão, no Luxemburgo. No festival da RTP o acompanhamento musical é feito apenas ao piano mas na Eurovisão há uma orquestração soberba do Pedro Osório que justifica plenamente o facto de pela primeira vez numa edição do Festival da Eurovisão, após um ensaio, toda a orquestra se ter levantado a aplaudir uma interpretação.
Em 1984 saí de Vila Viçosa para Lisboa e tive de aprender a viver com mais silêncio apesar de tanta gente. Muitas vezes me fiz acompanhar desta canção.

Like a Virgin (Madonna)
A vida temperada com irreverência transforma-se em algo muito mais interessante. Como é bom sair da caixa e do armário dos nossos preconceitos.

Waterloo (ABBA)
1974 foi ano de muitas mudanças. Os ABBA cantaram e venceram a Eurovisão, exportando o seu ritmo da Suécia para o mundo com impacto na balança comercial do país dos Vikings. Do alto dos meus 8 anos e a começar a despertar para outros ritmos, era a loucura e os “Morangos com Açúcar” dos anos 70. Mamma mia.

Perdidamente (Trovante)
Sonho, poesia e Florbela Espanca.

Mediterráneo (Joan Manuel Serrat)
Quem nasce no Alentejo, nasce pela força da cultura, dos hábitos e dos costumes, no Mediterrâneo.
O timbre mágico de Serrat embala-nos nesta dolência e nesta forma única de ser de todos os que nascemos e crescemos entre oliveiras... e laranjeiras, claro.

Votos de um bom dia e… Viva a música!

domingo, 25 de setembro de 2011

Acertar o passo

O Papa Bento XVI encontra-se em viagem pela sua Alemanha natal e nos discursos e homilias que já proferiu, para além de ter classificado de “chuva ácida” o nazismo e o comunismo, encontrou-se com algumas das vítimas da pedofilia em instituições católicas, tendo-se confessado perante elas “comovido e abalado”.
Ao mesmo tempo e num encontro de jovens, o Papa afirmou que a Igreja jamais poderá aceitar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Começa a ser um hábito estas desculpas tardias da Igreja e dos Papas relativamente a situações negativas do passado.
Se o combate ao comunismo foi recorrente no tempo em que a cortina de ferro dividia a Europa, não consta que Pio XII tenha sido veemente nas criticas e no combate ao nazismo quando milhões de judeus eram perseguidos e mortos na Europa, nem tão pouco se assistiu à implementação de medidas duras logo que a questão da pedofilia começou a ser denunciada em algumas instituições católicas.
As desculpas não se pedem, evitam-se.
Os tratamentos mais eficazes são os profilácticos e não os paliativos.
Mas para isso, é necessário acertar o passo com o tempo e viver o momento presente.
Não sei quanto tempo levará e nem sei sequer se estarei vivo na altura, mas estou certo que daqui a alguns anos, um Papa do futuro virá lamentar e pedir desculpa pela incompreensão e insensibilidade manifestada para com os homossexuais que resolveram assumir a verdade das suas vidas e que não abdicaram de dizer sim à vivência do sentimento mais completo e maior do universo: o amor.

Nossa Senhora das Descobertas

Quando viajo pelo país em ritmo de passeio, algo que não dispenso nunca, é visitar os santuários, capelas e ermidas que vou encontrando no meu caminho, muitas vezes em lugares ermos e de difícil acesso, mas que já me possibilitaram muitas vezes o encontro com verdadeiras pérolas da arquitectura religiosa e popular, assim como a descoberta de lendas fantásticas.
Nestes meus percursos de fim-de-semana e férias, em que me cruzei com as mais variadas e imaginativas evocações de Nossa Senhora, jamais tinha encontrado a de Nossa Senhora das Descobertas.
Só a descobri na semana passada quando procurava no site do Patriarcado de Lisboa, um horário de missa que fosse compatível com os meus afazeres dominicais.
Fiquei então a saber que a Igreja de Nossa Senhora das Descobertas se situa em Lisboa no sítio mais insuspeito que possamos imaginar: o piso -1 do Centro Comercial Colombo.
Foi lá que fui à missa no domingo passado.
O espaço não é grande mas é acolhedor, sobretudo se tivermos em conta que estamos paredes-meias com o estacionamento de um dos espaços comerciais maiores da Europa. Havia muita gente e pela presença de sacos das mais variadas marcas, mas sobretudo do hipermercado, fácil foi supor que muitos aproveitaram o dia para tratar do corpo e do espírito.
É interessante e diferente estar na missa e, quando alguém abre a porta, poder sentir o ruído típico de um Centro Comercial com aquela música de apelo ao consumo e as vozes que dão avisos e alertas aos clientes.
Prova-se assim mais uma vez que Deus cabe e deve estar em todos os sítios onde está o Homem.
E porque muitas vezes se fala em romarias de fim-de-semana aos Centros Comerciais, porque não entender que se o Homem deixou de ir às romarias de Deus, veio Deus até à romaria dos Homens.

sábado, 24 de setembro de 2011

A “velha” Europa

Numa das manhãs desta semana, cruzei-me na Área de Serviço de Pombal, na A1, com o casal Mário Soares e Maria Barroso, que tal como eu e as restantes pessoas, se encontravam ali a descansar a meio de uma viagem para algum sitio a norte.
Confesso-vos que nunca fui fã e adepto do Soarismo, nem nunca me senti identificado com o clã e a família, de sangue e política, que sempre gravitou à volta de Mário Soares, em jogos mais ou menos subtis pela conquista do poder das mais variadas instituições, mas tal não me impede de reconhecer nele um dos ícones maiores do Século XX Português, e, de entre os Portugueses actualmente vivos, reconhece-lo como aquele que mais positivamente influenciou a nossa história recente, pela conquista da liberdade e pela nossa integração na Europa.
Se há coisas que a vida nos oferece é esta virtude de aliviar o absoluto das certezas, e também a capacidade de aumentar o enfoque no que é realmente importante e positivo, e por isso, eu que não sou um Soarista, não pude deixar de sentir uma emoção especial na hora em que me cruzei de perto com Mário Soares.
O seu porte e afabilidade são os de sempre, procurando os olhares dos demais para sorrir e cumprimentar, apreciando simultaneamente o cumprimento e a saudação de todos os que passam, mas a carga e o peso dos anos tem pelo menos no seu aspecto uma marca inevitável de fragilidade, que não me parece que exista no seu pensamento, tal a lucidez e pertinência que reconheço a algumas das reflexões feitas e publicadas nos últimos tempos.
Para além disso, tanto ele como a sua mulher, transpiram a tranquilidade das pessoas que vivem bem consigo próprias, as pessoas que fizeram da vida exactamente aquilo que a vida sempre lhes pediu que fizessem.
Eu tinha acabado de fazer 170km a ouvir falar de Jardim, da Madeira, de buracos no orçamento, da troika, da Grécia e do desmoronar do Euro, das hesitações dos líderes europeus, e este encontro com Mário Soares, um dos grandes entusiastas e construtores da Europa unida, confrontou-me automaticamente com esta ideia de que a Europa sem fronteiras que foi sonhada e construída por uma geração, dificilmente irá sobreviver no futuro.
A Europa da União parece ter os dias contados porque a geração de tecnocratas e políticos fabricados nas incubadoras da própria política, Homens interessados na sua própria sobrevivência e que não vêem muito para além do seu umbigo, não soube e não sabe estar à altura da geração dos líderes que emergiram nas trincheiras da conquista da liberdade e que tiveram a coragem de em nome do colectivo, lutar e ir sempre em busca dos seus sonhos.
A Europa definha, consequência da falta de liderança e ousadia.

domingo, 18 de setembro de 2011

A infernal vertigem do tempo.

O velho Largo dos Capuchos, formado pelo triangulo das igrejas de S. Luís, S. Tiago e Senhora da Piedade, cumprindo a tradição calipolense de cada largo ter três igrejas, no segundo fim-de-semana de Setembro, cobre-se de festa e converte-se na sala de visitas de onde qualquer natural de Vila Viçosa jamais quer estar longe.
Ali, iluminados pelas luzes do arraial, andamos numa azáfama tão grande entre os Capuchinhos e as igrejas, a pesca ao pato, as farturas, as quermesses e o concerto da banda filarmónica no coreto, que até nem damos conta que às tantas já só respiramos pó, tal a quantidade de pés que se movimentam no piso amarelado e arenoso que cobre o largo.
Antes que chegue a madrugada e antes que soem os morteiros que dão fim ao fogo de artificio, verdadeiro tiro de partida da corrida que põe os calipolenses de regresso às suas casas na vila, a pé porque é mais saudável e não há espaço para carros, o mais divertido e saboroso da festa é encontrar os conhecidos, os amigos de muitos anos e matar as saudades.
Às vezes nem é preciso dizer nada, nem é necessário sequer ter um grande grau de intimidade com quem nos cruzamos. Basta olhar em volta e sentirmo-nos rodeados pela nossa gente, para que se nos aconchegue o espírito desse conforto que é feito de estarmos em nossa casa.
Este ano lá estive como sempre, e não sei se foi resultado de mais intensidade das lâmpadas do arraial ou quiçá resultado dos efeitos depressivos da troika, mas a frase que mais ouvi e que simultaneamente mais vezes me acorreu ao espírito para dizer a outros, foi:
-Eh pá. Estás tão velho(a)!
A Moody’s deve estar a fazer escola por cá e a arte de pôr no lixo, neste caso a auto-estima dos demais, deve estar a entranhar-se entre a malta lusitana.
Ou então as rugas, as carecas, os cabelos e barbas brancas, as barrigas, as ancas largas e a celulite, estiveram em grande evidência, mais do que nunca, na festa de gala da família calipolense.
Será culpa da própria crise?
Será que ela nos envelheceu abruptamente?
Ou será que neste ambiente de negativismo generalizado nos concentramos mais no lado lunar e escuro da vida?
Penso que não!
O problema está no tempo, na forma como nós o acelerámos criando uma espiral vertiginosa impossível de abrandar.
Os dias persistem com 24 horas e as horas com 60 minutos mas a vivência do “pacote de preocupações e prioridades” da nossa vida (carreira, casa, filhos, etc), impede-nos de ter a noção do valor do segundo e do minuto e, faz com que a nossa unidade mínima de contagem seja a década.
Empenhados nesta azáfama da vida, permanecemos frequentemente longe de quem gostamos, e porque os afectos persistem, alimentamo-nos das memórias dos tempos em que vivemos mais próximos, em que criámos cumplicidades e partilhámos tanta coisa das nossas vidas. Fazemos assim um convívio diário com imagens que já não existem hoje e nunca poderiam existir, porque o tempo passou e ele nunca passa sem deixar as suas marcas.
Quando após algumas décadas olhamos para a nova imagem do outro, fazemos automaticamente e instintivamente o confronto com a que a memória guardou, e a diferença é abissal.
E a terapêutica para isto?
Só há uma que é o prazer e deve ser dada sempre em profilaxia, em doses regulares e contínuas.
Entranhámos há muito que crescer é desprezar o prazer e convertermo-nos ao dever, e isso é profundamente errado.
A multidão de “senhores respeitados” tendo como lema de vida “muito riso e pouco siso”, é o maior centro de recrutamento de frustrações e graves depressões.
Dever e prazer equilibram a vida e fazem-na feliz, que é para isso que ela existe.
E se pensarmos bem, há sempre oportunidade para temperar a vida de prazer, e estar com os amigos ou com as pessoas que amamos é um elemento essencial desse gozo.
Não é justo para nós nem para quem gostamos, que deixemos os nossos cabelos brancos nascerem sozinhos.
Não adiemos nunca as bicas, os jantares, os petiscos, os passeios, as idas à praia, as sessões de gargalhada, as idas à bola, etc.
Um outro dia passei em Vila Viçosa, no Carrascal, na escola onde fiz a instrução primária porque o meu sobrinho João queria saber quais as janelas da minha sala de aula. Encostada ao muro que dá para a rua, do lado direito de quem olha para a escola, há uma oliveira de cujo tronco retorcido, eu e os meus amigos fazíamos o avião que nos levava pelos sonhos até às mais longínquas paragens do universo.
E já passaram quarenta anos…
Juro-vos que não dei conta do tempo passar e sei que existiram milhares de coisas que não fiz e poderia ter feito, mas prometo estar mais atento, porque só com muita sorte é que a vida me vai dar mais quarenta anos para eu viver e estar com quem amo.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Um cafezinho com… a amizade.

É sábado de manhã e o ambiente é de festa na praça maior de Vila Viçosa.
Já rebentaram foguetes pela madrugada, anuncia-se a tourada e a largada do dia seguinte, há um movimento anormalmente maior de gente, prepara-se a ida nocturna ao arraial…
Enfim, cheira a Capuchos e saboreia-se um dos mais agradáveis apelos de regresso a casa para a diáspora calipolense.
A um canto da abarrotada esplanada do Café Restauração, há uma mesa com quatro pessoas que conversam animadamente.
Há um pai de família, professor respeitado e empenhado, pessoa com militância católica muito activa sendo inclusive salmista nas celebrações litúrgicas da paróquia onde é um dos membros mais destacados.
Há uma celibatária artista plástica, mestra e professora de artes preocupada com o painel de azulejos que tem em mãos e que a traz muito ocupada.
Há uma senhora casada mas sem filhos, proprietária de um restaurante e de uma loja de artigos associados a práticas místicas e sobrenaturais, pessoa com reconhecido sucesso na leitura das cartas do Tarot.
E estou eu, este solteirão barbudo e quarentão que se dá aqui a conhecer a cada conversa à sombra das laranjeiras deste pomar virtual.
Falamos com a desenvoltura proporcionada pela saudade dos muitos anos em que nunca deixámos de pensar uns nos outros, mas em que estivemos privados de estar assim cara-a-cara, a poder usufruir do brilho dos olhares que nos complementa as palavras e lhes dá mais vida e verdade.
É possível que alguém se pergunte o que nos une no meio desta diversidade de vidas que fomos construindo pelos caminhos tão diferentes que percorremos.
Vila Viçosa? A Festa dos Capuchos? Uma manhã de sol de verão? A nossa história passada?
Todas são razões óbvias e inequívocas.
Mas há mais, há um motivo maior do que todos os outros: a amizade.
A amizade que cresceu enraizada nas muitas cumplicidades do passado desse tempo em que éramos meninos e em que brincávamos no pátio do Convento das Chagas, mantém-se no presente, menosprezando pela tolerância, liberdade e respeito, as diferenças do que temos e do que fazemos, porque para ela o que importa é apenas e só aquilo que somos.
E quanto ao ser? Quando cantamos salmos na missa, quando pintamos um painel de azulejos ou quando lançamos as cartas do Tarot, somos iguais.
Somos todos, uma parte desta gente que se realiza procurando viver intensamente a vida e fazendo dela uma festa partilhada com os outros, fazendo-o com o recurso a diferentes expressões e linguagens, apenas e só para que cada um cumpra o seu carisma e possa ser fiel ao muito que lhe compõe a alma.