quarta-feira, 5 de outubro de 2011

República

Há quanto tempo vos traímos heróis da Rotunda, inventores da república, sonhadores de uma pátria de justiça e igualdade, lutadores sem medo por um tempo novo e uma lusa alma renascida em nova fé e novos ideais.
Neste pouco mais de um século, em quantos dias nos esquecemos ou nos fizeram esquecer da liberdade, vivendo cativos e saboreando este amargo fel de ter de ser aquilo que o coração não nos manda ser.
Quantos dias de fome, de escravidão, de cansaços, de tormentas e luto. Quanta resignação ao fado de um destino assumido assim pobre e triste.
Quantas ilusões em madrugadas que acreditámos seriam de um tempo novo, que nos fizeram sair à rua de braços dados e cravo rubro ao peito, a gritar que a mudança seria agora e nos entregaríamos a um novo destino.
Quanta desilusão nesta descoberta da ausência de heróis, na consciência da esperança soterrada pela ganância vil dos que vestem a capa do patriotismo mas que são monstros cruéis que querem apenas ter, e sobreviver, nem que para isso tenham de destruir a vida de um povo inteiro.
E hoje? O que somos e o que queremos?
Hoje, fizeram-nos acreditar e converter à religião do facilitismo. Trocámos o trabalho pelo subsídio, a educação pelos diplomas, trocámos a cultura pela banalidade, o catecismo pelo manual do enriquecimento ilícito, desprezámos o ser para comprar a crédito a aparência do ter que acreditamos nos faz ser alguém, vendemos a justiça aos poderosos e tornámos a impunidade vendável em euros, matámos Deus como referência e substituímo-Lo por banais heróis do audiovisual…
Enfim, hoje somos o mesmo povo triste e sobretudo pobre de há cem anos atrás. Uma pobreza diferente, é certo, mas pior, porque é uma pobreza que ultrapassou as barreiras do corpo e nos invadiu a reserva do espírito, ferindo-nos a dignidade.
Nestes dias difíceis não se vislumbram heróis de pistola em punho talvez porque os heróis, os verdadeiros, terão de nascer de nós próprios, em cada dia, com garra, na luta contra a vulgaridade, exigindo a coerência e reactivando o eficaz julgamento do que está certo e do que está errado, no contexto do bem comum, do desenvolvimento, da paz e da liberdade.
Eu acredito que ainda é possível e peço a Deus que não nos faltem as forças.
Para que se cumpra a república, para que se cumpra Portugal.

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