quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A amar-te como nunca e a olhar Lisboa


O calendário assinala hoje a mudança de um ano velho para outro que chega e se faz novo.
Acredito…
Mas perdi-me na contagem do tempo no exacto momento em que chegaste; que não importa mais a história feita de esperar por ti, e o presente nunca terá nome, número ou sigla, é tão só a vida, algo inacessível a adjectivos e contagens.
Porém, às vezes sentimos as estações a passar por nós, palpando-as no frio ou no calor, nos aromas… em tudo o que se vai incorporando na aragem do Tejo, o rio que nos oferece as margens para namorar.
A brisa que passa por nós e pelos nossos beijos para depois ir perfumar Lisboa com a poesia de um grande amor.
Já se sentia a primavera quando os meus braços palparam pela primeira vez o toque e o calor dos teus, e aquele não sei quê que existe em nós e nos tece em tudo e nos lábios, a palavra amor; deu um definitivo sinal de si.
O sinal de um definitivo amor, o tal amor que sobrevoa as calçadas desenhadas a preto e branco da velha Olisipo.
E entrançámos as nossas histórias na primavera lilás dos jacarandás, sonhámos e tecemos os dias à luz de um pôr-do-sol de verão, partilhámos vontades por entre as castanhas compradas numa banca que o Outono trouxe ao Rossio, ensaiámos passos e abraços à chuva dos entardeceres de inverno, voámos juntos por sobre o próprio tempo quando nos demos um beijo a ver tão pequeno o Chiado e o Carmo do alto do Elevador de Eiffel…
Nunca saberei dizer o tudo que me diz o teu olhar, o azul que rasgou em mim janelas para uma desconhecida mas muito sonhada forma de seu eu.
Jamais a minha pele conhecerá a fórmula ou quaisquer detalhes químicos dessa magia do encontro com a tua.
E as minhas mãos que te adoram...
Amo-te.
Sim.
Desde aquele primeiro abraço mas muito mais hoje que te fui descobrindo na margem direita do Tejo e da vida.
Por isso…
O calendário assinala hoje a mudança de um ano velho para outro que chega e se faz novo…
Mas eu jamais partirei ou te deixarei partir nas mãos de um tempo qualquer que passa por nós e que às vezes voa.
Quando morrer quero estar de mão dada contigo a sentir o Tejo, a amar-te como nunca e a olhar Lisboa.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

2014


Cumpre-se a tradição e o Pomar das Laranjeiras atribui as suas “laranjas” relativas à colheita do ano que agora termina, classificando-as de acordo com os seus justos atributos.
As “laranjas” no ano das selfies em que o “Espírito Santo” se apagou em vícios velhos que nem o “Novo” disfarça:

LARANJA DOCE – O motor de arranque para uma justiça que se exige?
Em Portugal há finalmente poderosos e famosos condenados e presos por corrupção (ou suspeita de).
Apesar de alguns preocupantes e incompreensíveis arquivamentos, parece que arranca o motor para o fim de uma certa impunidade por detrás da pérfida avalanche do “vale tudo”.
A ver vamos…

LARANJA AMARGA – A corrupção
Operação Marquês com um ex-Primeiro-Ministro preso, os Vistos Gold, o Banco Espírito Santo, o BPN, os submarinos e os blindados…
Fica a clara sensação de que por debaixo da levíssima e aparente camada das públicas virtudes dos agentes políticos existe o charco pestoso dos mais pérfidos vícios de parcerias público-privadas, o esterco que suga a saúde dos contribuintes
O regime actual exige uma purga.
  
LARANJA SUMARENTA – Papa Francisco
As “exigências” do ser católico que são enunciadas diariamente pelo clero a partir dos púlpitos, transpostas agora para o seio da vida da própria Igreja num esforço do Papa para apagar a hipocrisia da oferta de salvação assente em tantos pecados.
E olha-se para a pessoa muito mais do que para as regras cegas.

SUMO GASEIFICADO DE LARANJA – Jorge Jesus
A super desenvolvida auto-estima do treinador do Benfica tem pouca tradução na regularidade de vitórias.
Pago a preço de sumo natural, é efectivamente uma imitação artificial e gasosa que de vez em quando e subitamente perde o gás.
Palavras e promessas à parte, “limpinho, limpinho” só mesmo o título que já lá vai.

SUMO NATURAL DE LARANJA – O Cante Alentejano é património da humanidade
O canto polifónico do sul de Portugal, a voz da minha terra, o meu canto, foi reconhecido pela UNESCO como património imaterial da humanidade.
Orgulho.

LARANJA SECA – Aníbal Cavaco Silva e Mário Soares
Uma nação sem referências por entre a senilidade daqueles que o poderiam ser.
O triste desfile do “Alzheimer” dos “mestres”.

LARANJA MECÂNICA – A explosão dos refugiados
Síria, Iraque, Palestina, Ucrânia...
As etnias e a religião a servirem de pretexto para fundamentar a “legitimidade” dos poderes absolutos e muito pouco democráticos.
A paz é hoje uma ilusão e a vida vale muito menos que os Rublos do temível Senhor Putin.  

VITAMINA C – Selecção Portuguesa de Ténis de Mesa
Marcos Freitas, Tiago Apolónia e João Monteiro.
Campeões da Europa após uma vitória por 3-1 sobre a toda poderosa Alemanha.

LARANJA PÔDRE – A Agonia do Estado Social
A Troika saiu mas há que confirmar se foi efectivamente uma saída ou um “até já” que eu vou ali e já venho.
Parece-me que o conceito Troika se enraizou à medida que as pessoas contam muito menos do que as percentagens expressas nas estatísticas capazes de enfeitar cartazes eleitorais.
E o péssimo estado da nação arrasta contamina a vertente social do Estado.

LARANJA CALIPOLENSE – Rádio Campanário
Não há acontecimento de âmbito local que não seja notícia na Rádio Campanário.
Agradecemos todos os calipolenses mas sobretudo aqueles que estamos longe de Vila Viçosa.

COMPOTA DE LARANJA – O ano de 2014 deixa para sempre a saudade de muitos, entre eles Eusébio, Mário Coluna, Lauren Bacall, Joe Cocker, Philip Seymour Hoffman, Robin Williams, Gabriel Garcia Marquez, o escritor Nobel que um dia escreveu:
“Não é verdade que as pessoas param de perseguir os sonhos porque estão a ficar velhas, elas estão a ficar velhas porque pararam de perseguir os sonhos”.
Da banda sonora de 2014 escolho a voz de António Zambujo e delicio-me com a arte de Miguel Gameiro em “O tempo” na voz de Mariza.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Os amigos ao jantar


Sopa de tomate com linguiça frita
Carne de porco
Açorda de marisco
Azeitona cordovil
Tinto Alentejano num jarro
A Tina que quer em garrafa… de marca
E quase se irrita

Chega a comida
Achamos sempre que é demasiado
Que há comida que nos aguente até ao entrudo…
Mas comemos tudo

Depois a conversa vai inevitavelmente para as desgraças…
O meio século
As hérnias
As cirurgias
As diarreias
As frieiras
As rugas
As dores de coluna
As azias
Os anti-inflamatórios
Reumatismo nas articulações da mão…
E urge uma piada porque isto está à beira da depressão

A Zinha dá uma das suas gargalhadas
Já tardava
E nem os temas
Sócrates
Maçonaria
Soares
Opus Dei
Nos privam de entrar na avaria

Eu digo que estamos todos melhor que o milho
Mas ninguém concorda e recebo apupos que quase dão sarilho

O Manuel declama o meu mais recente poema de amor
As confissões de um enamorado…
Mas lidas com a alma de quem lê uma lista de supermercado

Peço-lhe para pôr um tom sexy…
De matador
Mas não fosse a Zinha a lembrar-se de um poema que escreveu a um cipreste que ardeu há anos no Terreiro do Paço
E a Madalena a ter fotocópias da arte de Jorge de Sena
E o momento de poesia teria sido um fracasso
E seria uma pena

Passámos também pelos temas que nunca falham
As aulas no velho liceu
A “Morgadinha dos Canaviais”
Os teatros da catequese
Os signos
O equilíbrio dos Aquarianos
Um caranguejo fofinho que sou eu
As freiras
As maestrinas “epilépticas”
Os salmos entoadas pelo Manuel…

E muitas coisas mais

Depois a sobremesa
O café
Um presente que vem do ano passado e se pensa ser um presépio
E afinal até é

Beijos
Abraços
Mais umas conversas ao frio à porta do restaurante
As cumplicidades de sempre
As gargalhadas como dantes
E a promessa de voltar quando 2015 acabar

Os amigos e mais um jantar

domingo, 28 de dezembro de 2014

O olhar dos amigos será sempre a casa onde nos sentamos para sorrir


Após a centrífuga acção do tempo, resistentes a tudo e à erosão do muito viver, permanecem fiéis e ao redor dos nossos dias aqueles que são especiais e indispensáveis: os amigos.
São a nossa família eleita com base na mais pura genética do ser, um núcleo congregado pelos afectos e cumplicidades; laços por vezes bem mais verdadeiros e eficazes do que os derivados de qualquer outra inevitabilidade por herança de DNA.
Mestres das palavras que nos fazem bem e nos constroem, dispensam-nas tantas vezes por nos saberem ler os olhares, os semblantes, as poses os gestos…
Gente que está e a quem nunca necessitamos chamar… a gente que sorri instintivamente quando nos vê e sente sorrir…
E chora connosco.
Gente que é alento no caminho, antídoto de qualquer possível fraquejar, gente que nos rasga o desespero e faz sobressair o lado mais doce e solar.
A gente do sim e do não, gente que não ajuíza mas sabe cuidar, uma espécie de zeladores da felicidade, companheiros instituídos pela alma que às vezes até nos podem gritar sem que levemos a mal; tudo neles tem o tempero do coração.
Gente às vezes tão diferente de nós em tanta coisa e no pensar, detalhes que dão cor e nunca dividem, porque as raízes são as mesmas e alimentam de valores a nobreza do ser.
Estes dias de entre Natal e Ano Novo trazem-me muitas vezes à roda dos amigos. Quase que nem necessitamos combinar nada, conhecemos muito bem e de há muitos anos, as horas e os sítios que nos possibilitam estas tertúlias informais, quase sempre a pretexto de um café.
Os nossos dias cruzam-se da mesma forma que as nossas vidas estão entrecruzadas e se entregam juntas ao caminho desde a história até ao futuro que sonhamos grande e feliz.
Há sempre uma história…´
E entre gargalhadas, e apesar das queixas que por vezes já levam as conversas para as hérnias, depressões, dores na coluna, problemas digestivos, pontadas no fígado, alergias… sentimo-nos bem melhor.
O olhar dos amigos será sempre a casa onde nos sentamos para sorrir.  

sábado, 27 de dezembro de 2014

As flatulências e o Cozido à Portuguesa


Por vezes quando caminhamos pela simpatia e pelo afecto da gente das terras onde nascemos deparamo-nos com as excepções…
Ontem durante o meu passeio matinal cumprimentei uma senhora que estava encostada à esquina de uma rua, e que com toda a desfaçatez me disse que eu ia muito mal vestido, sobretudo tendo em conta o meu estatuto.
Fiquei sem saber que alto ou baixo estatuto esta senhora me reconhece, mas não fosse eu um homem com boa auto-estima e teria desde logo feito propósito de despir as minhas calças da Lewis, a camisola e o blusão da Gant, e até de descalçar os meus sapatos Camper, para envergar algo mais fantástico comprado por certo na mesma loja de chineses onde a criatura terá comprado aquela bata mal-amanhada que envergava e que lhe dava um ar de sopeira depois de esfregar a escada de três andares com sabão azul e branco.
Mas consegui sorrir da situação e segui…
Mais à frente outra criatura minha conhecida. Digo-lhe bom dia mas não responde.
É um problema de afinação.
Esta criatura fez um percurso entre Mao Tsé-Tung e Jesus Cristo com uma conversão súbita, não na Estrada de Damasco como São Paulo, mas algures na Estrada de Boliqueime durante os dias longos do Cavaquismo.
O tempo para estudar o catecismo não foi muito e o suficiente para aprender a responder às pessoas como por certo Cristo o faria. Até aposto que quando passeia capas douradas das confrarias católicas pelas ruas da Vila, a criatura o faz ainda como as tropas de Mao no esplendor de Tiananmen…
E sigo até à banca do jornal.
Estas foram as duas excepções no meio de tanta simpatia que me faz sentir em casa.
Diria pois que estas duas criaturas são uma espécie de efeitos adversos como os que apresentam os medicamentos: uma estará como o incómodo de estômago para os elevados benefícios da aspirina, a outra como as diarreias para a acção benéfica da Metformina sobre a diabetes.
Numa comparação mais gastronómica sempre posso dizer que estão as duas para o “calor” da minha terra, tal qual a flatulência está para o esplendor do Cozido à Portuguesa.
E assim como assim, e sabendo que não há bela sem senão, até ganho argumentos para escrever e rir… e seguem felizes os dias de descanso.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Porque nunca nenhum dia é suficientemente vazio…


O comboio acelerou pelas linhas que cruzam a maquete feita pelos Ricardos e baptizada ontem pelo João como a “Vila Barreiros”, com direito inclusive a uma toponímia muito especial e familiar, com a rua dele a ser um pouco mais comprida do que a do mano Luís ou a do primo Afonso.
Não me recordo há quantos anos o comboio estava guardado no armário do escritório depois de me ter sido oferecido pelo Juan Blas; talvez quinze. Na vida e na nossa história, nunca nada é suficientemente velho para não poder um dia saltar do mais recôndito da memória e proporcionar-nos assim uma tarde com o melhor do Natal.
E depois do resto da tarde a contabilizar presépios, a arrumar os papéis dos “desembrulhos” da noite, a não resistir a uma filhós ou uma azevia sempre que o trajecto passa pelo prato gigante onde moram, a responder a mais umas mensagens de Natal… o sono pelo prolongado serão de ontem encurta o de hoje e a cama transforma-se num apetecível refúgio para o frio de Dezembro no Alentejo.
Não ouvi o telefone a sinalizar uma mensagem, li-a mais tarde pelas quatro horas quando acordei e quis saber as horas.
Foi bom saber que gostaste do romance que escrevi para ti com pedaços da tua história que me contaste nos instantes perfeitos que passámos entre o Chiado e o Tejo. Os momentos perfeitos nascidos há tão pouco mas sonhados em mim há uma vida inteira.
Chorei na madrugada de Vila Viçosa, não sei se por mim, por ti, pela saudade… de felicidade sim, muito e por certo.
E o Natal é tecido também por esta bênção de uma chegada tão feliz e única algures no ano que termina.
E o Natal é a vida tecida assim pela história e por tudo aquilo que o presente faz nosso, às vezes súbita e inesperadamente no dobrar da esquina mais improvável.
Porque nunca nenhum dia é suficientemente vazio para não podermos esperar que ele nos traga finalmente a sorte.
E o dia a seguir ao Natal, ainda por Vila Viçosa e a “desenratar” com um almoço de feijão com alabaças, é infinitamente mais feliz.
Por tudo… e por tantos.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Estar feliz entre o melhor de mim


Talvez o Natal seja um pouco de tudo, mas seja sobretudo este caminho que nos traz de volta a casa por entre o frio e a geada de uma manhã de Dezembro.
Jesus nasceu, é um Menino, e Ele será sempre esta rota traçada nos dias com destino ao melhor de nós.
O sol brilha olhando-me de frente no meu rumo a leste, e reconheço todos os detalhes, as pedras, os muros que o tempo cravejou de musgo à medida que nos temperava de cãs e nos enchia a alma de gente, palavras e afecto, tantos benefícios que recebemos a partir desta força de nunca desistir de viver.
Gente, palavras e afectos… amor, tudo aquilo que enobrece a nossa essência, perpétuo ser irmão dos choupos que vejo através do carro, que mesmo assim sem as folhas após o rigor do Outono, jamais desistem de indicar as linhas de água que percorrem a planície.
Há amigos que chegam à tarde, partilhamos filhós, presentes, palavras, histórias e afectos…
Rimo-nos muito.
Há chocolate quente na mesa da consoada e sabe tão bem o calor do pai e da mãe aqui sentados ao meu lado…
Há presépios, meias, cachecóis, licores, palavras e afectos…
Está o teu amor expresso na fidelidade ao doce pensamento perpétuo que tem o teu nome…
E eu por entre a minha essência levantar-me-ei cedo para ir à missa e beijar o Menino Jesus.
É Natal…
E eu não resisto a aproveitar cada detalhe deste estar feliz entre o melhor de mim.
  

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

NATAL DE 2014


O caminho de Belém
Arquitectura de estrelas
Vontade do céu
É a rota para a casa de um pobre berço
Que aquilo que é grande a Deus
Bastas vezes merece dos Homens…
O desdém

E Maria que é mãe pela simples fé de um sim
E José que é pobre e carpinteiro
Guardam nas palhas
O Menino Deus
Homem que por ser Jesus
É simples assim
Mas é Rei para o mundo inteiro

Nem com magos
Poderosos
Nobres ou doutores
Neste presépio igual ao do ano primeiro
Eu sigo feliz contigo pela rota dos pastores
Dando corpo à mais simples verdade do ser

E no canto a vozes que abafa o frio de Dezembro
Os olhares
As mãos
Tudo em nós fala de amor

É o Natal a acontecer
E nem é preciso que se acenda o lume para sentir calor

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

É Natal mas o verdadeiro Cristo morre-nos aos pés


Acenderam-se as luzes sobre as avenidas da cidade como que multiplicando por milhões a estrela de Belém, ouve-se música de festa, fala-se despudoradamente de paz, amor e alegria, as mesas afogam-se nos aromas das mais ricas iguarias, há um pinheiro gigante iluminado junto ao rio… mas o Menino Jesus morre de frio enrolado em papelões no átrio de mármore de uma loja cara onde durante os dias limpam os pés os Reis Herodes na posse das coroas humanamente reconhecidas mas muito pouco religiosas dos seus milhões.
Com a roupa de há tanto tempo, todo o dia vagueou triste pela cidade naquele andar por andar de quem nunca tem para onde ir; e a gente que nos templos beija Meninos Jesus de barro virou-lhe a cara e continuou o seu trajecto guardando para si o ouro, o incenso e a mirra… e deixando-o infinitamente mais triste no interior deste túmulo frio de onde é impossível sonhar com a ressurreição de um domingo de aleluias.
As mãos lavadas na água benta do descartar dos políticos inconscientes, Pilatos do nosso tempo empenhados na gestão de carreiras e estatísticas; o voto e a condenação dos senhores da lei, dos hipócritas e dos poderosos, a coroa de espinhos, a sede, a via-sacra feita de quedas, promissórias, empréstimos, prestações; e sem Simão de Sirene, a generosidade de uma Verónica ou o solidário pranto das mulheres de Jerusalém… esta dolorosa crucificação sem pregos mas de pé sujo e descalço pela cidade mais bonita do universo.   
Não fosse a lua que nunca falha e persiste a brilhar para ele por cima das árvores da Avenida; e neste Getsémani sem oliveiras mas com um estranho glamour escutar-se-ia em Português um aflito e legítimo “Pai porque me abandonaste?”.  
Lisboa.
São quase seis da manhã, o frio está no topo, as palhas quentes são pedras geladas, Maria é um grito chorado entre a dor e a saudade num Ave de como quem chama pela mãe…
A cidade está prestes a despertar para um dia de festa.
É Natal mas o verdadeiro Cristo morre-nos aos pés.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Um até já solto de um beijo e o meu melhor Natal


Há silêncios onde moram infinitas palavras…
Há momentos de estar só que são fonte de muitos beijos…
Há ruas e cidades que condensam em si o mundo inteiro…
Há campos vazios abandonados à chuva e ao sol de inverno, mas que transpiram já aromas das flores que lhes vestirá a primavera.

Há o estar parado e a sentir que se voa…
Há mãos vazias envoltas no eco de carícias…
Há poentes com a esperança de um amanhecer…
Há o nada que é tudo…
O não que é sim…
O raro que é especial…
O normal que é anormal…
Há o caso sério que é um entrudo…
E o carnaval que por nos juntar e fazer rir… tem algo de Natal

Há um simples chá partilhado que vale uma consoada…
E há aquele perfeito momento em que depois de me teres dado o presente, e mesmo ali diante de toda a gente, me dizes que o futuro será nosso…

Depois…
Um até já solto de um beijo, um beijo só, que não se poderá comparar com absolutamente mais nada…
E eu que canto pelo caminho.

Este é por ti, o meu melhor Natal.
Com o amor a fluir entre beijos, palavras e desenhos…
Sem presépios, estrelas, pinheiro e azevinho.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Por entre esta ilusão de primavera


Em cima da mesa adornada com um bolo-rei já partido, o café fumega e parece rimar com o sol que brilha intenso para lá da vidraça; o sol que aqui de casa por momentos me faz esquecer que é inverno e que há frio lá fora, neste que será um dos dias do ano em que o astro-rei partirá mais cedo para lá do horizonte.
O sol esconde o inverno e o frio, como as palavras ao redor da mesa, o tom e a cor de festa do bolo de Natal, até as gargalhadas… escondem a saudade de não te ter aqui.
Penso em ti por sobre tudo e por sobre os instantes passados com toda a gente.
Não há nada mais fiel ao coração do que pensamento.
E nós somos muito mais de quem carregamos na fidelidade da lembrança, do que tudo o mais que vemos e até conseguimos abraçar.
O amor na intimidade mais íntima de nós mesmos.
E envolto no pensamento, deixo órfãs as palavras, e coçando a barba faço passar os dedos na proximidade dos meus lábios. Há aromas teus que permanecem na minha pele…
Sinto mais do que nunca as saudades de um beijo.
Peço então ao sol que te leve um beijo por mim e que te faça sorrir por entre esta ilusão de primavera… e decido que vou passar o dia a pensar em ti. 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O amor sente-se, muito mais do que se tacteia algures por entre a noite.


Às vezes procuro-te incessantemente tacteando entre os lençóis de saudade com que a tua ausência cobre as noites.
E nunca te encontro entre os meus dedos.
Depois respiro fundo, coloco o braço e a mão direita por debaixo da almofada, reclino o rosto apoiando-o sobre a face direita, e abraço-me sem reservas ao generoso silêncio que me oferece o tempo todo para pensar em ti.
Relembro as histórias, revisito todas as palavras, sinto o teu cheiro, a força do teu abraço, o toque suave da tua pele, o mundo todo que espreita pelo teu olhar… e consigo até fazer renascer todos os detalhes dos beijos perfeitos que me dás.
E acho que sorrio na escuridão do quarto por mérito deste vígil e consciente modo de sonhar… que o sonhar assim acordado é sempre bem mais fiel à nossa vontade.
E tu és o centro de toda a minha vontade.
Vejo-te claro na noite que afasta então todo o linho da saudade, e é fácil entender que só um grande amor consegue povoar assim o pensamento e o coração de um homem que está aparentemente só no silêncio de uma cama muito vazia.
Sim, eu amo-te muito…
E assim tão intensamente em mim, porque é que eu haveria de ficar triste só por não te encontrar entre os meus dedos?
O amor sente-se, muito mais do que se tacteia algures por entre a noite.
E por te sentir assim em mim eu sinto-me rei no trono do universo inteiro.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Recusar envelhecer por entre “Nancy’s atómicas” e “Bolo-rei de Adão e Eva”


Desço a rampa em espiral do El Corte Ingles de Lisboa, sempre com a sensação de ter sido deglutido por um dinossauro, e não tarda o momento em que estarei munido da minha carta de compras para poder escolher presentes de Natal para as pessoas cujo nome consta numa lista que levo escrita num post-it e que vou riscando à medida que envio “material” para o piso -4, o sítio aonde mais tarde o irei recolher já embrulhado e identificado com o nome do destinatário.
Por entre pisos e subindo e descendo escadas rolantes, apercebo-me que aquele “jogo” do Menino Jesus que chegava de manhã para nos deixar os presentes no presépio da casa de Vila Viçosa, não terminou para mim; e que a posição de fornecedor ou receptor é totalmente indiferente, tal qual a ordem dos factores numa operação matemática de multiplicação.
Eu sei que os pisos estão cheios de espelhos que reflectem este meu ar de quase cinquenta anos, o que no contexto até ganha algum sentido extra pela aparência de Pai Natal; mas a festa é a de sempre.
Na secção de brinquedos surpreendo-me com a nova face da Nancy, totalmente diferente daquela que comprávamos em Badajoz no Simago e que fazia as delícias das raparigas a quem se destinavam. Sinais dos tempos, a boneca foi ao cirurgião plástico e estes ofereceram-lhe um rosto mais quadrado e totalmente “esgazeado”. Uma amiga da minha mãe que há uns tempos resolveu vestir de Nossa Senhora uma boneca da filha e pô-la num oratório como relicário, com esta já não conseguia cumprir com os seus intentos tão devotos.
Depois, eu sofro do mal crónico de não conseguir acertar facilmente com os tamanhos da roupa, com uma tendência super desagradável para adquirir peças de dimensões imensas, o que me expõe bastas vezes ao comentário em forma de pergunta:
- Estás a chamar-me gordo/a?
Desta vez tive isto em atenção e comprei tudo com números mais baixos, com o desconforto no entanto de sentir que estou a oferecer roupa que assentará às pessoas como uma cinta apertada na barriga de uma gorda.
Mais uma vez tive de fazer conversa sobre um assunto que desconheço, e com o i-phone e uma mensagem do meu irmão como teleponto, consegui dialogar com um assistente sobre o “Trash Wheel Playset”, todos excepto o Hambúrguer, sem fazer a mais pálida ideia do assunto.
Estava esgotado e terei de ir repetir a representação num “ToysRus” algures aqui por perto.
Já quase a terminar achei que o Natal exige um bolo-rei em casa, e mesmo sabendo que a consoada me levará até ao Alentejo, lá fui comprar um, antes de recolher as prendas no tal piso -4, ficando a saber que há bolo-rei de maçã…
Desconhecia.
Cheguei a casa já pelas nove da noite com um “bolo-rei normal” e a lista toda riscada.
E o que me consegui rir sozinho entre Nancy’s e bolo-rei ao estilo de Adão e Eva…
Envelhecer?
Pois eu acho que isso é algo que não se quer comigo.
E não será apenas pela doce persistência do meu pai a tratar-me a mim e ao meu irmão pelos “meus gaiatos”, ou então por mérito sagrado de algum elixir de composição secreta que a minha condição de farmacêutico me tenha facultado…
É a magia de acreditar que o melhor tempo é sempre aquele que temos para viver.
Tenho saudades das pessoas que me fizeram os Natais passados e que entretanto já partiram?
Tenho, e muitas.
Mas ressuscito essas pessoas colocando-as na forma intensa de viver o Natal presente com aqueles que entretanto chegaram e que me fazem sorrir.
É a melhor forma de honrar a sua herança.
Eu até estou apaixonado e adquiri ontem um presente especial que nos Natais passados não tive o privilégio de comprar…  

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A fogueira acende-se no local de onde varremos as cinzas de outros fogos que o tempo apagou


A fogueira acende-se no local de onde varremos as cinzas de outros fogos que o tempo apagou.
Varremo-las e deitámo-las ao vento, restando apenas quiçá algum pó que se nos cola à pele e aos lábios; pó e palavras ditas como pedaços de uma história que dá lugar agora ao brilho incandescente que acendemos sobre a madeira que a floresta na sua generosidade criou para nós.
E com o fôlego do muito querer, sopramos intensamente sobre o lume até ao momento em que as chamas sobem no ar e colhem de nós a sombra de um beijo que projectam ao longe na parede que é branca por bênção da mais pura cal.
E tu dispensas o calor da fogueira e pedes às minhas mãos que aqueçam as tuas quando o último vestígio de pó se me solta dos lábios pela insistência nos beijos e no pronunciar sussurrado da palavra amor.
A fogueira que não se apaga e que crepita noite fora embalando-nos no sono que cobrimos com um abraço.
Depois…
Tu aproximas-te de mim que te espero sentado numa das mesas do Nicola. É Dezembro e em Lisboa, no Rossio, sente-se o frio de quase Natal.
Caminhamos com o passo alinhado no rigor perfeito do abraço de quem se ama… mas de repente tu paras e pedes que te aqueça as mãos.
É verdade.
Tudo é igual ao sonho de há pouco ali sentado acordado à mesa do café.
Tu existes mesmo e aqueces-me a noite com o fulgor de uma fogueira acesa sobre as cinzas e mortalhas de todos os lumes da minha história.

domingo, 14 de dezembro de 2014

E às vezes é Dezembro!


Degustamos sonhos “amassados” pelas nossas próprias mãos sob a bênção de ancestrais receitas herdadas da nossa história; sonhos doces polvilhados de açúcar…
Colocamos luzes, desenhamos caminhos, contamos histórias, ousamos falar de esperança… sobre o musgo acumulado pelo tempo ao longo de tantos dias em que não vimos o sol…
Escrevemos listas para não esquecer ninguém dos que amamos. Todos têm de estar sempre presentes…
Perdemos o pudor e as reservas todas para à vontade falarmos de amor, mandarmos beijos, abraços… Até conseguimos dizer e escrever: “eu gosto muito de ti”…
Não poupamos nas palavras; as doces e as de revolta perante a injustiça da dor de alguém…
Não intrometemos a nossa sábia racionalidade entre as crianças e a magia e a poesia que se soltam delas…
Não nos rendemos às coisas banais que sustentam as desculpas para adiarmos por mais algum tempo aquele jantar, um encontro; às vezes só uma conversa à volta de um café…
E vamos seja onde for, fazemos quilómetros só para dar um beijo…
E telefonamos mesmo que só para dizer olá…
Acendemos as lareiras, bebemos mel, brindamos com o melhor Porto, comemos chocolates…
Ousamos falar de Cristo e assumimos que Ele nasceu…

E às vezes é Dezembro!

sábado, 13 de dezembro de 2014

A chuva e um homem que sorri


Talvez poucos entendam porque é que um homem sozinho sentado aqui a escrever em frente a uma janela a que a chuva matou o horizonte e de onde apenas se avistam as árvores despidas rendidas ao inevitável inverno, se sinta o homem mais feliz do universo.
O silêncio foi sendo rasgado pela Sinfonia número dois de Mahler.
E bastaria Mahler…
Mas a riqueza de um homem será sempre aquilo que ele sente, muito mais do que qualquer detalhe que dele se vislumbre ou possa contar; e hoje eu tenho em mim, por ti e para ti, um amor capaz de esmagar todos os silêncios e solidões do mundo.
Quando ontem vi o sol despontar por sobre a planície fazendo brilhar a geada que de alvo manto revestira o campo, quando entrei na minha velha escola para contar às dezenas de netos dos meus amigos de sempre, que a poesia é a vida inteira… talvez eu já desconfiasse que a noite me traria o teu abraço, e que por Lisboa e entregue ao cuidado do teu olhar perfeito, eu cumprisse o sonho maior de amor que carrego em mim desde menino.
E nem importa se às vezes se nos falham os traços ou as palavras, se entre nós se faz todo o amor que nos preenche, e ainda sobra amor para nos fazer sorrir.
Como agora…

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Pesadelos e afins


O Dr. Mário Soares afirmou recentemente que o país está de cócoras, e eu tenho de concordar com ele pois fiz exactamente a mesma avaliação quando o vi recentemente à porta da prisão de Évora a pedir aos jornalistas que levassem recados a um juiz.
Esperava mais do ícone da nossa democracia.
Mais tarde ouvi o Dr. António Costa afirmar que o país necessita de uma cambalhota, o que geralmente até exige previamente um posicionar de cócoras; e pensei à partida que o exercício gímnico para a comparação não era o mais feliz, pois no final de uma cambalhota estamos exactamente na mesma posição de antes, só que um pouco mais à frente.
Mas quando o Dr. António Costa, que até já convidou o Dr. Ferro Rodrigues para líder parlamentar, sugeriu ao Dr. Jorge Sampaio para se candidatar à presidência, entendi o recurso à “cambalhota”. É mesmo para dar uma volta e ficar tudo na mesma.
Depois do Dr. Sampaio ter demorado um mês a pensar para dar posse a um governo liderado pelo Dr. Santana Lopes, e depois da performance actual do Prof. Cavaco Silva, o Palácio de Belém foi definitivamente promovido a jazigo mais caro do país, lugar para os despojos dos companheiros de carteira da Lili Caneças.
Leio depois uma carta do Sr. José Sócrates (suposto engenheiro) escrita a tinta vermelha e a dizer mal dos políticos. Não estranhei a cor da tinta pois se tal significa mandar alguém à m…, houve mais algum sítio para onde ele sempre nos tivesse mandado?
E os políticos? Eu por acaso até concordo com ele mas a minha opinião é em grande parte fundada no julgamento que faço da sua acção como tal, político.
Pelo caminho ouço a Dra. Ana Gomes no “Conselho Superior” da Antena 1 a afirmar que se Sócrates for culpado deverá ser exemplarmente punido, e se for inocente, a justiça fica com uma muito má imagem. Ainda bem que esta senhora existe e tem esta mente brilhante pois ainda ninguém tinha chegado a esta conclusão…
Conselho Superior? Nem imagino o que possa ser o inferior...
Ligo para a SIC Notícias e tenho a noção que desde a Operação Pirâmide, da Cruz Vermelha Portuguesa e do principio dos anos oitenta, que uma emissão não durava tanto tempo. Dois primos “Espírito Santo” em luta de argumentos para claramente sair vencedora a memória de Vasco Gonçalves, o primeiro-ministro que nacionalizou a banca.
Ainda tive tempo para ir ao multibanco e confirmar que a Senhora Ministra das Finanças me retirou 55% do subsídio de Natal, mas por entre o sorriso e a tranquilidade de que o país está bem e de que todos deveremos agradecer-lhe e erguer-lhe uma estátua algures numa rotunda por aí.
Acabei por desligar a televisão, o rádio, rasgar o talão do multibanco…
Já chega de pesadelos.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Depois, cheguei a casa e coloquei palavras na poesia que tinha bebido de ti


Os dias são como os Homens e não se medem aos palmos; e por isso, porquê temer que desde aqui e até ao solstício de inverno, lá para o próximo dia 21, o tempo de sol seja cada vez menor.
Para além do facto das noites serem afinal pedaços de dia em que não vemos o sol mas temos a lua e as estrelas, a vida ganha-se tantas vezes num breve instante, com independência de brilhar ou não o sol no firmamento; que bem mais importante para isso são os detalhes de luz que insistimos em não apagar em nós.
Ainda esta semana irei ter à minha frente um grupo de alunos do ensino básico para quem irei falar de poesia.
Sobre o que é a poesia.
A missão não se me afigura fácil e por isso tenho pensado insistentemente no assunto.
Durante o fim-de-semana em Vila Viçosa fiz inclusive trabalho de campo com o meu sobrinho João, e os dois sentados à braseira tentámos construir uma história que tivesse em si a própria poesia.
Propôs ele que o argumento se poderia centrar numas crianças que ensinariam o pai a fazer aviões de papel. E vincou muito bem:
- Mas aviões daqueles bons e que voam mesmo.
E pareceu-me interessante.
Desde logo porque o “fluxo na poesia” vai das crianças para os adultos e não o contrário; e depois porque a poesia é apresentada como uma capacidade de voar… mas voar mesmo.
Em relação à sessão desta semana já me deixa mais tranquilo porque serei eu quem à partida irá à escola “colher” detalhes da poesia; e depois, e se a poesia é a capacidade de voar, mas de voar mesmo; fica explicado porque é que eu senti ter asas quando estava sentado à tua frente no outro dia, e entre palavras e histórias, me abstraí um pouco para saborear o pensamento de que contigo a vida tinha ganho tudo e um sentido.
E até não havia sol.
Brilhava a lua cheia sobre Lisboa, brilhavam as estrelas e o teu olhar; e o dia de Dezembro que até poderia ser alcunhado de pequeno foi dos maiores que já vivi.
Depois, cheguei a casa e coloquei palavras na poesia que tinha bebido de ti.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Há dias que são intersecções de sonhos com a vida


O meu sobrinho Luís decidiu que as figuras do presépio estavam muito dispersas e resolveu agrupá-las todas na cabana, ao redor do Menino Jesus, afirmando:
- “Estão todos numa festa”
E as estradas, as veredas e o ribeiro ficaram disponíveis para os passeios dos seus carrinhos.
Com os restos dos fatos que costurou durante muitos anos, a minha mãe teceu uma colcha que pendurou à janela para saudar a imagem da Senhora da Conceição que passou em procissão. E a colcha que tem milhares de cores e tons acabou por ser um sucesso.
Na missa da tarde na igreja de Nossa Senhora estive ao lado do meu pai e na fila da comunhão cumprimentei com dois beijos a minha amiga Zézinha. O ano de 2014 não foi fácil para ambos mas termina com sorrisos. Os sorrisos mais apetitosos são estes que nascem das dores.
E hoje, quarta-feira dia 9, faz nove meses que um abraço começou a fazer de mim o homem mais feliz e amado do universo. Numa improvável tarde de uma primavera molhada.
Há dias que são intersecções de sonhos com a vida, dias que parecem não ser mais nada do que apenas dores e restos, mas que acabam por ser festas de sorrisos, festas ao redor de um Cristo que é Ele mesmo um sorriso.
E viver nada mais poderá ser do que acordar e acreditar que isso tudo poderá ser o dia para o qual se desperta.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Ave-Maria, Senhora do nosso tempo


Ave-Maria...
Senhora da esperança
Senhora do alento dos perseguidos, dos explorados, dos sem tecto, dos sem trabalho, dos sem pão...
Senhora do pranto
Senhora do caminho dos emigrantes, dos refugiados…
Senhora da coerência e mãe da força do ser dos discriminados
Senhora das dores
Senhora do alívio dos doentes
Senhora das madrugadas, das horas, dos poentes
Senhora mãe dos poetas, dos músicos, dos pintores
Senhora das graças
Mãe da liberdade
Senhora da voz, do grito, do sim, do não, da verdade…
Senhora do querer
Senhora da paz
Mãe companheira dos heróis
Senhora do ser
Senhora da palavra
Senhora do amor, dos amores, das paixões
Senhora dos abraços
Senhora do mar, da Terra
Senhora de todos os passos, das certezas, das veredas, de todos os trilhos
Senhora do alcance, do fado, do destino…

Perdoa os hipócritas que sob o teu manto se revestem da vã importância e dos falsos brilhos
E roga por nós...
Somos todos teus filhos

domingo, 7 de dezembro de 2014

Passei hoje à rua onde nasci...

Passei hoje à rua onde eu nasci.

Parece muito mais pequena do que então e até foi estranho explicar ao meu sobrinho João que era alta, a janela do primeiro andar onde morávamos; é demasiado baixa.

A dimensão das coisas está na forma como nós as vemos, quer sejam ruas, janelas ou quaisquer outros detalhes da nossa história.

E se o tempo fez encolher a minha rua, para sempre persistirá o eco das pessoas que nela me fizeram feliz. Lembro-me de todas elas, e as portas nunca terão números, em vez deles têm nomes de amigos; os nomes que permitem usufruir sempre de uma história quando por ali passo.

O João escutou com muita atenção quando lhe contei que na esquina entre a casa da vizinha Jerónima e a garagem da família Monte havia um recanto que era o paraíso para quem queria ganhar sempre que jogávamos às escondidas.

Tinha saudades quando cheguei ao cimo da rua e entrámos na Praça.

O dia está frio mas o sol faz brilhar intensamente as laranjas que enfeitam a Praça.

Saudades...

Mas apetece-me sorrir.

A raiz só se sente viva enquanto os frutos sorrirem; e por mim a minha rua nunca morrerá.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Eu troco…


Não existirá noite em que eu não queira trocar a vista de todas as cidades do universo pelo teu olhar; se há em ti muito mais de céu e se é de ti que me alimento.
E troco a lua pelas palavras com que me envolves, nesses instantes em que a alma me confidencia que chegou ao sonho, e não há letras no universo inteiro que possam reunir-se para dar verdade à poesia que se solta em mim.
E troco a magia toda que tu tens pela das luzes coloridas que o Natal semeou pela cidade.
E troco a brisa pelo teu cheiro.
A rota de todas as ruas pelo caminhar contigo mão na mão.
E troco a vida toda pelo teu abraço; porque há nele muito mais vida do que aquela que existe e sempre existiu em mim.
Tu e eu somos muito mais do que apenas dois, somos um amor perfeito… sou eu no mais feliz que alguma vez me consegui imaginar.
E pelo meio desta troca que me faz ser eu, se algum escravo da racionalidade um dia disser que eu sou um louco que anda a escrever poemas pelo mundo; eu não me importo.
Lá no fundo, onde mora o essencial, tu sabes que os meus poemas são todos para ti e sabes que, passe o que passar... eu serei sempre teu.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Detalhes da minha infância já com estatuto de museu


Em casa da Tia Maria e do Tio João existia um oratório de madeira com portas de vidro tapadas por umas cortinas, onde para além de outras pequenas imagens de santos existia um Menino Jesus assente numa pienha e com um coração na mão direita; e também um crucifixo quase do mesmo tamanho do oratório.
Sempre que eu ia àquela casa na Rua de Santa Luzia, pedia para me abrirem a porta e poder espreitar o Menino Jesus, que só abandonava a pienha e o oratório para passar algum tempo deitado nas palhinhas durante o período em que o presépio estava montado.
A insistência deste pedido para espreitar o Menino levou a Tia Maria a dizer que um dia ele seria meu.
E foi.
O meu irmão que entretanto tinha nascido solicitou justiça e com toda a legitimidade lembrou:
- Se o Menino Jesus é do Quim, eu quero o Cristo na cruz.
Mas foi mais longe:
- E como o Cristo é maior do que o Menino Jesus, eu levo também a “casinha”.
E também se cumpriu o desejo na sus vertente dupla.
Um detalhe importante é que até hoje o Menino Jesus ainda não saiu do oratório onde também está o Cristo na cruz e todas outras imagens de santos. Achei eu e o meu irmão que não haveria melhor sítio para os mantermos do que a casa dos nossos pais, o nosso terreno comum e sagrado.
E lá estão então agora, com o Menino Jesus a lucrar de vez em quando um novo vestido por obra e arte da Mãe Inácia.
Esta história teve no entanto outra consequência: eu comecei a fazer uma colecção de presépios.
Para além do gosto de os ter confesso que é um detalhe da minha existência que me liga inevitavelmente de forma doce à infância feliz que tive e sempre me proponho prolongar em mim.
Há já algum tempo que digo ao meu sobrinho João que a colecção é nossa e acho uma certa graça quando ele faz visitas guiadas aos armários existentes em Vila Viçosa e conclui sempre com o dedo indicador a tocar no peito:
- E são todos os meus.
Pois são, mas alguns deles vão estar a partir deste fim-de-semana em exposição no Museu de Arte Sacra de Vila Viçosa.
Vão até lá e espreitem.
Entretanto e sem que eu me tivesse dado conta, já há detalhes da minha infância que têm estatuto de museu.
Oh tempo…
Oh idade…

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Pelo amor, claro.


A noite de Lisboa acendeu a ponte e o Natal já espalhou milhares de outras luzes na expressão de um tempo de negócio, muito mais do que de boa vontade.
A cidade faz-se inteiramente minha ao redor da meia-noite, e apenas um eléctrico que passa em direcção ao seu repouso em Santo Amaro, me retira o privilégio de uma rua rasgada só para mim.
O rio está ali bem perto e sinto-o na face, no fresco que o meu passo acelerado ainda atrai com mais veemência.
Há noites como hoje em que brotam ilhas de afecto no mar de indiferença e solidão da cidade, e levo comigo nesta viagem até ao carro, a esperança colhida do rosto feliz de quem vive à margem e para quem um prato de carne com massa é infinitamente mais Natal do que uma luz semeada pela Junta de Freguesia.
A esperança na alma que suplanta hoje em mim e definitivamente qualquer dor nos pés ou o cansaço nas pernas.
O que são as minhas dores e os meus cansaços de uma só noite quando comparados com os da gente que os sente em todas as noites?
Acelero o passo.
Está frio.
São vinte e três horas e dezanove minutos quando soa uma mensagem tua. Tratas-me por amor e eu não resisto e rasgo um sorriso que descompõe definitivamente o cerrar de dentes que enfrenta o frio que vem do Tejo.
Tu és o amor que sempre desejei para os meus dias e todas as minhas noites. Sinto-o cada vez mais certo.
E um homem feliz é irremediavelmente aquele que caminha envolto no amor que preenche cada mais pequeno detalhe da sua vida; sem excepções.
Sigo a pensar em ti…
E pisco o olho à ponte.
Afinal, somos da mesma idade, estamos iluminados nesta noite fria e ambos matámos a distância que há entre todas as margens.
Pelo amor, claro.