sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Detalhes da minha infância já com estatuto de museu


Em casa da Tia Maria e do Tio João existia um oratório de madeira com portas de vidro tapadas por umas cortinas, onde para além de outras pequenas imagens de santos existia um Menino Jesus assente numa pienha e com um coração na mão direita; e também um crucifixo quase do mesmo tamanho do oratório.
Sempre que eu ia àquela casa na Rua de Santa Luzia, pedia para me abrirem a porta e poder espreitar o Menino Jesus, que só abandonava a pienha e o oratório para passar algum tempo deitado nas palhinhas durante o período em que o presépio estava montado.
A insistência deste pedido para espreitar o Menino levou a Tia Maria a dizer que um dia ele seria meu.
E foi.
O meu irmão que entretanto tinha nascido solicitou justiça e com toda a legitimidade lembrou:
- Se o Menino Jesus é do Quim, eu quero o Cristo na cruz.
Mas foi mais longe:
- E como o Cristo é maior do que o Menino Jesus, eu levo também a “casinha”.
E também se cumpriu o desejo na sus vertente dupla.
Um detalhe importante é que até hoje o Menino Jesus ainda não saiu do oratório onde também está o Cristo na cruz e todas outras imagens de santos. Achei eu e o meu irmão que não haveria melhor sítio para os mantermos do que a casa dos nossos pais, o nosso terreno comum e sagrado.
E lá estão então agora, com o Menino Jesus a lucrar de vez em quando um novo vestido por obra e arte da Mãe Inácia.
Esta história teve no entanto outra consequência: eu comecei a fazer uma colecção de presépios.
Para além do gosto de os ter confesso que é um detalhe da minha existência que me liga inevitavelmente de forma doce à infância feliz que tive e sempre me proponho prolongar em mim.
Há já algum tempo que digo ao meu sobrinho João que a colecção é nossa e acho uma certa graça quando ele faz visitas guiadas aos armários existentes em Vila Viçosa e conclui sempre com o dedo indicador a tocar no peito:
- E são todos os meus.
Pois são, mas alguns deles vão estar a partir deste fim-de-semana em exposição no Museu de Arte Sacra de Vila Viçosa.
Vão até lá e espreitem.
Entretanto e sem que eu me tivesse dado conta, já há detalhes da minha infância que têm estatuto de museu.
Oh tempo…
Oh idade…

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