terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Diamonds are forever

Ia já no final o verão de 2003 quando fui informado de que iria ter uma colega nova a trabalhar directamente comigo. Vinha de uma outra empresa e a primeira actividade que teríamos juntos, imediatamente pós-férias de verão, era uma reunião de alguns dias em Barcelona.
Sem tempo ou oportunidade para nos conhecermos antes, falámos ao telefone, combinámos um ponto de encontro no aeroporto de Lisboa, descrevemo-nos e assim nos descobrimos no meio da enorme massa de gente que por essa altura sempre se movimenta na “apertada” Portela.
Fizemos o check-in juntos, viajámos lado a lado e aposto que quem nos visse desde o primeiro segundo, acharia que nos conhecíamos do tempo da instrução primária.
Com base na maior cumplicidade, aproveitámos os dias intensos de trabalho na Cidade dos Prodígios, como chamou a Barcelona, Eduardo Mendonza, no seu magnífico livro, para de forma prodigiosa fazermos enraizar uma sólida amizade. Daquelas amizades fantásticas e raras que nascem sem se saber bem de onde mas que carregam o selo: “Para a Vida”.
E de onde nascem as cumplicidades?
Ambos somos alentejanos, adoramos comer e beber bem, adoramos viajar, não passamos sem as nossas famílias, falamos pelos cotovelos, não conseguimos estar um minuto juntos sem dar uma valente gargalhada, somos viciados no non-sense, assumimos que o que mais nos dá prazer… é o prazer, adoramos retirar os filtros e provar o picante do política e socialmente incorrecto, somos viciados em viver intensamente…
E depois há a confiança infinita que é marca de uma amizade verdadeira e que me leva a contar-lhe coisas que garanto-vos nunca contei nem contarei a mais ninguém.
Alguns anos após nos termos conhecido e de termos trabalhado juntos, ela saiu da empresa e eu continuei, mas não passamos sem um contacto regular, habitualmente em volta da mesa, naqueles que marcamos no Outlook como “Almoços da Palheta”.
Pela zona de Oeiras, assentámos arraiais durante anos no restaurante “Pecados Ibéricos”, por certo pelo facto da nossa amizade ser verdadeiramente ibérica, por partilharmos uma noção muito própria de pecado e depois, e sobretudo, porque nos agradavam os ovos mexidos com farinheira, os pimentos de padron, os calamares, os chocos fritos, etc.
Hoje foi dia de almoço da palheta e descobrimos que os “Pecados Ibéricos” fecharam e deram lugar a um outro restaurante de conceito um pouco diferente, a que chamaram Boca.
Também não está mal para nós, porque entre comer, beber e falar, os nossos almoços são mesmo de Boca.
E depois, as iguarias não estavam nada mal, passo a publicidade ao restaurante.
Chegado a casa não resisti a partilhar convosco esta alegria do almoço com a Tiffany (assim a baptizou há uns anos um amigo comum) que na continuação da Bica Cheia de ontem, me manteve numa autêntica prova de degustação da amizade, que é o que de melhor existe para prevenir depressões e enfartes do miocárdio.
Quanto à Tiffany e porque sei que ela de vez em quando também passa por aqui, devo dizer-lhe que para além de ser das mulheres mais bonitas e elegantes do mundo, de estar no Top 5 das minhas amigas mais inteligentes (esgatanhem-se todas mas eu não digo nem morto quem são as outras quatro), ela é sobretudo uma amiga ultra super mega hiper especial, que jamais dispensarei, porque a nossa amizade nasceu para ser eterna como os diamantes, da Tiffany & Co ou não, e está tatuada para sempre no canto mais certo e seguro dos meus afectos.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Uma bica cheia…

Eram os sábados que me proporcionavam um dos primeiros prazeres que descobri em Lisboa quando aqui cheguei em 1984.
Manhã cedo, aproveitando aqueles raros momentos em que os carros, os eléctricos e a gente, não conseguem abafar o ruído dos nossos passos na calçada, saía do Príncipe Real onde vivia, descia pela Rua da Rosa até ao Chiado, para através da Rua do Carmo chegar ao Rossio e sentar-me no Nicola a ler o jornal ou um livro, enquanto o corpo acabava o seu despertar pela força e pelo aroma de uma bica quente.
O Nicola respira Bocage por todos os poros, e muitas vezes, quando os olhos descansavam da leitura e miravam para o infinito arrastando com eles o pensamento, imaginei que terá sido por certo por ali, e pela força da sua solidão de poeta, que um dia lhe surgiu esta necessidade de se unir ao poeta maior da lusitanidade, escrevendo:

Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!


A busca das cumplicidades para a construção do conforto de nunca nos sentirmos sós.
Hoje, sentei-me a tomar uma bica no Nicola, não no do Rossio, mas num dos que resultaram da sua multiplicação e espalham o seu conceito de café, enriquecendo e dando um toque Português aos novos espaços comerciais.
Uma mesa simples e redonda, duas cadeiras, as duas inevitáveis bicas, dois “eus” soltos e sem reservas e, claro, o conforto feito das cumplicidades.
Mais do que isso, o conforto maior do universo, que é sempre aquele que nasce do sentir da oferta do olhar despojado e terno de alguém, expressando disponibilidade para o encontro de almas e valorizando pela atenção, tudo o que verdadeiramente carregamos na nossa e se manifesta por palavras, gestos e pela força do nosso olhar.
É assim que se vive e é desta forma que se mata a solidão.
É assim que a pretexto de uma bica se constroem bons e grandes sentimentos.
E já agora chamemos outro poeta, Fernando Pessoa, para nos lembrar que “são os sentimentos que conduzem as sociedades, não as ideias”.
E quem fala de sociedades fala de Homens, fala de nós, fala de futuro e fala de um fado, destino que terá sempre a cor viva e alegre de sabermos que jamais, por um só segundo que seja, voltaremos a sentir-nos sós nessa imensidão da planície que nos viu nascer, nos fez assim e nos condenou a ser felizes.

domingo, 29 de janeiro de 2012

De humildade, paixão e sonho…

Massimo Bottura é italiano e um dos melhores cozinheiros do mundo, “dono” de três estrelas Michelin.
Numa entrevista esta semana ao jornal Expresso, afirma que “há três ingredientes-chave para um bom cozinheiro: a humildade, a paixão e o sonho”.
Acrescento eu que para em tudo nós podermos ser grandes, estes são os ingredientes.
A humildade dá-nos a inspiração e motiva-nos para querermos sempre ser melhores, ultrapassarmo-nos e ir mais além, a paixão dá-nos a garra, a força e a energia que alimentam esse caminho, e o sonho permite que os objectivos que perseguimos voem muito para além daquilo que parece óbvio e alcançável à primeira vista.
De humildade, paixão e sonho se fazem pois os grandes Homens.
Contrapus esta entrevista e esta reflexão a uma longa conversa tida ontem durante um longo e muito agradável jantar de amigos, em que inevitavelmente falávamos desta encruzilhada que vivemos como nação e de como nos faltam referências vivas, heróis e Homens grandes que nos congreguem e motivem.
E como isso era tão necessário…
A nação Portuguesa tem hoje um Presidente da Republica que discute as suas reformas e as suas economias domésticas na praça pública, tem um primeiro-ministro mais focado na troika do que no país, um pouco ao estilo aluno mediano que para passar no exame se foca mais na relação com o professor do que em ser brilhante, e tem no seu “senado” um conjunto de políticos e tecnocratas que usaram a política como trampolim para cargos ou pensões que lhe garantam bem-estar e uma desafogada situação económica.
De arrogância, ambição pessoal e mediania se fazem pois os nossos líderes, perdão, os nossos dirigentes.
E em tudo isto assenta a nossa orfandade.
Com tudo isto se agudiza o nosso desnorte como nação.
Que o tempo futuro nos traga quem saiba sonhar e não tenha medo de o fazer, quem não hipoteque os nossos sonhos pela ambição muito própria de querer ter.
Haja esperança e não nos faltem as forças para a indignação e para lutar, porque ainda e sempre, somos nós os donos do futuro.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Um anjo sentado

Quem no período da manhã já entrou alguma vez na sala de alunos do Hospital de Santa Maria em Lisboa, conhecerá a confusão que habitualmente reina naquele espaço, que sendo amplo e cheio de mesas, é ladeado por dois bares muito procurados por todos os milhares de pessoas que por motivos profissionais ou na busca da resolução dos problemas de saúde, seus ou dos seus familiares, diariamente entram naquele hospital.
Entrei com um colega e colocámo-nos na fila do pré-pagamento com o objectivo de obtermos a senha que nos daria acesso a uma merecida bica que nos confortasse o corpo em dia de sol mas com muito frio.
Concentrados na conversa de trabalho, sem que nos déssemos conta, acabámos por bloquear a saída, pelo que alguns momentos após termos chegado à fila, fomos interrompidos por um senhor com uma idade algures na casa dos quarenta, que manobrando a sua própria cadeira de rodas, se nos dirigiu:
- Os senhores deixam-me passar? Sabem, vou sair porque já estou cansado de estar sentado.
Apreciei o sentido de humor, sorri e “arrisquei” retribuir com uma graça:
- Ora aí está uma posição que eu como alentejano muito aprecio: estar sentado.
O meu interlocutor responde-me com duas perguntas:
- É alentejano? Não me diga que é de Vila Viçosa?
Espanto e dúvida da minha parte. Será que o meu “Calipolencismo militante” já me está escrito na testa? Pergunto:
- Como adivinhou que sou de Vila Viçosa? Conhece-me? Eu deveria conhece-lo?
- Não. Respondeu-me ele. Trabalhei durante muitos anos na RTP e os meus colegas e amigos mais chegados eram de Vila Viçosa, pelo que quando penso numa terra no Alentejo, é ela a primeira que me ocorre.
Sorrimos os três pela coincidência e após se ter certificado perguntando se não nos estava a maçar com a conversa, contou-nos que um dia em trabalho tinha caído de uma escada e iniciado uma vida nova e diferente com a sua mobilidade totalmente dependente daquela cadeira.
A fila tinha avançado em direcção à registadora e o nosso interlocutor tinha pressa para ir fazer os seus exames, pelo que nos despedimos apertando as mãos e desejando-nos mutuamente, sorte, seja lá ela o que for ou o que queiramos que seja.
Não sei sequer o nome deste homem com quem estive à conversa por certo não mais do que dois minutos, mas porque gosto de ver a vida como um processo de acções encadeadas em que nada ocorre por acaso e tudo tem um sentido maior do que aquilo que por vezes aparenta, deixem-me que acredite que este encontro com um desconhecido foi um “bombom de afectos” que Deus me atirou do Céu nessa manhã fria de Janeiro.
Passou por mim um anjo sentado para me insuflar ânimo, vida, para colocar os meus problemas à sua escala real, e também para me recordar que a maior catástrofe que nos poderá acontecer, é um dia deixarmos de saber sorrir, para os outros e também para a própria vida por mais dura que ela seja.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Morrer sozinho

Entrámos quase ao mesmo tempo para a empresa onde ainda hoje trabalho.
Nunca nos cruzámos em departamentos ou projectos e por isso o nosso relacionamento, embora no espaço profissional, foi sempre de âmbito muito pessoal.
Ao pequeno-almoço, ao almoço ou na volta pós-almoço que dávamos com os colegas pelo jardim, falávamos de tudo e de nada em especial. Recordo-me sempre da forma como orgulhoso falava da sua família e também e sobretudo, de que nos riamos muito.
Chegou um dia em que eu permaneci na empresa e ele saiu.
Nunca mais o vi e só fui sabendo notícias à distância, e estas, eram invariavelmente a via crucis dos tempos modernos: desemprego, divórcio, separação dos filhos, perda de auto-estima, falta de forças, de vontade e sobretudo de oportunidade para arranjar outro emprego…
A partir de determinada altura deixámos de ter notícias e procurámo-las afincadamente. Sempre que nos juntávamos ou nos encontrávamos com pessoas que sabíamos serem amigos comuns, lá vinha a pergunta:
- Sabes o que foi feito dele?
Passaram-se anos e para mim as notícias só chegaram hoje.
Há algum tempo atrás, e estranhando o facto de não atender o telefone, uma sua irmã foi à casa onde ele vivia só e encontrou-o morto, mas com o telefone na mão.
Por certo faltaram-lhe as forças e não houve tempo para que de dentro do seu poço de solidão conseguisse chamar alguém.
Neste parecer termos tudo e estarmos tão perto de tudo e de todos, neste mundo que temos a sensação de dominar, há ainda gente muito próxima de nós que morre de solidão e apenas e só com a solidão.
Ninguém merece morrer sozinho. E os bons e os mestres de afectos ainda muito menos.
Hoje sinto-me triste.
Em primeiro lugar pela partida do Carlos e depois, e sobretudo, pela noção de responsabilidade e cumplicidade com a solidão que fere e mata, porque mais do que viver, empenhamo-nos em sobreviver.
Demasiado centrados em nós próprios, aceleramos a solidão dos outros, esquecendo-nos que ao faze-lo, só estamos, definitivamente, a cavar a nossa própria solidão.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Guimarães 2012

Diz-se que Portugal nasceu em Guimarães, pois aí cresceu o sonho e daí partiu D. Afonso Henriques a conquistar e a “fazer” Portugal. Oito séculos de história numa unidade única e recordista na Europa e no mundo, dão legitimidade ao sonho do nosso Rei que mais do que Conquistador, foi o Rei Inventor de Portugal.
Património Português desde sempre, da Humanidade pela UNESCO desde há alguns anos, não espanta pois que após Lisboa em 1994 e o Porto em 2001, seja Guimarães a terceira cidade Portuguesa a merecer este título de Capital Europeia da Cultura. Guimarães 2012 é hoje oficialmente inaugurada.
Julgo que saberão que o país que no contexto da então CEE propôs a identificação em cada ano de cidades Europeias como Capitais Culturais, foi a Grécia, justificando a sua proposta como a necessidade de atrair as atenções sobre espaços urbanos que pelo seu património histórico, artístico e cultural, eram exemplos vivos da riqueza cultural da Europa.
A Grécia, pátria do pensamento moderno e da democracia, elemento legitimamente integrante do espaço Europeu e indispensável à sua identidade, a ser novamente farol como há tantos séculos no que há cultura e ao humanismo diz respeito.
Em 2012, quando falamos de Portugal e da Grécia no contexto da agora União Europeia, somos encarados pela generalidade dos cidadãos do universo com a mesma pouca atenção e respeito de um indivíduo que conta uma anedota.
E tudo porque a Europa “afogou” a sua identidade e unidade culturais, fazendo emergir apenas a componente económica e da finança. A Europa perdeu os líderes e é governada por um bando de tecnocratas, que para além do mais são péssimos e incompetentes.
Que Guimarães 2012 sirva para unir os Portugueses numa altura em que diariamente somos bombardeados com os “gazes” destrutivos da nossa auto-estima e em que somos apenas equiparados a lixo.
A nossa cultura e a nossa história conjunta são indestrutíveis e serão por certo o melhor e mais eficaz mote e catalisador para que ultrapassemos o momento difícil por que passamos.
Pela minha parte, tenho programado algumas visitas a Guimarães que tentarei agendar ao ritmo da programação bastante interessante que nos é oferecida.
Espectáculos e exposições à parte, não resistirei por certo a dar belos passeios pelo centro histórico da cidade, um dos mais bonitos do mundo, a parar para beber um café e ler um jornal num dos fantásticos cafés do Toural e juro-vos que me sentarei numa das esplanadas da Praça da Oliveira e pedirei uma imperial, perdão, um fino, e que brindarei a Guimarães, a Portugal, à Grécia e à Europa, para que ela volte a ser orgulhosamente o espaço da diversidade cultural e a mestra e inspiradora do valor maior: a liberdade.

Os novos / falsos pobres

Confesso-vos que fico em dúvida se me irritam mais os novos-ricos com o seu exibicionismo bacoco ou os novos pobres, não aqueles que verdadeiramente o estão e são, porque os últimos tempos têm empobrecido meio mundo, mas aqueles que sem legitimidade e com os bolsos cheios de dinheiro, apanham a onda da crise e se apresentam como “desgraçadinhos”.
Ontem em declarações à imprensa, o mais alto magistrado da nossa nação, o Presidente da Republica, queixou-se de que as suas reformas, e nem soube dizer quanto somam no total, mas que correspondem por certo a milhares de Euros, não lhe chegam para pagar as despesas e que tem de se socorrer das economias que foi fazendo ao longo dos 48 anos que leva casado.
Esta história do desgraçadinho vem na linha de um outro desabafo feito há algum tempo sobre a injusta reforma da sua mulher.
Será que o senhor Presidente da República não tem a noção pelo pudor de que estas declarações são uma ofensa para a generalidade dos Portugueses que trabalharam tanto ou mais do que ele e que têm de se governar com reformas de miséria?
Esquece-se o senhor Presidente de que a maioria dos Portugueses não tem amigos em bancos, alguns pouco credíveis como o BPN, que lhe permitam fazer aplicações e ganhar milhões para compor as suas reformas e torná-las douradas?
Se tem um problema de deficit porque não utiliza ao nível doméstico a receita que prescreveu ao país no tempo do “monstro” e reduz nas despesas?
Será que ainda não percebeu que “entretidos” a gerir as nossas contas, nos estamos literalmente “nas tintas” para as finanças do senhor Presidente e da sua mulher?
Senhor Presidente, quando falar com os seus amigos, em privado, disserte sobre o que lhe aprouver, mas quando falar para nós, em público, junte-se a nós dando-nos esperança, não colando-se às nossas dificuldades, porque essas nós sabemos que o senhor não as tem e assim arrisca-se a cair, como caiu no ridículo.
Só mais um último dado que poderá ser relevante, para lhe dar conhecimento de que em todas as eleições em que se candidatou, votei em si.
Garanto-lhe que jamais o voltaria a fazer.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A rosa Joaquina

Quem teve o privilégio de como eu ter uma infância feliz, por certo beneficiou da presença e das cumplicidades de uma pessoa como a minha tia Joaquina Rosa.
Irmã mais nova do meu avô materno, não quis o destino que gerasse os filhos que lhe permitissem cumprir a sua vincada vocação de mãe, mas como não era mulher de se deixar vencer, juntamente com o marido, o tio Zé, foi “adoptando” várias gerações de sobrinhos. Eu fui um dos beneficiários.
Na sua casa minúscula, o que faltava em espaço sobrava sempre em mimos e carinhos, expressões de quem muito ama e se despoja de si para antes de mais, fazer os outros felizes.
A tia Joaquina estava em casa nas suas lidas domésticas e o tio Zé trabalhava numa oficina de mármores algures a meio entre S. Bartolomeu e o Carrascal, manobrando uma máquina grande que polia as pedras. Quando o tio chegava a casa, ainda tinha tempo e forças para se sentar no quintal a fazer polidos cinzeiros de mármore que vendia com o objectivo de melhorar o orçamento familiar.
O jantar, de verão ou de inverno, era sempre pontualmente às sete e meia, sendo as ementas construídas pela bitola do nosso gosto, o que as tornava perfeitas. Um dia o meu irmão deixou-se embalar por esta perfeição das iguarias e afirmou que a tia Joaquina era a melhor cozinheira do mundo, no que constituiu um quase incidente diplomático entre tias e avós que competiam sempre para nos dar o melhor.
No fim do jantar levavam-nos a casa, não deixando nunca de cumprir aquilo que está escrito no mandamento que ordena que “os tios deixam fazer algumas coisas que os pais jamais deixariam”, como por exemplo abanar uma laranjeira da praça para que caísse algum fruto, acto que naquela época de liberdades restritas, era altamente punível e dava direito a multa e nome manchado.
Aos fins-de-semana era a “loucura total”: íamos a alguma festa que existisse nas redondezas no que designávamos por “ir ver as luzinhas”, passeávamos, víamos os jogos do Calipolense no Campo do Carrascal, sempre a ouvir o relato para saber quantos resultados tínhamos acertado no totobola e para nos assegurarmos que o Benfica ganhava…
Convém realçar que tendo um pai Sportinguista, o meu grande fervor Benfiquista devo-o em grande parte ao meu tio Zé. O Eusébio e a sua magia depois fizeram o resto.
Sempre que havia tourada, lá íamos nós até aos Capuchos. Comprávamos um bilhete dos mais baratos, para o sector do Sol, mas íamos cedo para arranjar um lugar mesmo colado à Sombra, o que nos permitia beneficiar da dita muito antes do espectáculo começar. Para a tourada e para os passeios levávamos sempre um lanche feito em casa, habitualmente composto por sandes, uma limonada num frasco grande vidro de rolha amarela (que resgatei e ainda hoje guardo em casa) e também algum bolo caseiro que a tia se tivesse entretido a preparar na véspera.
A tia Joaquina foi a melhor vendedora que conheci, com uma veia e artes fabulosas para o negócio, o que nem sempre lhe possibilitou ter êxito. Recordo-me de um verão em que se dedicou a preparar gelados de pudim nas formas de gelo do frigorífico, espetando-lhe depois um palito para imitar os sofisticados “rajás”, vendendo-os a dez tostões à rapaziada das redondezas. Esqueceu-se foi que de tanto abrir e fechar o congelador, rebentou com o motor da máquina e no final do verão teve de gastar o lucro dos gelados na compra de um novo frigorífico.
E assim crescemos, sempre confortados por esta grandeza das coisas simples.
O tio Zé partiu primeiro traído pelo coração.
A tia Joaquina viveu até aos 86 anos, batendo o record de longevidade dos meus avós e tios-avós, possibilitando que nós lhe pudéssemos retribuir com muito pouco o muito que ela um dia nos tinha dado.
Sempre doente, num caso claro de hipocondria em que o que mais a excitava nas suas consultas mensais ao médico era a descoberta de uma nova patologia que se tornava então no centro de todas as suas conversas, nunca virou costas ao bom que a vida lhe colocava pela frente.
Convidá-la para um passeio de automóvel, oferecer-lhe perfumes, lenços, roupa ou adereços para adorno, levar-lhe chocolates ou outros doces, era sempre algo que a fazia imensamente feliz e assumia-o não se negando e pedindo mais com o à vontade de quem está perto dos noventa e já dispensou legitimamente os filtros do que “fica bem”.
Assumindo-se sempre como mestra, sempre nos foi dizendo que o melhor tempo para viver era o presente, nem que ele fosse o dos oitenta anos e nos obrigasse a andar de bengala, e que nunca desperdiçássemos um minuto sequer da vida, deixando de o viver com a força e da forma que o coração nos mandasse.
Esta semana cumpriram-se os primeiros dez anos das nossas vidas sem a presença física da tia Joaquina e pensei muito nela, tive saudades de me sentar junto ao seu sofá, trono de rainha, para a ouvir, saudades de a beijar, de quase a sufocar a gargalhadas com as minhas palhaçadas…
E no meio da saudade, a certeza de que as pessoas que amamos e que nos amam, adquirem o estatuto de imortais porque para além de se perpetuarem nos nossos corações, eternizam-se em tudo aquilo que somos e que fazemos.

domingo, 15 de janeiro de 2012

A diálise do liberalismo

A diálise, numa perspectiva físico-química, trata-se de um processo em que duas soluções com composições e concentrações distintas, interagem através de uma membrana semi-permeável, permitindo que após algum tempo tenham a mesma composição e concentração. Na hemodiálise e por incapacidade do rim para agir como filtro, o sangue é sujeito periodicamente a este processo adquirindo as características que assegurem o bom funcionamento do organismo.
Esta semana, uma antiga ministra da educação e das finanças, ex-líder de um partido e deputada no parlamento durante muitos anos, Manuela Ferreira Leite, veio afirmar que para garantir o equilíbrio do sistema de saúde, será inevitável que as pessoas que necessitam de tratamentos de hemodiálise e que tenham mais de 70 anos, suportem financeiramente estes tratamentos.
A barreira dos 70 anos é muito interessante pois exprime uma perigosa ideia de que o estado deve descurar aqueles que se encontram mais perto do fim da vida, o que é estranho pois também esta semana ficámos a saber que pessoas com mais de 70 anos ainda têm um enorme valor no mercado do trabalho, sobretudo quando nomeados politicamente para a administração de grandes empresas como a EDP. Bem sei que falo de um individuo que tira óptimas fotos de grandes momentos com o Blackberry, o que é sinal claro de alguma modernidade.
Depois, há outra perversão e que é a mudança das regras a meio do jogo. As pessoas actualmente com mais de 70 anos trabalharam e fizeram o seu pagamento de impostos, na medida da expectativa de um apoio na doença quando ela chegasse. Tirar-lhe agora o tapete…
Para além disso, as pessoas com mais de 70 anos, são os nossos pais, e falar deles com menos respeito é uma infâmia e exigir-lhes pagamentos extra na sua assistência na doença, é uma traição ao muito do fruto do nosso trabalho que partilhamos com o estado. Se o liberalismo económico é para implementar nas regalias, por favor liberalizem também, aliviando os nossos deveres fiscais.
Daí eu prescrever uma diálise à Dra. Manuela Ferreira Leite.
Coloque a sua solução concentrada nos problemas financeiros e no deficit em contacto com a solução do respeito pelas pessoas e da consciência social, através da barreira semi-permeável do bom senso.
Verá que todos ficamos a ganhar.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O cerco

11 de janeiro de 2012 / 7.30h
Chego ao IC19 e não reconheço aquela que durante muitos anos foi uma das vias mais congestionadas do país, definitivamente a mais problemática das entradas em Lisboa, apelidada então de “Itinerário Caracol”. Do nó do Cacém ao nó da CREL, os oito quilómetros que antes, a esta hora da manhã, fazia em três quartos de hora, faço-os hoje em cinco minutos.
A crise, associada ao aumento do preço dos combustíveis, deixou os carros nas garagens e nas pracetas, reconciliou a população com os comboios e por certo fez com que a célebre Associação dos Utentes do IC19 tivesse virado uma agremiação ao estilo de reunião de antigos alunos ou uma espécie de equipa de saudade composta por futebolistas reformados.
O pensamento transporta-me então para o carrocel da crise:
Imagino que o conforto da alternativa comboio saia beliscado por um aumento brutal de todos os transportes públicos, medida aliás bem explicita no memorando de entendimento com a Troika. Valha-nos então que os carris nos façam chegar cedo a Lisboa e poder ir tomar um café com tranquilidade.
Pois é! Mas a crise fez subir o IVA na restauração e o café está mais caro. Melhor mesmo é ir trabalhar e esperar pela hora de almoço para descontrair um pouco.
Descontrair? Ilusão. Aumentaram as deduções sobre o subsídio de refeição e cada vez se recebe menos dinheiro. Um farnel trazido de casa é a solução para retemperar energias e tentar sair cedo do trabalho para chegar a casa a tempo de fazer algo.
Cedo? Impossível. Com a crise há que dar mais meia hora ao patrão. Mas mesmo assim pode ser que dê para chegar a casa a tempo de ir dar uma corrida no jardim público que há na urbanização.
Correr no jardim? Nem pensar. A crise aumentou a criminalidade e assim ao fim da tarde é um perigo andar por ali. Ainda me arrisco a que me roubem algo ou que me apliquem alguns “tabefes”. O melhor é ir para um ginásio.
Ginásio? Pode ser. Mas há algum tempo que foi assumido como produto de luxo e os preços e impostos subiram vertiginosamente. Vou antes ao supermercado que há ali perto de casa.
Bem, aquele que está mais perto de casa, não. Esse com a crise fugiu do país e foi-se a pagar impostos para a Holanda. Vou ao outro que é mais longe e até me ajuda a pagar a conta da eletricidade.
Por falar em eletricidade, o melhor é não ligar o aquecimento ao chegar a casa. A conta aumentou consideravelmente com a crise. O melhor é enrolar-me numa manta e ver televisão.
Televisão? Só se ainda a tiver porque não entendo muito bem as explicações do Paulo Bento e do Pedro Granger e parece que mais dia, menos dia, ou compro uma nova ou lhe aplico uma caixa, ou então fico sem ela.
Definitivamente parece que o melhor que a malta faz é mesmo ir dormir.
O cerco da crise é demasiado apertado.

11 de janeiro de 2012 / 8.00h
Já estou cansado de pensar na crise.
O rádio dá as notícias e proponho-me ouvi-las: maçonaria, nomeações políticas, crise…
Desisto.
Coloco um CD: “Top Eurovisão”.
Venham de lá os ABBA, a Massiel ou a Dana Internacional para me animarem e darem forças para um dia longo de trabalho.

11 de janeiro de 2012 / 21.00h
Regresso a casa no meu carro. Felizardo.
Escolho um CD e ponho música. O corpo agora pede-me a voz da Kátia Guerreiro a cantar versos da minha conterrânea Florbela Espanca: “Rasga esses versos que te fiz amor…”.
Chego à janela e olho a lua.
Uau!
Grande, redonda, fabulosa…
Não há de facto luar como o de janeiro.
Momento perfeito de som e de olhar.
Menos mal que ainda não inventaram o ICBNA (Imposto sobre a Contemplação de Belezas Naturais e Artísticas) e a crise não chegou aqui.
Afinal há mesmo vida para além do deficit.
Pois há. Pena é ser tão pouca.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Casas surreais

O colorido das capas das revistas acaba sempre por chamar a minha atenção quando me dirijo à banca para comprar os meus jornais de fim-de-semana.
Hoje não foi exceção e apercebo-me que sem que eu tivesse dado conta do aparecimento ou meteórica ascensão, a pessoa mais importante por estes dias em Portugal é um tal de João M, M ao que parece de Mota.
As revistas destacam os locais que visitou, quem o acompanhou, o que comeu, bebeu e fez, um individuo cujo único “mérito” foi ter ganho o programa “Casa dos Segredos”, uma espécie de “Big Brother” de terceira geração, afinado à mais avançada e requintada mediocridade.
Ele domina e só não tem o pleno porque há princesas e infantas que sofrem porque os seus eleitos as traíram ou se apoderaram de bens de uma forma ilícita.
Sabendo-se que as revistas se limitam a publicar o que os compradores e os leitores gostam de ler, é fácil concluir que a maioria da nossa gente cresceu em altura, retirou as fraldas, a chucha, aprendeu a comer sozinho, mas jamais se desligou da leitura viciante das histórias da Bela Adormecida ou da Gata Borralheira.
Nos países com regime monárquico, o rol de príncipes, princesas, duques, duquesas e afins, fornecem histórias em número suficiente, histórias que no meu caso, confesso-vos, servem apenas para reforçar o meu total republicanismo e o meu asco pelo exercício do poder por pessoas não eleitas, para além do meu repúdio pelo estabelecimento de uma hierarquia social estabelecida por sangue ou matrimónio.
Em Portugal como não temos reis e príncipes, fabricamos as histórias em laboratório, colocando os sem escrúpulos e sedentos de fama, no interior de casas fechadas mas com janelas para o mundo, durante meses, construindo heróis a partir da mais elementar vulgaridade.
E envolvidos por estas Casas Reais ou dos Segredos, mas sempre Casas Surreais, continuamos a esquecer-nos de que são os valores do ser que fazem as boas pessoas e dão a marca de heroicidade ao carácter.
No passado dia 8 de Dezembro quando estava a participar na Eucaristia da Imaculada no Santuário de Vila Viçosa, reparei que o sacerdote ao iniciar a homilia se dirigiu em primeiro lugar a suas altezas reais, os Duques de Bragança, presentes na igreja e sentados em local de destaque.
Acho inacreditável como na Casa de Deus, ao celebrar a Morte e Ressurreição de Cristo, o maior lutador pela justiça e pela destruição dos poderes feitos e estabelecidos pelos Homens, se realcem estes poderes terrenos e muito pouco divinos.
Ou então serei eu que devido aos meus parcos conhecimentos de teologia, faço uma interpretação incorreta dos evangelhos?
Talvez, mas não me parece.

domingo, 1 de janeiro de 2012

2012 – Que não se nos morram os sonhos

Na manhã deste tempo novo, saboreemos a esperança de dias preenchidos de paz, dias felizes construídos pela nossa vontade e segundo os planos do coração.
Sejamos nós sem vergonhas ou medo e acreditemos com garra e com fé, que da coerência do compromisso com esta individualidade do nosso ser, pelas mãos estendidas em oferta, seremos com todos os demais, arquitectos de um mundo nascido das raízes da tolerância.
Amemos sem reservas. A nós, aos outros, a Deus e à vida.
Não coloquemos reservas e travões ao prazer, sinfonia nascida da harmonia perfeita dos nossos corpos.
Comamos, bebamos e não desperdicemos nem um só dos segundos em que a pudermos sorrir ou rir a soltas gargalhadas.
Não adiemos nada do que a vontade nos impõe fazer. O passado já foi e o futuro o que será não sabemos. Nem de recordações nem de hipóteses se faz a vida. Só o presente importa e vive-lo é viver a vida.
Façamos das palavras, dos gestos e das atitudes, a linguagem da alma e sementes da paz que queremos à nossa volta.
Ouçamos música, vejamos filmes, não adiemos a leitura de um livro e temperemos assim os dias com a perfeição e a magia da arte e dos artistas.
Cantemos, batamos palmas, façamos festa como se cada segundo fosse o último das nossas vidas.
Matemos a palavra desistir e avancemos sempre pela fé e pelo querer, enfrentando cada ocaso com a esperança da alvorada que se lhe segue.
Sonhemos muito e não deixemos que jamais se nos morram ou nos matem os sonhos. Eles, os sonhos, mesmos os mais loucos, são sempre o mote perfeito para se ser maior.
Feliz 2012.