quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A rosa Joaquina

Quem teve o privilégio de como eu ter uma infância feliz, por certo beneficiou da presença e das cumplicidades de uma pessoa como a minha tia Joaquina Rosa.
Irmã mais nova do meu avô materno, não quis o destino que gerasse os filhos que lhe permitissem cumprir a sua vincada vocação de mãe, mas como não era mulher de se deixar vencer, juntamente com o marido, o tio Zé, foi “adoptando” várias gerações de sobrinhos. Eu fui um dos beneficiários.
Na sua casa minúscula, o que faltava em espaço sobrava sempre em mimos e carinhos, expressões de quem muito ama e se despoja de si para antes de mais, fazer os outros felizes.
A tia Joaquina estava em casa nas suas lidas domésticas e o tio Zé trabalhava numa oficina de mármores algures a meio entre S. Bartolomeu e o Carrascal, manobrando uma máquina grande que polia as pedras. Quando o tio chegava a casa, ainda tinha tempo e forças para se sentar no quintal a fazer polidos cinzeiros de mármore que vendia com o objectivo de melhorar o orçamento familiar.
O jantar, de verão ou de inverno, era sempre pontualmente às sete e meia, sendo as ementas construídas pela bitola do nosso gosto, o que as tornava perfeitas. Um dia o meu irmão deixou-se embalar por esta perfeição das iguarias e afirmou que a tia Joaquina era a melhor cozinheira do mundo, no que constituiu um quase incidente diplomático entre tias e avós que competiam sempre para nos dar o melhor.
No fim do jantar levavam-nos a casa, não deixando nunca de cumprir aquilo que está escrito no mandamento que ordena que “os tios deixam fazer algumas coisas que os pais jamais deixariam”, como por exemplo abanar uma laranjeira da praça para que caísse algum fruto, acto que naquela época de liberdades restritas, era altamente punível e dava direito a multa e nome manchado.
Aos fins-de-semana era a “loucura total”: íamos a alguma festa que existisse nas redondezas no que designávamos por “ir ver as luzinhas”, passeávamos, víamos os jogos do Calipolense no Campo do Carrascal, sempre a ouvir o relato para saber quantos resultados tínhamos acertado no totobola e para nos assegurarmos que o Benfica ganhava…
Convém realçar que tendo um pai Sportinguista, o meu grande fervor Benfiquista devo-o em grande parte ao meu tio Zé. O Eusébio e a sua magia depois fizeram o resto.
Sempre que havia tourada, lá íamos nós até aos Capuchos. Comprávamos um bilhete dos mais baratos, para o sector do Sol, mas íamos cedo para arranjar um lugar mesmo colado à Sombra, o que nos permitia beneficiar da dita muito antes do espectáculo começar. Para a tourada e para os passeios levávamos sempre um lanche feito em casa, habitualmente composto por sandes, uma limonada num frasco grande vidro de rolha amarela (que resgatei e ainda hoje guardo em casa) e também algum bolo caseiro que a tia se tivesse entretido a preparar na véspera.
A tia Joaquina foi a melhor vendedora que conheci, com uma veia e artes fabulosas para o negócio, o que nem sempre lhe possibilitou ter êxito. Recordo-me de um verão em que se dedicou a preparar gelados de pudim nas formas de gelo do frigorífico, espetando-lhe depois um palito para imitar os sofisticados “rajás”, vendendo-os a dez tostões à rapaziada das redondezas. Esqueceu-se foi que de tanto abrir e fechar o congelador, rebentou com o motor da máquina e no final do verão teve de gastar o lucro dos gelados na compra de um novo frigorífico.
E assim crescemos, sempre confortados por esta grandeza das coisas simples.
O tio Zé partiu primeiro traído pelo coração.
A tia Joaquina viveu até aos 86 anos, batendo o record de longevidade dos meus avós e tios-avós, possibilitando que nós lhe pudéssemos retribuir com muito pouco o muito que ela um dia nos tinha dado.
Sempre doente, num caso claro de hipocondria em que o que mais a excitava nas suas consultas mensais ao médico era a descoberta de uma nova patologia que se tornava então no centro de todas as suas conversas, nunca virou costas ao bom que a vida lhe colocava pela frente.
Convidá-la para um passeio de automóvel, oferecer-lhe perfumes, lenços, roupa ou adereços para adorno, levar-lhe chocolates ou outros doces, era sempre algo que a fazia imensamente feliz e assumia-o não se negando e pedindo mais com o à vontade de quem está perto dos noventa e já dispensou legitimamente os filtros do que “fica bem”.
Assumindo-se sempre como mestra, sempre nos foi dizendo que o melhor tempo para viver era o presente, nem que ele fosse o dos oitenta anos e nos obrigasse a andar de bengala, e que nunca desperdiçássemos um minuto sequer da vida, deixando de o viver com a força e da forma que o coração nos mandasse.
Esta semana cumpriram-se os primeiros dez anos das nossas vidas sem a presença física da tia Joaquina e pensei muito nela, tive saudades de me sentar junto ao seu sofá, trono de rainha, para a ouvir, saudades de a beijar, de quase a sufocar a gargalhadas com as minhas palhaçadas…
E no meio da saudade, a certeza de que as pessoas que amamos e que nos amam, adquirem o estatuto de imortais porque para além de se perpetuarem nos nossos corações, eternizam-se em tudo aquilo que somos e que fazemos.

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