sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Estes dias perfeitos que alinham a vida com os sonhos

No velho Jardim Escola então à Rua dos Fidalgos, a Irmã Celeste ensinou-me as vogais ao mesmo tempo que me iniciou na arte e no prazer de tratar das flores e de muitas outras plantas, “colhendo” da terra os aromas através das diferentes ervas que plantávamos no pequeno canteiro.
No meu primeiro dia de aulas, 7 de Outubro de 1972, a Professora Eugénia Evaristo, minha professora apenas durante uma semana, ensinou-me que a letra “i” se assemelha a um foguete que sobe no ar, deixa um rasto de fumo no céu, e volta a descer novamente à terra.
O Professor Lima Martins, meu mestre durante todos os anos da Instrução Primária, tinha uma caixa grande de lata que continha dezenas de gravuras com paisagens, pessoas, animais, etc. De vez em quando retirava uma que pendurava no quadro convidando-nos a inventar e a escrever uma história com base naquilo que a gravura mostrava.
A D. Joana Ruivo tinha uma livraria que eu transformei na minha segunda casa. Das prateleiras que forravam as paredes eu ia retirando livros que lia sem escancarar e estragar as lombadas, sentado de forma muito solene num velho banco redondo de madeira pintado em tons de creme, a mesma cor dos balcões.
Durante anos dormi em casa da minha tia-avó Maria Teodora, irmão do meu avô materno, que era solteira e vivia sozinha depois da morte do seu irmão, o meu querido tio João. Não tínhamos televisão e os serões eram passados à conversa. E a tia, que de escrita só sabia assinar o seu nome, ensinou-me a contar histórias e ensinou-me a gostar de as contar.
Todos os meses em data devidamente assinalada num cartão, parava na placa central da Praça em Vila Viçosa, uma carrinha com a Biblioteca Itinerante da Fundação Gulbenkian. Levávamos três livros para casa que íamos lendo ao longo do mês.
Nas aulas de Português do Padre Mário Aparício, o melhor professor que tive em toda a minha vida, ao som de LP’s com óperas de Verdi ou Mozart, conheci e apaixonei-me pela escrita de Camões, Pessoa, Eça, Ferreira de Castro e tantos outros.
Quando estudante na Faculdade e nos sábados que passava em Lisboa, descia a Rua da Rosa, ao Bairro Alto, e, passando pelo Camões, vinha para o Chiado a fazer a ronda das livrarias. Numa dessas manhãs comprei o “Memorial do Convento”, de José Saramago, que li compulsivamente até à noite do domingo seguinte.
Também nesse tempo, não havia semana que não trocasse correspondência com o meu amigo Manuel que então estudava em Portalegre. Ainda guardo as cartas que recebia e que expressam pedaços de uma vida partilhada.
Vem desse tempo talvez, este gosto de juntar amigos e palavras, e jamais poderei agradecer a tantos que ao longo de toda a vida me foram dando as palavras para eu depois tecer por aqui em algumas linhas simples de memórias, de vida, de afectos, etc.
Hoje, dia 31 de Janeiro de 2014, recebi um e-mail que me comunicou ter sido aprovada a minha admissão na Associação Portuguesa de Escritores com o número de sócio 1338.
Há dias perfeitos, e eles são claramente aqueles que nos alinham com os sonhos e nos fazem mais próximos daquilo que gostamos de ser.
Partilho convosco esta alegria e esta honra, agradecendo todas as palavras que todos me vão dando através da vossa amizade.
E também partilho este dia com aqueles que por terem sido tão simples foram tão grandes mestres, e que hoje, estou certo, são comigo e por mim, anjos felizes que sorriem no Céu.
Ou não fossemos nós, afinal, o resultado de uma longa história tecida a momentos únicos de amor oferecidos por quem gosta de nós.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O verdadeiro artista

Na nossa festa de Natal de 1983, o Manuel vestiu-se de Filipa Vasconcelos, a Vacondeus ao estilo “O Tal Canal”, e apresentou a receita das panquecas que levavam Paprika e que eram feitas com uma massa que só estava em condições quando se colava à parede.
Eu, o Zé Maria e o Paulo Quinteiro fizemos de “Jaquina, Jaquina, Jaquina”, sendo eu a Jaquina Assalariada Rural, o Zé Maria, a Jaquina Doméstica, e o Paulo a Jaquiná loura que apresentava modelos numa passerelle improvisada no Salão do Lar Juvenil e onde o tema era as árvores de Natal.
Há uns três anos tínhamos descoberto o Tony Silva e a sua “Música Ró” enquanto assistíamos nas tardes de domingo ao “Passeio dos Alegres”, o programa que nos trazia as bandas do Rock Português com as cantigas que depois faziam sucesso durante a semana: Chiclete, Portugal na CEE, Rua do Carmo, Patchouli, Cavalos de Corrida…
Em 1990, trabalhava eu na Farmácia Universal em Lisboa, e tínhamos de estar de bata vestida e prontos pelas 8.50 horas, dez minutos antes da abertura oficial, tão só porque nesses dez minutos não teríamos condições para fazer algo mais para lá da audição das crónicas do Herman José na TSF.
E abríamos sempre a porta a rir, o que até era bom para os clientes que sempre nos sentiam muito mais simpáticos do que já éramos e somos. O pior era por vezes conter as gargalhadas quando algum cliente se assemelhava aos personagens da manhã.
Na passagem de ano para 1991, estando no Funchal com a família e uns amigos, dei juntamente com o meu irmão das melhores gargalhadas da nossa existência ao reencontrar muitos dos personagens da TSF num programa especial chamado “Crime da Pensão Estrelinha”.
Estas histórias expressam momentos muito especiais em que através dos seus “bonecos”, o Herman José me ensinou a mim e à minha geração, a rir, concretizando a liberdade de abril com um género de humor que estava muito para lá da brejeira e fácil piada revisteira e marialva, que era mais comum nos programas e espectáculos de então.
Nesta ruptura com o óbvio e o fácil, quantas vezes os mais velhos nos olhavam como tolinhos por nos estarmos a rir de coisas que até aí não entravam nestes territórios do humor.
O Herman José ensinou-nos a rir de nós próprios porque entre aquilo que somos e as pessoas que conhecemos e connosco se cruzam na rua há por certo uma Marilú, um Bernardo Teixeira da Cunha, uma Yvette Marize, uma Maximiana, um Menino Nélinho, um Nelo casado com uma Idália, um José Estebes, um Serafim Saudade, um Sr. Feliz, um Sr. Perdição, um Diácono Remédios, um Sr. Royal, uma Queca Gandarinha, um Felisberto Desgraçado, um Oliveira Casca, uma Ruth Remédios, uma Super Tia, um Melga e Mike, um Lauro Dérmio, um David Vaitembora, uma Mary Carmen, um Herman José Saraiva …
E quantos de nós passámos por estas décadas sem que nem que só por uma vez usássemos expressões como: “Eu é mais bolos”, “Cafézinho Cooooooooom Leite”, “E no repêto à correspondência…”, “Imeeeeensa paprika”, “Posso dizer uma quadra do António Aleixo?”, “Vamos lá cambada todos à molhada”, “Ora dá cá um e a seguir dá outro…”, “Paletes de gajas…”, “Não me chame condensa que me põe tensa”, “Adérito, filho, volta que estás perdoado”, “Verdadeiro artista”, “Saca o saca-rolhas e abre o garrafão”, “O que é isto? Estamos a brincar”, Sô Dona Pómira”, “Este homem num é do norte, carago”, “Verdadeiro artista”, “Não havia nexexidade”, “As opiniões são como as vaginas”…
Ontem fui assistir no Teatro Tivoli a uma gala de homenagem ao Herman José pelos quarenta anos de carreira.
Ri-me muito e tive a sensação de estar em família.
Afinal, conheço tão bem e sou tão íntimo de toda esta “gente” e de todos estes tiques e frases.
E depois, o homem que me ensinou a rir e que semeou este sentido de humor que dizem que eu tenho, e que é reconhecido como terapêutico pelos meus amigos (desculpem-me a imodéstia mas são eles que dizem), estava mesmo ali e quase cara a cara comigo.
Emocionei-me como sempre acontece quando somos confrontados com pedaços inesquecíveis da nossa história.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

ANA CRISTINA

Sempre que saiamos do nosso velho liceu à Porta dos Nós, traçávamos uma diagonal no Terreiro do Paço em direcção à Rua dos Fidalgos e parávamos algures nesta linha traçada pelos nossos passos, para contemplar uma senhora nogueira, árvore sem idade, que com altivez suplantava o muro branco caiado que unia o Paço Ducal ao Convento da Chagas, marcando a diferença numa praça onde impera a altivez algo mórbida dos ciprestes.
Era a nossa árvore, e por ela e pelas suas folhas presentes ou ausentes, saboreávamos todas as estações do ano, colhendo tantas vezes desse benefício único do pôr-do-sol, com os últimos raios a despedirem-se de nós por entre os seus ramos.
Quem nos visse um dia a falar para a nogueira seria até capaz de nos chamar loucos, desconhecendo que quem como nós cresce assim na companhia e na cumplicidade das árvores, aprende a não cair nunca, nem sequer quando morre.
E se cair significa negarmo-nos a nós próprios e matarmos os impulsos que são impostos pela vontade mais enraizada na alma, então não cairemos nunca.
Mesmo que nos chamem loucos, diferentes e excêntricos, nós estaremos sempre de braços abertos para viver cada pôr-do-sol no privilégio de saborear a mais doce liberdade.
Sempre com as contas em dia com o destino que nunca aceitamos imposto por nada nem ninguém.
Acontece ainda hoje tal como então, nesses anos em que crescíamos e em que por termos escolhido Inglês no Ciclo Preparatório, percorremos juntos toda a escolaridade com o Zé Joaquim, a Zé Ramalho, a Zé Bexiga, o Paulo Ratado e a Nônô.
Quantas histórias e quantos professores aterrados por tudo aquilo que de explosivo poderia sair das nossas cabeças inquietas que nunca deixavam de nos impor à boca: porquê?
Tivemos um professor de Português no oitavo ano que nos matava com o seu odor pois todos os dias despejava em cima dele um frasco do perfume “Amuleto”, do qual nunca mais pude nem sequer ouvir o nome, que conseguiu ter um sumário perpétuo ao longo de todo o ano: “Morgadinha dos Canaviais: leitura e interpretação”.
Íamos lendo o livro nas aulas e a diminuta formação dele em Língua Portuguesa apenas permitia que a interpretação fosse feita através do conteúdo, muito mais do que na forma, pelo que acabámos a discutir as vantagens dos colchões de penas, a sepultura fora das igrejas, etc.
Tu comias folhas de papel nas aulas dele e com uma convicção inabalável conseguiste convencer a criatura das vantagens de tal “manjar” sobretudo tendo em conta o necessário aporte de fibra que o organismo agradece para funcionar melhor.
Com a mesma convicção conseguiste convencer alguns amigos das vantagens de ingerir pétalas de rosa que colhíamos de uma roseira em tom grená que existia no pátio da casa da família Portas.
Fizemos teatros malucos como “O Discurso do Tonecas” em que tu eras par do João Paulo no casal Santos e Sousa, levando tu a estola de raposa da tua avó e ele, o fraque azul-escuro do casamento do teu pai; apresentámos trabalhos em folhas pretas escritas com lápis de cor branco, e ficámos por isso com calos nas mãos; fazíamos torradas colocando as fatias de pão ao lume numa frigideira; partimos uma chávena no celeiro do Sr. Domingos numa altura em que arrumávamos as caixas para montar a sede de um clube de amigos ao estilo da Enid Blyton; revirávamos as pálpebras só para amedrontar uma professora que tivemos no Ciclo Preparatório; recorríamos ao “The wall” dos Pink Floyd para “chatear” os professores mais aborrecidos; procurávamos subterrâneos e tesouros escondidos em todos os recantos do Convento das Chagas; inventávamos histórias de arrepiar que quase convenciam toda a gente nessas tardes quentes de Vila Viçosa em que bebíamos refresco de café e comíamos uma fatia dos bolos que mais ninguém faz como a tua mãe…
Ríamo-nos muito na maior cumplicidade e, com a companhia das árvores e do campo por onde passeávamos, nunca virando as costas à ousadia dos sonhos, que ainda hoje, eu por palavras e tu por traços e cor, soltamos sem medo porque são parte integrante de nós.
Um dia, na altura em que transformaram o Convento das Chagas em Pousada de Portugal, abriram um portão junto à nogueira e deixaram ver que junto a ela passa uma ribeira que corre todo o ano para alimentar o “viço” que dá nome à nossa terra.
Passei então a conviver de perto com o tronco da nossa árvore e a alimentar-me da paz que o som da ribeira me transmite.
A ribeira que nunca pára, que vive uma crónica inquietação, é afinal fonte de paz.
É como nós.
Estamos em paz quando estamos inquietos, algo que só soa estranho a quem não nos conhece.
E siga a nossa amizade.
Parabéns Tina. 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Existirão dias que sepultam as palavras de amor?

Há sempre um dia em que o poeta desce do onírico estado da sua paixão e, nem que por segundos apenas e devolvendo-se à sua banal condição de Homem, descobre por uma racional lucidez, que as palavras que teceu a partir da alma e às quais ofereceu um intenso aroma de flores, jazem no despejo, na sarjeta da indiferença do destinatário do seu amor.
Até pode chorar então o poeta, despudorada criatura que travões não sabe assumidamente colocar sobre todos os gritos e sobre a dor que o seu ser lhe impõe.
E no regresso inevitável à sua natureza de crónico sonhador, quantas vezes o poeta recicla o “lixo” que encontrou no hiato em que foi apenas Homem, e solta novas palavras, novos poemas, tão-só por acreditar que a dor de ontem jamais existiu e é assim uma banal mentira.
É a recaída crónica do poeta, patético e ridículo na inveterada miopia racional de vislumbrar que a sua fé assenta no delírio de confundir, ver e sentir incenso, naquilo que é afinal o pérfido e asqueroso aroma do real e efectivo esterco a que devota tanto amor.
Porque o poeta é aquele que ama, e quem ama vê tudo o que deseja e muito quer… até mesmo onde nada existe.
Ou então onde existe apenas tudo aquilo que a vida tem de pior.
Mas de dor em dor, e pela intensidade com que dói a indiferença, até o poeta consegue um dia calar e matar este seu amor.
Apaga as palavras?
Deixa secar-se por dentro?
Renega a fé e devolve-se à condição de apenas Homem?
Não.
Jamais.
Com a morte da sua natureza morreria o próprio poeta.
Por isso sobrevivem as palavras…
Continua a borbulhar por dentro a fonte incessante de todos os sentimentos…
Persiste a fé e sobrevive o poeta.
Apenas deixou que o sol levasse de vez num ocaso, todos os despojos de um velho amor, trazendo consigo reluzente no brilho de uma nova manhã que sorri a oriente, a perfeição de um novo, intenso e muito secreto amor.
Nessa manhã, e mais do que nunca, soltará o poeta ao sol todas as palavras, nem que para isso tenha de rasgar as nuvens.
E as palavras dos poetas cheiram sempre a rosas.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Os divórcios inevitáveis

Há momentos na vida em que a existência de uma Maya cartomante dentro de nós, com ou sem lipo-aspiração e outros quaisquer tratamentos estéticos no sentido de aumentar e dar nova forma aos seios; mas com a garantia de uma eficácia de 100% nas previsões, nos daria um jeitão para nos poupar a alguns dissabores na hora de escolher um marido ou uma mulher, melões e melancias, mangas, Presidentes da República, Primeiros-Ministros, Presidentes de Câmara, etc; e até poder dar-nos algum desafogo económico, por exemplo na hora de escolher uma raspadinha ou preencher o boletim do Euromilhões.
Às vezes aproximamo-nos dessa condição de prever o futuro.
Uma amiga confessou-me que ao chegar à igreja vestida de noiva e de braço dado com o pai, já com todos os convidados dentro da igreja para assistir ao seu casamento, no instante em que lhe escancaram as portas do guarda-vento e viu ao longe a talha do altar-mor pensou de si para si:
- Bolas, tens feito muitas asneiras mas hoje acho que exageraste. Isto não vai dar certo.
Esteve casada três meses, o que comprova que a previsão que fez do cataclismo foi certeira, muito possivelmente por ser demasiado óbvia e fácil à luz da mais pura racionalidade, mais até do que daquela intuição de que o género feminino costuma fazer bandeira.
Também há outras situações em que o próprio não consegue prever nada mas se acedesse à informação e à opinião dos que o rodeiam, por certo se pouparia a alguns dissabores.
Também pelo Alentejo e há alguns anos, a meio de um banquete de casamento, naquela fase em que já toda a gente almoçou e a “malta” aproveita para ir ao café tomar a bica, e as senhoras que sofrem dos joanetes vão a casa mudar de sapatos, fomos encontrar a nossa amiga, a noiva, sentada sozinha no meio do salão com um ar muito triste.
Quando lhe perguntámos pelo noivo, a resposta foi pronta e certeira:
- Foi visitar o Paço Ducal com uns amigos da terra dele que convidou para o casamento.
Estava na cara.
Só ela é que não conseguiu prever aquilo que todos antecipámos logo ali: o casamento durou dois ou três anos.
Fazendo uma extensão desta muito pessoal necessidade de uma Maya para podermos prever o futuro no contexto das nossas vidas privadas, para a gestão do país e para a previsão do défice das contas públicas, fico na dúvida se é genética esta lusa incapacidade para acertar.
Na maior parte das vezes o défice fica acima do acordado com os credores e no ano passado parece que ficou objectivamente abaixo porque nos “sacaram” mais dinheiro no pagamento do IRS.
Todos os “irrevogáveis” ministros se congratularam com a situação e puseram ar de festa, esquecendo-se que esta música foi tocada por cima da nossa pele em pose dolorosa de bombos… com pancadas extra que seriam perfeitamente evitáveis.
Haja decência.
Nas histórias, os heróis nunca são os vilões, os que erram por excesso ou por defeito, muito pelo contrário, são as vítimas que dão a sua vida no patrocínio a uma causa.
O seu a seu dono e curvem-se os políticos todos perante nós, os verdadeiros heróis anónimos assinalados não por medalhas ou condecorações, mas tão-só pelos recibos de ordenado.
As Mayas até podem ser necessárias para escolher melancias ou para a sorte do Euromilhões, mas para a gestão da vida privada ou para a gestão de um país, elas são perfeitamente dispensáveis à luz da racionalidade que no caso da vida privada fica às vezes beliscada pela dormência do amor e da paixão, e no caso da gestão de um país pela falta de competência.
Não tiveram nem um “feeling” na hora em que vos escancaram a porta com vista para o altar onde nos imolaram?
Agora não se admirem se isto resultar em divórcio… 

domingo, 26 de janeiro de 2014

O deserto e a tarde pela cidade

Que deserto maior poderá existir do que a errância de um homem solitário que descrente abandona os passos à mercê do desconhecido e dessa baixíssima probabilidade de acerto com o destino e a vontade impostas pela sua alma desassossegada.
E o oásis que nunca chega na sorte que alinha a vida com este sonho tão nosso que a alma sempre encerra, e é inerente à condição de estar vivo e ser pessoa…
Há pombos que esvoaçam em bando rasgando a maresia, essa fresca brisa que empurra a gente para o interior aquecido do café onde o tilintar das chávenas e o ruído das vozes patrocinam uma estranha e desacertada sinfonia.
O balcão corrido é a companhia disponível para os solitários, os que não irão jamais temperar de palavras o quente sabor da bica, os que ficam ainda mais tristes no instante em que se voltam para a parede, viram costas à algaraviada das mesas onde borbulha o calor dos afectos, e ficam expostos e à mercê da antipática mulher desprovida de sorrisos que mais parece uma impessoal máquina de transportar chávenas… e fazer trocos.
Restam os pensamentos para acompanhar a bica.
E resta o amor, que amor mais perfeito não pode existir do que o do homem solitário, aquele amor que existe pela força da vontade e do querer, o amor que até pode nascer da genética de uma pura ilusão, mas que por ser desprovido de nome, rosto ou outros mundanos detalhes… e quiçá defeitos, não vê beliscada a divina condição que o faz eternamente perfeito.
Por muito próxima que a concretização se aproxime da nossa vontade, a forma asfixia e reduz a dimensão enorme que um sonho sempre encerra em si mesmo.
Assentou bem o café ao homem que se devolve às calçadas da cidade e que agora quase inexplicavelmente consegue sorrir.
Os passos ainda seguem errantes…
Os pombos continuam a esvoaçar loucos por sobre a sua cabeça…
Persiste um certo sabor a deserto neste seu solitário passeio pelo domingo da cidade…
Mas faz-se oásis, a sorte que pelo amor mata a solidão e a substitui pela mais legítima esperança.
Afinal já é quase noite e o nascer do sol em breve trará um novo dia, e quiçá seja amanhã… o tal dia.
É sempre pela fé nos sonhos que seguimos, qual coração a bombear sangue pela vida que não pára.
E sorrimos.
Até mesmo quando não acontece nada e em verdadeiro estado de auto-suficiência deixamos que tudo aconteça na intimidade tão secreta de nós próprios.
Bastamos nós, pela força do pensamento e pela fé no amor, para que se prepare a alquimia doce de acreditar que um dia...
A bica às vezes dá uma ajuda.

sábado, 25 de janeiro de 2014

A humildade segundo Francisco

Uma das pessoas mais conflituosas do meu círculo de relações pessoais afirma ser santa, dando como prova da sua santidade, a incompreensão de que é vítima por parte de todos os que a rodeamos, ela, o único e real epicentro da razão e da verdade.
Descolei hoje este “cromo” da minha caderneta de relíquias porque me parece não ser um caso isolado no contexto actual das “Olimpíadas da Humildade” que foram informalmente abertas na Igreja Católica depois do Papa Francisco se ter sentado na cadeira de São Pedro, estando continuamente a fazer-nos o apelo a nós católicos, para que pela humildade nos aproximemos Daquele que por ter sido O mais humilde, foi O maior de todos: Jesus Cristo.
E toda a gente de repente virou “supé humilde e amiga dos pobezinhos, tá a ver?” numa competição que promove desde logo o homicídio da humildade, pois se eu afirmo que sou mais humilde do que tu, já não estou a sê-lo.
A vaidade é o puro veneno da humildade.
Há alguns dias, um padre meu amigo de há muitos anos e pessoa que muito estimo, afirmou que lhe parece algo estranho, ouvir os ateus a citar tantas vezes o Papa Francisco. A mim também. Mas às vezes ainda me parece mais estranho ouvir alguns de nós católicos a citá-lo.
É que falamos da humildade com a mesma convicção e a mesma expressão de verdade com que um judeu fala dos benefícios da não circuncisão e da ingestão diária de carne de porco.
Soa a falso.
É um pouco como o banquete em casa de um novo-rico em que está tudo tão bonito e tão chique mas só até ao momento da refeição em que o dono da casa começa a limpar as unhas com uma das pontas do garfo de prata.
Ténue manto diáfano da hipocrisia por sobre uma vaidosa verdade que roça a sobranceria.
No fundo, e talvez esse seja o nosso grande problema, todos consideramos estar mais próximos da santidade do que os demais, um pouco ao melhor estilo do meu “cromo”, correndo até o risco de ao morrer podermos entrar em órbita se o São Pedro não nos deitar rapidamente a mão, tal a velocidade que levamos na elevação ao Céu.
Num outro dia durante o almoço de uma festa de amigos, estive uns minutos à conversa com uma conterrânea minha que professou nas Irmãs Hospitaleiras e vive aqui por Telheiras onde se encontra a estudar enfermagem não por qualquer projecto pessoal de desenvolvimento mas tão-só porque precisa dessa formação para ajudar quem precisa.
O “nós” a suplantar o “eu” na naturalidade e no exemplo, que não por palavras de auto-elogio e vitimização, na acção dos verdadeiros heróis da fé que apesar das “obras valorosas” jamais repousarão nos panteões das vaidades dos Homens.  
Eu quando um dia for grande gostava de ser só um pouquinho como ela, porque acho definitivamente que é dessa humildade que fala o Papa Francisco e é ela que verdadeiramente nos aproxima de Jesus Cristo.
É pois tempo de a calar como palavra escrita, dita e repetida a letras nos púlpitos e nas sacristias, colocando-a viva e por exemplos nas ruas, no trabalho e em todos os sítios por onde passamos.
Como dizem os Espanhóis: “todo lo demas son tonterias”.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Vodka, baldas e… praxes académicas

Jamais esquecerei os anos que entre 1984 e 1989 passei na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa.
Para além de toda a formação de qualidade que aí recebi e que me “moldou” como profissional, tive o privilégio de conhecer colegas com quem partilhei muitíssimas horas de muito para lá do estudo, criar cumplicidades num tempo em que a liberdade em Portugal ainda era uma adolescente, e fazer com eles a descoberta de um mundo que se preparava para deixar cair muros e relançar a esperança.
Muitos de nós estávamos deslocados, a viver numa cidade muito maior do que as nossas terras do interior onde permaneciam os nossos pais, e fomos criando uma nova família à volta das mesas das cantinas universitárias onde sempre almoçávamos e jantávamos aquela bendita solha frita.
Brincávamos muito, tivemos direito a uma aula falsa no primeiro dia na faculdade, queimámos o “grelo” e benzemos as fitas, mas sempre a cantar e a fazer festa.
E foi suficiente.
Chamo hoje até aqui estas memórias para vos dizer de caminho que detesto as praxes académicas e que acho inacreditável como as “academias” toleram este tipo de actividades que beliscam a dignidade dos alunos.
Não tolero cortejos académicos patrocinados por marcas de cerveja e outras bebidas, as “latadas” e as infinitas semanas de festa que se destinam apenas a camuflar o desejado consumo excessivo de álcool, de sexo e de todas as outras coisas ao melhor estilo da “Casa dos Segredos”.
Acho ridículas as tunas, agremiações universitárias semelhantes a “Ranchos Folclóricos das Universidades” onde a brejeirice se confunde com a ousadia e a liberdade com o exercício de uma intolerável falta de educação e de respeito por tudo e por todos.
E esta minha avaliação não a faço por estar velho, faço-a na posse de todas as minhas condições físicas e mentais, apelando à sensatez, que é algo que muito prezo.
Em Portugal e em pleno Século XXI, o retrato robot de um estudante universitário é um “gajo” vestido de preto que consome álcool em excesso, que faz noitadas, canta e baila em infinitas festas e que conhece melhor as marcas de Vodka ou de gin do que qualquer matéria que conste nas sebentas, nos livros ou nos jornais.
De passagem faz uns exames para conseguir um diploma, que isso sim interessa muito mais do que aprender seja o que for.
Afirma que livros ou jornais são objectivamente uma “seca”.
Experimentem a perguntar-lhe se conhecem a “Absolut” ou o Saramago e vão ver que a primeira todos conhecem, mas o segundo…
Sei do que falo, tenho provas muito concretas entre amigos, mas também conheço gente, filhos de amigos e meus amigos que estão nos antípodas destes comportamentos, sendo a óbvia excepção que sempre confirma a regra.
A regra da imbecilidade que ao longo dos anos tem ferido a dignidade de jovens e famílias com real impacto psicológico e físico em pessoas que deveriam estar tão-só a viver os melhores anos da sua vida.
Ninguém sabe o que verdadeiramente se passou na Praia do Meco na noite em que morreram seis jovens levados por uma onda.
Talvez nunca se venha a saber.
Mas basta a suspeita para que se tome uma atitude e as universidades públicas e privadas têm a obrigação de a assumir condenado e matando este tipo de praxes inadmissíveis.
Uma universidade educa e educar é cultivar valores e ensinar a distinguir o certo do errado à luz do respeito que todos os Homens nos merecem.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

CONCEIÇÃO

Modernos e sempre muito à frente do nosso tempo, passámos grande parte das férias do Natal de 1981 a ensaiar uma dramatização do poema de Jorge de Sena “Natal de 1971” (“Natal de quê? De quem?”).
Com os timings definidos para a música e para o texto de cujos versos distribuímos por todos, definitivamente a parte pior foi a gravação das nossas vozes. Foram tardes inteiras passadas ao redor das aparelhagens existentes nas salas de toda a gente, e havia sempre alguém que não dava a entoação certa, que tossia, que dava uma entoação apatetada que nos fazia rir, alguém que se esquecia de entrar no tempo exacto…
E acabávamos sempre a rir, a fazer grandes lanches e a programar nova sessão para o dia seguinte.
Mas um dia conseguimos terminar a “banda sonora” e a encenação que fizemos para os nossos pais e amigos na Igreja das Chagas resultou num rotundo sucesso.
Tu entravas ao som de uma música muito alegre, vestida de palhaço e a brincar com uma caixa enorme que simulava um presente. Ao abrires a caixa, a música “entristecia” e surgiam então quatro amigas vestidas de negro que ofereciam gestos e poses às palavras do poema que nós, verdadeiros “Mários Viegas” da Planície, dizíamos afinal tão bem.
Até conseguimos desgrenhar e vestir de preto a nossa querida Irmã Irene.
Fui buscar esta história e pu-la aqui no dia do teu aniversário porque esta encenação “encarna” exactamente o inverso do que é a tua vida… e afinal um pouco a vida de todos nós, os amigos que um dia ousámos sonhar juntos num grupo a que chamámos Sementes de Esperança e do qual tu foste a primeira presidente eleita.
Os “anos do palhaço” e da música alegre, inevitavelmente com muito Disco sound e Rock n’ roll nas inesquecíveis festas de aniversário (e as da vossa casa eram sempre as melhores) vivemo-los na expectativa de um enorme presente que surgiria algures no tempo quando crescêssemos.
As voltas que então demos à “caixa”, prefácio do que seriam as nossas vidas, foram em conjunto e no meio da maior amizade do planeta, nos nossos encontros nas quartas-feiras à noite na garagem do Padre Reia; nos encontros na Senhora do Monte da Virgem, na Serra d’Ossa; nos piqueniques na Fonte dos Castanheiros, na Tapada; dos passeios ao Bosque de Borba; na espera ao Papa João Paulo II agarrados às grades metálicas que nos puseram na Avenida; em Fátima nos Encontros Animação Nacional onde um dia subiste ao altar com o João Canha para de camisola amarela cantarem os versos da Diocese de Évora; na confecção de um bolo de aniversário com dezenas de quilos para comemorar os 2000 anos de Nossa Senhora, liderados então pela nossa querida D. Mananinha; nos Convívios Fraternos em Évora ou em Proença-a-Nova; nas Férias Missionárias…
Sempre e em tudo com a seriedade que nos ensinavam em casa e que era reforçada por esse inigualável beneficio do convívio com tantos mestres extra que a vida nos facultou: o Padre Zé Luís, o Padre Armando, a D. Bárbara Elisa, o Padre Simões…
E um dia crescemos mesmo e a caixa dos “anos do palhaço” abriu-se definitivamente sem que daí surgissem figuras negras, muito pelo contrário, surgiu a festa.
Espreito para a festa que brotou dessa “primavera” que partilhaste connosco, quando nos encontramos todos, e muitas vezes à mesa do Restauração para um café depois da missa das onze e meia em S. Bartolomeu.
A festa tem o teu sorriso, o do Luís, do Pedro, do Francisco e da fantástica Isabel, que apesar de não querer, para mim será sempre a “Mafalda Veiga do Carrascal”.
Quais gestos ou figuras negras?
Exactamente o contrário.
Porque, se é verdade que quem semeia ventos colhe tempestades, também sabemos que quem vive intensamente a primavera, jamais perde o benefício do “vício” de ter flores… até quando os dias são mais tristes e é inverno, ou quando a saudade se impõe e ganha o salgado gosto que lhe oferecem lágrimas.
Foi esse o nosso segredo: fomos imbatíveis na forma tão intensa com que enfrentámos a primavera.
São, muitos parabéns pelo teu aniversário e por estes afinal tão poucos anos relativamente ao muito que mereces viver.
E desculpa o título de “Conceição”, mas nesta ronda pela amizade em 2014 não vai haver diminutivos ou alcunhas, só nomes de baptismo, que eu bem quero fugir do meu Quim… Barreiros.
Para terminar não resisto a chamar novamente à liça o grande Jorge de Sena, mas desta vez com um poema (Ode ao futuro) que definitivamente tem muito mais a ver contigo e que por isso te dedico a ti, ao Luís e ao trio fantástico das vossas “flores”:
“Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.”
Algures em Vila Viçosa e ali para os lados do Carrascal.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Essa tão “descartável” leveza do ter… e do ser

Uma amiga que se apercebe pela manhã que uma malha das meias fugiu para lá de Marte, vai de seguida à loja dos Chineses, e há sempre uma loja Chinesa em qualquer esquina; comprar outras semelhantes e, de imediato, deita estas para o balde do lixo.
Há alguns anos até poderia ir comprar outras para usar no momento (dificilmente a uma loja Chinesa) mas guardaria estas para levar mais tarde a uma daquelas senhoras que com muita paciência e um pequeníssimo aparelho iluminado por um candeeiro, se dedicavam a apanhar malhas de meias.
O conceito de descartável talvez seja um dos ícones do nosso tempo, umas vezes com mais justificação pela necessidade do que outras, e daí que uma semana sem recolha de lixo ponha os passeios intransitáveis, tal a quantidade de desperdícios que cada ser “cospe” para o planeta no seu dia-a-dia.
E quem fala de meias de senhora pode falar de uma infinidade de outras coisas…
Antes íamos ao pão com uma bolsa de pano que era lavada periodicamente e poupávamos assim na quantidade de sacos de plástico.
O mesmo acontecia com as outras compras de mercearia ou supermercado transportadas em alcofas e outros apetrechos resistentes e duradouros.
As fraldas para os bebés eram de pano e lavavam-se com sabão para nova utilização. Os mais supersticiosos não as punham a secar à lua porque se dizia que elas transportariam a lua para dentro das crianças, fosse lá isso o que fosse.
Não havia pensos higiénicos e as senhoras tratavam dos “incómodos” do ciclo menstrual com panos laváveis e reutilizáveis. Desconheço se os punham à lua e se o satélite natural da terra poderia de alguma forma incomodar as senhoras…
Os guardanapos também eram de pano assim como as toalhas de mesa dos restaurantes.
As garrafas de vinho, de refrigerantes, do leite e até os garrafões de água, eram todos de vidro e entregavam-se nas lojas e nos cafés para ser reutilizados. O vasilhame tinha um valor definido que era pago como caução.
Bebia-se sempre a água por copos que até poderiam ser de plástico mas que tinham sempre uma resistência que possibilitava a sua lavagem e reutilização. O café era sempre bebido em chávenas de porcelana que depois eram devidamente lavadas. E mexíamos o açúcar com colheres de metal também reutilizáveis.
Nos hospitais, os materiais cirúrgicos e de penso eram tratados em auto claves e reutilizados sempre que possível. Sempre que ia ao Centro de Saúde lá via a Irmã Madalena com uma pinça a tirar as agulhas de um grande caldeirão de material esterilizado.
Em casa, qualquer avaria num electrodoméstico ou até numa qualquer peça de mobília implicava o recrutamento de um técnico especializado e só perante o diagnóstico irreversível de morte se passava à fase de compra de novo material.
Não existia o IKEA e esse conceito de mobília para uma temporada.
A roupa também transitava entre gerações e a ideia da ZARA e da roupa que não aguenta mais do que uma estação, não passava sequer pela cabeça dos futuristas que viviam vidrados no 2001 – Uma odisseia no espaço.
Ganhava-se um relógio quando se concluía com êxito o exame da 4ª classe, instrumento que mantínhamos no pulso durante décadas não tendo essa pretensão tão Swatch de combinar relógios com roupa e com moda.
Lentes de contacto, óculos, unhas, babetes, cuecas, lenços de assoar, máquinas fotográficas, isqueiros, talheres, formas para bolos, chinelos, cartões de crédito… Tudo isto já existe em versão descartável.
E não só aos objectos e aos alimentos e acessórios se aplicava um outro conceito…
Não se abandonavam pais e avós nas urgências dos hospitais para se poder ir de férias para algures no planeta, tratar dos familiares doentes fazia parte das prioridades das nossas vidas, fazia-se um esforço por conciliar os nossos tempos livres com os tempos livres dos nossos filhos, não se abandonavam animais na berma da estrada.  
Os afectos eram definitivamente mais estáveis no tempo em que a Fidelidade não era só uma companhia de seguros, e talvez não se trocasse tão facilmente de companheiro ou companheira só porque a determinada altura aparecia alguém do outro lado da linha a dizer:
- Oi cara, vamos “transar”?
E isto, quer estivéssemos a falar de reis, princesas ou plebeus, incluindo nestes últimos alguns Presidentes da República dados a fazer passeios de scooter pela manhã (por volta das onze).
Até os políticos se mantinham mais fiéis às ideologias e conseguiam dar a cara por algumas misérias que faziam. Eram bastante mais raras as transições entre partidos que hoje são feitas ao ritmo das transições de jogadores entre clubes… e sempre pelo inevitável dinheiro.
Dir-me-ão que depois do “bom dia” de ontem eu levo Janeiro numa onda demasiado saudosista.
Garanto-vos que não, até porque já fui muito mais velho do que sou hoje. Não é verdade Helena?
Apenas me deixei ir com os amigos ao ritmo da malha da meia da minha amiga que fugiu durante o momento do café.
Mas que há coisas que deveriam continuar a não ser descartáveis, lá isso há.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Olá, muito bom dia!

Sou definitivamente um “rapaz” do campo.
Não levo a afirmação ao extremo do Herman José há alguns anos na versão Yvete Marize quando afirmava ser uma rapariga campestre porque no campo se tinha feito moça e porque tinha perdido a sua inocência num monte de feno após uma intervenção do primo Adérito entretanto emigrado para a Alemanha…
Mas sim, sou do campo, sobretudo no que diz respeito a não me negar a saudar qualquer outra criatura que num determinado momento se cruze comigo num espaço muito específico, por exemplo no elevador do prédio onde todos somos vizinhos.
Sei que exagero pois este não é definitivamente um comportamento exclusivo do “campo”, embora nós no espaço rural nunca nos neguemos a cumprimentar mesmo um desconhecido que seja; esta é acima de tudo uma questão básica de educação, e obviamente que nos meios urbanos há infinitas pessoas educadas que aplicam com esmero todas as regras de uma refinada e boa educação.
O que é certo é que ultimamente, e sem que eu tenha perdido qualquer volume que me possa ajudar a camuflar entre o vapor de água existente na atmosfera, ou mesmo sem que tenha ocorrido o milagre de me transformar em transparente ao estilo do Homem Invisível, em múltiplas ocasiões fui confrontado com pessoas que nas circunstâncias acima se comportam como se eu e as outras criaturas que possam estar presentes, pura e simplesmente não existíssemos.
É que nem olham para nós.
Eu já não digo que estabeleçam connosco aqueles diálogos destinados a preencher o silêncio sem o interesse de dizer algo de útil à humanidade. Os diálogos do tipo:
- Bom dia. Então como vai?
- Bom dia. Ora cá vamos indo com o que vamos engolindo.
Ou então do tipo:
- Bom dia. Então como vai?
- Bom dia. Vamos indo menos mal. Vamos lá ver se o dia se aguenta sem chover…
Também não é necessário exagerar, mas um “bom dia” ou uma “boa tarde” mesmo sem mais conversa não custam nada e são super agradáveis no fomentar da boa vizinhança e do bom convívio entre vizinhos, conhecidos, colegas, etc.
Ainda por cima estes cumprimentos e estes pequenos acenos de simpatia são uma das pouquíssimas coisas que não foram alvo do memorando estabelecido com os nossos credores da celebérrima Troika, e não são por isso taxados com IVA.
Não sei se este é o principal motivo para semelhantes comportamentos e para este “downgrade” no nível médio de educação, admito que haja muitas razões para tal, mas por vezes dá-me a sensação de que as pessoas quando saem das suas casas pela manhã fazem-no com um espírito tão acérrimo de guerrilha que a vida mais parece uma eterna competição onde estamos todos, uns contra os outros a competir para um troféu.
E nesta guerra, sorrir ou dedicar algumas palavras ao “adversário” podem ser sinais de fraqueza que jamais poderemos dar pelo risco de haver forte penalização no final do “jogo”.
Se é este o motivo, então eu estou completamente perdido pois digo sempre “bom dia” mesmo quando sei que provavelmente não terei resposta e quando suponho que os meus “interlocutores” me chamarão mentalmente “campónio”, antiquado e, possivelmente, excêntrico.
Mas talvez esta gente viva e morra sem saber que na vida os melhores troféus são os sorrisos que trocamos mesmo com alguém de quem não conhecemos o nome ou a história.
Temos pena.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Domingo

Gosto destas manhãs que dispensam o relógio e que nos deixam o despertar apenas à mercê do sol que de uma forma mais despudorada, ou então tímida, quando se esconde por detrás das nuvens, sempre nos dispensa uns raios de luz que penetram pelas frestas maiores ou menores das nossas janelas…
Tenho dificuldade em resistir ao “chamamento” do sol pela manhã.
Hoje, não tenho quaisquer outros compromissos, senão apenas este saborear de todos os minutos de um domingo, talvez em toda a semana, o dia por excelência e o maior fornecedor de “momentos gourmet”.
E por mais domingos que passem e mais locais que visite, o meu domingo terá sempre aquele cheiro de Alentejo quando ao chegar à cozinha para o pequeno-almoço com o “brinhol” que a mãe comprou cedo no mercado à nossa prima Hermenegilda, quando regressava da missa da Misericórdia, as carnes já cozem ao lume para que mais tarde ao almoço e com a bênção de um ramo de hortelã junto aos pedaços de pão se possam fazer umas apetitosas “Sopas da Panela”, antecâmara da canja que nos fará companhia mais tarde quando chegar a hora do jantar.
Hoje, estes cheiros, só na memória que nunca se apaga.
Sou dono do meu tempo e dispenso o GPS quando agarro o volante e me faço a sul pela auto-estrada quase deserta e, rio a rio: Douro, Vouga, Mondego… quase como se de uma corrida de barreiras se tratasse, acabarei por chegar e ver Lisboa.
O som do rádio não me interessa, nem quando repete as notícias que para mim já o não são pois ouvi-as logo pela manhã; nenhum CD dos que tenho no carro me agrada, e escolho por isso o silêncio que me põe os pensamentos à mercê do que a berma do caminho me reserva.
Às vezes o pensamento impõe-me que cante:
“Minha raiz de pinho verde, meu céu azul tocando a serra…”
E na “desfolhada” deste caminho beneficiando do impulso das letras de Ary, em breve chegarei à Serra de Aire, imponente no verde da urze, e entretenho-me contando histórias que dão forma e nome às sombras que as nuvens impõem sobre ela: um pastor, um lobo…
Um pouco antes, em Fátima, também veio do Céu a inspiração, mas por via da fé e rezo uma Ave-Maria.
Mais tarde, já pela noite, nos Jerónimos continuarei a rezar.
Paro para tomar um café na Área de Serviço quase vazia de gente. Estou eu e um grupo de quatro pessoas muito mais novas e que por certo vão atrasadas para algo, são a personificação do stress, verdadeira contra-natura num dia assim.
Não vejo Lisboa mas vejo o Atlântico na zona de Oeiras quando já me preparo para chegar a casa.
As nuvens oferecem ao mar uma raríssima e fantástica palete de tons cinza e prata.
Azul, só na memória de um olhar.
A casa espera-me mas eu atraiçoo-a rapidamente pegando no meu cachecol sempre guardado no Altar Benfica aqui do escritório e rumando ao Estádio da Luz.
Preciso gritar golo… ou se não houver golos, pelo menos praguejar contra o árbitro.
Vou pelo IC19…
Que bom haver domingos, para tudo e para que a semana nos possa devolver a nós próprios.

sábado, 18 de janeiro de 2014

A imbecilidade das “Jotas” no país que pede pão

Foi num dos dias desta semana e aconteceu quando fui fazer umas compras ao supermercado onde vou habitualmente. Um homem alto e magro aproximou-se de uma senhora que arrumava as suas compras no porta-bagagem a pedir-lhe algo.
À distância de uma dezena de metros, só depois de ela lhe ter dado um pão que ele começou imediatamente a comer de uma forma sôfrega, me pude aperceber da natureza do pedido.
Este é apenas um episódio mas quem circula pela cidade e não se olha apenas ao espelho usando os vidros das montras mais caras de uma face que é apenas da riqueza de muito poucos, tem a possibilidade de ir coleccionando momentos destes que lhe comprovam a agonia real do país.
E a agonia do país é tanto maior quanto quem o lidera está mais preocupado, imagine-se, em acertar as contas com o proprietário de um restaurante que serve repastos de leitão, ou então a gastar milhões de Euros para fazer um referendo onde se questionam os óbvios direitos de igualdade que segundo a Constituição da República Portuguesa assistem a todos os cidadãos.
Eu sei que nas Juventudes Partidárias, incubadoras artificiais de líderes que asseguram a continuidade desta reinante mediocridade política, financeira e social, não há tempo nem para estudar segundo os curricula normais, quanto mais haver tempo para ler e conhecer a Constituição.
É que entre festas, copos e comícios a agitar bandeiras, escoa-se o tempo e vão-se os dias não restando mais nada do que aquelas convicções bacocas e tolas que foram recebendo ao longo dos anos em que fizeram o secundário frequentando os caríssimos colégios da Opus Dei metidos pelos seus “paizinhos” numa máquina de fabricar elites.
Crianças? Adopção?
“Bendita seja a família tradicional, independentemente do pai bater na mãe ou ser alcoólico e até violar uma das filhas que recorre ao aborto clandestino”.
Adopção por casais homossexuais?
“Credo. Que desvio. Antes um reformatório só com freiras no caso das raparigas e com frades no caso dos rapazes para que assim possam beneficiar do crescimento num contexto em que os géneros femininos e masculinos estão ambos presentes.”
Por favor…
A agonia real do país é uma consequência dolorosa deste desprezo atribuído aos cidadãos no contexto de uma agenda política orientada pelo folclore das bandeiras ideológicas dos partidos, e no caso concreto da co-adopção, dói esta incapacidade de perceber que o contexto afectivo ideal ao crescimento de uma criança não está vinculado a uma forma familiar padrão.
Com a mesma forma de alumínio eu posso fazer um bolo doce ou uma salgada bola de carnes, como em tudo na vida interessa sempre mais o conteúdo do que a forma.
E o Estado deve ter meios para assegurar que há ou não um contexto ideal para que uma criança possa crescer e desenvolver-se de forma saudável.
Isto tudo para lá da questão dos direitos iguais que nos assistem…
Mais uma vez se comprova que o país só tem condições de avançar quando cortarmos este ciclo da imbecilidade e colocarmos a decidir e a legislar, gente que não precisa saber muito mais para além do que é a vida real num dia-a-dia que não está fácil.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O faz de conta e a extorsão dos méritos alheios

Conta-se que há alguns anos, e tantos que eu nunca presenciei tal situação; sempre que um toureiro muito famoso nascido na minha terra actuava na “nossa” Praça de Touros e era alvo de grandes ovações por parte do público pelo seu triunfo, o pai deste se levantava ao mesmo tempo nas bancadas e gritava em alto e bom som para os conterrâneos e forasteiros então ali presentes:
- Eu é que sou o pai do artista!
Por favor não se riam da criatura pois comportamentos iguais andam por aí aos bandos.
Pela segunda vez, e para meu contentamento muito particular pela justiça do reconhecimento, o Cristiano Ronaldo foi considerado o melhor jogador de futebol do mundo no ano de 2013, e não há quem nesta terra não se levante e não se ponha aos gritos a colar-se ao sucesso da criatura aproveitando para alimentar as suas “vaidadezinhas” muito particulares.
Ainda não perdi a esperança de espreitar na televisão a entrevista a uma empregada de padaria no Funchal que afirme que o sucesso do Ronaldo se deve à qualidade do Bolo do Caco que ela desde sempre forneceu à família Aveiro, amiga que é da D. Dolores.
Por favor, o Ronaldo é o melhor jogador do mundo porque é bom de bola e porque possivelmente treina e trabalha mais do que qualquer outro jogador do mundo.
Mérito dele, portanto.
E sorte a nossa porque ele joga pela Selecção Nacional e nos dá alegrias quando marca golos.
Nas honras a Eusébio por ocasião da sua morte, a mesma colagem inoportuna numa espécie de coabitação forçada por debaixo da coroa de louros dada por mérito à criatura, todos caindo na tentação de se afirmarem como essenciais ao pagamento prévio do “condomínio” no Panteão de Santa Engrácia.
Toda a gente conhecia o Eusébio, todos viveram com ele situações muito particulares e o admiravam muito…
Pedro Santana Lopes ajoelhado aos pés da urna de Eusébio esteve ao seu melhor nível, colocando-se numa situação que compete em ridículo com a “confissão” de ter ido assistir aos concertos para violino de Chopin, na altura em que era Secretário de Estado da Cultura.
Em 1991 na altura da reeleição de Mário Soares também ficou célebre o “acotovelamento” provocado por Jorge Sampaio que semeou nódoas negras nos membros do MASP para aparecer a uma janela do Saldanha ao lado do candidato vencedor com um número record de votos, e fazer assim uma boa acção de campanha para as legislativas do mesmo ano, as quais viria a perder.
E a propósito de Soares, desconhecemos ainda o que ele acha de Ronaldo relativamente à cultura e aos hábitos etílicos, mas a avaliar pelos discos lançados pela Cátia Aveiro, está bem de ver o que Sua Excelência dirá do “petiz”.
O que é demasiado triste em tudo isto, é que enquanto nos envolvemos neste “foguetório” todo e gastamos as energias apenas para trepar para os altares onde colocamos os nossos egos balofos, ficamos demasiado “encandeados” e perdemos a lucidez para tomar as opções correctas e fazer o país avançar um pouco mais.
Hoje na Assembleia da Republica durante uma votação cretina que desrespeita a própria Assembleia pois “cospe” sobre uma legítima votação anterior, uma senhora e muito mediática deputada afirmou que não votava segundo a sua consciência mas apenas por respeito à “disciplina” que o partido lhe merece.
É o assumir do faz de conta.
Nas vitórias e nas honrarias estamos lá, e nos assuntos difíceis… teve que ser assim.
Eu nem queria, mas… 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Há noites que deveriam ser eternas

Por mais que se esforce, jamais a chuva conseguirá apagar o brilho incomparável que Janeiro sempre oferece ao luar.
Sentimo-la cair e palpamos o seu desespero pela inevitável derrota, constatando o ritmo irregular com que bate na vidraça: lento e a parecer algo hesitante, depois rápido e muito intenso… e por momentos desaparecendo como que rendida e a pretender desistir desta tão inglória luta.
A nossa mesa é junto à janela acossada pela água, a janela que permanecerá imperturbável durante toda a noite e através da qual o luar nos revela o descanso de todos os barcos, grandes e pequenos, os heróis que unem as margens do rio, os “passos” seguros do Homem no milagre de caminhar sobre todas as águas, que não só as do rio, já que o mar está logo ali um pouco mais à frente.
Em cima da mesa onde uma vela arde na vulnerabilidade da chama abandonada e totalmente à mercê do vento soprado pelas nossas vozes à conversa, há palavras: as ditas, as dos gestos e as dos incansáveis olhares; muito mais do que comida ou o vinho tinto devidamente “aceso”, se é pelas palavras que os afectos se desprendem de nós e se constroem as pontes que tal como os barcos, ligam margens e unem vidas...
Quando um Homem quer muito, assim, não há qualquer ponte que persista por fazer.
Basta tão-só dar… e dar-se.
Do lado de cá do luar, aqui onde a janela rasga a parede forrada por tantas memórias, fragmentos fotografados do passado de muita gente, brilham então as pontes… brilha a amizade sempre muito mais do que a pobre vela acesa, enquanto sentimos que é por ser simples que este momento é afinal tão grande.
O conforto quente da amizade na noite de uma chuva que persiste.
Ouço a chuva, e não a vejo, porque quando por instantes deixo o olhar voar pela janela, ele vai para bem mais longe no impulso do pensamento que te resgata de todas as distâncias e te faz presente.
E tenho a noção de que na face me assenta um tonto sorriso sempre que estas vias da memória te trazem até mim.
Por mais que se esforce, jamais a chuva conseguirá apagar o brilho incomparável que Janeiro sempre oferece ao luar.
Mas nós conseguimos…
Acontece assim, às vezes, à volta de uma simples mesa, construindo pela amizade as pontes que unem as verdades das nossas vidas, por palavras… e quando o coração repleto de amor, nunca está só e faz sentir que tudo vale mesmo a pena.
Há noites que deveriam ser eternas… como o meu amor por ti.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

As “cataratas emocionais” numa tarde Alentejana

Ao regressar ontem a casa em Vila Viçosa após cirurgia às cataratas nos dois olhos, o meu pai admirou as paredes da nossa cozinha e resolveu elogiar o ar branco e imaculado das ditas que são caiadas religiosamente todos os anos pela minha mãe, reconhecendo que ao contrário do que julgou durante anos, as mesmas não apresentam quaisquer manchas escuras de aspecto desagradável.
Sem ser oficialmente nomeado tive de intervir automaticamente como juiz na gestão de um conflito doméstico desagradável e de alto risco pois a minha mãe não achou graça nenhuma ao comentário e ao facto do meu pai supor que lá por casa se vivia com as paredes manchadas e a clamar pela cal que nunca chegava.
E ele sempre a jurar que antes via as malditas manchas escuras em todas as paredes da cozinha.
Numa versão campestre e Alentejana, num fim de tarde de Janeiro do Século XXI, eu vi-me assim no interior de uma edição revista e aumentada da Alegoria da Caverna escrita na Grécia Antiga por Platão em “A República” algures no Século IV antes de Cristo.
Mas também numa terra de Calipolenses (aprendam por favor porque assim somos designados nós, os naturais de Vila Viçosa), Callipolis (Cali=bela + Polis=cidade), exactamente a designação utilizada para a cidade ideal sonhada pelo filósofo nessa mesma obra, não é de estranhar que estas afinidades se estabeleçam cruzando os séculos, que não só as intervenções do FMI nos aproximam dos Gregos.
Certo é de que antes como agora, aquilo que vemos e que convictamente acreditamos ver, pode não corresponder à exacta realidade de um objecto, de uma pessoa, de uma circunstância, etc.
As nossas “cataratas”, por vezes mais emocionais do que até propriamente físicas, oferecem-nos uma perspectiva, muito mais do que uma visão global exacta do que quer que seja.
E quantas vezes até conseguimos ver algo numa determinada perspectiva, apenas pelo impulso de muito a querermos ver dessa forma. Reencaminhamos a perspectiva no sentido preferido, tal qual fazem os políticos na avaliação dos números relativos por exemplo à performance da economia do país num determinado período.
Neste contexto, ao ridículo se expõem todas aquelas pessoas que jamais aceitam discutir as suas inquestionáveis verdades e rejeitam as achegas que as visões alheias podem trazer para o desbravar conjunto do caminho que mais no aproxima da verdadeira, objectiva e inacessível verdade do que quer que seja.
Do encontro com os outros e da discussão nasce verdadeiramente a luz e quanto erro pode encarnar uma pessoa orgulhosamente só e abraçada à sua umbilical auto-estima super desenvolvida.
E quanto erro e quanta violência podem surgir do confronto de duas ou mais “razões absolutas” sobre um determinado assunto.
Ao fim da tarde no meu regresso à cidade de Ulisses, com um luar de Janeiro a iluminar-me a planície Alentejana de uma forma soberba, e já com a paz familiar devidamente restabelecida à sombra de uma parede que os três já conseguimos ver sem quaisquer manchas, deu-me para filosofar.
Sem querer ser Platão (e muito menos Sócrates, por todas e mais essa política razão tão do Século XXI).
Um Calipolense apenas, em trânsito, que gosta muito de pensar e que em cada dia que passa tem menos certezas sobre o que quer que seja.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

MADALENA

Algures num dia de Dezembro de 1981, e é impossível recordar-me exactamente de qual, estávamos nós a passar uma tarde no Convento das Chagas no contexto do nosso grupo Sementes de Esperança com o saudoso Padre Armando Tavares, e o Senhor Arcebispo de Évora, D. Maurílio de Gouveia, que tinha chagado à diocese uns dias antes, precisamente a 8 de Dezembro, e estava de visita a Vila Viçosa, passou por lá para nos cumprimentar.
Tu envergavas uma camisola vermelha com a estampa de um burro e a frase “Olá mano!”, e tentaste esconder-te atrás de nós para evitar que Sua Excelência Reverendíssima pudesse ler e ofender-se com semelhante “cumprimento”.
E o que nos rimos todos, e tu própria, à conta desta aflição…
Fui buscar este episódio passado num espaço que foi nosso por eleição, e quem hoje frequenta a selecta Pousada de D. João IV desconhece que um dia existiu um grupo de amigos que por ali foi tão feliz; porque ele ilustra exactamente tudo o que sempre soubeste criar à tua volta e que tanto o nosso grupo de amigos tem beneficiado ao longo destes anos: a fé vivida de uma forma séria e responsável com tudo o que ela acarreta de honestidade, simplicidade, amizade, desprendimento, atenção aos outros, etc; e o sentido de humor e a alegria com que tudo isso é vivido.
Quem tem o prazer de conhecer toda a tua família sabe que tu não és assim por um qualquer acaso, é um enorme benefício genético que tu enobreceste muito com o teu grandíssimo carácter muito particular.
As tuas gargalhadas são inigualáveis, e quando nos rimos, rimo-nos sempre de nós próprios. Tu contrarias claramente Jean Paul Sartre quando disse que os Cristãos não têm cara de ressuscitados: tu tens!
Quem fala das tardes das “Chagas” pode falar de Barcelona e da missa em Catalão em que não “pescámos” nem uma palavra mas rezámos todos juntos no nosso Português com sotaque assumidamente Alentejano, um pouco antes de termos acabado o serão a cantar na Plaza Real à sombra das enormes palmeiras (a letra da cantiga fica para sempre reservada à intimidade do grupo de amigos), ali paredes meias com as Ramblas por onde passeámos um dia todos juntos na companhia de uma melancia que não perdemos oportunidade de comprar numa promoção de supermercado, na mesma altura em que te perdemos no El Corte Ingles da Plaza da Catalunha e te fizemos anunciar nos megafones e em ar de uma verdadeira e dolorosa tragédia como “Madalena de Portugal”.
Com a discrição natural das pessoas que são grandes, às vezes nem damos por ti e pela tua presença, mas todos temos a enorme certeza de que se tu não existisses e não estivesses connosco, era impossível que fossemos todos tão unidos e tão felizes.
E a vida é tantas vezes como aquele passeio a pé que demos pelos Alpes, em Gavarnie na companhia do Manuel e da Ana Cristina, caminhando de encontro à montanha e por entre montanhas, provando da água gélida mas tão límpida do regato, rindo desalmadamente pelas anedotas contadas por entre o pó que os nossos passos levantavam no caminho…
Louvando a Deus pelas montanhas, pela água, pela amizade, pelo riso e pela vida.
Obrigado por existires nas nossas vidas e se puderes perdoa-me esta partida de escrever sobre ti, mas decretei 2014 como o “Ano da Amizade” e ninguém dos “nossos” irá escapar.
Parabéns, grande Madalena.