segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Os divórcios inevitáveis

Há momentos na vida em que a existência de uma Maya cartomante dentro de nós, com ou sem lipo-aspiração e outros quaisquer tratamentos estéticos no sentido de aumentar e dar nova forma aos seios; mas com a garantia de uma eficácia de 100% nas previsões, nos daria um jeitão para nos poupar a alguns dissabores na hora de escolher um marido ou uma mulher, melões e melancias, mangas, Presidentes da República, Primeiros-Ministros, Presidentes de Câmara, etc; e até poder dar-nos algum desafogo económico, por exemplo na hora de escolher uma raspadinha ou preencher o boletim do Euromilhões.
Às vezes aproximamo-nos dessa condição de prever o futuro.
Uma amiga confessou-me que ao chegar à igreja vestida de noiva e de braço dado com o pai, já com todos os convidados dentro da igreja para assistir ao seu casamento, no instante em que lhe escancaram as portas do guarda-vento e viu ao longe a talha do altar-mor pensou de si para si:
- Bolas, tens feito muitas asneiras mas hoje acho que exageraste. Isto não vai dar certo.
Esteve casada três meses, o que comprova que a previsão que fez do cataclismo foi certeira, muito possivelmente por ser demasiado óbvia e fácil à luz da mais pura racionalidade, mais até do que daquela intuição de que o género feminino costuma fazer bandeira.
Também há outras situações em que o próprio não consegue prever nada mas se acedesse à informação e à opinião dos que o rodeiam, por certo se pouparia a alguns dissabores.
Também pelo Alentejo e há alguns anos, a meio de um banquete de casamento, naquela fase em que já toda a gente almoçou e a “malta” aproveita para ir ao café tomar a bica, e as senhoras que sofrem dos joanetes vão a casa mudar de sapatos, fomos encontrar a nossa amiga, a noiva, sentada sozinha no meio do salão com um ar muito triste.
Quando lhe perguntámos pelo noivo, a resposta foi pronta e certeira:
- Foi visitar o Paço Ducal com uns amigos da terra dele que convidou para o casamento.
Estava na cara.
Só ela é que não conseguiu prever aquilo que todos antecipámos logo ali: o casamento durou dois ou três anos.
Fazendo uma extensão desta muito pessoal necessidade de uma Maya para podermos prever o futuro no contexto das nossas vidas privadas, para a gestão do país e para a previsão do défice das contas públicas, fico na dúvida se é genética esta lusa incapacidade para acertar.
Na maior parte das vezes o défice fica acima do acordado com os credores e no ano passado parece que ficou objectivamente abaixo porque nos “sacaram” mais dinheiro no pagamento do IRS.
Todos os “irrevogáveis” ministros se congratularam com a situação e puseram ar de festa, esquecendo-se que esta música foi tocada por cima da nossa pele em pose dolorosa de bombos… com pancadas extra que seriam perfeitamente evitáveis.
Haja decência.
Nas histórias, os heróis nunca são os vilões, os que erram por excesso ou por defeito, muito pelo contrário, são as vítimas que dão a sua vida no patrocínio a uma causa.
O seu a seu dono e curvem-se os políticos todos perante nós, os verdadeiros heróis anónimos assinalados não por medalhas ou condecorações, mas tão-só pelos recibos de ordenado.
As Mayas até podem ser necessárias para escolher melancias ou para a sorte do Euromilhões, mas para a gestão da vida privada ou para a gestão de um país, elas são perfeitamente dispensáveis à luz da racionalidade que no caso da vida privada fica às vezes beliscada pela dormência do amor e da paixão, e no caso da gestão de um país pela falta de competência.
Não tiveram nem um “feeling” na hora em que vos escancaram a porta com vista para o altar onde nos imolaram?
Agora não se admirem se isto resultar em divórcio… 

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