quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O verdadeiro artista

Na nossa festa de Natal de 1983, o Manuel vestiu-se de Filipa Vasconcelos, a Vacondeus ao estilo “O Tal Canal”, e apresentou a receita das panquecas que levavam Paprika e que eram feitas com uma massa que só estava em condições quando se colava à parede.
Eu, o Zé Maria e o Paulo Quinteiro fizemos de “Jaquina, Jaquina, Jaquina”, sendo eu a Jaquina Assalariada Rural, o Zé Maria, a Jaquina Doméstica, e o Paulo a Jaquiná loura que apresentava modelos numa passerelle improvisada no Salão do Lar Juvenil e onde o tema era as árvores de Natal.
Há uns três anos tínhamos descoberto o Tony Silva e a sua “Música Ró” enquanto assistíamos nas tardes de domingo ao “Passeio dos Alegres”, o programa que nos trazia as bandas do Rock Português com as cantigas que depois faziam sucesso durante a semana: Chiclete, Portugal na CEE, Rua do Carmo, Patchouli, Cavalos de Corrida…
Em 1990, trabalhava eu na Farmácia Universal em Lisboa, e tínhamos de estar de bata vestida e prontos pelas 8.50 horas, dez minutos antes da abertura oficial, tão só porque nesses dez minutos não teríamos condições para fazer algo mais para lá da audição das crónicas do Herman José na TSF.
E abríamos sempre a porta a rir, o que até era bom para os clientes que sempre nos sentiam muito mais simpáticos do que já éramos e somos. O pior era por vezes conter as gargalhadas quando algum cliente se assemelhava aos personagens da manhã.
Na passagem de ano para 1991, estando no Funchal com a família e uns amigos, dei juntamente com o meu irmão das melhores gargalhadas da nossa existência ao reencontrar muitos dos personagens da TSF num programa especial chamado “Crime da Pensão Estrelinha”.
Estas histórias expressam momentos muito especiais em que através dos seus “bonecos”, o Herman José me ensinou a mim e à minha geração, a rir, concretizando a liberdade de abril com um género de humor que estava muito para lá da brejeira e fácil piada revisteira e marialva, que era mais comum nos programas e espectáculos de então.
Nesta ruptura com o óbvio e o fácil, quantas vezes os mais velhos nos olhavam como tolinhos por nos estarmos a rir de coisas que até aí não entravam nestes territórios do humor.
O Herman José ensinou-nos a rir de nós próprios porque entre aquilo que somos e as pessoas que conhecemos e connosco se cruzam na rua há por certo uma Marilú, um Bernardo Teixeira da Cunha, uma Yvette Marize, uma Maximiana, um Menino Nélinho, um Nelo casado com uma Idália, um José Estebes, um Serafim Saudade, um Sr. Feliz, um Sr. Perdição, um Diácono Remédios, um Sr. Royal, uma Queca Gandarinha, um Felisberto Desgraçado, um Oliveira Casca, uma Ruth Remédios, uma Super Tia, um Melga e Mike, um Lauro Dérmio, um David Vaitembora, uma Mary Carmen, um Herman José Saraiva …
E quantos de nós passámos por estas décadas sem que nem que só por uma vez usássemos expressões como: “Eu é mais bolos”, “Cafézinho Cooooooooom Leite”, “E no repêto à correspondência…”, “Imeeeeensa paprika”, “Posso dizer uma quadra do António Aleixo?”, “Vamos lá cambada todos à molhada”, “Ora dá cá um e a seguir dá outro…”, “Paletes de gajas…”, “Não me chame condensa que me põe tensa”, “Adérito, filho, volta que estás perdoado”, “Verdadeiro artista”, “Saca o saca-rolhas e abre o garrafão”, “O que é isto? Estamos a brincar”, Sô Dona Pómira”, “Este homem num é do norte, carago”, “Verdadeiro artista”, “Não havia nexexidade”, “As opiniões são como as vaginas”…
Ontem fui assistir no Teatro Tivoli a uma gala de homenagem ao Herman José pelos quarenta anos de carreira.
Ri-me muito e tive a sensação de estar em família.
Afinal, conheço tão bem e sou tão íntimo de toda esta “gente” e de todos estes tiques e frases.
E depois, o homem que me ensinou a rir e que semeou este sentido de humor que dizem que eu tenho, e que é reconhecido como terapêutico pelos meus amigos (desculpem-me a imodéstia mas são eles que dizem), estava mesmo ali e quase cara a cara comigo.
Emocionei-me como sempre acontece quando somos confrontados com pedaços inesquecíveis da nossa história.

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