sábado, 25 de janeiro de 2014

A humildade segundo Francisco

Uma das pessoas mais conflituosas do meu círculo de relações pessoais afirma ser santa, dando como prova da sua santidade, a incompreensão de que é vítima por parte de todos os que a rodeamos, ela, o único e real epicentro da razão e da verdade.
Descolei hoje este “cromo” da minha caderneta de relíquias porque me parece não ser um caso isolado no contexto actual das “Olimpíadas da Humildade” que foram informalmente abertas na Igreja Católica depois do Papa Francisco se ter sentado na cadeira de São Pedro, estando continuamente a fazer-nos o apelo a nós católicos, para que pela humildade nos aproximemos Daquele que por ter sido O mais humilde, foi O maior de todos: Jesus Cristo.
E toda a gente de repente virou “supé humilde e amiga dos pobezinhos, tá a ver?” numa competição que promove desde logo o homicídio da humildade, pois se eu afirmo que sou mais humilde do que tu, já não estou a sê-lo.
A vaidade é o puro veneno da humildade.
Há alguns dias, um padre meu amigo de há muitos anos e pessoa que muito estimo, afirmou que lhe parece algo estranho, ouvir os ateus a citar tantas vezes o Papa Francisco. A mim também. Mas às vezes ainda me parece mais estranho ouvir alguns de nós católicos a citá-lo.
É que falamos da humildade com a mesma convicção e a mesma expressão de verdade com que um judeu fala dos benefícios da não circuncisão e da ingestão diária de carne de porco.
Soa a falso.
É um pouco como o banquete em casa de um novo-rico em que está tudo tão bonito e tão chique mas só até ao momento da refeição em que o dono da casa começa a limpar as unhas com uma das pontas do garfo de prata.
Ténue manto diáfano da hipocrisia por sobre uma vaidosa verdade que roça a sobranceria.
No fundo, e talvez esse seja o nosso grande problema, todos consideramos estar mais próximos da santidade do que os demais, um pouco ao melhor estilo do meu “cromo”, correndo até o risco de ao morrer podermos entrar em órbita se o São Pedro não nos deitar rapidamente a mão, tal a velocidade que levamos na elevação ao Céu.
Num outro dia durante o almoço de uma festa de amigos, estive uns minutos à conversa com uma conterrânea minha que professou nas Irmãs Hospitaleiras e vive aqui por Telheiras onde se encontra a estudar enfermagem não por qualquer projecto pessoal de desenvolvimento mas tão-só porque precisa dessa formação para ajudar quem precisa.
O “nós” a suplantar o “eu” na naturalidade e no exemplo, que não por palavras de auto-elogio e vitimização, na acção dos verdadeiros heróis da fé que apesar das “obras valorosas” jamais repousarão nos panteões das vaidades dos Homens.  
Eu quando um dia for grande gostava de ser só um pouquinho como ela, porque acho definitivamente que é dessa humildade que fala o Papa Francisco e é ela que verdadeiramente nos aproxima de Jesus Cristo.
É pois tempo de a calar como palavra escrita, dita e repetida a letras nos púlpitos e nas sacristias, colocando-a viva e por exemplos nas ruas, no trabalho e em todos os sítios por onde passamos.
Como dizem os Espanhóis: “todo lo demas son tonterias”.

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