terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Existirão dias que sepultam as palavras de amor?

Há sempre um dia em que o poeta desce do onírico estado da sua paixão e, nem que por segundos apenas e devolvendo-se à sua banal condição de Homem, descobre por uma racional lucidez, que as palavras que teceu a partir da alma e às quais ofereceu um intenso aroma de flores, jazem no despejo, na sarjeta da indiferença do destinatário do seu amor.
Até pode chorar então o poeta, despudorada criatura que travões não sabe assumidamente colocar sobre todos os gritos e sobre a dor que o seu ser lhe impõe.
E no regresso inevitável à sua natureza de crónico sonhador, quantas vezes o poeta recicla o “lixo” que encontrou no hiato em que foi apenas Homem, e solta novas palavras, novos poemas, tão-só por acreditar que a dor de ontem jamais existiu e é assim uma banal mentira.
É a recaída crónica do poeta, patético e ridículo na inveterada miopia racional de vislumbrar que a sua fé assenta no delírio de confundir, ver e sentir incenso, naquilo que é afinal o pérfido e asqueroso aroma do real e efectivo esterco a que devota tanto amor.
Porque o poeta é aquele que ama, e quem ama vê tudo o que deseja e muito quer… até mesmo onde nada existe.
Ou então onde existe apenas tudo aquilo que a vida tem de pior.
Mas de dor em dor, e pela intensidade com que dói a indiferença, até o poeta consegue um dia calar e matar este seu amor.
Apaga as palavras?
Deixa secar-se por dentro?
Renega a fé e devolve-se à condição de apenas Homem?
Não.
Jamais.
Com a morte da sua natureza morreria o próprio poeta.
Por isso sobrevivem as palavras…
Continua a borbulhar por dentro a fonte incessante de todos os sentimentos…
Persiste a fé e sobrevive o poeta.
Apenas deixou que o sol levasse de vez num ocaso, todos os despojos de um velho amor, trazendo consigo reluzente no brilho de uma nova manhã que sorri a oriente, a perfeição de um novo, intenso e muito secreto amor.
Nessa manhã, e mais do que nunca, soltará o poeta ao sol todas as palavras, nem que para isso tenha de rasgar as nuvens.
E as palavras dos poetas cheiram sempre a rosas.

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