quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Há noites que deveriam ser eternas

Por mais que se esforce, jamais a chuva conseguirá apagar o brilho incomparável que Janeiro sempre oferece ao luar.
Sentimo-la cair e palpamos o seu desespero pela inevitável derrota, constatando o ritmo irregular com que bate na vidraça: lento e a parecer algo hesitante, depois rápido e muito intenso… e por momentos desaparecendo como que rendida e a pretender desistir desta tão inglória luta.
A nossa mesa é junto à janela acossada pela água, a janela que permanecerá imperturbável durante toda a noite e através da qual o luar nos revela o descanso de todos os barcos, grandes e pequenos, os heróis que unem as margens do rio, os “passos” seguros do Homem no milagre de caminhar sobre todas as águas, que não só as do rio, já que o mar está logo ali um pouco mais à frente.
Em cima da mesa onde uma vela arde na vulnerabilidade da chama abandonada e totalmente à mercê do vento soprado pelas nossas vozes à conversa, há palavras: as ditas, as dos gestos e as dos incansáveis olhares; muito mais do que comida ou o vinho tinto devidamente “aceso”, se é pelas palavras que os afectos se desprendem de nós e se constroem as pontes que tal como os barcos, ligam margens e unem vidas...
Quando um Homem quer muito, assim, não há qualquer ponte que persista por fazer.
Basta tão-só dar… e dar-se.
Do lado de cá do luar, aqui onde a janela rasga a parede forrada por tantas memórias, fragmentos fotografados do passado de muita gente, brilham então as pontes… brilha a amizade sempre muito mais do que a pobre vela acesa, enquanto sentimos que é por ser simples que este momento é afinal tão grande.
O conforto quente da amizade na noite de uma chuva que persiste.
Ouço a chuva, e não a vejo, porque quando por instantes deixo o olhar voar pela janela, ele vai para bem mais longe no impulso do pensamento que te resgata de todas as distâncias e te faz presente.
E tenho a noção de que na face me assenta um tonto sorriso sempre que estas vias da memória te trazem até mim.
Por mais que se esforce, jamais a chuva conseguirá apagar o brilho incomparável que Janeiro sempre oferece ao luar.
Mas nós conseguimos…
Acontece assim, às vezes, à volta de uma simples mesa, construindo pela amizade as pontes que unem as verdades das nossas vidas, por palavras… e quando o coração repleto de amor, nunca está só e faz sentir que tudo vale mesmo a pena.
Há noites que deveriam ser eternas… como o meu amor por ti.

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