terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Essa tão “descartável” leveza do ter… e do ser

Uma amiga que se apercebe pela manhã que uma malha das meias fugiu para lá de Marte, vai de seguida à loja dos Chineses, e há sempre uma loja Chinesa em qualquer esquina; comprar outras semelhantes e, de imediato, deita estas para o balde do lixo.
Há alguns anos até poderia ir comprar outras para usar no momento (dificilmente a uma loja Chinesa) mas guardaria estas para levar mais tarde a uma daquelas senhoras que com muita paciência e um pequeníssimo aparelho iluminado por um candeeiro, se dedicavam a apanhar malhas de meias.
O conceito de descartável talvez seja um dos ícones do nosso tempo, umas vezes com mais justificação pela necessidade do que outras, e daí que uma semana sem recolha de lixo ponha os passeios intransitáveis, tal a quantidade de desperdícios que cada ser “cospe” para o planeta no seu dia-a-dia.
E quem fala de meias de senhora pode falar de uma infinidade de outras coisas…
Antes íamos ao pão com uma bolsa de pano que era lavada periodicamente e poupávamos assim na quantidade de sacos de plástico.
O mesmo acontecia com as outras compras de mercearia ou supermercado transportadas em alcofas e outros apetrechos resistentes e duradouros.
As fraldas para os bebés eram de pano e lavavam-se com sabão para nova utilização. Os mais supersticiosos não as punham a secar à lua porque se dizia que elas transportariam a lua para dentro das crianças, fosse lá isso o que fosse.
Não havia pensos higiénicos e as senhoras tratavam dos “incómodos” do ciclo menstrual com panos laváveis e reutilizáveis. Desconheço se os punham à lua e se o satélite natural da terra poderia de alguma forma incomodar as senhoras…
Os guardanapos também eram de pano assim como as toalhas de mesa dos restaurantes.
As garrafas de vinho, de refrigerantes, do leite e até os garrafões de água, eram todos de vidro e entregavam-se nas lojas e nos cafés para ser reutilizados. O vasilhame tinha um valor definido que era pago como caução.
Bebia-se sempre a água por copos que até poderiam ser de plástico mas que tinham sempre uma resistência que possibilitava a sua lavagem e reutilização. O café era sempre bebido em chávenas de porcelana que depois eram devidamente lavadas. E mexíamos o açúcar com colheres de metal também reutilizáveis.
Nos hospitais, os materiais cirúrgicos e de penso eram tratados em auto claves e reutilizados sempre que possível. Sempre que ia ao Centro de Saúde lá via a Irmã Madalena com uma pinça a tirar as agulhas de um grande caldeirão de material esterilizado.
Em casa, qualquer avaria num electrodoméstico ou até numa qualquer peça de mobília implicava o recrutamento de um técnico especializado e só perante o diagnóstico irreversível de morte se passava à fase de compra de novo material.
Não existia o IKEA e esse conceito de mobília para uma temporada.
A roupa também transitava entre gerações e a ideia da ZARA e da roupa que não aguenta mais do que uma estação, não passava sequer pela cabeça dos futuristas que viviam vidrados no 2001 – Uma odisseia no espaço.
Ganhava-se um relógio quando se concluía com êxito o exame da 4ª classe, instrumento que mantínhamos no pulso durante décadas não tendo essa pretensão tão Swatch de combinar relógios com roupa e com moda.
Lentes de contacto, óculos, unhas, babetes, cuecas, lenços de assoar, máquinas fotográficas, isqueiros, talheres, formas para bolos, chinelos, cartões de crédito… Tudo isto já existe em versão descartável.
E não só aos objectos e aos alimentos e acessórios se aplicava um outro conceito…
Não se abandonavam pais e avós nas urgências dos hospitais para se poder ir de férias para algures no planeta, tratar dos familiares doentes fazia parte das prioridades das nossas vidas, fazia-se um esforço por conciliar os nossos tempos livres com os tempos livres dos nossos filhos, não se abandonavam animais na berma da estrada.  
Os afectos eram definitivamente mais estáveis no tempo em que a Fidelidade não era só uma companhia de seguros, e talvez não se trocasse tão facilmente de companheiro ou companheira só porque a determinada altura aparecia alguém do outro lado da linha a dizer:
- Oi cara, vamos “transar”?
E isto, quer estivéssemos a falar de reis, princesas ou plebeus, incluindo nestes últimos alguns Presidentes da República dados a fazer passeios de scooter pela manhã (por volta das onze).
Até os políticos se mantinham mais fiéis às ideologias e conseguiam dar a cara por algumas misérias que faziam. Eram bastante mais raras as transições entre partidos que hoje são feitas ao ritmo das transições de jogadores entre clubes… e sempre pelo inevitável dinheiro.
Dir-me-ão que depois do “bom dia” de ontem eu levo Janeiro numa onda demasiado saudosista.
Garanto-vos que não, até porque já fui muito mais velho do que sou hoje. Não é verdade Helena?
Apenas me deixei ir com os amigos ao ritmo da malha da meia da minha amiga que fugiu durante o momento do café.
Mas que há coisas que deveriam continuar a não ser descartáveis, lá isso há.

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