terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A vitória do dinheiro na goleada sobre a dignidade

Há muito sabíamos que os zeros à direita no saldo bancário, e o poder que indirectamente lhe está subjacente são mais eficazes do que a honestidade na definição da importância de uma qualquer pessoa.
Na morte da poesia, já não são os sonhos que comandam a vida, como dizia António Gedeão na sua “Pedra Filosofal”, mas é o dinheiro que define todas as prioridades.
A essência de Portugal que está expressa na sua Constituição, é ferida de morte para que os números do Orçamento Geral de um Estado que não sabe cortar a despesa onde deveria cortar, se mantenham dentro de determinados valores, criando desde aí um conjunto de propriedades sedativas que mantenham adormecidos os “Mercados”, esses Adamastores do Século XXI que nos perseguem nas Tormentas deste tempo.
E o grilhão, o medo dos “Mercados” congela a liberdade e o respeito pelo designado Estado Social, esses mais básicos e justamente expectáveis direitos dos cidadãos que nunca se negaram ao cumprimento dos seus deveres para com o Estado e os seus semelhantes.
Até o Presidente da República olha antes de mais para o “dinheiro” do orçamento e para o desejado sossego dos “Mercados” sem jamais olhar para a pobreza que é por esta via um inevitável destino dos concidadãos que o elegeram e que ele prometeu defender no exercício do seu cargo.
Pelo poder do dinheiro se faz revogável a irrevogável honra que deveria nortear qualquer “estadista”.
Pelo dinheiro, e às vezes até por muito pouco dinheiro, se mata a vida e se fere decisivamente a honradez do próximo.
O dinheiro e o controlo orçamental condicionam ainda e decisivamente o julgamento e a posterior condenação de classes profissionais inteiras que deveriam merecer de todos muito mais respeito.
A “cunha” pelo poder e a “gorjeta” ou as “luvas” que suplantam os méritos naturais são patrocínios aceites quase como universais e legítimos neste “Monopólio” em que o dinheiro compra “bairros inteiros” e onde quem paga pode sempre “sair da prisão”… ou então nem ir para lá.
A conta bancária, os carros, as jóias, as roupas e outros luxos, são a “água benta” para o baptismo de Senhoras e Senhores que recebem a submissa “genuflexão” de nações inteiras, com independência de quaisquer outras virtudes de carácter, essas sim que seriam merecedoras de tal tratamento e distinção.
Pelo dinheiro e pelo poder se compram títulos que o pouco saber e a pouca aplicação ao estudo jamais poriam atrás de qualquer nome de gente assim de tão pequeno porte e tão poucas virtudes.
E agora…
Mesmo os comprovadamente grandes, para que possam ter a honra de repousar no Panteão Nacional, é necessário que a Assembleia da República que no Orçamento de 2014 aumentou em 4% a despesa com salários e em 90% a despesa relativa a subsídios de férias e Natal, encontre uma folga orçamental para o fazer.
A menção às despesas de uma trasladação para o Panteão Nacional feita ontem por Assunção Esteves a propósito de Eusébio e tendo como exemplo Aquilino Ribeiro, são indignas de uma segunda figura do Estado Português.
Quando falamos da honra dos heróis, e tal como os nossos pais nos ensinam de pequenos que não deve fazer-se à mesa, manda o bom senso que não se fale de dinheiro.
É uma questão básica de educação e tudo isto começa a ser de facto uma grande “fantochada” de miúdos.
O grande Aquilino de quem eu leio e releio “A casa grande de Romarigães” e “Quando os lobos uivam” afirmou que “alcança quem não cansa”.
Inspiremo-nos e ganhemos força para que não nos cansemos nunca.
Uivemos com a bravura e a altivez dos lobos porque esta casa é demasiado grande para gente tão pequena de carácter e que só fala a linguagem vil dos orçamentos.
A gente pequena de “tostões” a gerir indignamente impérios de milhões… de alma e de grandeza.

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