segunda-feira, 31 de agosto de 2015

ZERO


Há dias com um triste gosto a nada, em que a vida parece ter sido multiplicada por zero; mas pelo contrário, há dias em que nos levantamos da cama ao ritmo de uma contagem em Cabo Canaveral… dez, nove… dois, um, zero… e mais ninguém nos segura por entre a energia de conquistar tudo, e até conseguimos chegar à lua.
Tudo sem que o zero deixe de ser zero e sem que a nossa vida também deixe de o ser.
Há dias em que nos sentimos um zero sentado à esquerda de qualquer coisa, anónimos e indiferentes personagens numa multidão que passa e para a qual não contamos absolutamente nada; mas há dias em que somos um zero à direita daquilo que ambicionamos, e então valemos por dez com força para mudarmos o mundo. E se for preciso ainda somamos mais zeros porque temos ganas de infinito.
E o zero é nada como pode ser o infinito…
Tal qual a vida, bastando que nos coloquemos sempre do lado correcto, do lado que nos faz maiores, que nos coloquemos onde, quando e com quem poderemos elevar-nos e elevar a nossa fé até ao infinito.
Assim termina “O mês A GOSTO”, o Zero no dia 31.
Mas como eu gosto do Zero à direita e como gosto de sentir a sua força propulsora, deixei que na lista de letras e temas faltasse propositadamente o “X”, a tal letra que pode ser tudo, quer falemos de uma equação, de uma pessoa, etc.
Em segredo pedi a uma série de amigos que me enviassem uma palavra começada por X, juntei-as e construí uma história que amanhã partilharei convosco.
Tudo porque nada do que é bom pode ter um fim e ser multiplicado por zero.
É bom estar convosco aqui no Pomar das Laranjeiras e que os X dias, muitos e infinitos das vossas vidas, vos tragam sempre aquilo que mais ambicionam.
Aquele abraço

(“Um mês A GOSTO” / Dia 31 / Letra Z / Tema proposto por Zinha Duarte)

domingo, 30 de agosto de 2015

YES


Gosto do sim que se pressente numa manhã solarenga e perfumada de Verão quando abro a janela depois de me ter despertado a trautear uma canção daquelas que não esqueço nunca, uma música com latitude e longitude no universo de tudo o que eu já vivi.
Gosto tanto do sabor que o sim da decisão deixa à solta na minha boca depois do passo em frente em direcção ao sonho e à minha vontade.
Gosto da coragem de um sim honesto e livre mas diferente, sobretudo quando seria expectável o fácil vazio do disfarce de um não.
Gosto do sim soletrado pelo eco de um poema que parece semear um canteiro de flores dentro de mim.
Gosto do sim expresso por uma rosa, por um entardecer na praia, por um poente… ao tanto da minha fé.
Gosto do sim de uma gargalhada, do sim de um copo de tinto, do sim do abraço de um amigo… para a festa de tornar felizes os dias de viver.
Gosto muito quando o sim espreita doce à janela do teu olhar e o instante que se segue traz com ele a dimensão perfeita de um beijo que há muito sonhei.
Gosto do sim solto pela tua mão quando procura a minha para um jogo de carícias que diz sim ao mais íntimo guardado no desejo que tem a minha idade.
Gosto do sim…
Como às vezes gosto do não, nas circunstâncias em que ele dá corpo à festa doce e perfeita que é a minha liberdade.


(“Um mês A GOSTO” / Dia 30 / Letra Y / Tema proposto por Manuela e José Barreiros)

sábado, 29 de agosto de 2015

WATER


No dia largo de um Julho ainda a começar, o sol a pique sobre as sete colinas, o repicar alegre dos sinos nas torres das igrejas e dos mosteiros, o burburinho da gente nos mercados da cidade, o pregão e a notícia que corre pelas esquinas…
Nós tomámos as naus em nossas mãos, e alinhando as águas e os ventos com a vontade, soltámos as velas, deixámos no cais o peito dos amores tolhidos pela mágoa, e contra a voz dos incrédulos, dos “velhos”, e por entre a tão lusa saudade, partimos do Restelo...
O Tejo, a barra, e finalmente o mar.
De Lisboa, a genética dos heróis inscrita na letra de um fado em tom maior, tão grande quanto a ambição que não cabe aqui; que um povo é do tamanho daquilo que a sua alma sonha, muito mais do que da terra inscrita entre as suas fronteiras.
Seguimos com Vasco da Gama; e com uma imensa garra, ao mar nos fazemos… pela fé, pela glória do império, por pimenta, gengibre, cravo, canela e açafrão.
Sem temores, desprezando mostrengos e adamastores, na cumplicidade do sol, das estrelas, um astrolábio, milhões de sonhos, e a bombordo...
Rio dos Bons Sinais, Baía de Santa Helena um pouco antes da Boa Esperança, Moçambique, Mombaça, Melinde... e finalmente Calecute.
Três continentes, dois mares, mas um só povo e a ambição de um rei, Manuel, a alma capaz de reinventar o mundo; Portugal, e nas velas como nas veias inscrita a nossa fé e a nossa vontade: a Cruz de Cristo.
Eu, marinheiro sem nome vim hoje à proa da nau, é novamente Julho e já sinto a brisa de Lisboa, parecendo que esta estrada de luz plantada pela lua, é afinal um tapete estendido pelo céu para que não nos percamos algures neste doce regresso ao Tejo.
Às vezes os heróis também choram e não há Português que não o faça de saudade; e aqui no navio fazendo versos espreitando o luar, não sei se o sal que provo é um doce beijo do Atlântico, ou se pelo contrário sou eu quem oferece hoje o sal ao mar.
Amanhã dar-te-ei um beijo, sei que estarás na praia para me ver chegar, oferecendo à mais marinheira das cidades, a velha Olisipo, o definitivo destino que Camões cantará como Ilha dos Amores, a terra sagrada da lusíada eternidade…
Eu, um marinheiro sem nome que conseguiu vislumbrar-te em todos os segundos no espelho imenso de navegar, nos infinitos dias azuis em que o mundo parece ser só água, e em que olhando as asas das gaivotas, o coração repetia:
- Quem me dera.
Navegar pelo império, pela fé, por gengibre…
Para me fazer herói para ti e por tanto te querer ver feliz no cais à minha espera.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 29 / Tema proposto por Ana e Manuel Almas)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

RESILIÊNCIA


Há dias assim, como hoje, manhãs envoltas por esta neblina que não me deixa ver o mar e apreciar-lhe o tom azul, sentir o sol; e depois quiçá avançar pela areia que sinto arrefecer à medida que me aproximo do abraço das ondas, para me oferecer a mim próprio um mergulho nas águas perfeitas do Atlântico.
Trouxe a mochila, o guarda-sol, a cadeira que se regula na inclinação das costas para que eu possa ler ou adormecer deitado, trouxe uma toalha colorida, um livro, um caderno, uma esferográfica, algumas maçãs e uma garrafa de água bem fresca.
Não desisto.
A areia está húmida por efeito de umas pequenas gotículas frescas que caem e eu sento-me na cadeira e debaixo do guarda-sol que para já me protege… da chuva.
Ofereci um ângulo de noventa graus às costas da cadeira relativamente ao assento, e estou em óptima posição para escrever. A toalha, pu-la a cobrir-me parte das pernas e a resguardar-me da aragem fria.
Puxo do bloco e da esferográfica enquanto reparo que está bandeira amarela.
A praia está quase deserta e por isso fico por ali mais tempo à conversa com o nadador-salvador e com o vendedor das Bolas de Berlim que entretanto passa, e que hoje trocou os gritos para a multidão por uma muito discreta frase quase ao meu ouvido:
- Então amigo, hoje vai uma bola?
- Vai sim, e com creme; que hoje o sol não patrocina bactérias no bendito bolo frito.
- Então compra uma e eu ofereço-lhe outra que fica aqui para mais logo.
- Obrigado.
Pago e fico por ali mais dez minutos à conversa. O rapaz é Alentejano como eu e tem este trabalho de verão há já dez anos. Ganha algum dinheiro extra e ajuda uma tia que vive na margem sul e se dedica a fazer bolos para fora.
Depois, confessa-me que ao fim da tarde vem sempre dar um mergulho, e que por isso e por fazê-lo sozinho, pode afirmar que esta praia é sua propriedade.
O rapaz vai-se embora e eu não tardo a comer a minha Bola de Berlim.
Tenho a outra ali ao lado perto das maçãs e recomeço a escrever…
Era uma vez um rapaz que passava os dias a namorar o mar mais azul do universo, e que depois já mais tarde e antes do anoitecer, vinha dar-lhe um abraço e um beijo deixando-se envolver com ele na perfeição do pôr-do-sol…
Escrevo sobre o mar azul, não o vejo mas “pintei-o” assim a partir da conversa com o rapaz que apregoa Bolas de Berlim.
Há dias assim, como hoje, manhãs envoltas por esta neblina…
Dias em que é preciso que nos reinventemos, conseguindo até tirar o cinza e substitui-lo pelo azul no tom do mar que vislumbramos algures por aí.
Dias únicos em que somos felizes mesmo sem conseguirmos dar um mergulho, mas aprendendo como se ganha uma praia só para nós.
Resiliência…
Uma montanha que se interponha entre nós e o mar sempre pode ser um degrau que subimos para ficar mais perto do céu.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 28 / Tema proposto por Marco António)

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

VIVER


Vivo por tanto e tão pouco por respirar.
Vivo no sim e no não que amordaçam a sensaboria morna de um talvez ou de uma decisão eternamente adiada.
Vivo nas páginas de um livro que me traz o mundo, ou então numa viagem para perto ou para longe, mas que me leva sempre até tantos e novos mundos.
Vivo nas asas de pássaros de um poema de Pessoa, no mar de Sophia; nos contornos impossíveis da voz de Amália, no timbre e no mel de Bethânia e Caetano, num filme de Almodovar, numa gargalhada do Herman, num passe do Ronaldo, num golo do Benfica.
Vivo nos contornos todos do abraço de um amigo, na melodia de um beijo, numa conversa de esplanada, no café com gelo tomado à beira mar, numa pausa à sombra de um sobreiro, na água bebida com as mãos em concha na bênção de uma fonte, nos pés imersos no fresco correr de um rio, numa foto, nas palavras que descubro por entre a magia e os mistérios de um poente.
Vivo num serão "ao colo" dos meus pais, no pequeno-almoço à mesa com a família toda, nos desenhos do Luís, nas histórias do João, nas cumplicidades todas nascidas da festa de ter o melhor dos irmãos.
Vivo quando rezo, quando acredito, quando me proponho ser maior.
Vivo nos sorrisos libertos pelas palavras de amor, nas linhas irregulares traçadas pelas tuas mãos no momento de uma carícia, nos passeios por Lisboa, no prazer de tantas pequenas coisas que o amor torna gigantes.
Vivo quando me deixo acontecer, vivo nas minhas diferenças, quando sou eu e a liberdade num caso com todos os laivos de perfeição e eternidade.
Vivo por tanto...
E respirar?
É apenas um pequeníssimo e quase irrelevante detalhe.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 27 / Letra V / Tema proposto por Vítor Rodrigues)

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

UNIÃO


Sentado sozinho na esplanada, apercebo-me que há um homem próximo de mim que assobia num tom dolente de suspiro, um airoso modo de disfarce para as palavras que guarda e não pode dizer a ninguém.
Ofereço-lhe por momentos o olhar, e vejo como o tom asa de corvo do seu cabelo não cumpre nem de perto nem de longe, o objectivo de calar o tempo.
E devolvo-me ao bloco onde escrevo.
Algures pelos finais dos anos setenta, o Dr. Manuel Inácio Pestana vai dar uma conferência no salão da Sociedade Artística Calipolense; um serão diferente a que eu e os meus amigos não faltamos de bloco de apontamentos e caneta, não vá o prelector revelar localizações de subterrâneos que guardem tesouros capazes de nos tornar tão famosos quanto os cinco da Enyd Blyton.
Já na viragem para os anos oitenta, a Vila pára à hora da telenovela, e nós, já adolescentes da "Turma do Clerasil", encontramo-nos na Corredora, na garagem da Casa Paroquial para as reuniões de um grupo que baptizámos de "Sementes de Esperança".
Cruzamos os anos oitenta em sítios diversos; e por entre sebentas, croissants e o Cartão Jovem, escrevemos cartas uns aos outros.
Na viragem para os anos noventa escutamos os Madredeus e começamos a usar gravatas de riscas, cornucópias e bonecos da Disney; para trabalhar e também para os fins-de-semana dos casamentos. Seis bodas em 1992, o Ano de Barcelona.
Viajamos pelos anos noventa, no país e no estrangeiro, compramos telemóveis, tornamo-nos mais próximos pelas virtudes de falar também com os dedos, e passamos para os anos de 2000 a pensar que a Europa jamais voltará a ter muros, sendo Portugal uma imensa e eterna Expo.
Na primeira década do Século XXI fomos para o Marquês festejar as defesas do Ricardo no jogo contra a Inglaterra, e começámos a encontrar-nos informalmente na solidão da partida de tantos daqueles que nos fizeram assim felizes.
Na segunda década pagamos a Troika, falamos no Facebook, convocamo-nos por SMS e já damos boleia aos filhos uns dos outros porque quase todos já estão na universidade.
As conferências são sempre em Vila Viçosa, não na Sociedade Artística mas no Café Restauração. Também já não levamos bloco e caneta, e não é por termos telemóvel e iPad; é que os tesouros, aprendemos a registá-los no coração e com a tinta indelével dos afectos.
Temos cabelos brancos porque adoramos o tempo que vivemos e nunca precisaremos de assobiar para espantar a solidão porque nos temos sempre presentes.
União...
Na hora de escrever este tema achei que só o poderia fazer a pensar nos meus amigos de Vila Viçosa, únicos e eternos, como tantos outros fantásticos que entretanto foram chegando e unindo-se a mim sem equívocos para ficarem”.
Por todos e pelo incansável toque dos afectos, jamais andaremos pelas esplanadas a camuflar a solidão.
E para que conste e pedindo desculpa se me esqueci de alguém, aqui ficam os nomes que guardo no “Mural da União” desse tempo em que fomos crescendo juntos entre a Porta dos Nós e a Quinta Augusta, entre a Lapa e os Capuchos:
Manuel Almas, João Paulo Silva, Paulo Geadas, Paulo Quinteiro, Pedro Silva, Manuela Silvério, Rosa Silvério, José Maria Barreiros, Zinha Duarte, São Duarte, Lurdes Duarte, Céu Duarte, Fernando Duarte, Rui Duarte, Madalena Barros, Mena Rosa, Célia Costa, Béquim Saúde, Gina Barradas, Jesus Simões, Palmira Calado, São Aurélio, Clara Fonseca, Manuela Baptista, Jorge Lopes, Paulo Serrano, Paulo Ratado, Tina Cravo, Maria José Ramalho, Luísa Valente, Margarida Paulino, Maria José Bexiga, Bela Toscano, Jesus Rosa, Paula Dias, Catarina Dias, São Cravo, Helena Pereira, Joana Pinto, Maria João Nogueira, Ana Cristina Almas, Pedro Pinto, Filipe Bacalhau, Mena Espiguinha, São Ramalho Casco, João Casco, São Penetra, São Toscano, Zé Toscano, Ana Isabel Rocha da Silva, Elsa Grácio, Manuela Caeiro, Manuela Cordeiro, Graciete Reia, Paula Paulino, Paula Almas e, claro, o meu irmão, José Artur Barreiros.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 26 / Letra U / Tema proposto por Eduardo Santos)

terça-feira, 25 de agosto de 2015

TRAVESSEIRO


Na cama dos nossos pais existia um travesseiro a toda a largura da cabeceira, em cima do qual se colocavam depois duas pequenas almofadas individuais que davam uma identidade a cada um dos lados do leito; se bem que a identidade que se impunha era essa indiscutível cumplicidade denunciada por essa muito comprida estrutura cheia de esponja muito colorida e esquartejada em pedaços.
E quando pensávamos que um dia iriamos ser felizes ao lado de alguém, sempre acreditávamos que sim, a vida dar-nos-ia a pessoa ideal do outro lado dessa longuíssima almofada que por vezes ajudávamos a nossa mãe a enfronhar na hora de fazer a cama.
Enfronhar, uma tarefa que não era objectivamente fácil.
Também existiam travesseiros nas camas dos nossos avós e dos nossos tios, e nós também os conhecíamos bem dessas noites que eram especiais porque ficávamos em suas casas para que os nossos pais pudessem ir a alguma festa ou a algum baile, e pudessem regressar depois mais tarde a casa.
Tal como os das camas dos nossos pais, para onde saltávamos a voar nos domingos de manhã, esses travesseiros também eram cúmplices das histórias que nos eram contadas por ali num objectivo que cruzava a distracção com o embalo para mais uns minutos de sono.
E quando já ficávamos donos e senhores dessas camas, então o travesseiro moldava-se por cima da nossa cabeça para sermos um genérico da esfinge, e, garanto-vos eu que um travesseiro bem colocado à esquina de uma cama de ferro forjado resulta num magnífico fosso de orquestra no palco da Eurovisão para que possamos cantar com garra o “Aprés Toi” da Vicky Leandros.
Por tudo o que partilho convosco, é por serem polvilhados de açúcar que os bolos da Periquita, em Sintra, têm toda a legitimidade para se chamarem “Travesseiros”, muito mais até do que pela forma enrolada e comprida da sua massa folhada estaladiça, perfeita ainda morna e que me faz aguentar horas na fila para os degustar.
O açúcar das doces memórias.
Quem me propôs este tema foi o Carlos Trindade, o tal amigo que um dia me ofereceu um caderno vermelho que eu uso para tirar notas e escrever poemas. O Carlos é uma pessoa extraordinária e desde logo ser seu amigo é um privilégio, mas há mais, é que sentados à mesa do café, acabamos sempre a geminar informalmente Vila Viçosa e Beja através das nossas histórias tão iguais.
E eu não tenho a certeza, mas quase que juro que um dia falámos dos travesseiros nas camas dos nossos pais e destas manhãs perfeitas de domingo, quando pela casa já existia um intenso cheiro a “brinhol”.
  
(“Um mês A GOSTO” / Dia 25 / Letra T / Tema proposto por Carlos Trindade)

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

SER


Eu sou a semente acendida na terra rasgada pela coragem dos meus avós, sou a raiz envolta pela esperança que choveu da ousadia e do querer de muita gente.
Eu sou a voz e a palavra à solta por entre o eco de uma manhã de liberdade, sou o poema rebelde e doce tecido por um olhar cúmplice de todos os mares; e também pelas mãos "ásperas" que não se cansam nunca de me segredar o amor maior.
Eu sou o passo certo e o incerto, o previsível, a diferença, sou o dia e a noite, sou água, vinho, riso, sou mágoa, sou poente, nascente, o instante, a eternidade; sou o nada e sou tudo no tudo da minha vontade.
Eu sou um rio buscando o mar que abraça, sou barco, às vezes só jangada, e sou uma ilha, um Gama buscando as “Índias” que o seu querer lhe traça.
Eu sou o grito que rasga os silêncios que doem, o abraço na morte da solidão, a gargalhada, a piada, sou o sim, o não que muda o tempo, a coragem, a paz, a festa; e às vezes… uma revolução.
Eu sou o beijo que não mente, doce, ousado, rebelde, mas muito meu e coerente; sou o gesto e a esperança no entoar de um salmo sem letras nascido do louvor da alma de um Homem crente.
Eu sou o hoje e todos os amanhãs…
E por muitos dias que passem e que o espelho insista em devolver-me um rosto diferente, com a barba cheia de cãs; eu resisto, e não consigo deixar de me sentir um eterno Quim, que até nem é má pessoa, tem piada fácil e é um rapaz (quase) sempre contente.

 (“Um mês A GOSTO” / Dia 24 / Tema proposto por Maria São Rodrigues)

domingo, 23 de agosto de 2015

RAMAGEM


Junto à porta da casa do forno colocaram há pouco os ramos já secos da esteva colhida pelos montes. O sol não apagou totalmente a sua resina e é intenso o aroma que se liberta pelo ar ou quando lhe tocamos mesmo que ao de leve na hora de nos escondermos enquanto brincamos.
Não tardará muito e este mesmo aroma passará para o pão, e também para os bolos fintos que a mãe amassou e que esperam em grandes tabuleiros negros de metal, a sua vez de entrarem no forno.
É santa esta quinta-feira de Abril, e daí até Junho será um curtíssimo salto no tempo.
A nossa rua irá como sempre comemorar o São Pedro, e os serões que vão desde aqui até à véspera da festa serão passados no rés-do-chão da casa da D. Mariana Emilia a cortar e a enrolar papel que depois da ajuda de um arame muito maleável, tomará a forma de flores que oferecerão à rua um tecto colorido na hora de passar a procissão com o andor da imagem que sairá da igreja da Misericórdia.
Mas antes, algum vizinho se encarregará de ir ao campo buscar fectos e rosmaninho que espalharemos pelo chão; um informal "incenso" da planície para saudar a fé que passeia connosco.
E o passo da gente esmaga as plantas que incansáveis perfumam o ar durante toda a noite.
Mas Junho às vezes também é mês de despedidas…
Acabaram as aulas e o Padre Armando vai deixar Vila Viçosa para regressar a Proença-a-Nova.
No grupo onde muito iremos sentir a sua falta preparámos uma festa de despedida; e porque ele um dia nos contou que na sua meninice na Beira Baixa fazia sucesso na hora do mês de Maria, porque apanhava umas fantásticas e muito campestres flores amarelas, nós andámos toda a tarde pelo campo a recolher tudo aquilo que de amarelo a primavera tinha feito crescer ao redor de Vila Viçosa.
Enchemos a sala do Lar Juvenil onde sempre nos reunimos, com uma imensidão de flores amarelas.
O Padre Armando adorou a surpresa, elogiou-nos o esforço, mas confessou que não tínhamos conseguido encontrar as "suas flores".
Entre o pão, o divino e a amizade...
Os dias carregam infinitos aromas, na sua mais perfeita informalidade.
Por mais que nos apliquemos ao serão e façamos umas farfalhudas hortênsias, jamais as flores que penduramos e que foram talhadas pelas nossas mãos terão o cheiro que vive à solta pelos montes na bravura daquilo que nem foi semeado.
Mesmo quando não encontramos as “flores” que buscamos, há casas cheias de muitas outras que nos permitem viver a festa.
E eu jamais deixarei de me lembrar do Padre Armando quando passo e vejo flores amarelas algures pelo campo; ele por certo sorrirá desde o Céu e por entre o perfume da minha história e das pessoas que nela se eternizaram em mim.
  
(“Um mês A GOSTO” / Dia 23 / Tema proposto por Rui Pereira)

sábado, 22 de agosto de 2015

SIMPLICIDADE


“Olhai os lírios do campo”.
Quem já leu o Sermão da Montanha, e também o livro inspirado do escritor Brasileiro Érico Verissimo que dele tomou título através exactamente desta frase, entende que a vida se tece pela escolha contínua entre o simples e o sofisticado, a autenticidade e os mantos e as segundas peles que nos calam a essência a favor da imagem com que nos “vendemos” aos outros.
De forma consciente, eu “votarei” sempre na primeira opção.
Quero ser um lírio ao sol temperando de roxo e de todas as minhas cores, o verde tom dos campos de Abril e primavera; quero “tomar” sem biombos, restrições ou barreiras, a poesia que o vento colhe das estevas e dos trigais para depois segredar ao ouvido de quem abraça a liberdade…
Quero ser eu num lírio que ofereça brilho à semente que o criou e que cante glórias à chuva de tantos beijos que o fizeram assim… que me fizeram assim.
A simplicidade…
A mais divina simplicidade ou a opção por tão só sermos nós e sermos grandes por essa única via.
Quem se nega a si para envergar as vestes que o mundo lhe pede, o sofisticado veludo das “burkas sociais”, é uma máscara ridícula a vaguear por um imenso Carnaval.
E a vida vira um corso.
“Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam, contudo vos digo que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles.”

(“Um mês A GOSTO” / Dia 22 / Tema proposto por Augusto Castro)

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

QUADRO


Sobre o quadro negro muito salpicado pelo pó do giz, o professor Lima Martins pendurou uma paisagem que retirou há pouco e ao acaso de uma lata, um paralelepípedo gigante que está sempre encostado à parede oposta à das três enormes janelas.
Vejo um riacho, uma árvore, ao longe, uma montanha… e começo a escrever a “Redacção”.
Estou na quarta classe e escrevo como quem põe palavras naquilo que sonha.
É um sábado de manhã e o Rijksmuseum está cheio de gente que quer despachar-se para ir ao Museu van Gogh, ou então gente cansada porque já veio de lá. Como no banco de uma movimentada estação de metro, sento-me e tenho a “Ronda da noite” só para mim, o privilégio do melhor jogo de sombras que conheço.
E van Gogh…
Também o espreito em Amesterdão mas prefiro vê-lo em Paris no Museu de Orsay. “A noite estrelada sobre o Ródano”, e tantos reflexos e palavras se soltam por entre o aroma a café que tomo depois no bar por detrás do enorme relógio da velha gare nas margens do Sena.
Aponto as notas num caderno que comprei ainda agora na loja do museu.
“Eu e a aldeia” parece um título estranho para Nova Iorque; mas é milagre de Chagall numa das paredes do MoMa. “Eu e a aldeia”, e um pouco de pressa porque o Juan Blas espera por mim ali perto no Instituto Cervantes para irmos almoçar juntos.
Vejo o El Greco a olhar para mim e para o João Paulo em “O enterro do Conde de Orgaz”, na igreja de São Tomé, em Toledo; e também escuto a guerra nos gritos da “Guernica”, de Pablo Picasso, nas paredes de um antigo hospital de Madrid, o Centro Reina Sofia, ali tão demasiado próximo das dores de Março na Estação de Atocha.
E confesso…
Às vezes quando estou pelo Porto e tenho de almoçar próximo do Hospital de Santo António, faço-o na cafetaria do Museu Soares dos Reis, não sem antes ir matar saudades das “Casas brancas de Capri”, do meu conterrâneo Henrique Pousão.
Na redacção que entreguei há pouco ao professor Lima Martins há um homem sentado à beira do riacho e na sombra da árvore, um homem de barbas que escreve as histórias que vai colhendo das sombras que as nuvens e o sol vão oferecendo à montanha que está à sua frente.
Sou eu e o mundo que se me revela, a vida, os meus quadros preferidos e todas as “gravuras” que os mestres e os dias me vão colocando sobre o negro…
E eu desenho sobre eles as minhas palavras… sempre como quem sonha.

 (“Um mês A GOSTO” / Dia 21 / Letra Q / Tema proposto por Miguel Quesada)

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

PERMANECER


Com a força com que te quero, escavei a terra e abri valas muito profundas, coloquei uma estrutura em ferro, cimento, e construí os alicerces mais fortes de que há memória; da magia das palavras e dos gestos que me ofereces colhi a inspiração e desenhei as paredes, o telhado, as portas e as janelas, todas com uma vista desafogada para o melhor que a alma pode guardar; pintei de branco a fachada e também lhe ofereci um rodapé azul da cor do Tejo; decorei os recantos ao sabor do desejo, plantei árvores, fiz um jardim com canteiros e centenas de flores; e de seguida, convidei-te a morar no condomínio dos afectos que guardo em mim, nesta casa que é só tua.
Moram aqui todos aqueles que contam para o todo que eu sou, e vivem em casas únicas e intransmissíveis; a tua fica situada na rua que baptizei de Rua da Verdade; uma via principal que cruza com a Rua da Ousadia e a da Liberdade.
Aqui, todas as ruas são largas e permitem dançar à vontade enquanto se caminha ao sabor do riso; os passeios têm bancos de madeira à sombra de uma fé gigante, bancos como fontes onde se descansa, se bebe a paz, e se sonha sem o beliscão de quaisquer fronteiras.
As ruas todas onde passeio contigo, a fé, e os bancos onde nos sentamos nos dias de namorar.
Um condomínio fechado?
Entre a festa e a paz de te sentir a viver aqui, há muitos instantes em que se me despenteia o ar sério ou sisudo, os olhos revelam o endereço deste bairro, e o sorriso denuncia na minha face, o tempo perfeito que vivemos os dois.
Os dias que o futuro multiplicará ao infinito nesta festa de permaneceres em mim, do jeito que só permanecem aqueles que nos constroem.


(“Um mês A GOSTO” / Dia 20 / Letra P / Tema proposto por Pedro António)

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

OPTIMISMO


Quem lamenta a “partida” do sol no final de cada tarde, talvez nunca se tenha predisposto a sentir os beijos que a lua oferece enquanto a noite nos envolve. Os beijos de onde nascem as mais inspiradas palavras de amor, que a alma é como as estrelas, e brilha de noite, à hora em que as guitarras choram de saudade e pedem a voz e a garra dos fadistas.
E dessas noites ficam sementes que apodrecem depois à chuva e ao sol dos dias, tão só para que delas possam brotar as flores e os frutos pelos quais o Homem anseia.
O Homem que se dobra para colher o trigo que lhe dá o pão e o faz caminhar de pé, o mesmo Homem que às vezes cai, e faz dessa queda uma pausa de repouso para retomar os seus dias com redobrada força.
Da intensidade da “queda”, ou chamada, depende a capacidade de um atleta voar para o record do mundo num salto em comprimento ou em altura.
Mas quem se fixar apenas na chamada dirá que um Homem caiu.
As pedras que ruíram de uma casa onde vivíamos são a oportunidade para a construção de um outro lar desenhado por nós e mais de acordo com a nossa vontade; um filho que chora e nos desperta durante a noite, é a oportunidade única para um beijo doce; as claras que ficam sobre a bancada depois de termos confeccionado ovos moles, não são um desperdício, são a base para umas igualmente doces e fabulosas farófias.
As lágrimas intensas com que choramos um amor estarão sempre condenadas ao ridículo quando nos reencontrarmos no abraço de um outro maior e melhor amor.
Optimismo…
A História faz-se mas não se conta no presente, e a semente que hoje está ressequida ou apodrece quase nunca consta na descrição da melhor maçã que alguma vez provámos.
Optimismo…
Sim, conheço-o dos meus genes.
  

(“Um mês A GOSTO” / Dia 19 / Letra O / Tema proposto por João Roque)

terça-feira, 18 de agosto de 2015

UTOPIA


Vindo do Barreiro, o barco atracou há pouco na estação de Sul e Sueste, cumprindo essa nobre missão de oferecer um passo flutuante à gente que como eu tomou o comboio no Alentejo.
Atravesso a rua, nunca deixando de espreitar o Campo das Cebolas e a Casa dos Bicos, e paro no Terreiro do Paço, no lado nascente, na paragem da carreira 39, um autocarro de dois pisos que irá até São Bento e me deixará à porta de casa no Príncipe Real.
À minha frente a paragem dos eléctricos que virarão para a Rua do Arsenal, acelerando pelos carris para o Cais do Sodré e São Paulo.
O meu autocarro tarda...
Um dia, algures pelo futuro, mandarei instalar uma mesa aqui neste mesmo lugar onde me encontro agora, e num fim de tarde de nuvens que tinjam o céu de Lisboa com todas as cores, sentar-me-ei aqui a namorar com a criatura mais fantástica do universo.
Dois "Hayman's" com água tónica e um pequeno mar de frutos vermelhos, ajudarão por certo a incendiar a tarde de onde emergirão as mais doces promessas de amor.
Como num livro daqueles cuja história semeia nós pelas nossas gargantas.
Depois, levantar-nos-emos, daremos um abraço no centro da Praça e caminharemos seguindo o Tejo, mas sem nunca deixar de namorar.
O autocarro chega e eu subo; do piso superior terei melhor vista para a Baixa e todas as ruas que ficam no seu percurso. O revisor é Alentejano, como eu, e já me conhece; fica por ali à conversa, pernas nas escadas e o corpo ao nível do meu, que me encontro sentado. Falamos da Sopa de Tomate e do Benfica que está em crise após a saída de Erickson.
Estou em Outubro de 1984... e levo comigo o sonho.
Utopia?
A nossa vontade é o antídoto da utopia.
Depende de nós se os sonhos são idílicos momentos para nos entretermos nas esperas que a vida nos proporciona, ou se pelo contrário, são rotas por onde seguimos confiantes e com coragem até à realidade.
Recusar-me-ei sempre a cristalizar pela eternidade, os sonhos que nasçam de mim ou aqueles que persistem para que eu renasça mais forte e mais coerente com o que desejo.
Calar um sonho é adiarmo-nos.
Os dois “Hayman’s” com água tónica estavam frescos e deliciosos; a companhia conseguiu superar o sonho.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 18 / Tema proposto por Hélio Cândido)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

NÓS


O rolo de corda, os pedaços que vou cortando à medida, dobrando em dois e pendurando de uma argola branca de plástico que eu já pendurei no trinco de uma porta… três secções de quatro cordas cada, e posso começar a dar os nós.
Às vezes escuto a música guardada num LP qualquer: Duran Duran, Fischer Z, Simon & Garfunkel, um Polystar de um ano qualquer, Eurovisão 1978 com as Baccara a representarem o Luxemburgo…
Outras vezes deixo a “banda sonora” ao critério do rádio que vai tocando baixinho: Tina Turner, Sheena Easton, Olivia Newton John...
Se os nós forem feitos sempre no mesmo sentido, a teia de corda que dele resulta enrola; mas se pelo contrário eu alternar o sentido, a teia fica direita.
Vou deixando espaços sem nós entre cada uma destas teias.
Com as mãos assim ocupadas, com a música a deixar-me de vez em quando uma palavra como mote, é pelo pensamento que sigo, qual marinheiro numa nau cruzando os mares… ao sabor dos nós.
No final cruzo cordas de cada uma das três secções e faço uma rede que depois tranco em baixo; aparo algumas pontas mais irregulares e tenho um suporte para pendurar um vaso. Escolho aquela planta que melhor se possa sentir assim entrelaçada entre as cordas.
Não me recordo do número de suportes para vasos que fiz assim durante algumas férias de verão, mas acho que foram muitos, e alguns até os fiz por encomenda.
Sempre ao sabor do pensamento e a navegar.
Afinal, a vida tem tanto de um rolo de corda que espera por “nós”…
Para que sempre brilhem as flores.

  
(“Um mês A GOSTO” / Dia 17 / Letra N / Tema proposto por Natália e Guilhermina Sousa)

domingo, 16 de agosto de 2015

MEU


Nunca nada me pertencerá tão completa e legitimamente do que aquilo ou quem eu amo.
Muito fala a gente sobre a posse daquilo que se adquire ou do que nos é oferecido. Serão coisas importantes ou não, serão muito ou pouco, bens móveis, imóveis, diamantes, tesouros… Cumpriremos todos os preceitos legais, não existirão dúvidas, exibiremos todos os comprovativos devidos em casos tais, tatuaremos os nomes nas fachadas; mas tudo permanecerá sempre como um satélite ao redor de nós.
Pelo contrário, tudo e todos os que amo são parte de mim, vivem comigo no mais íntimo, no pensamento, na alma, são raízes profundas dos sorrisos ou do choro triste.
Preciso deles para ser eu completo e inteiro, e cada pessoa que eu amo é uma célula indispensável para a construção do todo que eu sou. Sem ela…
E depois há o pensamento pelo qual existimos e essa mais pura intimidade que temos para connosco próprios.
Poderá existir algo tão ou mais intimamente meu do que o pensamento e tudo o que nele habita?
Por existires tão presente e tão nítido no meu pensamento, tu és tão meu quanto o meu braço direito, quanto todas as palavras que escrevo, quanto os meus beijos, os meus suspiros e os meus sonhos.
Quando nas tardes de domingo saio pela cidade e entrego o meu olhar ao rio, caudal das águas cúmplices dos desejos e do nosso abraço; chamo-te meu... meu amor...
Com legitimidade.
E às vezes até digo que o universo é todo meu, mas isso é porque contigo eu finalmente me deixo acontecer como sempre me imaginei.

  
(“Um mês A GOSTO” / Dia 16 / Letra M / Tema proposto por Milton Alonso)

sábado, 15 de agosto de 2015

LIBERDADE


Decorria a primavera de 1992 e eu cumpria o Serviço Militar na Farmácia do Hospital Militar Principal, no edifício da Casa de Saúde, à Estrela.
Aspirante Oficial Miliciano, eu desempenhava com brio as funções de farmacêutico e preparava a medicação para os doentes dos diferentes Serviços Clínicos; entre eles um dos meus heróis e um dos maiores heróis do nosso tempo: Salgueiro Maia.
Porque em Abril tudo acontece, e porque é nas manhãs de Abril que se ganha a liberdade e a eternidade, o "Capitão" partiu sem nunca saber que as mãos que lhe preparavam os medicamentos tomaram de si e por si uma nova sorte, entre cravos vermelhos e inevitavelmente... na sua… na nossa manhã de Abril.
Os heróis marcam o tempo, rompem esquinas no previsível, cortam a História, e ali estávamos agora os dois com o Tejo ao fundo, ele o herói, e eu o filho do Artur que era barbeiro desde os dez anos e que um dia não pôde vir a Lisboa porque não tinha uns sapatos dignos para calçar.
A liberdade...
Num dia da última primavera passei pelo Carmo em busca das flores dos jacarandás, e entre o eco da revolução, dos gritos do povo, do megafone de Francisco Sousa Tavares, de Salgueiro Maia; talvez a liberdade não estivesse tão rubra quanto nas palavras de amor que soltei baixinho e ao jeito de um beijo soprado, no ouvido de quem me acompanhava.
Uma revolução; mas a coerência do coração no usufruto de uma herança de liberdade.
O herói partiu sem saber quem eu era, mas a “rua” que abriu na esquina de um tempo novo jamais ficará órfã dos meus passos.
Que as ruas se apagam em pó e ervas sempre que não beneficiam dos passos de alguém.
A liberdade…
A rua da minha liberdade.
  
(“Um mês A GOSTO” / Dia 15 / Tema proposto por Lucinda Almeida)

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

DEUS


Jamais Te darei nome ou rosto, embora Te vislumbre na face mais perfeita e doce dos dias, Te sinta por entre o aroma das rosas e todas as flores, embora eu Te toque e abrace nos instantes todos em que a paz parece inundar-me o ser.
Jamais Te fecharei nas cadeias da sumptuosidade que dá lustro ao meu poder, o dourado dos zimbórios ou dos minaretes que servem vaidades, arquitéctónicos troféus de guerras falsamente feitas em Teu nome, as cruzadas vãs de quem te “embrulha” em humanas condições.
Jamais Te disfarçarei com as vestes da ilusão dourada de qualquer barroca moral que sirva os meus interesses e convicções; a moral que repele e confunde Pai com juiz, acolhimento com condenação, e confunde amor com a pérfida e triste submissão.
Mas falo contigo, rezo-Te na mudez das palavras e das fórmulas, aquela que faz aforar e cantar os gestos e as atitudes, rezo nos beijos e nas palavras que dou aos que passam pelo tempo e pelo meu espaço, canto-Te glórias quando celebro a liberdade, quando afogo a hipocrisia e vivo na festa de ser eu, tal qual me criasTe.
Comungo-Te no pão das searas que o vento beijou e o Homem ceifou sob o calor de Julho, na fruta madura, no vinho que pelo sol tomou de Ti a alegria na encosta que beija o rio, no sal do sabor que colho dos mares que o dia tinge de azul.
E nas águas límpidas e frescas das ribeiras, quando me dispo de pudores e iniquidade, tomo de Ti a força de quem renasce para a vida que importa.
Há uma profecia de liberdade nas asas soltas das gaivotas rasgando o céu das minhas tardes, uma profecia de paz na música do vento varrendo as árvores e o silêncio do campo ao meio dia, uma infinita premonição de vida no eco doce da palavra amor solta pela pessoa mais bonita do universo e que Tu sentaste ao meu lado pela via do coração.
Mas há uma realidade de indisfarçável dor tal e qual as cruzes erguidas nas tardes de tormenta do calvário, uma dor que cruzou milénios e que persiste na gente escravizada e explorada, no Homem faminto que come do lixo, na vítima de perseguição pelo que pensa e pelo que é, nas crianças que correm descalças sobre o chão duro semeado pelos senhores da guerra, na iliteracia, no Homem discriminado, no velho que morre sozinho, na floresta que arde nas chaminés dos interesses, no cão apedrejado…
Mas eu vejo-Te e sinto-Te nas profecias doces que por ti inundaram todas as horas…
E deixo que a minha esperança tenha laivos de aleluia como em Jerusalém numa manhã de primavera.
Jamais Te darei nome… pela fé chamar-Te-ei apenas vida, muito mais que Deus.
E o Teu rosto… é o rosto que anda nas vidas de toda a gente.      

(“Um mês A GOSTO” / Dia 14 / Tema proposto por Álvaro Coelho)

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

KNOWLEDGE


A Micaela Vanessa, em 2010, Miss Praia Cova do Vapor, apanhou um dia o cacilheiro, acenou ao Cristo Rei, e desembarcou no Cais Sodré.
Depois…
Do alto dos tacões de quinze centímetros virou-se para o Duque da Terceira, e confessou:
- Vim à capital para mostrar o meu valor, agora vão ver como é que é.
E rematou:
- Queira o mundo ou não queira.
Subiu ao Chiado, desceu ao Rossio; e já com a alma em êxtase, o corpo a sentir um calafrio, confirmou a morada nas páginas da “Ana mais atrevida” e... chegou:

"BIMBY UNIVERSITY
Mesmo que o seu QI seja sinistro você sai daqui ministro"

Entrou. Uma gorda loura atrás de um guichet sorriu mostrando os implantes
- Benvinda Micaela, a sua vida hoje mudou e nada será como antes.
E prosseguiu:
- Então qual é o curso que deseja? Temos direito, economia, relações internacionais, antropologia, gestão, farmácia... e alguns outros cursos mais.
- Prontos... então é assim... como eu sou Miss Praia, não tenho namorado, e na Cova do Vapor há cada vez mais estrangeiros... porque não um marido de fora?... quero Relações Internacionais.
- Boa escolha sim senhor. Podemos começar?
- Estou pronta.
- Aproveitamos e fazemos já a Prova de Aferição.
- Força.
- Assine o seu nome nesta linha.
- Humm... Ok... Já está!
- Fantástico. Prova brilhante. Admitida com distinção.
A Micaela bate palmas e a outra continua:
- Ainda tem um pouco de paciência? É que assim despachávamos já o Processo de Equivalência.
- Comecemos porque até me dá jeito.
- Do you speak English?
- Yes.
- OK. O Inglês está feito.
- Vai ao mercado com dez Euros e compra um repolho por dois, quantos Euros traz de volta para casa?
- Ora bem… deixe-me ver…dez, dois… acho que regresso com oito.
- Bravo. Está a ver como sabia. Também já despachámos a Economia. Podemos seguir?
- Sim.
- Se for apanhar um avião para a China, que documento de identificação levará consigo?
- O passaporte
- Politica Internacional concluída com distinção. Está a ver que sorte?
- A Serra da Estrela fica em que país? Angola, México ou Portugal?
- Portugal.
- Parabéns. Já fez Geografia Internacional.
- O Homem vem do macaco ou foi criado por magia?
- Do macaco.
- Muito bem. Aprovada em Antropologia. Cansada?
- Um pouco. É muita matéria, difícil e eu estou algo destreinada.
- Qual foi o último livro que leu?
- “Anita, uma nova aventura”.
- Boa, já fez Literatura.
- Uma pessoa deprimida canta ou chora?
- Chora… de agonia.
- Muito bem, passou a psicologia.
- Quando há eleições, a Micaela tem votado?
- Sempre.
- Excelente, assim já fica com a Organização do Estado.
- Ai que bom. Mas que tarde difícil.
- Pois, mas tenho boas notícias, com as cadeiras que fez já é doutora. A Micaela está licenciada.
- Ai que grande emoção. Eu, Miss e Doutora Micaela… o meu coração arde
- Está a ver… e tudo numa tarde.
- Pois é… vou já ligar à minha primeira Dama de Honor, afinal de contas é tão fácil ser doutor.
E prossegue a funcionária:
- Agora só tem de pagar vinte mil Euros por este curso mais dez mil para o diploma que levantará no dia da praxe. Convém trazer traje e saber tocar pandeireta.
- Assim farei e vou dizer bem da “Bimby University” em todo o lado.
- Obrigado. E sempre pode voltar para fazer o mestrado. Com esse seu ar tão astuto, é coisa para fazer apenas num minuto.
- Vou pensar nisso.
- Pense. “Knowledge is power”, ou em Português… “Conhecimento é poder”. Convém nunca esquecer.

 (“Um mês A GOSTO” / Dia 13 / Letra k / Tema proposto por Rita Almeida)