terça-feira, 4 de agosto de 2015

DESTINO


A sombra do tecto denso oferecido pelas árvores do caminho não consegue disfarçar o calor deste verão de 2025; sente-se em tudo e na brisa que nos beija o rosto enquanto nos oferecemos a oportunidade de subir desde a Estação de Vila Nova até à quinta, o caminho percorrido por Eça acabado de chegar de Paris, o mesmo de Jacinto na ficção que rebaptizou esta terra como Tormes.
“A cidade e as serras”, o romance que tu trazes debaixo do braço e que abres de vez em quando como se de um guia de viagem se tratasse e tu buscasses nele as coordenadas exactas do nosso trajecto. 
Caminhamos como sempre, tu à minha direita, e de vez em quando, nas pausas para retomar o fôlego, damo-nos um discreto abraço que pode ou não ser coroado com um beijo.
Um gole de água, sorrisos, muitas palavras…
E finalmente a casa de granito que a hera foi tingindo de verde à medida que trepava pelas paredes com aspecto idêntico ao da muralha de uma fortaleza intransponível.  
Respiramos fundo e dirigimo-nos de imediato para a mesa que nos puseram debaixo da parreira e na varanda com uma vista privilegiada para o vale do Douro que espreita azul lá em baixo.
Daqui a muito pouco o empregado fará chegar até nós, e sucessivamente, a Canja de Galinha, o Frango Corado com Arroz de Favas, e o Leite Creme caseiro queimado na hora. Durante toda a refeição brilhará nos copos um fresquíssimo Vinho Verde, e imitaremos assim e na íntegra, a primeira refeição que aqui tomou Eça de Queiroz… e também Jacinto.
Eu trouxe comigo um exemplar de “A fortuna perigosa” de Ken Follett que coloco na cadeira vazia ao nosso lado. Tu espreitas e sorris:
- Porquê Follett aqui no universo de Eça?
- Por ti. Tu ofereceste-me este livro há dez anos na véspera de ter estado aqui com os meus pais a caminho do Gerês, quando te jurei que um dia viria aqui contigo. Tardou dez anos mas estamos cá.
E reforço:
- Ainda estão por estas páginas as duas fotos tuas que então me ofereceste.
Não resistes a espreitar... e dizes baixinho como se de um segredo se tratasse:
- Parece que os nossos mundos confluíram para este instante em tudo perfeito. Achas que foi o destino?
- Fomos nós muito mais do que qualquer acaso ou congeminação de natureza cósmica ou divina… porque quisemos muito e porque nos quisemos e queremos muito.
- E o destino?
- É desculpa para quem se rende passivamente ao “lugar” para onde o tempo e os outros o empurraram. Somos nós quem desenha o seu próprio caminho, às vezes por entre muitas pedras; outras vezes cruzando o improvável e o inédito, como Follet e Eça, que para nós fazem todo o sentido aqui juntos.
E continuo:
- Chamemos Saramago também a esta mesa para que ele nos diga que “o destino desconhece uma linha recta”.
Sorris.
A brisa continua a beijar-nos intensamente mas finalmente consegue vislumbrar-se algum fresco do tom de pinho do alto da serra.
Pego-te na mão direita, dou-te um beijo e acrescento ainda:
- Mas também há quem chame destino ao ponto ideal e bom para onde a sua vontade o conduziu…
- E então…
- Então, tu és e serás sempre o meu destino.
E pelo beijo que me dás de seguida concluo que eu também sou definitivamente o teu, aqui entre as serras… e entre todas as cidades que a vida nos der.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 4 / Letra D / Tema proposto por Andreia Maia)



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