terça-feira, 18 de agosto de 2015

UTOPIA


Vindo do Barreiro, o barco atracou há pouco na estação de Sul e Sueste, cumprindo essa nobre missão de oferecer um passo flutuante à gente que como eu tomou o comboio no Alentejo.
Atravesso a rua, nunca deixando de espreitar o Campo das Cebolas e a Casa dos Bicos, e paro no Terreiro do Paço, no lado nascente, na paragem da carreira 39, um autocarro de dois pisos que irá até São Bento e me deixará à porta de casa no Príncipe Real.
À minha frente a paragem dos eléctricos que virarão para a Rua do Arsenal, acelerando pelos carris para o Cais do Sodré e São Paulo.
O meu autocarro tarda...
Um dia, algures pelo futuro, mandarei instalar uma mesa aqui neste mesmo lugar onde me encontro agora, e num fim de tarde de nuvens que tinjam o céu de Lisboa com todas as cores, sentar-me-ei aqui a namorar com a criatura mais fantástica do universo.
Dois "Hayman's" com água tónica e um pequeno mar de frutos vermelhos, ajudarão por certo a incendiar a tarde de onde emergirão as mais doces promessas de amor.
Como num livro daqueles cuja história semeia nós pelas nossas gargantas.
Depois, levantar-nos-emos, daremos um abraço no centro da Praça e caminharemos seguindo o Tejo, mas sem nunca deixar de namorar.
O autocarro chega e eu subo; do piso superior terei melhor vista para a Baixa e todas as ruas que ficam no seu percurso. O revisor é Alentejano, como eu, e já me conhece; fica por ali à conversa, pernas nas escadas e o corpo ao nível do meu, que me encontro sentado. Falamos da Sopa de Tomate e do Benfica que está em crise após a saída de Erickson.
Estou em Outubro de 1984... e levo comigo o sonho.
Utopia?
A nossa vontade é o antídoto da utopia.
Depende de nós se os sonhos são idílicos momentos para nos entretermos nas esperas que a vida nos proporciona, ou se pelo contrário, são rotas por onde seguimos confiantes e com coragem até à realidade.
Recusar-me-ei sempre a cristalizar pela eternidade, os sonhos que nasçam de mim ou aqueles que persistem para que eu renasça mais forte e mais coerente com o que desejo.
Calar um sonho é adiarmo-nos.
Os dois “Hayman’s” com água tónica estavam frescos e deliciosos; a companhia conseguiu superar o sonho.

(“Um mês A GOSTO” / Dia 18 / Tema proposto por Hélio Cândido)

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