quarta-feira, 30 de abril de 2014

A gente e as cores

Na passada segunda-feira e quando se preparavam para concluir as suas compras na minha vizinha loja dos supermercados Pingo Doce, os meus pais foram confrontados com uma operadora de caixa que lhes pediu para identificarem o conteúdo de um dos sacos, o das favas frescas, pois a dita criatura que sabia manipular toda a maquinaria à sua volta e saberia por certo distinguir todo o arsenal de maquilhagem com que se tinha transformado naquela espécie humana de árvore de Natal fora de época; não sabia distinguir favas de ervilhas.
Fui “desenterrar” esta anedota urbana da “filha do betão” que se pôs à mercê de um casal de alegres Alentejanos para ilustrar esta minha convicção de que os cérebros humanos (ou em alguns casos, a ausência deles) andam desfocadíssimos naquilo que deve ser ou não alvo de distinção.
Até aposto que esta criatura que não distingue vegetais tão diferentes no seu aspecto, sabe distinguir os Homens consoante a tonalidade da sua pele; porque não considero ser um acaso os recentes episódios que envolvem o arremesso de uma banana ao jogador Dani Alves ou o bloqueio à entrada do Nelson Évora e dos seus amigos numa discoteca lisboeta.
Perguntem a alguém que regressa a casa pelas duas da manhã se sente mais conforto a cruzar-se com um negro ou com um branco que até traz uma camisa da Façonnable?
Mas o branco até pode ser um serial killer
Perguntem a alguém se sente mais conforto por ver uma família de negros ou de brancos a mudar-se para o apartamento ao lado do seu?
Mas a família de brancos pode pertencer a uma associação criminosa…
Quem vê cores peca como quem vê caras e pensa ver os corações.
O mundo desprezou definitivamente o ser para se prender a irrelevantes detalhes como a tonalidade da pele, a religião, a posição e os círculos sociais, a orientação sexual, o poder económico…
Escrutina-se a gente com base na superficialidade e naqueles factores que até são no seu conjunto, uma prova viva da riqueza da humanidade.
Como se a casca valesse tanto ou mais do que o conteúdo…
E somos mais eficazes a fazer a distinção entre pessoas do que a distinguir favas de ervilhas.
No texto que publica sobre o episódio na discoteca, Nelson Évora puxa a seu favor o argumento de que entre esses negros estão muitos campeões de Portugal e muitos atletas que já elevaram o nome do país em provas internacionais.
Não tem e não deve usar este tipo de argumentos: era um grupo de pessoas, e já está.
Este tipo de argumentos manifesta quase sem querer uma complacência para aquilo que é inadmissível, o racismo e toda e qualquer forma de expressão em si enraizada.
Por isso e por palavras, dado que não gosto de bananas e como diabético não é recomendável que as consuma, sempre digo que sim, sou tão macaco como qualquer outro Homem.
Recordo-me de uma cena do filme “Cry Freedom” sobre o dissidente do apartheid, Steve Biko.
Quando o juiz pretende ter graça e lhe pergunta:
- Porque é que vocês dizem que são negros se efectivamente são mais para o castanho?
Ele responde:
- Pela mesma razão pela qual vocês dizem que são brancos e têm uma tonalidade mais para o cor-de-rosa.
Definitivamente a cor é irrelevante.
Manda a alma e o ser gente.

terça-feira, 29 de abril de 2014

As histórias eternas

Desde sempre ouvi contar que uma das minhas bisavós, a mãe do meu avô Francisco, entretinha os filhos e todos os amigos da vizinhança, contando-lhes histórias, ao mesmo tempo em que por acção de um velho candeeiro de petróleo, projectava na alva parede em frente da sua casa, as sombras dos dedos devidamente alinhados para que tomassem a forma dos personagens destes enredos que invariavelmente casavam os mistérios e as lendas que andavam de boca em boca ali pelas redondezas.
Em Vila Viçosa e na velha Rua de Évora da qual restam apenas as fachadas da actual Avenida Bento de Jesus Caraça, do lado da Pastelaria Azul, que do outro lado era a Rua do Espírito Santo antes da reforma dos anos quarenta operada por obra do Engenheiro Duarte Pacheco; os serões quentes de verão tinham assim uma animação extra que beneficiava ainda e em muitas noites, da música produzida por alguns instrumentos artesanais que um outro vizinho tocasse ali pelas redondezas.
Estas histórias também chegaram aos serões da minha infância contadas pelos meus avós ou tios-avós, já no tempo da luz eléctrica e sem direito a sombras na parede, mas com palavras que prendiam a nossa atenção, no inverno, quando nos reuníamos todos à volta da braseira por imposição do frio; ou então ao luar e sentados à porta enquanto tentávamos descobrir uma brisa fresca por entre as noites quentes de verão.
Lembro-me de muitas dessas histórias que terminavam sempre da mesma forma:
- O meu conto está terminado, e se vocês não se levantam já, vão todos acabar com o rabo colado.
E lá nos levantávamos todos de um salto não fosse a profecia cumprir-se nessa noite e ficássemos irremediavelmente agarrados ao assento de buinho das baixíssimas cadeiras coloridas e decoradas com desenhos de flores, como manda a boa tradição no Alentejo.
Porque são eternas e são detalhes valiosíssimos da melhor herança familiar, hoje sou eu que conto essas histórias, já não por entre os candeeiros de petróleo, as cadeiras de buinho ao luar e as braseiras de picão que nos aquecem no inverno; mas contando com a concorrência desleal da Meo, da Zon, dos i-pads e afins.
Mas já consegui que o meu sobrinho João me fizesse uma performance com fantoches colocando um pequeno palco apoiado nas costas do sofá, no dia em que senti que deverá ser eterno na família Barreiros este jeito para contar histórias usando as palavras… e os dedos.
Pelo menos já atravessou mais de um século e nada mais do que cinco gerações.
Ontem ao final da tarde e depois de um cafezinho à conversa com o meu amigo Álvaro Coelho no Oeiras Parque, cruzámo-nos com o actor Carlos Alberto Vidal e quase dissemos em coro:
- Olha o Avô Cantigas.
O homem é pouco mais velho do que eu, e eu até terei agora mais cabelos brancos do que ele, mas de repente e pela força das histórias ali presentes na memória, ele foi definitivamente o avô e eu vi-me criança e para aí com menos sessenta anos do que o seu personagem mais famoso.
Não há dúvida que as histórias e a imaginação “matam” o tempo, devolvem-nos ao riso e aos sonhos da infância e…
Fazem-nos muito mais felizes.
Sigamos pois pelo mapa e pelas coordenadas das histórias, e não matemos nunca o benefício da fantasia que nos faz eternamente crianças cruzando tudo e até infinitas gerações.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

As palavras

Indiferente às condições meteorológicas que poderão ser mais ou menos agrestes, às marés, à força das ondas, às estações do ano, à posição dos astros, às fases da lua, aos humores… e sendo muito mais do que apenas duas dúzias de horas oferecidas ao nosso passivo acto de respirar; os dias são fontes inesgotáveis de palavras.
De palavras ditas, escritas, cantadas, desenhadas, choradas, soluçadas, subentendidas…
De palavras e de silêncios, porque estes, porque as não têm, falam tanto ou mais do que elas.
Os dias são então nascentes de palavras sublinhadas ou não pela tinta da melhor verdade, aquela que é dádiva gratuita do espelho generoso que é o olhar.
E as palavras são assim e tantas vezes, perfumados detalhes tecidos a letras no tear de uma incessante poesia.
Há palavras ocas, estéreis, vãs e sem qualquer sentido; ou palavras recheadas do conteúdo que os gestos e as atitudes sempre lhes oferecem, quando os dias não as pretendem ver abandonadas nesse famoso orfanato das boas intenções.
Há palavras eternas porque enraizadas no sentir; e palavras descartáveis nascidas do bem parecer do socialmente correcto, as palavras que são adorno e fancaria dos travestidos de carácter.
Há palavras terapêuticas e que saram feridas; e palavras mortíferas e afiadas como punhais.
E nós, privilegiados geradores e emissores de todas essas palavras, temos a opção de um espectro entre o helicóptero que manda flores sobre uma multidão em festa, ou o Enola Gay, bombardeiro B-29 lançando a morte sobre Hiroshima.
Porque há palavras que florescem de esperança e fazem sorrir os outros; e há palavras que são bombas bem mais letais que as atómicas, matando friamente os Homens sem direito a qualquer apelo.
Porque há palavras como há vida e há morte, amor e ódio, fidelidade e traição, perdão e rancor, o riso e a dor do choro, um abraço e o esmurrar feroz de alguém…
E “há palavras que nos beijam como se tivessem boca”, afirmou um dia o poeta de “A gaivota”, o grande Alexandre O’Neill.
Na reconhecida e justa reciprocidade, ouso eu acrescentar que há palavras que são beijos dados por nós sobretudo quando é de amor que se faz o sentir e se preenche verdadeiramente aquele “espaço” que é o melhor de nós, o “território” a que chamamos alma e que ingenuamente insistimos em desenhar com a forma de um rubro coração.
E há dias como hoje em que um louco com alma vadia de poeta se senta em frente ao mar, mergulha no privilégio de um azul sem fim e… sente que as palavras se soltam ao ritmo dos seus inquietos pensamentos.
Para falar de amor e para vos abraçar a todos com um sorriso também tecido pelas inevitáveis palavras.

domingo, 27 de abril de 2014

“O dedo fez-me cócegas”

Há uma fonte em pedra construída pelos Homens, um círio aceso ao lado de um altar debruado a flores; e a fé é água viva que corre pelos tempos atravessando gerações, e luz que alumia caminhos desenhados por inspiração do amor.  
Um dia, em 14 de Maio de 1982, em Vila Viçosa e à esquina da Casa dos Cantoneiros, juro que o meu olhar se cruzou com o de João Paulo II. Não foi preciso o dia de hoje para saber que nesse instante, como em muitos outros instantes em encontros com tantos anónimos sem altar, os meus olhos beneficiaram do privilégio do olhar de um santo.
E santos são sempre aqueles que nos desafiam a ser maiores.
Hoje, à hora em que subia ao altar o dono do olhar que me tocou algures pelos meus quase dezasseis anos; em Lisboa, os meus sobrinhos João e Luís, recebiam o baptismo, e eu, testemunho-o, e sou o mesmo ali entre a fonte e o círio, escutando a água e olhando a luz, reconhecendo em mim a mesma fé numa genética de esperança que me sai directamente da alma.
A esperança e a fé que jamais poderei explicar mas que são minhas como tudo o mais que sou.
A fé que recebi da herança de tantos santos, faz-se assim também uma herança da minha pobreza e simplicidade num instante de partilha numa das colinas de Lisboa, daquelas em que nos dias limpos e de sol beneficiamos do azul intenso do Tejo.
Ao seu ungido no peito, o Luís não trava a espontaneidade e diz alto:
- “O dedo fez-me cócegas”.
E as cócegas têm sempre o condão de nos fazer sorrir…
O dedo de um sacerdote que faz no peito um sinal da cruz, ao jeito do dedo de Deus num instante em que a de fé se solta como o melhor de uma herança que marca a vida.
O instante em que as cócegas atingem a alma… e nós sorrimos.

sábado, 26 de abril de 2014

Esta persistente chuva de Abril

Caem intensas e são infinitamente muito mais do que apenas mil, as persistentes gotas da chuva deste estranho mês de Abril.
É primavera, mas sobre o Tejo, as nuvens invejam do meu olhar, a vontade, e abraçam despudoradamente a ponte e um velho cacilheiro, móvel ponto laranja na perseverança da travessia até à bênção do chão de Lisboa.
Eu, dono de tantas e tão doces lembranças de um Alentejo ao sol pejado de estevas e giestas, entrego agora os meus passos às calçadas desenhadas da Cidade Branca, que tal como as veredas do campo, também são minhas.
E um Homem feliz…
É um Homem assim como eu percorrendo todos os caminhos que sente como seus, as “ruas” que lhe são sugeridas pela alma e que são mães e cúmplices de todos os seus sonhos.
Nesta manhã, percorro a Avenida com nome e resquícios da festa da Liberdade, e, não tarda, chegarei ao Rossio, a praça que coroada pelo Carmo e pela Trindade, imbatíveis, é estrela maior da velha Olisipo e que, pela genética da própria cidade, não caberá nunca na pequenez de uma qualquer irrelevante “Betesga”.
Há turistas em romagem à Ginjinha, como se, com ou sem elas, este fosse o código de acesso ao jeito de ser muito lusitano que por aqui floresce entre a poesia do Nicola e o aroma das bancas das flores de onde emergem por estes dias os naturais cravos vermelhos.
Solta-se a memória…
À esquina e quase em frente à Camisaria Moderna, vejo-me por ali esperando o autocarro de dois pisos, o 39, que me levaria a casa, ao Príncipe Real. Na mão, um cartuxo de papel pardo contendo um quilo de cheirosos morangos maduros, e um embrulho da Pastelaria Suíça contendo uma “Frigideira de Carne”; se essa era noite de fazer greve à inevitável solha frita que me esperava para o jantar na Cantina da Faculdade de Ciências, na Rua da Escola Politécnica.
Passaram trinta anos sem que quase tivesse dado por isso.
Afinal, revejo-me eterno nos passos pelas ruas de Lisboa, os caminhos da minha vontade, e também em tudo o que de mais existe nos sonhos que os ditam dia-a-dia.
Que vive muito mais quem sonha do que quem apenas respira sem colher do ar o alento para a sua fé.
Persiste a chuva de Abril sobre Lisboa e o abraço das nuvens dá ao Tejo um triste tom cor de cinza inteiramente à mercê da rota dos velhos e novos cacilheiros.
É primavera.
O sol…
Persiste nas minhas eternas memórias do campo e nas tatuadas lembranças do teu olhar, essas sim as raízes de todos os meus sonhos.
O sol…
É eterno no ADN de Lisboa por mais estranho que seja este Abril e a primavera.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O meu país de Abril

No meu país de antes de Abril, a criatividade tinha o sabor dos dois pedaços de pão que a minha avó entregava ao meu pai para a merenda; um maior que fazia de si próprio e o outro mais pequeno que ele teria de imaginar ser o inacessível queijo.
À hora do jantar, a açorda carregava em si a “generosidade” dos senhores abastados que entregavam à Avó Natividade o azeite que sobrara do fritar do peixe.
No meu país de antes de Abril, o Tio Zé aprendeu o valor do livre pensamento no instante em que dois homens lhe bateram à porta pela madrugada e o esmurraram e lhe partiram dois dentes ainda antes de lhe dizerem que o iam levar para Caxias.
O outro, o livre pensamento que é raiz das artes, era riscado a azul e eliminado do som dos dias.
No meu país de antes de Abril, a minha mãe cumpriu o previsível fado da sua condição quando foi aprender a costurar apesar de ser uma das melhores alunas da sua classe e pretender continuar a estudar para cumprir a sua vocação de professora.
O meu pai foi aprender a profissão de barbeiro porque recusou o patrocínio de uma senhora que o ajudaria nos estudos, mas desde que a sua opção fosse o seminário.
No meu país de antes de Abril, os meus avós Joaquim e Francisca passavam os dias de verão integralmente ao sol e a cortarem as ondas… mas as ondas das searas de trigo que eles ceifavam sem descanso desde o nascer até à partida do astro-rei.
A minha mãe e os meus tios levavam-lhes a merenda percorrendo quilómetros pelo pó das estradas da planície.
No meu país de antes de Abril, o Tio Lucas embarcou entre lágrimas no Cais de Alcântara rumo à Guiné para lutar numa guerra da qual desconhecia os contornos; e voltou diferente passados três anos, porque nunca ficamos iguais depois de andarmos pelo mato a recolher os pedaços do corpo de um amigo que na véspera jantou connosco e esteve à conversa a partilhar os seus planos para o futuro.
No meu país de antes de Abril a dor vivia tatuada nas histórias de muita gente. A dor tinha milhões de nomes e apelidos.
Há precisamente quarenta anos, a madrugada de 25 de Abril de 1974 fez surgir o dia mais importante para mim e para toda a minha geração.
Sobre os pecados de uma História e de uma dura memória que conservo em mim, nasceu o privilégio de um dia celebrado com cravos da cor da bravura e do tom do sangue dos imortais, a rubra cor inscrita orgulhosamente na bandeira de Portugal.
O dia em que a História dobrou a esquina e entrou alegre pelo privilégio de um caminho feito de paz e liberdade.
Pela mão de inquestionáveis heróis morreram os nossos tão tristes e previsíveis destinos, e hoje, no meu país de Abril, eu sou muito mais dono dos meus dias, posso dizer “sim” ou dizer “não”, posso pensar livremente, posso gritar, revoltar-me, posso soltar as palavras que me são ditadas pela alma, posso amar à luz do dia quem verdadeiramente o coração escolheu, posso crer no Deus da minha fé, posso ser tudo e… posso ser muito mais eu.
25 de Abril de 1974.
Passaram quarenta anos.
Questione-se tudo e até a imbecilidade dos políticos, mas nunca, mesmo nunca, se questione o infinito valor que em si carrega a liberdade.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

As casas que guardam as palavras

Hoje é Dia Internacional do Livro e por isso me propus o difícil exercício de seleccionar dez obras que me marcaram nas diferentes fases da vida. Fico com a clara sensação de que faltam aqui muitas mais, mas estas recordo-as pelas histórias e pelo muito que representaram para a minha própria História. Partilho convosco:
Os Cinco na Quinta Finniston (Enid Blyton)
Poderia colocar aqui qualquer um dos 21 livros que compõem a colecção de “Os cinco”, estive muito indeciso entre este que é o número 18, e o 10 que é “Os cinco no Lago Negro”. Optei pela Quinta Finniston porque foi o primeiro que li. Nas tardes de Vila Viçosa algures entre os meus 8 e 10 anos, quantas aventuras e quanto desejo de comer scones e beber limonadas.
Platero e eu (Juan Ramón Jimenez)
A Andaluzia é afinal tão próxima do Alentejo e como é bom descobrir que as coisas realmente importantes estão afinal guardadas nos detalhes mais simples. São os privilégios de quem é do campo.
Homem rico, homem pobre (Irwin Shaw)
Li-o algures pelo verão de 1983 quando já me preparava para ser adulto e numa altura em que ainda acreditava que crescer é conhecer a fundo todos os Homens. Talvez esta obra tenha sido a primeira lição de que definitivamente nunca os conheceremos pois há territórios blindados no imprevisível ser de cada um.
A história do cerco de Lisboa (José Saramago)
Considero Saramago o melhor escritor Português do Século XX e não existe nenhum livro dele que verdadeiramente não goste. Escolhi este por ter sido o primeiro que li, no verão de 1991, em Sesimbra e em frente ao mar, uns dias antes de ser incorporado no Exército Português. Da história fica esta certeza de que é impossível não ter uma opinião sobre tudo o que nos cerca e de como às vezes uma vírgula ou um ponto final, afinal tão pouco, podem mudar o curso da própria história.
Memórias de Adriano (Marguerite Yourcenar)
Considero-o o melhor livro que já li até hoje e li-o pela primeira vez também em frente ao mar algures numas férias nos anos noventa. O testamento do imperador expresso nas memórias de tudo, e sobretudo no que mais conta, o amor a que nunca deveremos virar costas.
As horas (Michael Cunnyngham)
Três momentos e três mulheres, idênticos afectos e a mesma ambição / inquietação. O tempo conta-se em ciclos.
O Primo Basílio (Eça de Queirós)
Eça é para mim o melhor escritor Português de sempre. Ninguém como ele falou do Portugal do final do Século XIX e desenhou por palavras este perpétuo jeito de ser Português feito de públicas virtudes e tantos vícios privados. Poderia também colocar aqui Os Maias, A Relíquia ou A Capital.
De profundis valsa lenta (José Cardoso Pires)
Um dos livros mais fantásticos que já li e que privilégio ter sido escrito por um Português. A “ressurreição” de uma espécie de morte numa narrativa na primeira pessoa.
A Mensagem (Fernando Pessoa)
O meu poeta de eleição, genial em cada palavra e aqui a cantar o orgulho lusitano.
Cem anos de solidão (Gabriel Garcia Marquez)
Às vezes as casas não têm telhados e as pessoas bebem das estrelas a magia que lhes oferece vidas únicas. Ler e sonhar.

Como é hábito trocar livros e flores neste Dia de S. Jorge, deixo-vos aqui também uma flor da minha modesta autoria…
Sobre a mesa há um velho livro aberto
Que herdou de uma rosa, aroma de flor
Nestas páginas o sonho andou desperto
Solto nas palavras de um grande amor

um abraço e um sorriso.
E que nunca morram as palavras.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Estatísticas, leões e os verdadeiros campeões

O facto de ser Benfiquista encartado e com lugar na “Catedral” e ter um pai sócio do Sporting acrescenta ao meu curriculum quase 48 anos de convívio à mesa com o anti-Benfiquismo, ainda por cima com essa particularidade de uma desenvolvidíssima tolerância feita de tantos silêncios incómodos, pois uma coisa é o futebol e outra coisa é o respeito pelo meu progenitor, o que será sempre superior às militâncias clubistas.
Mas mesmo assim e com todo este treino, os últimos dias têm sido insuportáveis.
Por favor deixem-nos ser felizes que eu acho que até merecemos pelo que jogámos.
Já não aguento mais ouvir os Sportinguistas a falarem do leão do Marquês de Pombal.
Meus amigos, de uma vez por todas entendam que nós fomos celebrar para a rotunda tão-só porque nos identificamos com o Sebastião José de Carvalho e Melo, o homem que reconstruiu Lisboa por sobre os escombros do terramoto de 1755 e que, tal como nós em relação a vocês, está ali no alto do pedestal há décadas a conviver com um leão quedo e estático como um gatinho manso.
Já entenderam?
E a águia da rotunda da Boavista no Porto representa o Napoleão e nada tem a ver com o Benfica. Se generalizarmos os símbolos ainda chegamos à conclusão que o leão da Metro é o vosso leão e que vocês andam metidos em grandes comédias, para além de dramas, é claro.
Ou então que vocês são como os chocolates “Lion”, vendidos a preço acessível e comidos por toda a gente.
Gostam da analogia?
E de repente, eis que ocorre também a norte um fenómeno curioso e no Porto se dá uma epidemia de estatística.
Depois do ano 2000 o FCP ganhou…
Depois dos campeonatos com vitórias a valerem três pontos o FCP ganhou…
Confundem campeonatos nacionais com Taças de Oeiras, Supertaças de Ovos Moles de Aveiro e Taças da Liga da Cerveja…
Por favor, as estatísticas dizem sempre o que nós queremos e eu sempre posso dizer que desde Janeiro de 2014 o Benfica é o clube com 100% dos Campeonatos Nacionais.
Neste delírio anti-Benfiquista já assisti a um reputado jornalista a fazer uma análise ao número de Benfiquistas com base nas audiências televisivas de domingo (como se alguém campeão quisesse permanecer em frente à televisão) e até já ouvi um intelectual do norte, e de reputados créditos na área da cultura, apelidar os Benfiquistas de provincianos por celebrarem desta forma.
Bolas… o que chamará ele então às vendedoras do Bolhão suas eleitoras quando elas invadem os Aliados só porque o FCP ganhou ao Benfica e gritam por debaixo do seu generoso buço: “Bibó Porto”?
E depois há a piada do pó e da naftalina dos cachecóis…
Meus amigos, definitivamente eles foram arejados o ano passado porque os retirámos muito precocemente da gaveta onde depois os tivemos que voltar a pôr à pressa, mas mesmo assim arejaram e fizeram um breve tratamento anti-traça.
Este ano só irão ficar mais tempo fora da gaveta. É só isso.
Vá lá…
Lembram-se do que nos massacraram o ano passado? Do muito que se riram de nós? Das piadas?
Olhem que aquilo doeu-nos muito.
Façam um esforço e deixem-nos celebrar.
Afinal vamos estar os três na Liga dos Campeões do próximo ano (torcerei pelo Porto na pré-eliminatória) e não tarda, estaremos todos juntos a vibrar com os golos do Ronaldo e companhia num grande e inesquecível “Viva PORTUGAL”.
Para além disso, também há muito mais com que nos preocuparmos, nomeadamente com outros deficits bem mais dolorosos do que o de pontos na Liga Sagres.
E depois…
Até o meu pai me deu os parabéns… mas sabe Deus com que custo.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Campeão

Há um pedaço de céu no instante de cada golo; e no mágico impulso que alma me oferece, os braços erguem-se no ar, a garganta solta um grito e o corpo salta matando a idade, os incómodos, os cansaços e todos os demais e racionais detalhes do ser.
Sou Benfica… e se o não fosse não seria eu.
Sou vermelho da cor das papoilas mas muito mais da força do sangue que é o fluir intenso da melhor vida.
Sou uma voz entre tantas vozes no cantar sublime que sempre carrega a vontade, a superação… uma vitória.
Sou um entre milhões na partilha de uma esperança que nunca morre porque mesmo quando a derrota nos faz ajoelhar, sabemos que a genética de campeões imporá o pular para o céu no instante que chegará imediatamente a seguir.
Sou povo muito mais do que tudo ou apenas um clube, assumido plebeu inspirado na força de muitos heróis; Eusébio e Coluna, reis no trono dos grandes e instalados por mérito nos anéis infinitos dos etéreos estádios, bem acima dos panteões de todos os Homens.
Sou águia, ave imperial voando por sobre tudo, por sobre as dores, por sobre a mesquinhez de tantos, e tendo o céu como limite, sempre de encontro ao sonho.
Sou luz brilhando por entre as tardes e as noites de uma cidade perfeita, Lisboa, candelabro de vitória à conquista de todo o universo.
Sou a herança da fé de muitos e a raiz da fé de muitos mais que chegarão para cumprir um destino de eternidade.
Sou raça, garra, querer, amor, vitória, poesia, coração…
Sou Benfica…
E sou Campeão!

domingo, 20 de abril de 2014

Aleluia

Há amêndoas sobre a mesa, o fruto revestido de açúcar que do arco-íris tomou as cores para nos adoçar este Domingo de Páscoa em que as nuvens persistem em querer copiar o encanto e o vigor das três bicas da Fonte Pequena aqui mesmo em frente à nossa casa.
Aleluia…
Sente-se por todo o lado mas é bem visível aqui no brilho das sardinheiras que a mãe tem na varanda, na jarra dos lilases roubados ao quintal por estes dias de Primavera, nas palavras breves trocadas com os vizinhos e com a D. Zárita que compõe os pratos de barro no seu quiosque com lembranças do Alentejo; aleluia nos sorrisos ao redor da bica por entre as memórias e as dores e alegrias do presente.  
Aleluia…
Em tudo mas sobretudo em mim.
Serei sempre eu quem optará pela reclusão escura de um sepulcro ou então quem iluminará os dias retirando à força as pedras, os biombos, os falsos pronomes que mascaram a minha verdade.
E é o degustar dessa verdade que faz os dias rimar com as amêndoas em cor e sobretudo em sabor; sempre no despudorado desprezo das “correctas” regras de toda a falsa moral e das hipócritas ambições dos tontos imbecis que se vestem de “heróis” pelas marcas que compram e pelos carros em que se montam, os presunçosos que são “dejectos” móveis e buracos negros de carácter e virtudes.
Aleluia…
Será sempre o canto da minha liberdade e do que sou; e eu sou o conjunto de todos os meus sonhos, a minha fé, as minhas crenças, os meus amores, as minhas vontades…
Eu sou a voz entregue às palavras ditadas pela alma, sou a expressão de um querer nos beijos, nos abraços aos que amo e quero, sou o grito que diz “não” ou o perfeito sorrir no cantar de um imenso “sim”…
Olho para longe, muito para lá do Castelo que em primeiro plano a minha vista alcança desde aqui do alto do monte onde vim beijar a passos a terra perfeita de onde sou e a que um dia me devolverei no beneficio de um sono eterno.
Vejo terras de Espanha.
E mais terras, eu poderia ver se mais alto fosse o monte e mais alto, eu tivesse subido pelo trilho que me indica esta verdade que define os horizontes.
Respiro o campo, agradeço a chuva, sinto-me em casa e… gosto do que sou.
Aleluia!

sábado, 19 de abril de 2014

A inédita arte da reciclagem dos pastéis de nata

Sempre que o pai lhe levava da Pastelaria o seu bolo favorito, o Pastel de Nata, a minha amiga Rosa Silvério comia o creme com a ajuda de uma colher e entregava posteriormente a estrutura restante de massa folhada para que o pai a levasse de volta ao pasteleiro e ele a voltasse a preencher com a sua iguaria favorita.
Este inédito processo de reciclagem não se aplica definitivamente aos Pastéis de Nata, mas aplica-se à vida…
Ontem cumprimos o prometido e por entre os aromas das flores das laranjeiras de Vila Viçosa, sentei-me na Pastelaria Azul com a Zézinha, a Manuela, o Zé Maria e o Manuel; e não fosse o risco de rebentarmos com os agrafos que restam na barriga da Zézinha e ainda nos tínhamos vingado muito mais a riso e gargalhadas da dor e das apreensões de há alguns dias.
A cirurgia foi um sucesso ao ritmo das nossas Ave-Marias e a vida que parecia estar a esvaziar-se está novamente repleta do maior e mais doce “creme” da melhor esperança.
E agora que siga a fé pelo futuro.
Mas os dias carregam sempre múltiplas faces e entre elas a inevitável dor.
Depois da Pastelaria Azul descemos à Igreja de Santo António para dar um conforto à Maria João. O pai partiu e com ele a melhor competência, profissionalismo, educação e simpatia que conheci a alguém atrás de um balcão.
Naqueles dias em que interrompia as brincadeiras para ir à loja do Senhor Ramalho compras linhas, fitas e até forrar botões para que a minha mãe pudesse costurar os fatos para as suas clientes, guardo do Sr. João Nogueira a melhor colecção de sorrisos.
Estou certo de que essa generosidade no sorrir define aqueles que para lá da vida estão destinados a serem anjos no Céu.
E assim, o riso e a dor da saudade compuseram a minha Sexta-feira santa que terminou a caminhar com os meus pais através do silêncio da procissão do Enterro do Senhor, o lento e compassado caminhar pelas ruas onde só as velas e os archotes dão luz e onde só as matracas e as marchas fúnebres cortam o silêncio.
Ao atravessar a Praça nunca sabemos de que lado corre a brisa que nos apaga as velas e que me fazem puxar dos fósforos estrategicamente colocados num dos bolsos.
Também são assim os dias onde a esperança se acende pela fé estrategicamente colocada no mais íntimo de nós.
A fé em Deus e sobretudo a fé em nós, a receita para preencher dias ao jeito de pastéis de nata vazios.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Estes dias santos

Não resisto a abrir a janela do carro ao aroma do campo de Alentejo e primavera e respiro fundo por impulso de uma infinita saudade.
É impossível distinguir o que é o quê no privilégio do odor deste momento, mas o que é certo é que cheguei a casa.
Mais além, no cimo do monte por onde se estende a seara, há um sobreiro solitário e meu irmão, que bebe do sol, como eu de ti, a luz, e estende dos seus ramos e pela sombra, o abraço ao tapete verde de onde já emergem rubras papoilas.
Sorrio então quase da mesma forma que o farei mais tarde ao chegar a casa e ao colher do pai e da mãe a magia desses beijos que hoje brilham por entre todos os cheiros dos bolos da Páscoa, o resultado da visita anual ao livro de receitas da Tia Maria Teodora, o testamento perfeito que perpetua a festa dos nossos sentidos.
Já está posta a mesa para o chá…
Por entre os bolos de sempre coloco o Pão-de-Ló do Mário e brilham assim novos afectos por entre os afectos eternos.
O presente cola-se ao passado, somam-se quereres, e isto sim, é viver em plenitude não rejeitando as bênçãos que são transportadas pelos dias, mesmo aqueles que às vezes aparentam não ser nada.
É envolto na amizade e a pretexto do aniversário da Ana Cristina que mais tarde, e sentado na esplanada do Café Restauração, verei o sol a despedir-se deste dia. O mesmo sol que beija loucamente os sobreiros na quietude do campo, parte agora ali para os lados da Rua de Santa Luzia, deixando sobre nós e a envolver a Praça, o privilégio único de uma intensa luz com a marca do sul.
Esta é a hora perfeita para estar por ali envolto na conversa que sempre conduz ao riso, sentindo o cheiro único que está inscrito no ADN de Vila Viçosa: as laranjeiras em flor.
Agora sim não me restam mais quaisquer dúvidas de que este é um dia de Páscoa.
Não tardarei a descer a Corredora a bom passo porque já vou atrasado para o jantar e não quero deixar arrefecer a Sopa de Cação carregada de coentros que me espera.
Sorrio.
Há pouco na mesa do café, o Manuel falou que na Vigília Pascal deste ano cantará o primeiro salmo da sua vida: “A bondade do Senhor”.
Eu sorrio porque sigo pelo espaço e pelo tempo que serão sempre os primeiros da minha vida e porque estou envolto nos afectos eternos que tornam perfeitos todos os dias.
Estes dias são o salmo da minha vida.
Os dias santos e os verdadeiros dias da Páscoa.
Sorrio.
E claro que vou pensando em ti. 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Palavras ao vento

Sente-se a brisa do Tejo quando o sol se põe e a fachada dos Jerónimos emerge num tom verde que rima com a fonte da Praça do Império, a explosão artificial de água que à mercê do vento acaba quase sempre por me vir beijar o rosto quando sou apenas mais um na grande MARCHA DOS DESALINHADOS que por uma noite abre uma excepção e se alinha na disposição de matar saudades recuando vinte anos e reencontrando o FADO e a história de tantos dias felizes.
Por instantes olho à volta mais do que para o palco e descubro que NÃO SOU O ÚNICO a ter agora cabelos brancos e a ter sofrido um upgrade no volume corporal.
E elas são agora senhoras cheias de madeixas louras.
Estamos todos diferentes mas parece que só por fora… afinal, quem NASCE SELVAGEM jamais se rende a “gaiolas”, e isso percebe-se claramente quando todos juntos abrimos as vozes e se solta o tom de LIBERDADE da nossa genética de “filhos da madrugada” e cantamos a urgência do querer que sente que AMANHÃ É SEMPRE LONGE DEMAIS.
Estou em festa com a minha geração e não é só para matar saudades.
Hoje sorrimos porque algumas causas dos anos de entre oitenta e noventa do século passado, TIMOR por exemplo, já deixaram de ser um PERIGO e já deixámos para trás alguns dos mais tristes dias de AQUELE INVERNO.
Mas para quem sonha, as lutas nunca têm FIM, e FINISTERRA, ao jeito de um cabo algures na costa dos nossos medos, é tão-só um breve momento de ilusão porque a nossa sina é SER MAIOR e é feita de conquistas mares fora em busca de um derradeiro e perfeito LUGAR AO SOL.
Mesmo que tantas vezes… SÓ NO MAR.
CHAMARAM-ME CIGANO já muitas vezes por causa desta inquieta errância. Mas mesmo assim prometo, e prometo-me, não deixar morrer o “diabo” que tenho na mão… deixando de o ser.
Eu e todos aqueles em quem me reconheci na plateia e no palco do concerto da Resistência no Centro Cultural de Belém, quando as palavras e os acordes foram a expressão sonora do ADN da minha geração.
Cá fora, no ar da Praça do Império, há agora mais do que água da fonte, há palavras ao vento, pedaços de história e de vontades beijando-nos pela via da memória que se tornou tão nítida.
A NOITE vale sempre a pena quando é assim um momento de encontro com amigos e quando percebemos que nunca estaremos velhos porque por mais anos que passem… “só o sonho fica, só ele pode ficar”. 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O Gólgota e o pesado caminhar da cruz

Na noite de Terça-feira Santa da minha terra, a paixão saía à rua na forma de um lento e compassado caminhar ao redor de andores envoltos em panos negros.
Santos sem rosto e sem nome, as trevas carregadas aos ombros dos Homens sobre o granito das calçadas em direcção ao Castelo, território de tantas lendas e mistérios onde a esta hora apenas reinavam as sombras, muito mais do que a luz ténue de um velho candeeiro pendurado algures na porta da Torre de Menagem.
Na noite desta minha Terça-feira Santa estou sentado no sofá da casa de onde espreito o mar, não caminho em direcção ao Castelo mas deixo-me levar pelas lembranças de uma conversa que a tarde me revelou no corredor do Centro Comercial por entre a alegria do reencontro com um velho amigo, um cúmplice de muitos anos.
Despedido aos 54 anos, reformado aos 57 no limite do subsidio de desemprego e sem qualquer outra solução de vida que não uma partida para Angola inviabilizada por uma terrível Anorexia Nervosa da filha que com 15 anos foi internada há meses com 25 quilos…
Os santos neste país têm nome e rosto, cruzam-se connosco pelas calçadas dos nossos dias sem que sejam levados aos ombros como os anónimos dos andores da minha terra. Estes santos caminham de pé carregando o peso de uma cruz enorme, de tal forma que não há “Cirineu” que lhes possa acrescentar alívio e lhes permita sorrir por entre as sombras de uma vida à luz de um esperança ténue e tão demasiado vaga.
Nem “Cirineu” e nem a honestidade e a história de um profissionalismo exemplar conseguem alterar a dor deste destino de uma Via Crucis tão cedo condenada ao inevitável Calvário.
O “Gólgota” conscientemente ignorado pela incompetência, ignorância e imbecilidade dos arremessadores de estatísticas cosméticas que são bóias para a sua sobrevivência: os políticos.
Bem sei que o domingo não tarda trazendo com ele a música, o retomar alegre do toque dos sinos, os aromas das giestas, do rosmaninho e de todas as flores do campo… para a Páscoa e para os altares onde os Santos voltarão a ganhar assento, rosto e nome, na despedida das trevas carregadas pelo negro tom dos panos.
Mas por aqui e para os santos que deambulam pela má fortuna, segue pesada a pedra de um túmulo onde se apodrece intensa e precocemente em convívio íntimo com a dor.
Esperança, precisa-se!

terça-feira, 15 de abril de 2014

MARIA DE LURDES

No dia 11 de Fevereiro de 1983, na sexta-feira que antecedia o carnaval, caiu em Vila Viçosa um grande nevão que nos apanhou na Escola Secundária, já a nova ao Carrascal, onde eu, a Zinha, o Manuel e muitos outros amigos completávamos o 11º ano de escolaridade.
Sem telemóveis ou quaisquer outras câmaras fotográficas, registámos esse momento que até motivou na altura a dispensa das aulas, porque tu, mesmo sem ter sido chamada, foste ter connosco e levaste a máquina para fazer as fotos.
Não sei se te recordas deste episódio que poderá ser classificado pelo Manuel como mais um momento Memofante, embora eu tenha que reconhecer que para chegar à data exacta me socorri de um calendário perpétuo; mas achei importante começar por aqui porque este instante reflecte aquilo que tu és na vida e que nós agradeceremos sempre: a eterna amiga que pensa mais em nós do que nela própria e a pessoa que nunca falha na hora de nos tornar mais felizes.
Quem diz amiga poderá dizer filha, irmã, professora, catequista, companheira, colega…
E todos crescemos e somos melhores pessoas quando olhamos para ti e nos inspiramos no que és e fazes nessa inconfundível e muito valiosa nobreza discreta do ser.
Sempre com muito poucas palavras, mas na amizade e em todos os afectos, os gestos e as atitudes são bem mais importantes e fundamentais do que tudo aquilo que alguma vez possa ser dito.
Olha a música que “roubas” ao piano!
Não tem palavras e fala tanto e tão bem quanto a tua harmonia.
Também é bom quando nos rimos muito ao redor daquele humor subtil de que ambos somos bons apreciadores, no Café Restauração quando tomamos a bica à saída da missa de São Bartolomeu; no avião a confortar a Amélia que no seu Baptismo de Voo não quer mexer sequer a cabeça para que o aparelho não se desequilibre e acabe por tombar; em Oxford Street quando um alarme de bomba nos apanha a provar roupa no Marks & Spencer e nos separa a todos pelas ruas adjacentes ainda em tempos de pré-telemóveis com roaming; quando o João Paulo, ainda a tirar tardiamente a sua Carta de Condução, resolve acelerar com o teu carro pela estrada de entre Bencatel e Rio de Moinhos; quando comemos juntos uma “Lasanha Vertical” no Planet Holywood; quando nos encontramos nas viagens em Viena, Budapeste e Estocolmo, com ou sem a “Beatriz Costa do Século XXI”; ou até em Barcelona, em Montjuic, quando afirmas que 1936, o ano da construção do Estádio Olímpico, foi o ano em que tu nasceste… nos planos de Deus, claro.
A cumplicidade do riso também é uma importante raiz na construção das boas amizades.
E para terminar faço-te um apelo…
Aproxima-se a Páscoa, vamos estar juntos e eu antecipo que vou ouvir das boas por ter escrito e publicado tudo isto.
Já vou preparado, mas no ano em que me proponho usar as datas de aniversário de cada um para escrever um pouco sobre as memórias e sobre aqueles amigos da “velha guarda”, não leves a mal, mas tinha de escrever algo sobre ti.
E depois e se reparares bem até não digo a tua idade, pois não quero que alguma vez alguém que possa vir a ler isto em público tenha de amputar algum parágrafo.
O que até nem seria inédito, mas enfim…
Lurdes, um feliz aniversário e que contes muitos mais anos, por ti, claro, e por nós que precisamos de te ter por perto para sermos um pouco melhores e mais felizes.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

As histórias, os sonhos e as vontades numa tarde do Porto

O Homem é um pedaço vivo de História caminhando de encontro ao sonho por impulso e rota da sua vontade.
Na tarde de sábado no Porto e enquanto o mesmo sol que beija a Foz nos entrava intenso pela larguíssima vidraça para projectar nos nossos rostos as sombras das flores mais fantásticas do jardim, a sala foi uma grande mesa de amigos sentados à conversa.
Era uma vez…
O meu carnaval de 1972, quando a minha mãe me desenhou e costurou um fato de estudante com a capa e a batina a serem preparadas a partir de um conjunto de saias pretas da tia Maria Teodora que assim ficou sem roupa para fazer o luto do tio Alexandre que infelizmente partiu de aí a muito pouco, é a parábola de uma História, a minha, “tecida” a partir de tantas coisas simultaneamente grandes e simples que jamais desistirei de pôr em palavras para que assim elas se perpetuem juntamente com os heróis que as passaram como herança.
E de “saia em “saia”, palavra em palavra e de memória em memória, na tarde solarenga do Porto, a Luísa foi-me ajudando a contar a História na partilha de tantas histórias, de muito riso e muitas cumplicidades; e também daquelas tardes em Viana do Castelo em que adiávamos sempre as melhores Bolas de Berlim do mundo, as do Natário, e acabávamos a rir de nós no Bar do Hospital à volta de um panado que nos servia de almoço tardio.
“Joaquim, por favor não deixes esquecer essas histórias e escreve-as”.
Luísa, Jorge, Rui, Ângelo… estão aqui as histórias.
À volta delas e na tarde do Porto, se foram também soltando as vozes e as memórias dos amigos de há mais ou menos tempo, que os amigos quando o são de verdade são de sempre e para sempre; para uma conversa que durou mais de uma hora e que por entre a amizade e todos os afectos, o trabalho e a liberdade, nos colocou na rota dos sonhos e das vontades.
Por mais que a conversa beba da nostalgia e da saudade, as palavras entre amigos têm sempre esse condão de nos injectar futuro e preencher de amor todos os dias.
E se o Homem é um pedaço vivo de História caminhando de encontro ao sonho por impulso e rota da sua vontade…
Eu, no sábado e por mérito dos amigos, fui no Porto e à volta do meu livro “Estas palavras nascidas dos dias”, um homem feliz.
Muito obrigado a todos os amigos presentes pela oferta desse tempo tão cheio de sorrisos.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Roma e uma tarde de Abril

O sol, infalível maestro do tempo, ameaça no horizonte o adeus que traz a noite, e já se sente no rosto uma brisa fria que de aqui a pouco, e porque sigo a passo rápido, se tornará uma agradável companheira.
Estou junto ao Coliseu de Roma e cruzo-me com uma multidão que não tem idade… porque tem todas as idades.
Há o som de múltiplas falas, há turistas, peregrinos, padres... e uma cidade é eterna quando é assim muito mais do que um espaço que cruzou a História, e é este interposto universal onde se cruzam e se fundem vontades e credos.
E igual a Roma poderia ser o mundo inteiro se nos dispuséssemos a fazê-lo perfeito acolhendo os outros.
Eu sou apenas mais um na multidão, e a andar depressa porque quero chegar a São Pedro a tempo de ver o pôr-do-sol.
Vou pela fé ao túmulo de Pedro e João Paulo II com uma mão cheia de intenções que têm nomes de amigos.
E quem caminha pela fé, fá-lo sempre ao jeito de quem ama... e nunca caminha só.
Quando cruzo o Tibre já tenho a certeza de que chegarei antes do sol partir.
Eu já sabia que a Basílica estaria fechada a esta hora e procuro um sítio discreto na praça que está praticamente vazia de gente e é já um mar de cadeiras na antecâmara das festas da Páscoa.
Encosto-me a uma grade de madeira e rezo o terço contando as Ave-Marias pelos dedos, interrompendo a determinada altura porque alguém se aproxima e me pede para lhe fazer uma foto.
O rapaz da mochila chama-se Carlos e mudamos a conversa do Inglês para o Castelhano na altura em que me diz que é Mexicano.
Está pela primeira vez em Roma e agradece-me a foto com um aperto de mão.
A mesma mão que reza e que perpetua imagens de sorrisos numa câmara de fotos é também expressão de afecto entre dois solitários e desconhecidos que se cruzam na cidade.
E os gestos são sempre irmãos das palavras no benefício de matar a solidão.
E pelo potencial dos gestos e de todas as palavras, qualquer homem sozinho e na aparência de não ter nada, tem afinal consigo o infinito valor do melhor tesouro.
Continuo a rezar...
Vejo-me por ali a passear com os meus pais num fim de tarde de Agosto de há três anos, vejo a Avó Dade louca de contente porque o Papa lhe passou à porta e lhe sorriu, vejo o João e o Luís que serão baptizados no dia em que João Paulo II será canonizado, penso na Zézinha, na Maria João e no pai, no Tio Joaquim...
Penso em mim e no que sou, na vida, nos sonhos, nas vontades, no amor... ali sozinho no privilégio do beijo da brisa de Roma que é bem mais intensa e fria desde que o sol se pôs.
E não sei se por nada ou se por tudo, acabo a chorar.
Nem tento esforçar-me por saber porque choro. As lágrimas mesmo não tendo letras são bem mais fiéis do que as palavras na expressão dos sentimentos.
E que andem soltos os sentimentos se esta hora é toda minha e dela não quero rejeitar nem um só pequeno detalhe.
Já é noite quando regresso deixando o Vaticano para trás, caminhando agora lentamente.
Paro sobre o Tibre e admiro o Castelo de Sant'Angelo e os seus reflexos na água que corre.
Aqui jaz Adriano…
Assaltam-me à lembrança as palavras de Yourcenar nas brilhantes memórias do imperador:
Nunca perder de vista o gráfico de uma vida humana, que se não compõe, digam o que disserem, de uma horizontal e duas perpendiculares, mas sim de três linhas sinuosas, prolongadas no infinito, incessantemente aproximadas e divergindo sem cessar - o que um homem julgou ser, o que ele quis ser e o que ele foi.”
Eu hoje sou um homem feliz e que sorri pelas ruas eternas de Roma.
Por tudo… ou quiçá por nada.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Yá meu. Tass.

Decidir cortar o cabelo numa tarde de Abril em que os estudantes do secundário estão em pleno gozo das férias da Páscoa é mergulhar inadvertidamente num caldo efervescente de hormonas masculinas que nos afogam tudo e sobretudo a paciência.  
Em estágio para, mais ano, menos ano, irem todos em grupo até Torremolinos, Salou ou qualquer outra estância turística espanhola onde possam atirar sanitas e mobiliário pelas varandas dos empreendimentos; estes adolescentes (uma meia dúzia) resolveram ir aparar o cabelo, mais do que cortar, levando nos i-phones e outros aparelhos móveis de comunicação, os modelos / penteados dos seus ídolos que, confesso, é gente de quem nunca ouvi falar.
O cabeleireiro é um daqueles locais de Centro Comercial onde é possível fazer um “corte expresso” quando nos sentamos numa das dezenas de cadeiras onde, de máquina ou de tesoura em riste, actua um grupo de homens vestidos de preto e com nacionalidades que entre a América do Sul e os Balcãs, mais parece o balneário do Benfica em dia de jogo.
Desta diversidade de “berços linguísticos” nasceu um primeiro problema: a comunicação.
Embora para mim com uma perspectiva interessante: é que o nível de Português dos adolescentes que era bem pior do que o dos cabeleireiros estrangeiros mas parecido com o do Jorge Jesus, permitiu que eu compreendesse algumas “discrepâncias” técnico-tácticas que o Benfica por vezes apresenta no seu desempenho.
Não é fácil.
Mas por ali e se tivermos em conta que uma tesourada no cabelo é um acto irreversível e irremediável, seis pessoas a alinharem cortes através de uma conversa de surdos-mudos gerou uma “salganhada” e um caos que até as mulheres dos papelotes que compunham a cor das melenas e que fazem habitualmente muito mais barulho no seu sector anexo onde imperam manicuras, cheiro a tintas e revistas cor-de-rosa do social; vieram espreitar o que se passava.
E devem ter pensado que eu tinha trazido os meus seis filhos para que pudessem cortar o cabelo, pois para além de eu ser o único cliente que tinha o cós das calças na cintura e não revelava ao andar a cor das minhas cuecas; só a minha presença aumentava a média etária dos presentes aí nuns bons vinte anos.
Essa diferença justificava por certo a forma como todos me olhavam e que me fazia sentir ao jeito de um bispo que entra paramentado e de mitra por uma discoteca em “hora de ponta” ou uma vendedora de tremoços que irrompe pelo grande auditório da Gulbenkian em dia de concerto para apregoar boa mercadoria e bons preços.
Não fosse a cumplicidade do “meu” cabeleireiro Arménio expressa por discretas piscadelas de olho através do longo espelho comum a todas as bancadas, e eu seria definitivamente a mais isolada das criaturas naquela sala revestida de caos linguístico e comportamental.
Do teor da conversa entre clientes e cabeleireiros, e apesar dos gritos, não me perguntem mais nada porque a única palavra que consegui verdadeiramente reter foi “cena” e foi por excesso de repetição: “que cena meu”, “esta cena”, “aquela cena”, “ganda cena”…
Registei ainda um claro abuso do “Yá meu”, do “Tás a ver”, do “Bué”, do “Curte”, do “Tass”, do “Men” e do “Coiso”.
Também percebi que o “coiso” é inespecífico pois dá para tudo.
E ali sentado e com o coração acelerado e com pressa de fugir fiz então instintivamente várias coisas: canonizei e elevei aos altares e à condição de veneráveis, todos os meus amigos que dão aulas no secundário; compreendi definitivamente o meu Avô Chico quando afirmava que “no mê tempo é que era bom”; senti-me velho porque muito mais próximo da geração dos meus pais do que da dos meus “filhos”…
Já na fase de lavar a cabeça no pós-corte, o rapaz que se submetia à mesma lavagem ao meu lado, foi simpático e demonstrou-me que a “malta” é assim mas também não custa nada a gente fazer um esforço para interagir de forma amistosa e “tapar” o inevitável fosso inter-geracional:
- O xô desculpe lá esta confusão.
Eu sorri enquanto quase por contaminação me ia saltando um “porreiro pá” que ainda travei a tempo.
- Não há problema. Boas férias.
Respondi.
Foi a vez de ele sorrir quase ao mesmo tempo em que eu saía…
A compor a cintura e a alinhar o cós das calças não fosse dar-se o caso de a contaminação ser mais do que linguística e alguém pudesse estar a ver a cor das minhas cuecas.
Afinal, não fossem estas diferenças e possivelmente a vida não teria tanta graça nem haveria histórias para contar por aqui.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Os caminhos tecidos pela engenharia da vontade

No recreio da minha primeira escola em Vila Viçosa existia a oliveira que eu adoptei como avião, e havia uma zona de terra com muitas pedras que nós usávamos como carrinhos depois de termos desenhado as estradas, as bermas e os parques de estacionamento; um complexo processo de engenharia que consistia em fazer deslizar as pedras maiores pelos sítios onde o barro se mostrava mais vulnerável às nossas parcas forças de crianças com idades algures entre os seis e os nove anos.
Por estes dias de primavera, espreitávamos sempre a vinha da Horta do Reguengo que ficava do outro lado do muro, e contemplávamos as tulipas vermelhas que cresciam rebeldes entre as cepas, escutando mais tarde em casa, ao serão, a lenda das marcas do sangue do Rei D. Carlos e do Príncipe D. Luis Filipe, assassinados em Lisboa quando regressavam de comboio desde a nossa terra. A lenda contada por cima do facto de alguém um dia se ter lembrado de estrumar a vinha com milhares de bolbos de tulipas abandonados e apodrecidos ao canto de uma qualquer arrecadação do Paço.
Às vezes, o professor levava-nos até à Varanda dos Namorados, em São Bento, ao Outeiro da Forca, aos Castanheiros, ou então até junto de qualquer ribeira que tivesse sabido beber a vitalidade do inverno, e aí na cumplicidade dos indefinidos e mágicos aromas do campo, íamos aprendendo coisas novas por entre números e palavras; e íamos começando a compor uma história para cada um de nós, que se queria única, para além de fantástica.
Um dia, e também neste tempo de primavera, percebemos que a história de todos nós tinha mudado para afinar com a liberdade, quando o professor nos explicou que deixaríamos de escrever “Redacções” para passar a fazer “Composições”. Deixaríamos de ser sujeitos passivos resignados à redacção de um presente considerado inevitável, e passaríamos a ser gente activa a pôr vontades, fé e pensamento no escrever da sua história.
No fundo, as palavras como os carros desenhando caminhos por entre a terra do barro que é a vida de cada um.
E que melhor sítio do que o campo, as searas, as fontes e as ribeiras; para nos inspirar na liberdade e para nos incentivar a avançar sem medos de encontro aos sonhos tecidos pelas nossas ambições e vontades?
Hoje almocei na rua num descaradíssimo e primeiro usufruto do sol da primavera.
Estive muito bem à sombra de umas oliveiras com estatuto de centenárias que criaram raízes pelo Alqueva e que agora decoram Oeiras. Sou irmão destas árvores pelo berço comum das nossas raízes.
Agora já não consigo trepar a uma delas para fazer um avião, e tão pouco consigo que a coluna me permita baixar para brincar desenhando caminhos por entre a terra; mas ali olhando ao longe o mar como antes bem de perto todas as ribeiras, eu senti a mesma vontade e a mesma garra de escrever por mim, a minha própria história.
Será por certo essa vontade genética que destrói todas as idades e passa por cima de qualquer tempo.
O segredo para nunca nos sentirmos velhos.
Ali, dei graças a Deus pela vida e pela liberdade, matei saudades de ser menino e terei sorrido sem que os meus colegas de almoço tivessem dado conta.
Confesso que então só senti saudades das tulipas a crescerem rubras por entre as cepas da Vinha do Reguengo. Afinal, elas serão sempre uma inspiração de rebeldia a acrescentar gosto e aroma ao tempo futuro que nunca desistirei de fazer meu. 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Atravessar a “verdadeira” guerra por entre o sol da primavera

Quando regressava ontem a Lisboa e finalmente em pleno gozo de um sol de primavera, tive na A1 a percepção de que o único e grave problema do país é o excesso de velocidade nas auto-estradas.
Entre radares, veículos e homens colocados estrategicamente à sombra, aqueles quilómetros de asfalto apresentavam um estatuto algures entre o “Big Brother GNR” e a “Casa dos Segredos” sem Teresa Guilherme mas com a “voz” em tom “tinoni”.
É que não fossem as acelerações e este país assumiria um incrível estatuto de paraíso…
Na Área de Serviço de Santarém, um grupo de homens daqueles que têm ar de ser patrocinados pelo “Rendimento Mínimo de Inserção”, saiam de um veículo da marca Mercedes para tentar impingir “i-Phones” de 20 Euros a incautos cidadãos já com alguma idade que regressavam de Fátima e que ainda traziam um lenço colorido ao pescoço. Passei por eles e entrei na Casa de Banho onde os membros de uma claque de futebol de um clube com nome impronunciável se entretinham a pontapear sanitas, portas, armários… e até a gramática.
Não vi fardas por ali dado que estavam todas concentradas num parque exterior anexo onde o acerto de contas pela guerra da velocidade se fazia com terminais de Multibanco.  
Bebo um café por entre as asneiras vociferadas pela claque e entretenho-me a ler as capas dos jornais. Parece que o Banco de Portugal comprou nova frota automóvel de luxo para os seus quadros. Faço as contas e verifico que o meu recibo de ordenado de Março contribuiu para cerca de 2% do valor desta aquisição, o que me faz pensar se não deverei reclamar o apadrinhar de um dos veículos com direito a nome numa chapa e um brinde ao jeito das Arrecadas de Viana recebidas pela mulher do Primeiro-Ministro quando foi baptizar um barco.
Regresso ao “Campo de Batalha” que estranhamente sou eu que patrocino através de uma portagem cara, e apercebo-me que há cartazes gigantescos que falam de “Mudança” ou então de “conseguimentos” estatísticos. Aproximam-se eleições e com elas estes detalhes da rotatividade de faces, muito mais do que de políticas, a apelarem à costumeira amnésia eleitoral dos cidadãos num país onde nunca nada muda e onde a justiça e a impunidade dos poderosos se escrevem nessa linguagem perversa das prescrições de que fala o jornal que tenho ali no banco ao lado do meu.
Deixo a “guerra” por uns instantes para ir a um hospital próximo visitar um familiar. Apercebo-me aí que a excelente organização do Parque de Estacionamento e da sua cobrança contrasta com o caos do funcionamento que nem sequer permite ter um pijama disponível para trocar o de um doente em caso de algum percalço.
Mas isso não interessa mesmo nada porque é irrelevante quando comparado com a velocidade; e no meu regresso à A1, junto a uma cancela de segurança colocada discretamente, lá estão mais veículos e agentes para a “caça” aos bandidos aceleras.
Como Portugal seria bem mais feliz e perfeito se andássemos um pouco mais devagar…
De saída e agora já sem ironia apraz-me dizer que respeito sempre os limites de velocidade e que acho muito bem o controlo e as penalizações para quem conduz de forma irresponsável e tantas vezes atentatória da segurança dos outros. Mas, por favor, há tanto mais a fazer para lá desta “intensa” caça à multa.
A disparidade de meios e de empenho acaba por ter um leve trago a ridículo.