sábado, 5 de abril de 2014

“Culpado”

As nuvens que persistentes se interpõem entre mim, o sol e o mar, revelam-me da cidade uma estranha e inédita face, quando apenas o eco dos meus passos lentos na calçada vazia de outra gente, rima com o voo alucinante e os gritos estridentes das gaivotas que por sobre mim dão um claro prenúncio de tempestade.
Há cadeiras empilhadas que esperam o verão para se espreguiçarem nos passeios fazendo nascer esplanadas à sombra dos chapéus por ora fechados; há um ar fantasma nascido da regra de portas e janelas cerradas por densas cortinas e persianas; há montras vazias onde os manequins despidos têm apenas a companhia dos sobrescritos que o inverno fez acumular na alcatifa junto à porta…
Sigo “abrigado” pelas gargalhadas inscritas nas lembranças dos dias de verão, esse tempo em que as pipocas se faziam em casa e até trepavam para a cabeça do Paulo que tinha posto gel no cabelo para irmos à sessão da meia-noite ao cinema do casino, o local das cadeiras estufadas e confortáveis onde eu e o Manuel sempre dormíamos o primeiro sono vencidos pelo cansaço dos dias passados a correr saltando as ondas.
E por todas estas lembranças, e sentido na face a agradável e despudorada brisa com aromas de sal; estaria por certo a sorrir no instante em que um rapaz à esquina de uma perfumaria me rompe o sossegado passeio pela tarde e me entrega um papel acabado de borrifar com o conteúdo de um frasco que carrega na outra mão.
- O senhor tem cara de gostar de perfumes da “Gucci”. E o “Guilty” assenta-lhe bem.
Resolvo brincar:
- Tenho assim uma cara tão marcada de “culpado”? Deve ser da barba…
- Não, nem pense nisso, até foi dos poucos que parou. A maior parte das pessoas pensa que eu estou aqui a pedir algo, e foge de mim.
Sorrio, agora de forma consciente, cheiro o pedaço de papel, elogio o aroma que coloco no bolso de fora junto à gola do casaco, agradeço-o ao rapaz e sigo depois o trajecto até ao jornal e ao café que me indicaram no hotel.
A uma mesa de canto e na companhia de um casal de idosos que está na ponta exactamente oposta à minha na longa sala, leio as gordas do Expresso, o meu vício de sábado, enquanto a pequenos tragos, bebo a bica que hoje traz o aroma do café acompanhado pelo “Guilty” que se solta da lapela.
Não demoro e regresso ao hotel porque o trabalho chama por mim.
As ruas seguem vazias e até o rapaz da esquina dos perfumes está agora abrigado entre as portas da sua loja.
A vida é esta tarde em que caminho carregando os aromas e as palavras que o destino fez com se cruzassem comigo, não só os aromas e as palavras que busquei, mas também todos os que são benefício dos passos dados em liberdade ao ritmo guloso do imprevisível a que nunca gosto de virar costas.
Sorrio.
Agora já não só pelas lembranças de ontem, mas muito pelo presente que para além de ti, o meu amor presente em tudo e em tantas palavras de amor; tem infinitos prazeres escondidos numa insuspeita tarde cinzenta e de tempestade algures no mar.

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