sexta-feira, 18 de abril de 2014

Estes dias santos

Não resisto a abrir a janela do carro ao aroma do campo de Alentejo e primavera e respiro fundo por impulso de uma infinita saudade.
É impossível distinguir o que é o quê no privilégio do odor deste momento, mas o que é certo é que cheguei a casa.
Mais além, no cimo do monte por onde se estende a seara, há um sobreiro solitário e meu irmão, que bebe do sol, como eu de ti, a luz, e estende dos seus ramos e pela sombra, o abraço ao tapete verde de onde já emergem rubras papoilas.
Sorrio então quase da mesma forma que o farei mais tarde ao chegar a casa e ao colher do pai e da mãe a magia desses beijos que hoje brilham por entre todos os cheiros dos bolos da Páscoa, o resultado da visita anual ao livro de receitas da Tia Maria Teodora, o testamento perfeito que perpetua a festa dos nossos sentidos.
Já está posta a mesa para o chá…
Por entre os bolos de sempre coloco o Pão-de-Ló do Mário e brilham assim novos afectos por entre os afectos eternos.
O presente cola-se ao passado, somam-se quereres, e isto sim, é viver em plenitude não rejeitando as bênçãos que são transportadas pelos dias, mesmo aqueles que às vezes aparentam não ser nada.
É envolto na amizade e a pretexto do aniversário da Ana Cristina que mais tarde, e sentado na esplanada do Café Restauração, verei o sol a despedir-se deste dia. O mesmo sol que beija loucamente os sobreiros na quietude do campo, parte agora ali para os lados da Rua de Santa Luzia, deixando sobre nós e a envolver a Praça, o privilégio único de uma intensa luz com a marca do sul.
Esta é a hora perfeita para estar por ali envolto na conversa que sempre conduz ao riso, sentindo o cheiro único que está inscrito no ADN de Vila Viçosa: as laranjeiras em flor.
Agora sim não me restam mais quaisquer dúvidas de que este é um dia de Páscoa.
Não tardarei a descer a Corredora a bom passo porque já vou atrasado para o jantar e não quero deixar arrefecer a Sopa de Cação carregada de coentros que me espera.
Sorrio.
Há pouco na mesa do café, o Manuel falou que na Vigília Pascal deste ano cantará o primeiro salmo da sua vida: “A bondade do Senhor”.
Eu sorrio porque sigo pelo espaço e pelo tempo que serão sempre os primeiros da minha vida e porque estou envolto nos afectos eternos que tornam perfeitos todos os dias.
Estes dias são o salmo da minha vida.
Os dias santos e os verdadeiros dias da Páscoa.
Sorrio.
E claro que vou pensando em ti. 

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