sábado, 19 de abril de 2014

A inédita arte da reciclagem dos pastéis de nata

Sempre que o pai lhe levava da Pastelaria o seu bolo favorito, o Pastel de Nata, a minha amiga Rosa Silvério comia o creme com a ajuda de uma colher e entregava posteriormente a estrutura restante de massa folhada para que o pai a levasse de volta ao pasteleiro e ele a voltasse a preencher com a sua iguaria favorita.
Este inédito processo de reciclagem não se aplica definitivamente aos Pastéis de Nata, mas aplica-se à vida…
Ontem cumprimos o prometido e por entre os aromas das flores das laranjeiras de Vila Viçosa, sentei-me na Pastelaria Azul com a Zézinha, a Manuela, o Zé Maria e o Manuel; e não fosse o risco de rebentarmos com os agrafos que restam na barriga da Zézinha e ainda nos tínhamos vingado muito mais a riso e gargalhadas da dor e das apreensões de há alguns dias.
A cirurgia foi um sucesso ao ritmo das nossas Ave-Marias e a vida que parecia estar a esvaziar-se está novamente repleta do maior e mais doce “creme” da melhor esperança.
E agora que siga a fé pelo futuro.
Mas os dias carregam sempre múltiplas faces e entre elas a inevitável dor.
Depois da Pastelaria Azul descemos à Igreja de Santo António para dar um conforto à Maria João. O pai partiu e com ele a melhor competência, profissionalismo, educação e simpatia que conheci a alguém atrás de um balcão.
Naqueles dias em que interrompia as brincadeiras para ir à loja do Senhor Ramalho compras linhas, fitas e até forrar botões para que a minha mãe pudesse costurar os fatos para as suas clientes, guardo do Sr. João Nogueira a melhor colecção de sorrisos.
Estou certo de que essa generosidade no sorrir define aqueles que para lá da vida estão destinados a serem anjos no Céu.
E assim, o riso e a dor da saudade compuseram a minha Sexta-feira santa que terminou a caminhar com os meus pais através do silêncio da procissão do Enterro do Senhor, o lento e compassado caminhar pelas ruas onde só as velas e os archotes dão luz e onde só as matracas e as marchas fúnebres cortam o silêncio.
Ao atravessar a Praça nunca sabemos de que lado corre a brisa que nos apaga as velas e que me fazem puxar dos fósforos estrategicamente colocados num dos bolsos.
Também são assim os dias onde a esperança se acende pela fé estrategicamente colocada no mais íntimo de nós.
A fé em Deus e sobretudo a fé em nós, a receita para preencher dias ao jeito de pastéis de nata vazios.

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