sábado, 26 de abril de 2014

Esta persistente chuva de Abril

Caem intensas e são infinitamente muito mais do que apenas mil, as persistentes gotas da chuva deste estranho mês de Abril.
É primavera, mas sobre o Tejo, as nuvens invejam do meu olhar, a vontade, e abraçam despudoradamente a ponte e um velho cacilheiro, móvel ponto laranja na perseverança da travessia até à bênção do chão de Lisboa.
Eu, dono de tantas e tão doces lembranças de um Alentejo ao sol pejado de estevas e giestas, entrego agora os meus passos às calçadas desenhadas da Cidade Branca, que tal como as veredas do campo, também são minhas.
E um Homem feliz…
É um Homem assim como eu percorrendo todos os caminhos que sente como seus, as “ruas” que lhe são sugeridas pela alma e que são mães e cúmplices de todos os seus sonhos.
Nesta manhã, percorro a Avenida com nome e resquícios da festa da Liberdade, e, não tarda, chegarei ao Rossio, a praça que coroada pelo Carmo e pela Trindade, imbatíveis, é estrela maior da velha Olisipo e que, pela genética da própria cidade, não caberá nunca na pequenez de uma qualquer irrelevante “Betesga”.
Há turistas em romagem à Ginjinha, como se, com ou sem elas, este fosse o código de acesso ao jeito de ser muito lusitano que por aqui floresce entre a poesia do Nicola e o aroma das bancas das flores de onde emergem por estes dias os naturais cravos vermelhos.
Solta-se a memória…
À esquina e quase em frente à Camisaria Moderna, vejo-me por ali esperando o autocarro de dois pisos, o 39, que me levaria a casa, ao Príncipe Real. Na mão, um cartuxo de papel pardo contendo um quilo de cheirosos morangos maduros, e um embrulho da Pastelaria Suíça contendo uma “Frigideira de Carne”; se essa era noite de fazer greve à inevitável solha frita que me esperava para o jantar na Cantina da Faculdade de Ciências, na Rua da Escola Politécnica.
Passaram trinta anos sem que quase tivesse dado por isso.
Afinal, revejo-me eterno nos passos pelas ruas de Lisboa, os caminhos da minha vontade, e também em tudo o que de mais existe nos sonhos que os ditam dia-a-dia.
Que vive muito mais quem sonha do que quem apenas respira sem colher do ar o alento para a sua fé.
Persiste a chuva de Abril sobre Lisboa e o abraço das nuvens dá ao Tejo um triste tom cor de cinza inteiramente à mercê da rota dos velhos e novos cacilheiros.
É primavera.
O sol…
Persiste nas minhas eternas memórias do campo e nas tatuadas lembranças do teu olhar, essas sim as raízes de todos os meus sonhos.
O sol…
É eterno no ADN de Lisboa por mais estranho que seja este Abril e a primavera.

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