quarta-feira, 23 de abril de 2014

As casas que guardam as palavras

Hoje é Dia Internacional do Livro e por isso me propus o difícil exercício de seleccionar dez obras que me marcaram nas diferentes fases da vida. Fico com a clara sensação de que faltam aqui muitas mais, mas estas recordo-as pelas histórias e pelo muito que representaram para a minha própria História. Partilho convosco:
Os Cinco na Quinta Finniston (Enid Blyton)
Poderia colocar aqui qualquer um dos 21 livros que compõem a colecção de “Os cinco”, estive muito indeciso entre este que é o número 18, e o 10 que é “Os cinco no Lago Negro”. Optei pela Quinta Finniston porque foi o primeiro que li. Nas tardes de Vila Viçosa algures entre os meus 8 e 10 anos, quantas aventuras e quanto desejo de comer scones e beber limonadas.
Platero e eu (Juan Ramón Jimenez)
A Andaluzia é afinal tão próxima do Alentejo e como é bom descobrir que as coisas realmente importantes estão afinal guardadas nos detalhes mais simples. São os privilégios de quem é do campo.
Homem rico, homem pobre (Irwin Shaw)
Li-o algures pelo verão de 1983 quando já me preparava para ser adulto e numa altura em que ainda acreditava que crescer é conhecer a fundo todos os Homens. Talvez esta obra tenha sido a primeira lição de que definitivamente nunca os conheceremos pois há territórios blindados no imprevisível ser de cada um.
A história do cerco de Lisboa (José Saramago)
Considero Saramago o melhor escritor Português do Século XX e não existe nenhum livro dele que verdadeiramente não goste. Escolhi este por ter sido o primeiro que li, no verão de 1991, em Sesimbra e em frente ao mar, uns dias antes de ser incorporado no Exército Português. Da história fica esta certeza de que é impossível não ter uma opinião sobre tudo o que nos cerca e de como às vezes uma vírgula ou um ponto final, afinal tão pouco, podem mudar o curso da própria história.
Memórias de Adriano (Marguerite Yourcenar)
Considero-o o melhor livro que já li até hoje e li-o pela primeira vez também em frente ao mar algures numas férias nos anos noventa. O testamento do imperador expresso nas memórias de tudo, e sobretudo no que mais conta, o amor a que nunca deveremos virar costas.
As horas (Michael Cunnyngham)
Três momentos e três mulheres, idênticos afectos e a mesma ambição / inquietação. O tempo conta-se em ciclos.
O Primo Basílio (Eça de Queirós)
Eça é para mim o melhor escritor Português de sempre. Ninguém como ele falou do Portugal do final do Século XIX e desenhou por palavras este perpétuo jeito de ser Português feito de públicas virtudes e tantos vícios privados. Poderia também colocar aqui Os Maias, A Relíquia ou A Capital.
De profundis valsa lenta (José Cardoso Pires)
Um dos livros mais fantásticos que já li e que privilégio ter sido escrito por um Português. A “ressurreição” de uma espécie de morte numa narrativa na primeira pessoa.
A Mensagem (Fernando Pessoa)
O meu poeta de eleição, genial em cada palavra e aqui a cantar o orgulho lusitano.
Cem anos de solidão (Gabriel Garcia Marquez)
Às vezes as casas não têm telhados e as pessoas bebem das estrelas a magia que lhes oferece vidas únicas. Ler e sonhar.

Como é hábito trocar livros e flores neste Dia de S. Jorge, deixo-vos aqui também uma flor da minha modesta autoria…
Sobre a mesa há um velho livro aberto
Que herdou de uma rosa, aroma de flor
Nestas páginas o sonho andou desperto
Solto nas palavras de um grande amor

um abraço e um sorriso.
E que nunca morram as palavras.

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