sábado, 31 de maio de 2014

Um passeio com “Cara de Mel”

Só a dona da pequena mercearia onde eu antes comprava os iogurtes para o pequeno-almoço parece ter resistido à “cirurgia plástica” que mudou a face da Rua da Escola Politécnica, em Lisboa.
Até os empregados da Cister já não são os mesmos que antes comentavam connosco as notícias do jornal durante os pequenos-almoços de domingo que pegavam sempre com a hora do almoço, e onde tinha sempre lugar cativo o saudoso José Medeiros Ferreira. Mantém-se na “velha” pastelaria a memória do Eça, e num esforço grande da minha memória, ainda consigo ouvir o eco das nossas gargalhadas quando comentávamos as proezas vocais da funcionária que nos vendia as peúgas na Poli, o pronto-a-vestir quase em frente à Imprensa Nacional; criatura que insistia em “arfar” salmos, dado que era ela dotada de tanto jeito para cantar como eu de arte para fazer ponto de cruz.
É tarde de sexta-feira e eu vou à missa das 18.30 horas na Capela de Monserrate, às Amoreiras. Há sol, há chuva lilás dos jacarandás e eu não resisto a um passeio lento e ao sabor das memórias por sobre as calçadas minhas cúmplices na minha chegada a Lisboa há precisamente 30 anos.
Deixo o carro no Camões e faço o rendilhado caminho pelo Bairro Alto que me faz sair na esquina da Rua D. Pedro V com a Rua da Rosa, ali junto à Pensão Londres e à Padaria São Roque, que tinha dos melhores Pães de Deus de Lisboa, uma tentação no meu regresso a casa depois de subir pelo Elevador da Glória.
Faltam-me as tascas, o talho, o lugar da fruta que cheirava a morangos maduros por esta altura…
E quando chego ao Jardim do Príncipe Real, falta-me o Professor Agostinho da Silva por ali sentado num banco, nunca se negando a um fantástico e sonoro “Bom dia”.
Agora há turistas aos milhares, lojas de design, um grupo de rapazes Espanhóis em comemoração de uma despedida de solteiro que se esquecem de que nós Portugueses, ao contrário deles que nunca nos percebem, entendemos todo o tipo de asneiras que eles soltam em Castelhano…
A rapariga que passou também estava claramente a pedi-las.
E ninguém dos que por ali estão poderá imaginar o que foi aquela rua aquando das explosões das bombas das FP-25 na Casa de Macau e na Associação dos Proprietários Lisbonenses. Para mim que tinha acabado de chegar do Alentejo, juro que teve ares de guerra mundial.
Espreito para o Jardim Botânico e não dispenso olhar a casa da minha velha cantina onde fui submetido a cinco anos de tortura com solha frita e um peixe amarelado decorado com molho de tomate.
Nunca pensei que um dia teria saudades, assim a olhar para lá.
Continuo calmamente, bebo o tal café na Cister e chego depois ao Rato e às Amoreiras.
Na missa por alma do Fábio, o padre fala da necessidade de ser alegre e acho-lhe graça quando aplica a expressão “Cara de Vinagre” como algo que nenhum católico deverá ser portador.
Os anjos recrutados pelo Céu falam-nos às vezes ao fim da tarde. E dão-nos bons conselhos.
Já corre uma brisa fresca quando faço o caminho de volta e por isso acelero o passo, não deixando porém de sentir saudades de um rissol quente comido na cafetaria ao lado do Fidalgo quando nos preparávamos para dar um salto a qualquer um dos bares do Bairro Alto que abriram portas com a liberdade para nos dar esse prazer supremo do alinhamento da vida com as vontades mais puras expressas pela alma.
O privilégio de nunca ter de negar o verdadeiro amor que se sente.
É quase Santo António e os homens penduram agora balões coloridos enquanto os turistas parecem alucinados na ânsia de registar tudo em fotografia.
Eu chego ao carro a sorrir e com uma despudorada “Cara de Mel”.
Afinal matei as saudades de tanta gente, das ruas e sobretudo de mim, nos anos passados num percurso único sem o qual eu não seria eu.
Saio do parque com o carro e desço a Rua do Alecrim olhando o Tejo e a outra margem; e juro a mim próprio: quando algures a morte me oferecer asas, raro será o dia em que não virei até aqui a matar saudades de Lisboa ao fim da tarde.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Vida e liberdade

A terra é muito mais de quem a pisa descalço, do que de quem a assinala como sua na formalidade de escrituras notariais, delimitando-a com cercas, grades e marcos…
O amor é usufruto de quem deseja, de quem beija e de quem abraça; muito mais do que de quem segue todas as regras e modelos, e se auto-escraviza “atando-se” aos grilhões das convenções…
O mar é muito mais do pescador que lhe beija as ondas todos os dias no instante de puxar as redes, do que de quem o atravessa veloz no conforto de uma aeronave que bate recordes…
O sonho é muito mais daquele que quer do que daquele que pode…
A vitória é daquele que corre para chegar à meta e nunca daquele que vive sentado na meta, confortável e feliz, vendo passar o tempo no cronómetro que não lhe oferece quaisquer desafios…
A poesia é sempre do poeta, é daquele que escuta as palavras que lhe são segredadas pela sua própria alma, e nunca daquele que consegue comprar todas as palavras que um dia foram ditas e escritas por todos os poetas do universo…
A fé é património daquele que espera e nunca daquele que acredita já ter chegado…
O canto e a música são de quem os sente…
São os olhos que agarram o sol e se fazem donos de um poente…
O riso é gratuito e é de quem o faz de verdade…
E a vida…
Sempre, mas sempre…
É daquele que sabe dizer sim e não, tornando-se fiel à sua liberdade.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Os pés

Há doenças raras que tornam as pessoas super especiais.
É um rapaz único e raro que brinca hoje à minha frente enquanto estou na sala de espera de um hospital. Há espaço e o pai ensina-o a caminhar começando pelo princípio: a forma correcta de colocar os pés.
A criança que terá uns três anos já dá os primeiros passos, e procura-me com o olhar e o sorriso na hora de os celebrar abraçado ao pai que a cada pequeno conjunto de passos lhe oferece um beijo.
Percebo que esta criança vai um dia caminhar sozinha e feliz, percebo-o na sua alegria, no amor que a envolve e também, e muito, na perseverança do pai.
Sinto-me pequeno perante tanto amor assim à solta à minha volta nesses instantes em que aquilo a que tantas vezes chamamos problemas adquire o estatuto de ridículos pedaços de quase nada.
Não tarda a que o rapaz siga para a consulta montado agora no carrinho onde descansa, e eu faço-lhe adeus.
Juro que sei que ele vai andar.
Estou em Coimbra e a Universidade atribuiu hoje o título de Doutor Honoris Causa ao Dr. António Arnaut, o mestre que criou em Portugal o Serviço Nacional de Saúde.
No discurso de aceitação, o jurista de Coimbra, por entre muitas palavras sábias, refere as suas origens na Cumieira, uma aldeia da zona de Penela e uma terra onde segundo ele “havia muito poucos sapatos, mas havia pés e por isso se caminhava”.
E nós para podermos caminhar, precisamos muito mais dos pés do que dos sapatos.
Um mesmo dia, e os pés e os passos a virem ter comigo algures à beira do Mondego.
E duas lições na velha Coimbra…
O amor faz-nos caminhar por sobre tudo e por sobre todas as adversidades.
Podem tirar-nos os sapatos todos que mesmo assim não nos conseguirão deter. Caminharemos descalços… e sabendo que mesmo descalços, também conseguimos dar pontapés, na pouca sorte e nos imbecis que nos descalçam.
Quem é que ousa dizer que os dias mais simples não falam connosco?

quarta-feira, 28 de maio de 2014

O castelo e a poesia

É certo. Não é forçoso que saíamos de nós para que se solte a poesia.
Dentro de mim há um castelo imenso que é guardião de um tesouro maior, a memória; essa mesma que se espraia sem amarras na varanda do pensamento, num cortejar permanente com os sonhos que se libertam das vontades da minha alma.
E nestes dias assim tristes de uma chuva que corporiza a traição do sol à primavera, eu sento-me aqui sozinho; sem palavras, sons ou outros sinais de gente… e fechando os olhos espreito para mim, vendo pelas frestas e guaritas abertas na fria e racional consciência, esse doce namoro de memórias e sonhos.
O passado entrelaçado ao futuro, os dois libertando “açúcar” sobre o presente.
Um privilégio só meu mas com tanto… com tudo de ti.
Juro-te, um dia far-se-ão curtos os caminhos para o tanto que os percorreremos juntos, serra acima; conhecendo de cor os detalhes das veredas, das árvores, das ribeiras e das flores que são bênção de cada uma das quatro estações.
Juro-te, existirá um dia em que, por tê-lo colado ao meu, não sentirei saudades do teu olhar; o dia em que os lábios acudirão de imediato ao primeiro e ainda breve impulso de um beijo.
Juro-te, chegará esse dia em que as minhas mãos cessarão a espera com gosto a eternidade, segurando as tuas por entre o aroma das estevas, o ouro das giestas e o inédito toque lilás que oferece ao campo o rosmaninho.
Juro-te…
Existirão dias e dias que calarão este mito de sermos de uma só tarde, amantes de um fugaz anoitecer.
O anoitecer pai das memórias que dançam com os sonhos na varanda de um castelo, aqui bem dentro de mim, nestes dias em que não preciso de mais nada, nem do sol ou da primavera, para que se solte a poesia.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Eleições e consequências

No passado domingo houve eleições para o Parlamento Europeu e em Portugal estavam inscritos para votar 9.685.294 cidadãos.
Juntando os que não votaram (6.402.742) e os votos brancos (144.859) e nulos (100.483), poderemos dizer que apenas 33% dos eleitores (3.037.210) conseguiu encontrar uma alternativa para votar. Equivale a dizer que os que não votaram, ou que então votaram branco ou nulo, têm dois terços dos votos e têm poder para alterarem a Constituição da República Portuguesa se resolverem converter os seus votos em deputados na Assembleia da República.
Um parêntesis para dizer que respeito mais quem votou branco ou nulo do que quem não votou, pois estes últimos deixam em aberto a interpretação para a sua atitude. Não votaram porque estavam em viagem pelo estrangeiro, por exemplo, ou não votaram porque queriam mostrar o seu desagrado pela situação do país… e da Europa.
Em relação aos eleitores que seleccionaram um partido ou coligação poderemos dizer que são menos do que o total de habitantes dos Distritos de Lisboa (2.244.984) e Setúbal (849.842), que perfazem um total de 3.094.826; e que são menos do que os espectadores do jogo de futebol Suécia - Portugal em Outubro passado, a partida que apurou a nossa selecção para o Mundial do Brasil (3.290.000).  
O PS ganhou indiscutivelmente as eleições com 1.032.895 votos, o que corresponde efectivamente a 10,7% dos eleitores inscritos, menos de metade da população do Distrito de Lisboa e um número semelhante ao milhão de espectadores que esta época viu jogos no Estádio da Luz.
A Aliança Portugal ficou em segundo lugar com 909.588 votos, 9,4% dos eleitores inscritos, e um pouco acima da população do Distrito de Braga que é de 848.444.
Assim, os “partidos da Troika” conseguem 20,1% dos votos dos eleitores inscritos (1.942.483) que é bastante menos do que a população do Distrito de Lisboa e um pouco acima da População do Distrito do Porto (1.816.045).
O Bloco de Esquerda, o último dos partidos a eleger um deputado, teve 149.575 votos, ligeiramente superior ao número de votos brancos e ao número de espectadores no Estádio da Luz se somarmos as assistências dos jogos com o Futebol Clube do Porto, Sporting e Braga (147.237).
Dois outros vencedores foram a CDU com 416.033 votos, número que é inferior à população do Distrito de Coimbra (429.714); e o MPT que obteve 234.520 votos, que corresponde a metade da população do Distrito de Leiria (470.765).
É sobre estes números que hoje se discutem lideranças de partidos e se perspectiva o futuro do país, sem que qualquer político se questione sobre o porquê de tantos quererem ficar fora da decisão ou então não se quererem comprometer com qualquer das alternativas.
Esta atitude dos agentes políticos acontece essencialmente porque o poder é bem mais importante do que os cidadãos, e porque deste modo, os cidadãos já não têm nada de bom a esperar dos políticos.
Pelo contrário, hoje são os políticos que esperam dos cidadãos, o voto, tendo por base a falta de memória e o esquecimento promovido pelo tempo sobre as consequências dos seus maus governos, nesta rotatividade imbecil em que quem está no poder se defende, quem está na oposição promete o impossível, e em que as apregoadas mudanças são mais ao nível das umbilicais lideranças do que das atitudes.
O PS queria melhor resultado porque era grande a expectativa de que três anos tivessem sido suficientes para esquecer os seus governos dos PEC’s. A Aliança Portugal temia pior resultado porque no fundo acreditava na mesma coisa. Mas o PS não se ajudou e até convidou os fantasmas para voarem sobre a campanha.
E pelo meio sempre esta patética ideia de mudança e revolução num tempo em que os tanques já não são os dos heróis e foram substituídos pelos da lavagem da roupa suja.
Só se pode surpreender com estes resultados quem não assistiu ao vazio pimba da última campanha eleitoral, da mesma forma que só se pode surpreender pela eliminação de Portugal na Eurovisão, quem não tenha podido assistir à performance da pimba Suzy.
E Europa fora, para além deste desinteresse e da demissão dos cidadãos, emergem partidos radicais capazes de fazerem perigar o tecido social e comprometer os ideais de liberdade de um continente que agoniza às mãos de uma falsa União que se vislumbra cada vez mais como uma estratégia não bélica mas económica para consumar no século XXI as ambições nunca esquecidas de Napoleão, Hitler e Mussolini: os grandes aniquilarem os pequenos.
Nós estamos do lado dos pequenos mas a bater palmas na festa dos grandes.
Estamos a ver qual vai ser o resultado.
Haja alguém que ouça as pessoas naquilo que elas dizem e também nos seus silêncios.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

O girassol

Quando usávamos bibe e calções, e brincávamos juntos em Vila Viçosa aproveitando a sombra das laranjeiras da Praça de República; jamais terá passado pela minha cabeça e pela do meu amigo Manuel, que um dia estaríamos sentados à mesma mesa na mais antiga Biblioteca Municipal de Lisboa, a contar uma história que nos tem a nós e às nossas histórias, como heróis.
Talvez a magia comece aí na surpresa que a vida sempre encerra, e termine depois na forma especial de olhar as coisas mais simples do universo, sentindo-as como privilégios únicos que nos fazem crescer.
Porque o amor se esconde sempre por detrás das coisas mais simples, quer falemos de bolachas; ou então falemos de beijos, de abraços ou até de simples olhares.
A sala da Biblioteca de São Lázaro tem uma forma única e as paredes forradas pelas palavras libertas de tantos livros intemporais, são idênticas e ao jeito da vida dos Homens nas formas perfeitas que o saber sempre lhe oferece.
As palavras que se soltaram desta história ao ritmo das trincas nas bolachas fabricadas pelo Rui, foram apenas uma infinitésima parte das muitas que habitam este local, e ressoaram especiais sobretudo pela presença de tantos amigos; de há muitos ou poucos anos, que o tempo não é condição essencial para reforçar os afectos.
E na amizade reside outra forma especial de magia.  
Sobre a mesa havia uma jarra com flores de entre as quais reluzia um girassol.
Há alguns anos, um amigo e colega pediu-me dicas para ir visitar o Alentejo num passeio de fim-de-semana com a mulher e os seus dois filhos.
Quando voltou estava encantado com o que vira, contou-me o entusiasmo da família e confidenciou-me que só uma coisa tinha falhado no fim-de-semana: os filhos reclamaram por não ter conseguido nunca passar por um campo de girassóis que nesse instante os olhasse directamente e de frente.
Na passada sexta-feira, um dia antes desta reunião de amigos na Biblioteca com o pretexto da história das bolachas, chegou-me a notícia da partida de um destes meninos, agora um homem já com mais de 20 anos, após um terrível e prolongado período de doença.
Achei curiosa a coincidência do girassol na jarra e recordei-me desta história, porque por mais alegres que sejam os nossos momentos, a dor dos amigos consegue sempre galgá-los e tornar-se presente em nós.
Não sei se este menino conseguiu antes chegar a ver os girassóis a sorrir-lhe enquanto passava… mas soube procurá-los e quere-los a olhar para si numa história, a sua, que foi curta mas intensa da magia que carrega o amor e a profusão de sonhos.
Um dia, tal como ele hoje, todos nós teremos todos os girassóis a olhar para nós, no céu, no instante de cada aurora.
Mas enquanto isso não acontece, não desperdicemos nunca, nem que só por um segundo, as histórias e a magia que preenche e faz maior, a nossa própria história.
Às vezes numa tarde de Lisboa, entre amigos e a deixar fluir os sonhos.
   


sexta-feira, 23 de maio de 2014

A magia

A minha amiga Marta, quem no contexto do meu grupo de amigos veio inaugurar a geração a seguir à minha; não se importará por certo que eu conte esta pequena história que se passou naquele tempo em que a víamos cheia de sono ao redor do nosso Trivial Pursuit, a mandávamos para a cama e ela respondia:
- Não vou porque eu não tenho sono, só os meus olhos é que têm.
Quando o pai, o meu amigo Zé Maria, lhe contava a história da Carochinha para ela adormecer, e cheio de sono tentava antecipar a chegada do João Ratão por entre o desfile de animais que passavam por debaixo da janela da afortunada carocha, logo ela inventava mais um e outro animal para que a história jamais tivesse um fim.
E passavam então jacarés, crocodilos, hipopótamos, gorilas, papagaios, rinocerontes…
Amanhã vou lançar o livro “As bolachas mágicas da avó Inácia”, sendo que a avó Inácia é a minha mãe, a promotora de uma aventura que envolve os meus sobrinhos João e Luís, por via das suas bolachas favoritas; umas muito especiais e doces que herdámos do livro de receitas da Tia Maria e que a minha mãe prepara dando-lhes as mais variadas formas.
Escrevi esta história por acreditar que por detrás de tudo o que temos na vida, mesmo as coisas mais simples, há uma magia especial que nos permite “voar” muito para lá do que existe, para a terra dos sonhos maiores; e é na nossa fé que habita a “varinha” que tudo permite temperar de magia
Para além disso, agradou-me fazer dos meus sobrinhos, o que já são indiscutivelmente para mim: uns heróis fantásticos; fazendo de Vila Viçosa, simultaneamente, aquilo que também é para mim e para todos os Calipolenses: um lugar de impossíveis prazeres.
Gostei de rebaptizar amigos com os nomes de “Manuel do Canto”, “Nélinha das Malas”, “Florbela das Laranjas” e “Zeca Pintora”…
Mas verdadeiramente, confesso, acho que escrevi esta história no contexto de um processo idêntico ao da Marta, e com o objectivo primeiro de nunca deixar apagar em mim esta doce ilusão que me acompanha.
Não quero que desapareça jamais esta magia, e quero prolongar a “história” para que ela nunca chegue ao fim.
Espero que gostem da história e desejo muito que a magia também seja eterna nas vossas vidas.
Até amanhã às 16.30 horas na Biblioteca de São Lázaro, em Lisboa. 

quinta-feira, 22 de maio de 2014

A idade?

Quando na passada semana nos encontrávamos em Setúbal na fila para o ferry que nos levaria a Tróia, e uma colega estava a ser importunada por um vendedor de óculos de sol e relógios, uma espécie de “Canal Street com pernas”; eu aproximei-me e ela aproveitou a minha presença resolvendo inventar que eu era o seu marido. O dito vendedor soltou uma franca gargalhada acompanhada do comentário:
- Este velho de certeza que não é o seu marido.
Eu bem sei que tenho mais doze anos do que ela mas mesmo assim senti ganas de o mandar para bem longe dali ao mesmo tempo que pensava:
- Olha este com a mania que é estrela…
E tivesse eu quaisquer tendências depressivas e a coisa tomaria proporções de catástrofe no meu “sótão” e uma convulsão nos “macaquinhos” pois nessa mesma semana e quando comprava o bilhete para entrar no Mosteiro de Alcobaça, a funcionária, que nem olhou para mim e se encontrava em amena cavaqueira com a sua colega das limpezas, me perguntou:
- O senhor não tem mais de 65 anos, pois não?
Resolvi atacar:
- Se não estivesse a olhar para a sua colega e tivesse olhado para mim teria poupado essa pergunta ridícula.
Ela não se fica:
- Há pessoas que parecem mais novas do que realmente são.
E eu já a soprar:
- Nem sei se é pior que me chame velho ou Lili Caneças…
Ela ataca de novo com a arma mais poderosa e habitual dos funcionários da sua classe, o sistema informático:
- O sistema não me deixa anular um bilhete e eu tenho sempre de perguntar estas coisas.
E eu que odeio este atirar de culpas para cima da informática resolvo pôr-lhe uma coroa de flores sobre a campa:
- Se não estivesse a falar com esta senhora e se dignasse olhar para mim saberia que eu não tenho 65 anos e não empatava a sua colega, que o altar-mor e as teias de aranha de cor negra que enfeitam os vidros bem necessitam que ela as vá lá limpar.
Paguei, peguei no bilhete, fui ver o mosteiro e saí de lá de cabeça erguida, como o faz a selecção.
Mas mesmo não dando parte fraca nestas situações, o que é certo é que acabei por revisitar o espelho com mais atenção à procura de rugas, da curvatura generosa da barriga, dos cabelos e da barba branca…
Estive mais atento aos ais que se soltam instintivamente durante o acto matinal de calçar as meias, analisei melhor aquele movimento difícil quando preciso de apanhar algo que caiu ao chão, o levantar do sofá no fim do serão, o regresso à posição vertical depois de escovar os dentes…
E conclui sem margem para dúvidas e de forma perfeitamente isenta, que estou melhor do que nunca, não podendo ser mais nada a não ser a inveja, aquilo que move os “desgraçados” dos vendedores de óculos rasca em Setúbal e de entradas para o Mosteiro de Alcobaça.
Primeiro porque a idade está na mente e na quantidade de coisas que ainda temos para cumprir por inspiração da vontade. Velho é aquele que acha que já fez tudo e que lhe restam muito poucas coisas por fazer, e eu, confesso-vos aqui e agora, sinto-me a começar, tendo um infinito de coisas por fazer e a noção de que cumpri apenas uma parte muito pequena dos sonhos que vivem colados a mim.
Depois, mesmo falando do físico, não trocava esta por nenhuma outra idade e não consigo encontrar foto nos meus álbuns em que esteja melhor do que estou hoje.
E não me venham com essa história da ida ao oftalmologista porque as minhas lentes estão revistas e adequadas à visão.
Está bem, de vez em quando solto uns ais quando me levanto mas isso também não tem importância nenhuma pois aproveito a deixa e sigo para a frente a cantar:
- Ai, ai, ai, ai, ai, ai… Puerto Rico.
E assim, a cantar, previno as rugas e a depressão. 

quarta-feira, 21 de maio de 2014

As viagens e os dias

A saída de Lisboa ao princípio da tarde com o GPS a apontar para o Porto e essa estimativa associada ao desejo de chegar cedo…
Auto-estrada A8, A17 e uma chuva anormal para um mês de Maio que já teve tanto sol de primavera…
Leiria, o rádio na Antena 1, um ruído estranho de metal sobre o asfalto e o carro a parecer ter vida própria numa espécie de emancipação e desprezo pela minha autoridade sobre o volante e os pedais…
Encosto na berma, ligo os quatro piscas e nem preciso olhar para os pneus, basta abrir a porta e aí está… tresanda a borracha queimada: um pneu está desfeito.
Praguejo as palavras do costume enquanto visto o colete reflector amarelo, que até nem me assenta mal, e me transforma de repente numa figura algures entre o avô do “Bob, o Construtor” e um genérico manhoso dos “Village People”.
Busco o triângulo mais ao jeito de Indiana Jones, pois nos três anos de convívio com esta viatura nunca tive oportunidade de aprender que o mesmo habita na porta da bagageira dentro de um compartimento onde já algumas vezes bati com a cabeça.
Ligo para a assistência em viagem, passa o carro de apoio das Auto-estradas do Oeste que me coloca a mim e ao carro entre cones de cor laranja, e fico a saber pelo simpático colaborador que o meu carro tem nas rodas uma porca especial, anti-roubo, e de que algures na viatura estará uma chave única e intransmissível para a poder abrir.
Novidade total.
Há três anos que viajo na companhia de uma porca especial e não sabia. Mantendo-me pela área dos suínos sempre posso dizer que são “secretos” os detalhes deste carro e de que é leve como as “plumas” o meu interesse por estas coisas da mecânica.
Menos mal que há um colega que via telemóvel me indica com sofisticadíssimos desenhos sonoros, o mapa do tesouro, e a chave aparece mesmo a tempo de o simpático senhor do reboque me mudar o pneu enquanto falamos do Benfica.
Sigo então a essa vertiginosa velocidade de 80 quilómetros por hora, com o objectivo apenas de chegar, atento a detalhes do caminho que antes nunca vira, indiferente aos impropérios que os camionistas terão atirado sobre a minha auto-estima enquanto me ultrapassavam e… chegando ao Porto, exactamente seis horas depois de ter partido de Lisboa.
Eu não sei se há dias que são como as viagens, ou se é o inverso, e são as viagens que são como os dias em que algo rebenta e as prioridades mudam tornando a pressa quase desprezível perante o acto de chegar, de conseguir algo.
Com essa enorme vantagem: com mais tempo não há detalhe fantástico do caminho que escape ao nosso olhar.
Entretanto já cheguei a Lisboa com pneus novos e cumprindo hoje os legais e habituais 120 quilómetros por hora. Não tivesse eu parado em Fátima para rezar e nada haveria para contar sobre a viagem.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Romaria

O sol intenso do meio-dia parece empenhado em fazer “murchar” as cores garridas das bandeiras de papel que o povo esticou em cordas pelas fachadas da aldeia.
Lá no cimo, no campanário; o galo metálico, despojado de vontade própria e ao jeito de tanta gente, entrega-se ao vento, e por este, e por mais nada, toma rumo e posição.
Ao lado, num avantajado ninho tecido pacientemente com paus do campo, uma cegonha entrega o bico aos congéneres pequenos dos seus filhos que a esperavam, recolhendo o alimento que um dia os fará crescer e voar, dominando os céus; indiferentes por agora às badaladas do sino que ali mesmo em baixo sinaliza a hora da fé dos Homens.
Há gente, bombos e outros instrumentos de banda filarmónica espalhados pelas sombras das casas que têm rodapés de onde nascem pequenas roseiras. E o riso da festa ecoa pelos baixios que antecedem as searas já loiras do trigo, misturando-se mais além com o fumo do lume já aceso para roubar às bifanas e às sardinhas, os aromas respectivos que já se espalham e se sentem no ar.
O interior da igreja é uma bênção fresca neste dia quente; e por ali, há andores de muitos e indecifráveis Santos e devoções, todos decorados com fitas, cera de promessas e muitas, muitas flores.
O povo ao redor dos altares murmura Ave-Marias como se algum segredo contasse, esquecendo-se de prolongar a oração dos lábios para o olhar, no instante em que entra algum forasteiro, e é tudo menos “católico”, o jeito de censura que os olhos manifestam conter.
Sorrio.
Soam foguetes, a banda agrupa no alinho que solta uma marcha afinada, há pétalas e papelinhos a voar das janelas decoradas com colchas de seda em tons garridos. No chão há o cheiro das ervas trazidas do campo que “choram” a sua identidade ao ritmo do insistente e massacrante passo dos Homens nas duas filas que ladeiam a procissão.
O povo ajoelha ao passar dos andores, e é como se Deus estivesse ali no cimo daqueles móveis altares adornados de ricas flores, e a marchar ao compasso da caixa e do bombo.
Estará Deus muito mais no íntimo de todos os que por ali estão, ajoelhados ou não, sujeitos ou não ao olhar ácido das “beatas” criaturas; e estará, estou eu certo disso, no cimo do velho campanário, na cegonha que a beijos celebra e insufla vida em cada um dos seus filhos.
Eu não tardarei a partir, seguindo ainda e sempre na cumplicidade do sol do meio-dia, entretidos que estão os Homens no seu esmerado louvor a Deus.
Na estrada, o carro passo junto à seara de trigo, e o mesmo vento que alinha o galo do campanário, faz nascer ondas amarelas debruadas a papoilas. As ondas que me abraçam na partida e que parecem dizer-me adeus.

sábado, 17 de maio de 2014

E tudo a Troika levou?

Hoje é o dia.
A Troika “foi-se” e por inspiração do Dr. Passos Coelho, eu deveria estar a celebrar um novo 25 de Abril; segundo o Dr. Paulo Portas, eu deveria sentir a alegria do povo que grita “liberdade” por entre o heróico defenestrar do Miguel de Vasconcelos na manhã de 1 de Dezembro de 1640.
Mas não fosse eu andar distraído e já ter posto no frio alguma garrafa de “Moet Chandon” para consumir ao jeito de cravos vermelhos em versão burguesa, a Senhora Dra. Helena Vaz, Directora de Serviços do IRS, encarregou-se de me enviar ontem uma missiva demasiado explicita em relação aos motivos de folguedo que me assistem.
Numa acção bipolar e esquizofrénica, o Estado Português consegue dar-me oficialmente o estatuto de rico, ao mesmo tempo que me empobrece, definitivamente.
Solteiro e sem filhos, sou condenado a “amamentar” o Estado com um “Coeficiente Conjugal 1” que me leva logo 48% do que ganho, o que sendo pouco ainda me obriga a uma sobretaxa extraordinária de 3,5%. Tudo somado e apesar de mês a mês eu receber menos de 50% do ordenado, a referida Senhora Directora mandou-me assim uma factura jeitosa que perfaz o valor de 3.842,47 €.
Fiquei tão feliz…
Tudo isto por entre a sensação de me sentir com sorte pois há muitos que nem 50 cêntimos conseguem ter para comprar pão.
Tudo isto apenas para pagar as dívidas derivadas dos luxos e da má gestão porque o Estado Social agoniza diariamente e os nossos benefícios, e os benefícios dos mais vulneráveis que eu nunca me negaria a suportar; diminuem de forma inversamente proporcional às “sobretaxas” com que nos carregam.
Motivos para celebrar?
Não tenho nem nunca tive.
A ressurreição dos políticos, sei-o há muito, assenta invariavelmente na crucificação indecente do povo. A cruz que nos pedem para colocar nos boletins de voto, é simbolicamente igual à que nos oferecem todos os dias, que carregamos aos ombros e que nos faz tropeçar e cair de dor.
Somos o “churrasco” do seu banquete celebrado em números e cartazes de propaganda.
A Troika?
Objectivamente, o mal de Portugal nunca foi nem será a Troika. Entre a saloia abastança “BPénica” do Cavaquismo, a beatice caridosa do Guterrismo, o fugidio e carreirista percurso do Barrosismo, o novo-riquismo Armani despesista de Sócrates, e este pseudo rigor rural nacionalista Joana de Vasconcelos, de Passos e Portas; os males de Portugal são os políticos todos.
Os credores apenas aproveitaram a sua oportunidade para ganhar mais algum dinheiro deitando a mão a este circo em que eu sou involuntariamente um dos patrocinadores.
Assim…
Celebrar o 17 de Maio?
Não me “lixem”.
A vossa sorte é não haver janelas suficientes para vos atirar a todos.
Vocês é que são a “Troika”.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Perder

Gosto de perder-me, muito mais do que perder.
Perco-me no instante de uma paixão porque instintivamente deixo de ser eu e passo a ser muito maior por impulso dos abraços, dos beijos, das palavras de amor, dos instantes perfeitos em que a alma se eleva até ao sonho e eu sinto prazer.
Perco-me no olhar, nos gestos e no discurso simples e puro de uma criança, o tudo que me devolve assim aos dias em que eu também fui criança. E depois, quando “acordo”, sinto que me perdi no menos que era antes para passar a ser um adulto muito melhor.
Perco-me num abraço e no beijo dos meus pais, esses tácteis insuflares de amor que me acrescentam vida.
Perco-me no campo por entre os aromas todos, o generoso canto dos pássaros, a liberdade que o meu olhar conquista para lá dos horizontes, mesmo aqueles que às vezes parecem impossíveis. E perco-me no pobre que era para passar a ser dono do mundo.
Perco-me à mesa dos amigos, no riso das anedotas por entre os abraços, nas cumplicidades por sobre esse mesmo riso e também por sobre a dor. E perco-me tantas vezes para deixar nascer um “eu” muito mais feliz.
Perco-me e sou infinitamente melhor nos instantes em que sinto a fé.
Perco-me numa viagem, na vertigem de uma obra de arte, numa música, numa canção, na poesia, num livro, num filme, na voz de Amália, num copo de tinto, num pedaço de pão-de-rala, numa sopa de tomate, num café com gelo numa praia a olhar o mar…
Perco-me no racional que sou quando festejo aos saltos um golo do Benfica, meu eterno amor, no calor da emoção da imensa Luz e num abraço com o meu irmão.
E às vezes também acontece perder, na vida, em tudo e também no futebol, onde se perdem jogos, campeonatos e taças.
Mas o que é isso de perder comparado com o prazer de me perder?  

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Os Euros e as birras na asfixia da minha terra

A escola primária para onde eu entrei em 1972, a “Escola Masculina” que a liberdade entretanto transformou em “Escola Nº 1”, será em princípio encerrada no próximo ano, juntamente com a sua congénere número dois que nessa altura era a “Escola Feminina”.
Ambos os edifícios são no centro de Vila Viçosa e ao que parece têm todas as condições para poderem continuar a assegurar a formação do primeiro ciclo das crianças da terra, mas, diz a rádio local, há que cortar nas despesas com funcionários.
As crianças transitarão assim para o edifício da Escola do Segundo Ciclo, na periferia da Vila, com os alunos que actualmente frequentam esta escola, a serem transferidos para a Escola Secundária.
Não importa se há dois edifícios que vão perder a sua utilidade, sendo transportados automaticamente e por estatuto para o “panteão” de monos e espaços devolutos e abandonados, o “punhal” que vai matando o centro histórico, despovoado em favor do “novo-riquismo Socrático” e dos seus apalaçados espaços ao estilo de Ceausescu.
O riso solto das crianças no recreio desaparece deixando o eco da memória a fazer companhia aos “velhos” que vão sobrevivendo por entre as ruínas.
Não importa a comodidade dos pais e das crianças relativamente à logística do transporte de e para a escola.
Não importa se as crianças deixarão de ter o seu espaço próprio onde coabitam com os da sua idade para “galgarem” degraus e se irem “dissolver” por entre adolescentes e jovens.
Ninguém terá tido em conta que há milhares de desempregados no concelho e que há formas inteligentes de os pôr a trabalhar e lhes dar um salário digno, muito possivelmente com os custos associados a esta mudança e à adaptação dos espaços.
A não ser que sentem as crianças de seis anos com os pés suspensos e a abanar do alto das cadeiras onde até agora se sentam os de doze…
Nada disso importa no contexto actual “Passista” e “Troikiano” perante a “escravatura” cega que põe os orçamentos no sacro altar das decisões por entre uma mixórdia de birras e amuos entre “poderes” que reduzem os cidadãos a meros cromos trocados num jogo que tem de tudo, e tem sobretudo muita falta de respeito.
Falo assim por inspiração da razão e também da emoção de quem verá morrer, sem qualquer justificação lógica, um dos espaços onde passei os anos mais felizes da minha existência.
Bem sei que restará a memória da oliveira que foi o meu primeiro avião no recreio onde imaginávamos tudo e até o universo por debaixo dos nossos pés, ficará o cheiro da terra húmida enquanto jogávamos ao berlinde, o som do rodopiar do pião no pátio de laje…
Mas não é suficiente.
E tudo em troca de algo que me parece ultrapassável com jeito e com boa vontade.
Virão agora os anónimos, e os com nome, dizer que não sei do que falo, que eles é que sabem o que contém a “massa” e que nem sequer habito já em Vila Viçosa, numa oferta feita à minha pessoa daquele espartilho de inspiração salazarista de maior ou menor legitimidade de opinião, no contexto do exercício de uma estranha democracia.
Pois… já estou habituado. Mas não me calo.
E vejam lá se ainda vão a tempo de travar isto.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Os dias, as dores e a fé

Tenho na mão a caneca com o café que todas as manhãs me perfuma a cozinha e que serve de complemento ao duche tépido na ajuda ao meu despertar.
Estou à janela e aprecio o sol a brilhar sobre a manhã, que assim e sem qualquer laivo de timidez, é prenúncio de um dia assumidamente de Maio, este mês que fez desabrochar milhões de pequeníssimas flores coloridas nos campos que estão agora entre mim e o azul do Atlântico.
O telefone soará em breve com doces palavras de amor… e há dias que nascem como este, com a aparência de perfeitos.
Mas estou nervoso, vejo as horas que sinto aproximarem-se vertiginosamente das oito; e sei que por aí, as palavras, o som do riso… e a vida toda de uma amiga, estarão adormecidos e à mercê das mãos certeiras e do bisturi que a trarão de volta aos dias felizes.
As dores que os dias guardam em si são as nossas e são as dos amigos, que é como se também fossem nossas.
É dia 13 de Maio, recordo-me dos peregrinos de Fátima com quem me cruzei na estrada na manhã do último domingo, em particular daquele homem sentado na berma e amparado por um outro, que respondeu com um sorriso e um acenar feliz, ao levantar da mão que lhe dirigi em jeito de um breve olá com alguma dose de alento.
Aqui, olhando o mar e com o perfume do meu generoso café matinal, sou eu hoje que repouso na berma de um dia que anseio termine com as melhores notícias.
Rezo uma Ave-Maria…
É benefício da fé esta arte de saber colher a esperança por entre as difíceis dores trazidas pelo tempo.
Desço, entro no carro e percorro os poucos quilómetros até ao trabalho a ouvir “A Canção da Terra”, de Gustav Mahler.
Por sobre a música coloco Ave-Marias, leio as palavras de amor que entretanto chegaram e bebo da esperança que me faz sorrir.
Ao fim da manhã chegaram as notícias: estão vivas e de saúde as palavras e as gargalhadas…
Há dias que nascem com a aparência de perfeitos e que acabam por sê-lo.
Acreditar dá sempre uma ajuda. 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Os pássaros e os Homens que gostam de voar

Um Homem resignado é um pássaro auto-mutilado nas suas asas que entrega facilmente o céu ao voo de todas as outras aves.
Então, prostrado nas pedras duras do caminho, apenas verá de céu, alguma qualquer pequena nesga de azul que as asas alheias em voo lhe quiserem deixar por dó e caridade.
E um pássaro assim, sem céu, é um pássaro morto na sua raiz, na sua essência, mesmo que ainda possa continuar a respirar.
Pelo contrário, um Homem ousado é um pássaro que dá vida às asas e que chama a si, o céu, buscando-o sem reservas e sem temer sequer os perigos que espreitam por exemplo, por detrás dos arbustos na pontaria certeira de um qualquer caçador.
Poderá chegar o dia em que possa ficar ferido, quiçá morrer, mas nunca foi por si que o céu deixou de lhe sorrir e deixou de ser seu.
E já tem muito de nosso, tudo aquilo a que aspiramos e pelo qual lutamos, mesmo que jamais consigamos ter dele posse total e efectiva.
Para além de que a esperança que vive colada aos sonhos já nos faz sorrir. É o açúcar da vontade.
Um pássaro que se faz ao céu fá-lo pois ao jeito de um Homem que dispensa as gaiolas, as grades, e que cumpre o destino que a alma lhe impõe em pleno e despudorado gozo da sua liberdade…
Um Homem que faz suas, todas as fontes; um Homem que não nega jamais um beijo aos seus amores, da mesma forma que um pássaro em voo, jamais se recusa pousar e entregar uma sua carícia à mais viçosa das flores do campo…
Um Homem que sonha e que assume assim a ousadia que a nada se rende; nem sequer à perspectiva desse tão desconfortável epíteto de louco, oferecido gratuitamente e de forma voluntária pela multidão gigante dos mestres e escravos da sensatez, “papagaios” mais ou menos coloridos e instalados em poleiros dourados, entregues à monótona “cassete” de tantas frases feitas.
Um Homem…
Sou eu e sou tudo isso pelo impulso de voar para ti, para os teus braços…
Definitivamente, o meu céu.
Digam o que disserem e com independência de onde cheguem os tiros.

domingo, 11 de maio de 2014

Elevar-se como uma Fénix

Na mitologia grega, a Fénix é uma ave que quando morre entra numa espécie de auto-combustão, renascendo mais tarde a partir das suas próprias cinzas. Quando viva, a Fénix tem uma força incrível, sendo capaz de transportar elefantes em voo, presos ao seu bico.
Há algo de cinza nos dias que cruzamos, este tempo em que os Homens excluem outros Homens pelo tom de pele, pela religião, pelo poder económico e também, e muitas vezes, pela ousadia de amar diferente mas da forma que oferece verdade ao que manda o coração.
Há muito de cinza da própria humanidade no pó destes dias tristes em que a perseguição, a tortura e a fome, ecoam demasiadas vezes por entre tantos tristes amanheceres.
Conchita Wurst, ou Thomas Neuwirth, porque pouco importa, é um austríaco que venceu ontem o Festival da Eurovisão com a canção “Elevar-se como uma Fénix” obtendo pontuações máximas de toda a Europa, incluindo Portugal.
Um homem de barba e vestido de mulher, mas que bem poderia ser uma mulher sem barba vestida de homem… e uma canção bem construída e muito bem cantada, que muito mais do que um grito de um grupo de gente a reclamar o justo e merecido respeito pela fidelidade à orientação que o coração sempre nos dá, é a expressão de uma terra, a velha Europa, pátria da liberdade, que precisa de se elevar por sobre as cinzas da intolerância, da guerra, da miséria, da fome, do racismo, da homofobia…
Senhor Putin e seus fiéis acólitos, escutem bem:
- Estamos vivos e sentimos forças para voar com o peso de elefante da vossa intolerância, fazendo-a despedaçar-se algures de forma irreversível!
E depois, e sempre, os Homens não o são pelo que vestem, pelo que têm, pelo que professam, por quem beijam e por quem amam, não o são pelo tom mais ou menos escuro da sua pele; os Homens são Homens, e ponto final.
E os grandes Homens são sempre construídos pelos valores que em si transportam, muito mais do que pelas aparências vãs e tolas que os revestem e os mascaram no caldo do socialmente correcto.
Os grandes Homens são homens, mulheres...
Os grandes Homens elevam-se sempre por sobre as dores e as cinzas e cumprem a sina eterna de saber voar percorrendo a esperança.

sábado, 10 de maio de 2014

Alcobaça e uma manhã de primavera

Há góticas cúpulas, braços longos de pedra esticados pelos Homens na ânsia de chegar ao Céu, mas é aqui ao redor dos nossos passos que de Céu se sente o amor na eternidade de uma paixão: Pedro e Inês.
Estas pedras beijadas pelos nossos pés de monges silenciosos resgatados hoje pela abadia ao bulício do Século XXI, estão cravejadas de História e gritam-nos convictas, que vazios e imbecis serão sempre todos os tronos, outros que não aqueles que nos fazem reis por verdadeira bênção do coração...
E da fé cruzando os séculos, falaram por certo os dois sinos que repousam agora a um canto discreto da longa igreja.
Os sinos assim pousados são como os Homens que desistem de o ser, como os tronos e os dias sem amor: não ressoam, estão mortos.
Cá fora, no claustro e por entre as laranjeiras sem idade, há o soluço do correr da água de um rio e há flutuantes detalhes de primavera ao jeito de pedaços de algodão beijando-nos o respirar.
E há o Céu, que é definitivamente muito mais de quem o sonha, de quem lhe entrega assim solto, o olhar, do que de quem estica vaidoso e poderoso, os braços, construindo majestosos tectos de pedra na ambição de lhe tocar.
Um Homem, o sonho do Céu, a fé, os detalhes de um amor perfeito, de uma paixão...
Hoje, sou eu.
E haverá trono maior para eu me poder sentar?

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Alho Francês à Brás

Chega sempre o dia em que o “simples”, por insistir tanto no realçar da sua simplicidade, se revela vaidoso; sendo afinal a simplicidade, apenas mais um dos argumentos que compõem o pedestal em que se coloca a si próprio, no centro da “rotunda” onde quer que tudo gire, o ciclo contínuo do culto despudorado do seu ego.
É no mesmo dia em que o desprendido de bens materiais se “embrulha” em roupa de marca e compra móveis com nome e apelido, para decorar a sua casa; o "servo" veste a alva descartável da sua "santidade" e se coloca no altar da vaidade, ofuscando assim o Senhor da sua fé; o "caridoso" trai o seu gesto pelo reconhecimento ou recompensa humana ou divina que acredita estar à sua espera; "auto-proclamados" amigos e amores são denunciados pela indiferença que é marca da gestão dos dias feita apenas ao ritmo dos seus interesses...
O “modesto” suicida-se pelo abuso do veneno do “eu já sabia” e do “eu sei”; o “puro” e o “limpo” não resistem a sujar-se, colocando a mão e o corpo todo na massa que lhe acena à ambição; o “democrata” se mutila pela intolerância e a obsessão no impor das suas vontades; o “respeitador” apela à amnésia e à falta de inteligência dos demais; e o “desinteressado” vende a alma a todos e também ao diabo.
Assim, bem-vindos ao mundo encantado do bem parecer, dos “bonzinhos” e das ilusões tornadas ciência por via do Marketing Pessoal; o comboio imparável alimentado pelo motor da ambição desmedida e onde há monstros escondidos por detrás de anjos, príncipes e princesas; o território onde esvoaçam em vão, ténues véus da moral a tentarem esconder despudorados, desavergonhados e muito bem patrocinados orgasmos… o circo rasca e barato onde há uma profusão e um infindável filão de caracteres fraudulentos muito piores que palhaços.
Há gatos muito mal escondidos e com rabos demasiado expostos no reino da aparência, esse apátrida e universal local onde a mulher de César se esquece de o ser, investindo apenas no muito bem parecer.
Como se bastasse um equipamento sofisticado de ginástica para se poder ser maratonista e correr um pouco mais de 42 quilómetros, como se bastasse pôr um xaile negro aos ombros para se ser fadista.
A tatuada mentira mata a essência e dá-lhe uma nova e muito conveniente forma: a aparência; e viver é a arte de bem saber caçar as “bruxas” que esvoaçam e estão escondidas por entre os andores nas “sacristias” do social e do politicamente correcto.
Há alguns anos existia um prato vegetariano na carta de um restaurante que eu frequentava: Alho Francês à Brás. Não tendo qualquer pedaço de bacalhau na sua confecção, juro-vos que sabia mesmo a Bacalhau à Brás.
O bicarbonato de sódio quando utilizado na cozedura dos legumes acentua-lhes o tom verde.
Há iguarias que são demasiado aparentadas com as pessoas.
E para estas, o melhor antídoto é a intolerância.
Pode ser tomada diariamente, com ou sem alimentos, nas doses que forem necessárias e sempre à hora que dê mais jeito ao freguês.
Pode ser cara e pode ter alguns efeitos secundários, mas eu garanto eficácia total e o benefício de sonos altamente reparadores. 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Os átomos e as histórias

Maria Manuela, eu concordo contigo; de histórias, muito mais do que de átomos, se compõe e define a vida.
As histórias guardam em si afectos e tornam eternos, todos os instantes dos beijos, dos abraços e a enxurrada de emoções de tantos, e às vezes tão ridículos amores.
As histórias gritam palavras e fervilham com as sensações tatuadas aos nossos dias pela mão da gente com quem partilhamos a “estrada”.
As histórias são essa mesma gente.
As histórias riem e choram, por nós e como nós, dando expressão de verdade ao que alma sente.
As histórias guardam dores, desalentos…
E as histórias cantam, gritam vitória e oferecem-nos mar e caravela para que da nossa esperança nasçam as rimas de uma epopeia perfeita.
As histórias são rotas, são caminhos, destino vão ou verdadeiro; e as histórias jamais sacodem de si, o pó dos nossos passos por sobre todas as agruras dos caminhos.
As histórias são sonhos e são pedaços soletrados das nossas mais indispensáveis vontades.
As histórias encerram em si toda a ciência e são teoremas explicados da microbiologia da mais profunda fé.
Um dia, alguém entregará por mim, e por minha expressa vontade, os meus átomos à paciente nobreza de um sobreiro que sem pressas e durante quase uma década, tece no seu tronco, o tecto perfeito para o vinho com que os meus “netos” brindarão à vida.
Serei eterno oferecendo impulso ao extraordinário e único ciclo perfeito que é a própria vida.
Mas nesse dia, mais do que os átomos eternos na matéria, falarão de mim as histórias…
Por via da alma.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Mc Lusitânia

Depois da "Mc Bifana", do "Mc Caldo Verde", e mais recentemente do "Mc Prego", é de prever que o processo de "Mequização" da Lusitânia e dos seus ícones possa continuar com a criação da "Mc Alheira", o "Mc Pão-de-Ló", a "Mc Queijada de Sintra", a "Mc Sardinha Assada", o "Mc Bacalhau à Brás" e até as "Mc Favas com Chouriço".
Será na altura em que possivelmente já poderemos encher os copos e beber com a ajuda de uma palhinha descartável, um “Mc Tinto Carrascão”, um “Mc Branco Fresquinho”, um “Mc Vinho Verde” e até uma “Mc Jeropiga”.
Para o final um “Sundae Ginjinha de Óbidos” com molho de chocolate.
Tudo indica no entanto que este fenómeno não se restringirá à gastronomia, sendo possível que do novo programa da TVI, "Rising Star", possa sair uma "Mc Amália" especialista em "Mc Fado", música em que ao jeito das bifanas pré-mastigadas, a guitarra Portuguesa é substituída por um banjo que lhe oferece um toque country.
Não é de estranhar que nas festas de Santo António, em Lisboa, algum bairro popular possa trocar o cravo pela garrafa de Coca-cola espetada no manjerico, possa convidar a Dolly Parton para madrinha e substituir o grito tradicional por "a minha Mc Marcha é Mc Lindaaaaaaa".
E a tradicional quadra poderá ter o patrocínio da marca de hambúrgueres e dizer algo do género:
Anthony my dear friend
You are a saint and a star
To be Mac it’s a new trend
So fashion, magic and popular
No futebol não se admirem se surgir um “Mc Ronaldo” (servido em menu com a Mc Irina), um “Mc Mourinho” e até um “Mc Jorge Jesus”, sendo que este último, e por ser um pouco indigesto, será servido em pacotes com doses individuais ao estilo dos “Mc Nuggets”.
Convenhamos que há limites para tudo e um prego, tal como uma bifana, tem de ser comido numa tasca com todos os aromas que merecemos, e jamais servido por uma rapariga de touca e com o pin de um palhaço espetado na lapela que em vez do tradicional “boa tarde amigo, então o que vai hoje?” nos diga numa voz metálica “olá, bem-vindo à Mc Donalds”.
É contra-natura embora explique esta ânsia de ensinar Inglês às criancinhas que nem Português sabem.
Assim, força com a campanha “Salvem o prego das nossas tascas” e não nos deixemos “comer” por parvos.
Please.
Isto é, por favor.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Saídas limpas

Directamente da mesma sala onde há cerca de três anos José Sócrates anunciou oficialmente ao país que tinha negociado um excelente acordo com a Troika, Passos Coelho anunciou ontem que sairemos do programa de reajustamento no próximo dia 17 de Maio, de uma forma limpa, não deixando de evocar o 25 de Abril, que começa a estar para a política como o Santo António está para as desgraças do dia-a-dia; e tivesse estes meios D. Manuel I, e em 1498 teria usado iguais palavras de orgulho para anunciar a heróica chegada de Vasco da Gama à Índia.
Para além dos diferentes protagonistas donos do microfone há a registar que o então Ministro das Finanças Teixeira dos Santos, com ar esfíngico e mumificado, foi agora substituído por todo o elenco governativo onde se destacava o vice Paulo Portas com aquele crónico e muito confortável ar de quem acompanha um filho que tira e come burriés durante uma recepção chique, um ar ao jeito de “se eu estivesse no lugar de Passos Coelho faria bem melhor”, disfarçado com alguns forçados esgares de concordância com o discurso.
Dois/três partidos diferentes, dois governos e o mesmo destino na mesma sala; sendo que pelo meio estão três anos em que verdadeiramente nos “limparam” muita coisa, entre bens materiais e também a paciência. E este local do Palácio de São Bento acaba por concretizar a maldição expressa na toponímia de Lisboa, pois quem desce da Estrela e passa por São Bento acaba invariavelmente no Poço dos Negros, este último sem quaisquer conotações racistas mas prenúncio de muitos dias negros.
Os dias negros das dores do povo que são verdadeiros orgasmos para os poderosos “mercados” e que nunca têm tradução nas estatísticas: se um indivíduo tem quatro milhões de Euros e eu tenho zero, a média não deixa de dizer que cada um de nós tem 2 milhões.
As estatísticas e o valor dos juros da dívida de que falam os políticos, não expressam nunca as dores do desemprego, das carências alimentares, da degradação do Estado Social, da falta de perspectivas de futuro, da revolta dos reformados que aspiravam legitimamente a ter paz e dignidade como corolário de anos de trabalho, a dor da saudade e do desconforto de quem tem forçosamente de partir da terra e dos seus…
Essas, as dores, não chegam aos políticos por não conseguirem nunca furar essa camada autista e cega que os protege e que não lhes permite que vejam mais nada para além da ambição pelo poder.
O poder pelo poder por entre a camuflagem e o travestismo que transforma o vazio de carácter em tristes e bacocos heróis mediáticos.
Passados alguns segundos, as oposições reagem ao anúncio lendo longos textos escritos que comprovam que o guião estava pré-definido, e os partidos do governo aplaudem, tudo isso enquanto o país está entretido a festejar o campeonato ganho pelo Benfica, a subida de divisão do Penafiel, e enquanto as televisões se esforçam por encontrar e dar ao mundo as melhores e mais afinadas vozes cá do burgo, o que até nem está mal num assumido contexto de “dar música”.
O guião do poder em que todos assumem os seus papéis consoante a “cadeira” em que estão sentados, por entre esta sensação tão nossa de que ninguém realmente nos fala verdade.
A orfandade do povo contribuinte no vazio de uma esperança morta às mãos da incompetência e da impunidade dos políticos que fazem o permanente e despudorado apelo à amnésia da gente na hora de votar.
Saída limpa…
Eu gosto da expressão “saída limpa”, embora confesse que a designação “saída à Irlandesa” me resulta mais agradável pois sempre parece indiciar uma saída nocturna em Dublin ao som dos U2 a beber Guiness pelos pubs de Temple Bar.
Saída limpa…
Confesso que entradas e saídas limpas deste género fazem sempre com que me recorde daquelas pessoas que seguindo um velho hábito do Alentejo, têm os portados da sua casa a brilhar, mas só mesmo os portados, pois para lá das entradas e saídas limpíssimas pode existir uma casa com algum deficit de limpeza.
Saída limpa…
No meio de tanto lixo e tanta dor?

domingo, 4 de maio de 2014

Mãe

Há um tudo de Céu debruado ao sorrir do teu olhar, e esse brilho que é meu tesouro, é bússola infalível no definir da minha mais do que certa e profunda sorte.
Há o teu abraço que é sempre o prefácio de um beijo perfeito onde morre toda a minha idade, onde se apagam as penas que o tempo foi remendando aos meus mais tristes dias, e onde desaparecem todas as aparentes certezas do ser homem… e eu, nesse instante, devolvo-me ao doce de todas as ilusões, ao despudorado e assumido prazer de sonhar; e eu nunca me recuso a voltar a ser criança.
Há o teu ninar que me aceita sempre como eu sou, e que a cada gesto me coroa príncipe que reina sobre o mundo inteiro, a Terra que roda toda na minha mão como um velho pião sobre o eixo da fantasia e lançado pelo legítimo impulso da esperança que tem ares de uma guita atada a uma velha carica.
Há poemas soltos e sem rimas nas palavras todas que me dás, soletradas pérolas da inesgotável fonte que bebe da nascente do teu amor maior, esse amor de quem nada quer ser para que eu possa ser tudo.
Há o riso cerzido às cumplicidades do nosso eterno caminhar lado a lado sem ter medo de ir buscar o infinito.
Há pospontos de alento que a tua esperança tece sempre sobre todas as minhas dores, as minhas hesitações e os meus medos.
Há a fé, a inspiração, o querer, o ser maior…
Mãe, minha querida mãe, há um dia perfeito em cada dia que nasce e eu te sinto aqui.
E ao jeito da nossa cumplicidade de todos os dias, antes ou depois de te fazer rodopiar comigo num apertado abraço, aqui vai:
- Marinacita, minha mater atómica, amo-te muito!