terça-feira, 27 de maio de 2014

Eleições e consequências

No passado domingo houve eleições para o Parlamento Europeu e em Portugal estavam inscritos para votar 9.685.294 cidadãos.
Juntando os que não votaram (6.402.742) e os votos brancos (144.859) e nulos (100.483), poderemos dizer que apenas 33% dos eleitores (3.037.210) conseguiu encontrar uma alternativa para votar. Equivale a dizer que os que não votaram, ou que então votaram branco ou nulo, têm dois terços dos votos e têm poder para alterarem a Constituição da República Portuguesa se resolverem converter os seus votos em deputados na Assembleia da República.
Um parêntesis para dizer que respeito mais quem votou branco ou nulo do que quem não votou, pois estes últimos deixam em aberto a interpretação para a sua atitude. Não votaram porque estavam em viagem pelo estrangeiro, por exemplo, ou não votaram porque queriam mostrar o seu desagrado pela situação do país… e da Europa.
Em relação aos eleitores que seleccionaram um partido ou coligação poderemos dizer que são menos do que o total de habitantes dos Distritos de Lisboa (2.244.984) e Setúbal (849.842), que perfazem um total de 3.094.826; e que são menos do que os espectadores do jogo de futebol Suécia - Portugal em Outubro passado, a partida que apurou a nossa selecção para o Mundial do Brasil (3.290.000).  
O PS ganhou indiscutivelmente as eleições com 1.032.895 votos, o que corresponde efectivamente a 10,7% dos eleitores inscritos, menos de metade da população do Distrito de Lisboa e um número semelhante ao milhão de espectadores que esta época viu jogos no Estádio da Luz.
A Aliança Portugal ficou em segundo lugar com 909.588 votos, 9,4% dos eleitores inscritos, e um pouco acima da população do Distrito de Braga que é de 848.444.
Assim, os “partidos da Troika” conseguem 20,1% dos votos dos eleitores inscritos (1.942.483) que é bastante menos do que a população do Distrito de Lisboa e um pouco acima da População do Distrito do Porto (1.816.045).
O Bloco de Esquerda, o último dos partidos a eleger um deputado, teve 149.575 votos, ligeiramente superior ao número de votos brancos e ao número de espectadores no Estádio da Luz se somarmos as assistências dos jogos com o Futebol Clube do Porto, Sporting e Braga (147.237).
Dois outros vencedores foram a CDU com 416.033 votos, número que é inferior à população do Distrito de Coimbra (429.714); e o MPT que obteve 234.520 votos, que corresponde a metade da população do Distrito de Leiria (470.765).
É sobre estes números que hoje se discutem lideranças de partidos e se perspectiva o futuro do país, sem que qualquer político se questione sobre o porquê de tantos quererem ficar fora da decisão ou então não se quererem comprometer com qualquer das alternativas.
Esta atitude dos agentes políticos acontece essencialmente porque o poder é bem mais importante do que os cidadãos, e porque deste modo, os cidadãos já não têm nada de bom a esperar dos políticos.
Pelo contrário, hoje são os políticos que esperam dos cidadãos, o voto, tendo por base a falta de memória e o esquecimento promovido pelo tempo sobre as consequências dos seus maus governos, nesta rotatividade imbecil em que quem está no poder se defende, quem está na oposição promete o impossível, e em que as apregoadas mudanças são mais ao nível das umbilicais lideranças do que das atitudes.
O PS queria melhor resultado porque era grande a expectativa de que três anos tivessem sido suficientes para esquecer os seus governos dos PEC’s. A Aliança Portugal temia pior resultado porque no fundo acreditava na mesma coisa. Mas o PS não se ajudou e até convidou os fantasmas para voarem sobre a campanha.
E pelo meio sempre esta patética ideia de mudança e revolução num tempo em que os tanques já não são os dos heróis e foram substituídos pelos da lavagem da roupa suja.
Só se pode surpreender com estes resultados quem não assistiu ao vazio pimba da última campanha eleitoral, da mesma forma que só se pode surpreender pela eliminação de Portugal na Eurovisão, quem não tenha podido assistir à performance da pimba Suzy.
E Europa fora, para além deste desinteresse e da demissão dos cidadãos, emergem partidos radicais capazes de fazerem perigar o tecido social e comprometer os ideais de liberdade de um continente que agoniza às mãos de uma falsa União que se vislumbra cada vez mais como uma estratégia não bélica mas económica para consumar no século XXI as ambições nunca esquecidas de Napoleão, Hitler e Mussolini: os grandes aniquilarem os pequenos.
Nós estamos do lado dos pequenos mas a bater palmas na festa dos grandes.
Estamos a ver qual vai ser o resultado.
Haja alguém que ouça as pessoas naquilo que elas dizem e também nos seus silêncios.

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