terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2013

Os últimos dias do ano são propícios a balanços, e aqui pelo Pomar das Laranjeiras é tempo de cumprir uma tradição avaliando as “laranjas” da colheita de 2013, classificando-as pelos seus justos atributos:

LARANJA DOCE – A Constituição da República Portuguesa
Um país está sempre acima de quem o lidera numa determinada altura ou circunstância e a essência, o código genético da nação, está inscrita na lei magna: a Constituição.
O assalto “pornográfico” feito ao país com o patrocínio da Troika e que fere demasiadas vezes a nossa autonomia tem em algumas situações esbarrado no juízo do Tribunal Constitucional, instituição que deve assegurar o respeito pela lei magna e que no presente tem cumprido a mesma função que antes tinham as muralhas quando os Filipes chegaram de Castela para nos “ferir” a liberdade.
Valha-nos a Constituição.
E os políticos que “cospem” na Constituição em miseráveis declarações comprovam não ter nível para estar à frente das instituições do Estado.

LARANJA AMARGA – A “irrevogável mediocridade do ser”
Um Ministro que sai porque entre outras coisas tem uma licenciatura pouco credível, uma demissão surpresa do intocável e todo-poderoso Ministro das Finanças e a sua sucessão assegurada por uma mestra em contratos SWOP que comprovam a má gestão das empresas públicas, uma “irrevogável” demissão de um Ministro que depois da “birra” é promovido a Vice-Primeiro-Ministro, a sempre presente sombra do BPN, Secretários de Estado que “duram” semanas...
Serão necessárias mais provas para atestar a incompetência que sendo herdeira de outra incompetência nos coloca num ciclo de desespero e miséria. Nada acontece por acaso.
Paulo Portas, Pedro Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque, tudo demasiado amargo.
  
LARANJA SUMARENTA – O abraço dos Papas
Bento XVI apresenta uma inédita renúncia que o coloca na condição de Emérito e cede o trono a Francisco, o Papa que chegou de um lugar mais distante do que qualquer outro Papa.
Renova-se a esperança numa Igreja que terá de estar mais próxima das pessoas e ser mais interventiva em tudo o que às pessoas diz respeito.
Sem tabus, espera-se muito sumo doce para os tempos mais próximos.

SUMO GASEIFICADO DE LARANJA – Jorge Jesus
A super desenvolvida auto-estima do treinador do Benfica tem pouca tradução em vitórias para a sua que é também a minha equipa.
Pago a preço de sumo natural, é efectivamente uma imitação artificial e gasosa que há muito perdeu o gás.
Palavras e promessas à parte, “limpinho, limpinho” só mesmo os desaires… mesmo que no último minuto.

SUMO NATURAL DE LARANJA – Os heróis do fogo
Ana Rita Pereira, António Nuno Ferreira, Bernardo Figueiredo, Bernardo Cardoso, Cátia Dias, Daniel Falcão, Fernando Reis, João Pedro Mendes, Joaquim Mendes, Nivalda Lemos e Pedro Rodrigues.
Ainda há heróis, Homens que oferecem a vida para defender vidas e haveres dos seus semelhantes.
Os burocratas de gabinete ainda discutem as “culpas” pelo impacto dos fogos do verão de 2013, mas os heróis têm nome.

LARANJA SECA – Aníbal Cavaco Silva
Já não tem sumo nem palavras, sendo actualmente uma patética figura completamente alheada da difícil situação em que o país se encontra.
Em plena crise política foi dormir às Selvagens.
Simbólico. Nunca está onde deveria estar.

LARANJA MECÂNICA – “Os Ex-qualquer coisa”
Em Portugal sempre se falou melhor do que alguma vez se agiu, e talvez por isso, qualquer indivíduo que tenha passado pelo poder habilita-se a ter lugar de comentador num televisão nacional com tempo de antena para com sapiência tratar de todos os assuntos do Estado.
Até José Sócrates tem assento na RTP e fala ligeiro sobre todos os problemas do país.
De vómito.

VITAMINA C – Rui Costa
Com os pontapés de ouro do Cristiano Ronaldo vamos até ao Mundial de Futebol do Brasil, mas Campeões do Mundo só no Ciclismo pela arte e mérito do nosso compatriota e grande Rui Costa, Rei em Florença depois de ter passeado toda a sua classe pela Volta a França coleccionando vitórias em etapas.

LARANJA PÔDRE – A Agonia do Estado Social
Em dias alternados, a Troika diz que não pode aplicar mais austeridade e manda implementar novas medidas.
Por cá não há quem saiba dizer não e as ambulâncias de emergência falham nos lugares dos acidentes, os bombeiros morrem nos incêndios, as arcadas do Terreiro do Paço são camaratas…

LARANJA CALIPOLENSE – Marmoris Hotel
Podendo discutir-se alguns detalhes da decoração, o certo é que Vila viçosa tem a partir deste ano uma unidade hoteleira de cinco estrelas e com muita qualidade.
Aprecio que o hotel tenha ido buscar o Mármore, a maior riqueza da região depois das pessoas, para a sua identidade como marca.

COMPOTA DE LARANJA – O ano de 2013 deixa para sempre a saudade de Nelson Mandela, James Gandolfini, Bigas Luna, Georges Moustaki, Lou Reed, Peter O’Toole, Urbano Tavares Rodrigues, Nadir Afonso e António Ramos Rosa, o poeta que um dia escreveu:
“Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto”.

Da banda sonora de 2013 escolho o fado nas fantásticas vozes de Ana Moura e de Ricardo Ribeiro, este último com o seu álbum “Largo da Memória”.

domingo, 29 de dezembro de 2013

À mesa com a minha geração

O hotel Solar dos Mascarenhas abriu ontem o restaurante exclusivamente para nós, estendendo-nos uma mesa onde muito comodamente nos sentámos os dezanove.
Depois dos inevitáveis beijos e abraços iniciais, a conversa fluiu solta por muitos temas:
- “Quantos anos te faltam…” ou “Há quantos anos fizeste os cinquenta anos?”. Não há dúvidas, entre uns e outros e numa boa média, estava ali à mesa a face humana de meio século de história de Vila Viçosa. E quanto charme…
- “Vamos ver quem consegue rir mais”. E é sempre difícil eleger o vencedor. Conhecemos demasiado bem os pontos fracos uns dos outros e temos décadas de histórias e cumplicidades tantas vezes no território das asneiras. E então quando puxámos pelas fotos da juventude…
- “O rosário das memórias”. São tantas e tão boas que nunca nos esquecemos de as revisitar. E aqueles teatros que nós fazíamos na catequese por alturas do Natal?
- “Os nossos filhos”. Eu não os tenho, mas contas por alto e daquela mesa já nasceram dezoito rebentos, o que garante uma continuidade destes afectos e desta amizade. E os nossos sonhos projectam-se nessa geração que vem a seguir.
- “Por onde tens andado”. É que não somos de estar quietos e entre vida e profissão procuramos sempre ser melhores e ir mais longe. E o que todos gostamos de viajar…
- “Já compraste uma Bimby?”. E o impacto desta questão é quase uma guerra semelhante à dos adeptos da Madalena e da Simone na época do nacional cançonetismo. E os adeptos do “sim” fazem tudo na Bimby, até rissóis. E então e as sopas?
- “Boletim Clínico”. A dobragem dos quarenta é terrível e já conseguimos partilhar coisas como a Hipertensão Arterial, a Hipercolesterolemia, a Diabetes, o Reumatismo, etc. Mas até das doenças falamos a rir e até admitimos que de aqui a vinte anos, quando nos juntarmos, em vez de falar das vantagens da Bimby, por certo enalteceremos as vantagens do Lindor Ausonia ou do Corega para as dentaduras…
- “What happened to João Paulo Silva”. Era o vigésimo e faltou, daí esta menção ao estilo de vingança.
E falámos mais por entre o Creme de Abóbora, a Empada de Caça e o Sericá com ou sem ameixa…
Dos trabalhos, dos cortes no Orçamento de Estado, da política, das pinturas e das escritas, dos quadros da Tina, das rifas dos escuteiros que todos tivemos de comprar, de mortes e desgraças que ocorreram ao longo do ano, dos salmos que havia para cantar, dos bolos com ovos-moles feitos em Águeda, dos anti-oxidantes, dos cortes de cabelo, das gracinhas feitas pelos filhos e sobrinhos, das paixões e dos amores, das compras em Badajoz, dos que não estavam ali presentes e que gostássemos que estivessem, de petiscos, do vinho, da boa vida, dos passeios que temos de organizar para os próximos fins-de-semana…
E houve momentos em que falámos pouco e em que apenas saboreámos o prazer de estar juntos porque tudo o que se diz e o que se sente são tão-só detalhes da amizade eterna que nos une.
Elas, as “Flores da Callípole”, lindas de morrer e com cores de cabelo que nada têm que ver com o tom com que nasceram, e nós, os charmosos e bravos “Don Juan’s do Carrascal” (da senda dos heróis da quarta dinastia), saboreando um presente fantástico e não descurando nunca o futuro que sem qualquer um de nós não teria a mesma graça.
Para o ano cá estaremos!

sábado, 28 de dezembro de 2013

E ainda Natal…

Conheço de cor todos os caminhos, os recantos, as curvas da estrada, as pedras que aqui e ali convidam a repousar um pouco e a acariciar a terra entregando-lhe directamente as mãos. A intimidade e a sensualidade da pele e da terra ou o privilégio de um amor único para quem como eu é assim do campo.
As paredes das velhas casas caiadas de branco preservam todas as memórias e reflectem os rostos de tantos, e sobretudo dos mestres dos meus afectos, fazendo ressoar o riso, as palavras, e até o eco dos beijos, das carícias e dos abraços.
E tantas vezes se torna inevitável a saudade.
Cada esquina encerra uma história boa ou má, mas todas boas e indutoras de vida assim à distância de décadas. É impossível conter os sorrisos quando o pensamento se entrega sem pudor a todas as lembranças e quando às vezes sem destino, deixo que os meus passos me levem embalado pela mais doce liberdade.
Que aqui, minha alva terra beijada pelo sol, apenas importa serem estas pedras o meu caminho, ser este o ar que eu respiro, e muito pouco ou quase nada importa para onde eu vou.
As árvores, em especial essas doces mães das laranjas, são nossas irmãs e velhas cúmplices de todas as palavras, oferecendo a sua copa como um eterno abrigo, guardiãs fiéis de tantas conversas temperadas ao ritmo da vida, com o riso ou com as lágrimas… que muitas vezes também são elas próprias de alegria, ou não fossem as lágrimas a mais fiel expressão da mais profunda alma da gente.
Os amigos nunca morrem…
São eternos, crescem e envelhecem connosco ao sabor dos momentos que vamos partilhando no gozo dos benefícios que sabemos colher dos dias na festa despudorada de estar olhos nos olhos.
Os amigos, hoje ao redor de uma bica como antes à volta de uma qualquer brincadeira simples ensinada pelos nossos avós.
Estes são os dias tranquilos que nos fazem sentir senhores e donos do tempo, aqui onde nada mais corre para lá das fontes, onde os sinos repicam a fé a cada quarto das horas, no encontro das memórias que são raízes profundas do melhor de nós, no presente de tudo e de todos os amores… e no futuro que nos fará sempre saber e querer voltar.
Vila Viçosa.
E ainda Natal…

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Foi Natal…

E pronto… foi Natal.
Se é que para tal existem dias específicos.
O certo é que a pretexto de celebrar o nascimento de Cristo, nos reunimos em família à volta da mesa aquecida pela braseira para aí comermos o bacalhau com couves, o peru assado, a carne do alguidar temperada com pimentão vermelho, as filhós, as azevias, os nógados, o chocolate quente (infelizmente tivemos de inventar pois já não encontrámos a habitual mistura da Pérola Calipolense) e um bom tinto da nossa vizinha Adega de Borba; conversámos muito e voltámos a lembrar as histórias de outros Natais com a minha mãe a recordar aquele de há muitos anos em que recebeu uma boneca de cartão demasiado estática porque tinha as pernas coladas, e de como ficou triste com o facto; abrimos os presentes junto ao presépio mas só depois de o meu sobrinho João me ter perguntado se nas minhas conversas muito próximas com o Pai Natal eu tinha conseguido saber se todos os desejos da sua carta tinham sido satisfeitos, e que alegria quando descobriu que o microscópio até trazia em anexo um mostruário com pêlos de vários animais para ele lhe conhecer e diferenciar a textura…
Eu juntei mais quatro presépios para a minha colecção.
Voltei a Vila Viçosa, a minha eterna “casa”, beneficiando do conforto dos amigos que por aqui estão sempre à distância de poucos passos para uma boa conversa de um par de horas daquelas que permitem a actualização do “ficheiro dos amigos”…ou então apenas para um café…
Apesar da chuva e do frio, ou não fosse assim o Dezembro no Alentejo, não nos quedámos em casa e fomos até ao Castelo para a missa de Natal na Igreja da Senhora da Conceição. O dia pedia o capote e com ele fomos beijar o menino Jesus. O padre disse na homilia que o Verbo deveria ter encarnado em Extraterrestres, tal a ingratidão dos Homens para com Jesus de Nazaré, mas nós desculpamo-lo pois com este frio qualquer um perde a inspiração. No entanto, depois de termos apanhado tanto frio para chegar à missa, esta conversa…
Fiz embrulhos, quebrei a dieta que a minha Diabetes impõe, vi a “Música no Coração”, recebi e enviei dezenas de mensagens escritas, visitei tias, tios, primos e amigos, coloquei no carro o meu CD favorito com músicas de Natal (Do they know it’s Christmas, Last Christmas, etc), escrevi um conto e um poema de Natal…
E ofereci agora a mim próprio este prolongar da estadia no Alentejo para que desde aqui e até 2014 possa consumir todas as iguarias que entre o frigorífico e a mesa nos enchem a casa, numa directa “trasfega” para o peso que a balança não nega.
Foi, definitivamente, Natal.
Não é que não seja Natal todos os dias, poderá sê-lo, mas na azáfama em que andamos é mesmo necessário que o calendário (da fé ou tão-só o calendário civil) nos empurre para estes dias em que os afectos andam à solta nas mensagens, nas conversas, em tudo e até nas azevias… e o amor celebra-se sem o pudor que muitas vezes o coloca nos territórios da pieguice.
Por mim continua a ser a época do ano que eu mais gosto de viver…
E duvido que qualquer extraterrestre pudesse celebrar o Natal melhor do que eu.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Um conto de Natal

Era uma vez um homem que não sabia o que era o Natal.
A sorte não tinha sido definitivamente sua mãe, e madrasta, há muito o deixara sozinho num monte de onde avistava a planície e a vila mas onde nunca ninguém chegava para conversar com ele.
Triste, habituara-se a viver assim no convívio com os seus próprios pensamentos, muito mais do que com as palavras, nada fazendo para mudar esta situação
E mais triste se sentia por alturas de Dezembro quando as luzes da vila duplicavam o seu brilho na noite. Afinal, ele não sabia o que era o Natal.
Enquanto dormia a sono solto numa noite de quase Natal, apareceu-lhe em sonhos um anjo que lhe disse:
- Vou ensinar-te o que é o Natal mas para isso tens de cumprir três missões. Aceitas?
E o homem triste conseguiu sorrir quando sem qualquer receio disse logo que sim.
Disse-lhe então o anjo:
- A primeira missão é muito simples. Amanhã é véspera de Natal e quando fores à vila para comprar o pão e os restantes alimentos, vais ter de fazer o caminho a assobiar e vais ter de responder com um sorriso e cumprimentar com um “bom dia” a todos os que te saudarem.
Pareceu-lhe fácil.
- Na segunda missão vais ter de apertar a mão no cumprimento e na despedida ao homem da mercearia.
Pareceu-lhe ainda mais fácil.
- E na terceira vais comprar uma caixa de chocolates que entregarás mais tarde ao vizinho do monte ao lado do teu dizendo-lhe que são para os seus filhos pequenos.
Também não lhe pareceu difícil.
- Aceitas?
E o homem disse logo que sim, e o anjo prometeu voltar no dia seguinte para lhe dizer finalmente o que era o Natal.
Quando se despertou no dia a seguir, o homem começou logo a ensaiar o assobio e foi vê-lo com afinco a cumprir todas as missões que o anjo lhe tinha pedido e ele de forma tão entusiasmada tinha aceitado.
Sentiu-se surpreendentemente bem nas suas tarefas e nesta onda de simpatia, sorrisos e música de assobio, até conseguiu fazer uma festa ao cão do vizinho que sempre tratava com antipatia sempre que ele se aproximava para o saudar algures no seu percurso de e para a vila.
Depois de ter chegado a casa, desejou ansiosamente que fosse noite para se deitar e para que o anjo pudesse finalmente voltar e dizer-lhe o que era o Natal.
Foi a correr para a cama e deixou-se adormecer embalado por essa esperança.
Mas nada.
Ao acordar pelo canto do galo que morava no galinheiro mais próximo, ficou triste quando se apercebeu que o anjo faltara ao prometido e não tinha vindo ter com ele.
E ele que tinha cumprido as suas missões com tanto afinco continuava sem saber o que era o Natal.
Nesta tristeza estava quando já pelo meio da manhã lhe bateram à porta do monte.
Foi abrir e reparou com os dois filhos do vizinho do monte ao lado que lhe sorriam e lhe ofereceram um prato enorme cheio de filhós das melhores e mais vistosas que ele alguma vez tinha visto.
Em nome dos pais convidaram-no para almoçar nesse dia em casa deles.
E o homem foi. E lá, ao redor da lareira onde as palavras substituíram e dominaram os seus pensamentos, aprendeu finalmente o que era o Natal.
Afinal de contas, os anjos nunca faltam ao prometido e chegam mais vezes batendo à porta do que pelos sonhos.
E o Natal…
É receber de volta o afecto que sabemos dar.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O Dia dos Maridos ou o Dia do Regresso a Casa

Há uma última compra a fazer no Oeiras Parque. Simpática, a funcionária ajuda-me nessa sempre difícil escolha dos modelos e dos tamanhos de roupa.
A loja está demasiado calma em oposição ao caos instalado no hipermercado e eu comento isso com a funcionária.
Responde-me ela:
- Claro, hoje e amanhã, véspera de Natal, são os “Dias dos Maridos”.
E explica:
- Todas as restantes compras estão feitas e só os maridos têm pendente o presente para as respectivas mulheres. Nunca sabem o que lhes oferecer mas também não podem deixar a árvore sem um embrulho com o nome delas.
Meu Deus, ao que chegou o romantismo neste país.
Não estranho pois os lamentos do George Michael que escuto no carro quando no seu “Last Christmas” lamenta os desamores do último Natal e diz que este ano e para evitar as lágrimas vai dar o amor a alguém muito especial.
Condiz.
E de infinitas lágrimas de chuva e nevoeiro está cheia Lisboa quando passo a ponte em direcção a Almada, parecendo inacreditável que poucos quilómetros à frente, o sol brilhe quando passo pela Marateca e entro no Alentejo.
No Alentejo, nunca nos falha o sol.
Após atravessar infinitas pedreiras de mármore, em breve chego a casa nesse instante em que os muros caiados de branco por onde espreitam oliveiras centenárias me conduzem até à curva da Porta da Vila por onde vislumbro o Castelo e onde a Igreja da Senhora da Conceição sempre me “impõe” o sinal da cruz e uma Ave-Maria.
O momento alto vem a seguir nesse beijo e nesse abraço à mãe e ao pai que me esperam ao redor de uma fumegante e inesquecível Sopa de Tomate com todos os aromas do Alentejo, servida na mesa onde a braseira dá um fantástico toque de aconchego.
É Natal.
Está montado o presépio e na imediação já há filhós enroladas, azevias de grão e de chila, os rolos da massa dos nógados que estão fritos e aguardam o mel…
Dia dos maridos?
Talvez, mas nunca serão as compras a definir o Natal e o amor inerente à época do ano que mais gosto me dá viver.
Para mim, o melhor Natal e o melhor do Natal será sempre este regresso a casa.
E que muito tarde me falhem estes beijos.

domingo, 22 de dezembro de 2013

A mulher que perfuma o Natal com incenso e a poetisa que vende versos avulso

A manhã de um intenso sol convida-me de forma irresistível a ir até ao Chiado para as derradeiras compras de Natal.
Deixo o carro no Camões, bebo um café na Brasileira e chego aos Mártires a tempo da missa com horário mais estranho da cidade, treze horas e vinte minutos.
“Vai nascer um Salvador”.
Fala-se explicitamente de Natal e pelo Natal me deixo embalar até Centro Comercial do Chiado. Uma última incursão na FNAC seguida de uma entrada Natura onde selecciono os artigos que quero comprar e me dirijo à caixa.
Reparo que imediatamente atrás de mim na fila para pagamento está uma senhora cuja idade por certo já ultrapassou ou setenta anos, e chegada a minha vez, e porque na mão tem apenas dois pequenos objectos, sugiro-lhe que me ultrapasse pois vou supostamente demorar mais tempo com os pagamentos e os embrulhos.
A senhora agradece, sorri e deixa-se ficar no mesmo sítio respondendo-me:
- Excesso de tempo é o meu problema.
É a minha vez de lhe sorrir e enquanto a funcionária toma os meus artigos e inicia o processo de pagamento, a minha vizinha de fila esclarece:
- O que tenho mais próximo da vivência do Natal é circular por aqui nestes dias em que as pessoas compram os presentes que eu não tenho de comprar por carência de destinatários.
E continua:
- Vim comprar duas caixas com incensos para aromatizar a casa.
Pago, pego nos meus sacos e ouso estender-lhe a mão desejando-lhe um resto de dia feliz, já que o Natal…
Saio do Centro Comercial e dirijo-me ao Camões quando por volta da Brasileira e enquanto os turistas se sentam e tiram fotos na estátua de Pessoa, se dirige a mim uma senhora com um monte de folhas e me diz:
- O senhor não me quer comprar um poema?
Respondo-lhe com uma pergunta pensando que estará por ali a vender poemas impressos do Fernando Pessoa:
- Que poemas?
- Poemas que eu faço e vendo para sobreviver.
- E quanto custam os seus poemas?
- O que o senhor quiser dar.
- Mas quem sou eu para atribuir valor monetário à sua poesia?
A minha pergunta surpreende-a e eu acabo por lhe comprar um poema que não faço a mínima ideia se é da autoria dela ou não, e se esta será mais uma maneira airosa de conseguir uma moeda aos transeuntes aqui nos vértices deste triangulo de poetas: Camões, Pessoa e Chiado.
Entro no carro, desço a Rua do Alecrim e sigo pela Avenida 24 de Julho e depois pela Avenida da Índia, não resistindo a saborear o sol de um quase fim de tarde em claro namoro com o Tejo, um sol cujos raios me impedem de ver os detalhes da gente que corre e brinca, e das árvores, que são assim apenas sombras que ladeiam o meu caminho.
Mas há algures nesta cidade uma mulher que por cima da maior solidão aromatiza o seu Natal com incensos exóticos, talvez porque a poesia do Natal, e em geral da vida, anda a ser vendida a preço de “esmola” nas esquinas da própria cidade.
Nasceu um Salvador.
Mas parece que os Homens não souberam mesmo aproveitar esse facto.

sábado, 21 de dezembro de 2013

O dia mais curto?

Sinto o sol nascer por detrás do monte, mas é sábado, e é apenas quando ele já brilha com uma intensidade tal que me tolhe a visão, que abro as portadas e me apronto para viver aquele que o calendário diz ser o dia mais curto do ano.
Estou na Sertã e deixo-me ir subindo as serras, entre amigos e entre pinhos, alimentando o olhar desses montes que a fé dos Homens coroou de ermidas ao redor das quais os coretos denunciam festas em Agosto ou Setembro: Senhora da Confiança, Senhora do Pranto…
E com o benefício da internet lá vou conseguindo saber as lendas por detrás das ermidas e das evocações dadas a Maria.
Lembro-me de um restaurante em Cardigos onde o Padre Armando uma vez nos levou a jantar, precisamente a última vez que estivemos juntos, e vou até lá desta vez para almoçar.
Fico ao lado da mesa redonda onde então nos sentámos junto a uma enorme janela, que na altura, sendo noite, não reparei que tinha vista para um olival. A mesa está vazia e por entre as saudades desse dia, tenho hoje tempo para admirar a paisagem onde uma cabra anda desvairada a tentar trepar às oliveiras.
Consigo sorrir por entre a saudade.
Os objectos, as coisas sobrevivem-nos sem que continuem a ser banais depois de os termos associado aos nossos afectos.
Aquela mesa tem para mim o valor de um momento único, conta-me uma história.
E o que acontece às mesas acontece aos dias…
Sigo subindo aos montes na cumplicidade dos pinheiros e também de alguns sobreiros e de repente estou algures dentro de uma tenda improvisada como Feira de Natal com um professor a explicar-me um projecto desenvolvido para ajudar à integração de crianças raras.
Cultivam plantas medicinais que depois comercializam.
Falamos iluminados por um fortíssimo licor de medronho e sou eu com a ajuda dos meus dedos que ajudo o Francisco, um rapaz aí pelos doze anos, a fazer a conta de três mais três pois não resisti e comprei chás (para melhorar a memória e aclarar a voz, imagine-se).
O Francisco consegue e sorri muito quando lhe dou os parabéns e lhe ofereço a minha mão para chocar com a sua num momento de celebração.
Não sei se conseguirei beber os chás pois enquanto os pacotes estiveram pela cozinha, aquele sorriso continuará bem vivo em mim.
O sol está a despedir-se e eu faço-me à estrada que me irá devolver a Lisboa.
A despedida do astro-rei deixa o horizonte vermelho e depois em tons de ouro que o Tejo não resiste a copiar fazendo-se espelho e reflectindo-os precisamente no momento em que uma curva da estrada me mostra a cidade de Abrantes.
E cai a noite.
Ao telefone uns minutos mais tarde, pergunto ao meu amigo António como lhe correu o dia mais curto do ano.
E ele responde com mestria:
- O dia ainda não acabou.
É um facto.
Porque não é o sol que define os dias e lhes dá dimensão, somos nós na intensidade e no brilho com que os vivemos.
E hoje, sentado a esta mesa de onde vos escrevo, tenho a sensação de ter vivido tudo menos um dia pequeno. Foi um dia grande e cheio de luz, mesmo que apenas com um pouco menos de sol. 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A brincar fazendo o Natal

A cidade não perdeu o charme de Natal mas já não apresenta as longas filas de trânsito que eram tão típicas desta semana sempre que procurávamos o centro para fazer as compras.
A crise mudou definitivamente a face de Lisboa.
Passo pela Calouste Gulbenkian, pela Praça de Espanha e só mesmo na António Augusto de Aguiar e já a quinhentos metros do El Corte Ingles, paro para enfrentar depois uns breves cinco minutos de pára e arranca até ao infinito caracol (ao estilo do intestino de um dinossauro) que me dá acesso ao estacionamento.
Imprimi e tenho no bolso a carta escrita pelos meninos ao Pai Natal e, cumprindo as minhas funções de tio extremoso, começo as compras pelo piso dos brinquedos tentando encontrar os itens seleccionados a partir do catálogo.
Sem “GPS” e só por mim não consigo encontrar um brinquedo sequer naquele imenso mar de caixas coloridas.
Peço ajuda a uma assistente que deve ter vindo da Lapónia e deve ter estagiado durante alguns anos com o Pai Natal pois entende na perfeição a linguagem da carta que para mim está totalmente encriptada.
Decidida, leva-me directamente às prateleiras e acabo por conseguir metade do meu objectivo, a outra metade corresponde a brinquedos já esgotados.
É aí que eu ganho a tarde, quando me apercebo que posso circular livremente entre as prateleiras e escolher as alternativas.
Dispenso amavelmente e por momentos os serviços da minha “GPS Maria do Amparo” e prometo ir ter com ela à caixa um pouco mais tarde, depois da escolha devidamente realizada.
E então brinco eu, mirando, palpando e testando todos os bonecos, automóveis, aviões, pistas, “Legos”, puzzles e afins.
Talvez este seja um privilégio do Natal, o ter momentos em que despudoradamente e sem a censura norteada pela sensatez de terceiros, podemos soltar a criança que nunca morre e que para sempre vamos alimentando em nós.
Lembro-me do melhor brinquedo de Natal que recebi, foi uma ambulância a pilhas que andava sozinha, piscava, fazia “tinonin” e recuava sempre que embatia em algum obstáculo. Foi no Natal de 1973 e foi presente da empresa Baptista Russo onde o meu pai então trabalhava em Cabo Ruivo.
Do pior também me recordo: um par de pistolas. Foi algures por 1975 e oferta de alguém fora da família pois em casa nunca fomos grandes adeptos de pistolas, e armas em geral.
Vou brincando e vou instintivamente desfiando memórias desse tempo em que os presentes nos eram trazidos pelo Menino Jesus, em que os brinquedos eram poucos e perdiam quase sempre para a roupa que necessitávamos e era objecto de conversas tidas entre pais, avós e tios, e um tempo em que a minha avó escrevia sempre em envelopes que ainda hoje guardo: “O Menino Jesus da Avó Dade para o meu Quim”.
Já passaram muitos anos, mas o impacto desses anos nas nossas vidas nunca é muito grande se nós não desaprendermos de brincar e de ser meninos.
Demorei uma boa meia hora até regressar ao convívio da minha “Doutora Brinquedos” que simpaticamente elogia a minha escolha.
Também com o tempo que tive para brincar…
A “minha amiga” fica com os brinquedos e a fazer os embrulhos enquanto eu sigo para outros pisos em busca dos presentes para quem já não tem idade para escrever cartas ao Pai Natal… e em pleno uso da minha utilíssima Carta de Compras.
Recolho mais tarde os embrulhos todos e entrego-me à serpentina de betão que me devolve à noite de Lisboa que beneficia então de uns ténues borrifos de chuva.
Foi para mim um dia difícil mas cheira mais a Natal.
É que isto de ser Natal e nós não aproveitarmos para voltar a ser meninos nem que só por breves instantes, não dá mesmo com nada.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Um encontro com a dor

Quando os meus olhos se fixaram na mãe que chorava a morte do filho, eu senti que tocava na própria dor.
E mais do que nas lágrimas e nos lamentos soluçados já com tão débeis forças, a dor estava expressa no vazio do seu próprio olhar.
Na dor maior do universo, a dor de Maria no Calvário de Jerusalém, Senhora das próprias Dores e Senhora da Piedade, uma mãe que perde um filho, perde tudo e até perde o próprio olhar.
Sentimos momentaneamente a fragilidade de Homens no porquê que faz abanar a fé…
Mas sabemos que o maior e melhor da vida não tem estatuto de palpável: o amor é divino.
E pelo amor e pela fé sentimos que o Céu existe e Deus recruta os seus anjos, às vezes até num estranho (e para nós revoltante) abraço do mar, dado algures numa noite escura de quase inverno.
Sentimos o conforto da fé mas não deixamos de ser Homens e isso nota-se nas lágrimas que se soltaram e nós nem sequer tentamos controlar.
O Tiago, filho do meu amigo e colega Vítor, é desde sábado e na companhia de mais cinco colegas de Universidade, um anjo e uma estrela que brilha no Céu. 
E pelas ruas de Lisboa, eu sou na tarde desta quarta-feira, um tonto emocionado e um crente que reza, envergonhado por chamar dor a tantas pequeníssimas coisas que afinal e pensando bem, não têm importância alguma.   

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O interminável desfile de um perpétuo Carnaval

O PSD concluiu que o governo PS de José Sócrates foi o responsável por uma gestão ruinosa do país numa perspectiva geral e muito em particular nos contratos SWAP.
O PS responde que não e que essa má gestão é da responsabilidade do PSD.
E assim, quais “Pombinhas da Catrina” de mão em mão, as culpas vão sobrevivendo com o alto patrocínio dos nossos ordenados e pensões, até ao momento em que sucumbirão pelo tempo ao ritmo das prescrições de uma sempre adiada justiça… e acabarão por morrer solteiras.
Somos nós que pagamos os adornos, as carroças, a banda de música, as atracções internacionais, os foguetes, as luzes… e o país é hoje um longo desfile de carnaval em que a mentira é aceite com toda a legitimidade como centro da festa, e os protagonistas são criaturas travestidas em que o melhor e o que recebe a coroa de Rei Mono é sempre aquele que maior eficácia consegue no disfarce.
Das bancadas onde pelo preço elevado do bilhete patrocinamos o show há quem inexplicavelmente ainda bata palmas e se alegre quando passa a “escola de samba” com os artistas da sua cor.
E enquanto tal acontecer o “carnaval” não vai acabar nunca.
Confesso que já não tenho força para bater palmas e tivesse à mão um cesto de ovos podres e por certo tentaria acertar na cabeça de todos, independentemente da cor.
Mas este exercício oficial da mentira não existe apenas a esta escala da “liderança” da nação, a um nível microscópico num universo mais em torno de nós, é ver como a hipocrisia e o vil cinismo são colocados ao serviço do mesmo de sempre, a vã cobiça do poder e do dinheiro.
Vale tudo e até tirar olhos pois a poeira atirada para os ditos no total desprezo pela inteligência dos outros, é uma inadmissível forma de cegueira.
A amizade e a facada nas costas convivem alegremente no baile da mentira e na dança pelos cadeirões do poder.
E enquanto for assim em ambas as escalas, pessoal e nacional, nem a comunidade nem a nação poderão alguma vez andar para a frente.
É que uma e outra existem apenas conceptualmente na república do faz de conta, a mesma do “cada um por si”. 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

As insuportáveis guerras do Soutien e das Truces

No sábado quando estava à mesa do jantar com duas amigas, uma delas conta uma façanha ao jeito de “MacGyver abre fechaduras do coração” e a outra desabafa:
- Isso é porque és mulher. Um homem não conseguia.
E por aí já iam tão lançadas que a determinada altura foi preciso interrompê-las e dizer:
- Meninas, eu não sabia que tinha vindo assistir a uma palestra do “Clube do Soutien”.
E lá se calaram.
Menos de 48 horas depois estou no Hospital de Santa Maria numa interminável fila para tirar uma senha para o café e não consigo evitar ouvir a conversa de duas senhoras atrás de mim:
- Ai filha lá me escapei agora 5 minutos da enfermaria… Aquele homem está insuportável.
- Oh filha são todos assim. Então quando estão doentes…
- É verdade. O que seria dos homens se não fossemos nós?
- Eu uma vez até disse à minha sogra: “morra descansada que eu tratarei bem da peste que você criou”.
Confesso que me fiquei por um olhar daqueles mortíferos que calam até os papagaios mais selvagens mas a minha vontade era gritar-lhes bem alto e aos ouvidos:
- É pssssté, acabou o Carnaval de Ovar.
E agora, eu que até estou nos antípodas da misoginia, que até sou um apreciador da auto-estima alheia e que não sou naturalmente machista sinto-me na obrigação de vir aqui apelar a que se dominem.
É que o feminismo é tão irritante e desprezível quanto o machismo.
Minhas amigas, é que o ovário pode estar em alta mas o testículo não morreu. Muito pelo contrário.
Lá por haver uma Merkel e um Pedro Passos Coelho, não generalizem por favor.
Nesta fase tão difícil para a humanidade, divisões sexistas, não obrigado.
Olha a malta agora entretida numa guerra de “Soutien e truces” e quando se desse conta nem subsidio de Natal nem de Férias…
E atentem que quando se sente muito esta necessidade do auto-elogio será porque há lá no fundo um “complexozinho” não muito bem resolvido. É que aquilo que é verdade não precisa de estar sempre a ser dito. Constata-se e já está.
Por isso, vamos unir-nos, pá…
Vocês são lindas, inteligentes e nós apreciamos imenso a vossa garra.
E quando pensarem que têm outros poderes extra e que com eles dominarão o mundo, pensem que esses super poderes só funcionam se os interlocutores forem sensíveis a eles.
E no meu caso não se safam mesmo.
You know what I mean.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Uma noite e quase Natal

O rádio do carro embala-me num prenúncio de Lisboa projectando em contínuo a voz de Amália.
“Não é desgraça ser pobre…”
E pobre não é por certo quem assim num fim de tarde de Dezembro tem o privilégio de “mergulhar” na cidade já envolta nas coloridas luzes semeadas pelo Natal.
Vai lento o carro até ao Camões atrasando-me esse decisivo encontro com o poeta mas oferecendo-me a possibilidade de desfrutar de cada detalhe do caminho, e como brilha ao longe o Castelo quando se espreita assim de São Pedro de Alcântara.
Chego finalmente.
E desço o Chiado…
Quando eu partir e os despojos do meu corpo cumprirem a minha suprema gratidão pelo campo alimentando as raízes de um sobreiro que tenha vista para Vila Viçosa, de poucas coisas sei que sentirei saudades, mas a descida do Chiado assim num fim de tarde de Natal, não tenho dúvidas, far-me-á muita falta.
Caminho por entre a gente, e num claro benefício dos anos que vão esticando a idade, raras vezes desço agora a Rua Garrett sem que os meus olhos se encontrem com outros reconhecidos pelos afectos, outros olhares entrelaçados na minha história.
Ricardo foi bom encontrar-te e trocar contigo aquelas palavras, embora breves.
Há imagens projectadas no Arco da Rua Augusta e nas paredes do Terreiro do Paço, e uma multidão aplaude o mais inédito “Circo de Natal” que se deixa embalar pela música bem lusitana dos Deolinda.
No escuro da praça de Lisboa que beija o Tejo, e onde o fumo do espectáculo casa com o dos carrinhos das castanhas, uma para mim anónima criança que até aí esteve de boca aberta a assistir ao espectáculo, pede aos pais para brincar com o corvo que apresenta o circo e saltita projectado entre as janelas dos ministérios.
Novos putos mas o mesmo sonho de sempre.
Está garantida a preservação da magia da cidade.
A noite assim pede amigos à mesa onde o tinto de Reguengos acende a partilha das histórias novas… ou as de sempre, mas sempre com esse objectivo nobre que é a libertação das gargalhadas que fazem a festa destes dias nascidos especiais, mais pela nossa vontade do que pela inevitabilidade oferecida pelo calendário.
E os afectos também se expõem na hora em que rasgamos os papéis de embrulho e os presentes se entregam à luz ténue do restaurante repleto de gente que se assemelha agora a uma Babel num rico e imenso cocktail de línguas, quando o ambiente já cheira a café e já se ensaia o regresso a casa por entre a a discussão de qual a rua melhor iluminada, se a da Prata, a Augusta ou a do Ouro.
Em breve será Natal, Lisboa, a perfeita Lisboa, está agora reflectida no retrovisor do meu carro enquanto a voz de Amália solta as inspiradas palavras de David Mourão Ferreira…
“Sempre e sempre amor…”
E eu sigo pelo sonho…


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Esse inquestionável valor que têm até as mais simples palavras

Há em Londres um nevoeiro mais cerrado do que o habitual e as regras de segurança e a prudência exigem que permaneçamos por mais três horas na Sala de Embarque do Aeroporto de Lisboa aguardando a devida autorização para voar.
Durante a espera, por ali fala-se Português mas com sotaque do Brasil, apercebendo-me que grande parte dos meus companheiros de viagem chegou das Terras de Vera Cruz e começou em Lisboa um longo percurso de férias pela Europa.
Mas ao meu lado está uma senhora Inglesa que por certo terá uma idade já algures na década dos setenta anos, a Julie, com quem acabo por encetar diálogo a partir da partilha de informações e da tradução daquilo que os funcionários da companhia aérea nos vão passando.
Diz-me que juntamente com o marido, tem uma casa na zona a que chama de “Silver Coast”, ali para os lados da Foz do Arelho, e que se divide entre Portugal e o Reino Unido. Aos poucos vai dando a sua interessante perspectiva de quem vê o país por dentro mas não deixando de ser um cidadão estrangeiro.
A Julie e o marido adoram Portugal e não só pelo clima, é sobretudo pelos Portugueses, que segundo ela são em geral simpáticos, afáveis, honestos e muito trabalhadores. Sentem-se bem por cá e confessa que a adaptação foi fácil exactamente pela simpatia e abertura dos “vizinhos”, uma gente que sabe receber.
Foi inevitável falarmos da crise financeira e confessei-lhe que passei de achar que o eurocepticismo dos Ingleses era irritante, para o considerar agora uma atitude muito sensata, tal o preço da factura que pagamos por esta “aventura” do Euro.
E achei interessante e lúcido o diagnóstico, quando ela me refere que Portugal tinha tudo para dar certo e ser um país de sucesso, mas que não o consegue pela orfandade política e pela ausência de verdadeiros líderes capazes de gerir os recursos e motivar as pessoas.
Entre os Brasileiros a discutirem trajectos no Metro de Londres e os poucos Portugueses entretidos com o programa da tarde da TVI, acabaram por passar três horas sem que nos déssemos conta disso.
O embarque está pronto a começar e uma funcionária aproxima-se da Julie e diz-lhe que pode avançar para o avião pois o marido acabou de embarcar. Ela explica-me então que durante aquele tempo em que estivemos à conversa, o marido esteve algures no aeroporto dentro de uma ambulância aguardando ordens para entrar no avião.
O inverno e a geada pregaram-lhes uma partida, e regressam agora a Londres para que o marido possa ter acesso às consultas de ortopedia e corrija uma fractura da perna cujo tratamento envolve algum risco pelo enquadramento cardiovascular algo complicado.
A Julie avança para o avião não sem antes me estender a mão para uma despedida, agradecendo-me a conversa que a distraiu e a fez sorrir num tempo complicado em que esteve forçosamente afastada do marido.
Uma conversa aparentemente banal e de circunstância.
Já em Londres, a chegada tardia impõe-me um passeio pelas redondezas do hotel em busca de algo quente que me mate a fome e me conforte no resfriado. Caminho por entre a gente que pára e admira as luzes que o Natal pendurou do céu da cidade.
Está um frio terrível mas já não há nevoeiro.
Penso na Julie e na nossa conversa, e penso como são valiosas todas as palavras que transmitimos aos outros num contexto de afecto, mesmo aquelas que têm a aparência da banalidade.
Nunca saberemos se um simples “olá” tem o valor do ouro, por ser a primeira palavra que alguém ouviu nesse dia.
E sigo então já na companhia de um chocolate quente, o que de mais quente descobri para me aquecer na noite fria de Londres.
As luzes estão bonitas e eu sorrio.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Reajustes à moda do Natal

Quando nós queremos muito até o que há de mais negativo pode ganhar um sentido positivo e útil à nossa existência.
É a doce perspectiva do optimista que não é forçosamente um louco e irresponsável por assumir esta atitude.
E o contrário também se verifica, com o maior prazer a poder virar um grande problema na antecâmara da mais profunda depressão.
Assim, eu cidadão optimista me confesso, já não tenho a mínima paciência para as pessoas que se referem ao Natal como sendo o maior problema do século: ele é porque têm de comprar presentes e as lojas estão cheias de gente e está tudo demasiado caro, porque há intermináveis filas na compra do bolo-rei, das broas castelares e das filhós nas pastelarias da moda, é a logística desse improvável “casamento” de pais com sogros, são os litígios familiares que se foram acumulando ao longo do ano e que poderão ser explosivos quando todos se sentarem para a consoada, é a indecisão sobre a missa a que vão por causa das comidas e das bebidas, é a hora a que os cabeleireiros fecham na véspera de Natal, são os lutos sobrepostos às árvores de Natal e aos presépios, é a batata palha para acompanhar o peru, é o preço do bacalhau e do polvo que estão pela hora da morte, é o homem das couves que este ano já disse que a geada lhe comeu as folhas, são os dias de férias e essa incerteza de ir ou ficar…
Por favor, relaxem, façam o que vos der na real gana e o que o corpo e a alma vos pedirem, e vão ver se o Natal não vira uma época especial.
E já agora… reajustem o Natal.
Explico.
A minha mãe resolveu preparar o macro presépio de Vila Viçosa antes do dia de Nossa Senhora da Conceição, como sempre no canto mais nobre da sala e por debaixo do pinheiro artificial devidamente enfeitado de fitas coloridas e luzes.
Do alto dos seus super puros 6 anos, o meu sobrinho Luís adorou o presépio e a melhor forma de o demonstrar foi a interacção que estabeleceu com o mesmo.
Retirou a casinha de madeira e modernizou-a fazendo com que o burro e a vaca passassem a partilhar o espaço com o Faísca McQueen, utilizou a ponte de barro como elemento para completar a sua pista da Hot Wheels, trouxe o lago artificial de papel, com a respectiva lavadeira, para o centro da casa como elemento que humanizou a dita pista, colocou o Menino Jesus em interacção com o i-Pad que aqui o tio sempre lhe empresta, e remexeu todas as figuras fazendo-as interagir umas com as outras, de tal forma que até um dos magos parecia estar à conversa com o pastor.
Mas antes de tudo, o primeiro comentário que fez foi de que faltava a estrela do cimo da árvore, e lá lhe tivemos de explicar que a avó é baixinha e que está “proibida” de se andar a empoleirar em escadotes para não se pôr demasiado à mercê da osteoporose.
E fomos nós colocar a dita estrela.
Ah grande Luís.
É assim mesmo.
Experimentem vocês a colocar a estrela no vosso Natal, “enfiem-se” pelo presépio dentro e puxem o Menino Jesus cá para fora para o centro das vossas vidas.
Vão ver se tudo o resto não ganha o definitivo estatuto de ridículo e desprezível, e o Natal volta a ser aquilo que é e que deve continuar a ser: um tempo para sermos felizes.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Estas poderosas vozes dos simples

A procissão com a imagem de Nossa Senhora da Conceição iria passar daí a pouco na celebração do dia 8 de Dezembro. Já tínhamos pendurado a nossa melhor colcha na janela de ferro forjado e sentíamos a azáfama das pessoas que se dispunham de um lado e outro da estrada.
De repente e quando já não circulavam carros, pára uma carrinha de transporte de peixe e dois homens saltam dela munidos de flores para num tempo recorde desenharem e construírem um tapete sobre a estrada.
Um deles vai tirando as flores da carrinha e o outro vai dispondo cada uma delas como traço da sua obra de arte.
Alguém ousa fazer a pergunta que a todos acudia:
- O que é que o senhor está a preparar? E porquê?
A resposta do homem não se fez esperar mesmo sem interromper por segundos que fosse, o seu trabalho:
- Louvo a Deus e agradeço-Lhe pelas maravilhas que tem oferecido à minha vida.
E depois de terem desenhado um crucifixo, os homens montaram-se na carrinha e desapareceram.
A procissão começou a passar daí a pouco e os Homens dispostos nessa estranha hierarquia de condes, duques e duquesas que a Igreja estranhamente reconhece numa escala de importância que viola na essência a grandeza da criação que nos faz iguais aos olhos de Deus; pisam a cruz do louvor simples do homem do peixe.
Também eu não pretendo ser juiz do alto da minha janela e da minha pequenez, sei que não posso faze-lo, mas acredito que na tarde fria mas solarenga de um Dezembro que breve se converterá em inverno, as pétalas daquelas flores foram Ave-Marias mais velozes a chegar ao Céu do que aquelas outras que foram desfiadas em contas de finas pérolas pelas mãos adornadas de jóias dos que são Senhores pela hierarquia dos Homens e do poder.
O maior de todos é sempre o mais simples.
Já tinha caído a noite e os carros tinham voltado a passar na estrada frente à nossa casa, a temperatura tinha descido aos seis graus nesse instante em que me montei no carro para viajar para Lisboa.
Deitei um último olhar ao já quase desfeito crucifixo de flores. Mantinha intactas algumas das orquídeas.
As preces e os louvores dos simples “gritam” e sobrevivem por sobre todo o canto sofisticado da vaidade dos Homens.
E assim, um peixeiro de quem nem sequer sei o nome se fez o meu mestre no dia maior e de mais festa na minha terra.
Lições improváveis numa tarde fria ou apenas Deus a falar pelas mãos dos que mais ama.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A esperança dos dias de Mandela

Se um dia a vida me fizer tio-avô e me oferecer a possibilidade de partilhar as histórias da minha vida em algum serão mais frio passado à lareira, guardo já religiosamente no cofre mais seguro da memória, algumas “relíquias” que valorizam a minha história e muito me enchem de orgulho.
Assisti ao 25 de Abril de 1974 e tive o privilégio de crescer e fazer a minha formação num contexto de liberdade e com um regime democrático implantado em Portugal, vi o Beato João Paulo II passar à minha porta em Vila Viçosa e juro que cruzei o meu com o seu olhar na esquina dos cantoneiros na Avenida dos Duques de Bragança, acompanhei pela televisão a queda do muro de Berlim com a consequente destruição da cortina de ferro que dividia a Europa vergonhosamente em duas, vi o top da dignidade em Madre Teresa de Calcutá quando chegou a Oslo para receber o Prémio Nobel da Paz com os seus parcos haveres colocados numa caixa de cartão, fiz uma viagem de Vila Viçosa para Proença-a-Nova na companhia de D. Basílio do Nascimento, então padre, que partilhou comigo na primeira pessoa e com emoção, as dores, as lutas e as ambições do povo de Timor Leste…
E guardo também a memória de uma tarde quente de Julho quando pela televisão assisti à libertação de Nelson Mandela e se deu inicio ao processo que à beira do Século XXI pôs fim ao Apartheid na África do Sul, uma das maiores vergonhas da humanidade, um dos maiores atentados à dignidade do Homem que encerra em si mesmo e na sua essência, a extraordinária riqueza da diversidade cultural, étnica ou outra.
Juro que acreditei por Mandela e com Mandela que o mundo iria ser diferente, e agora concluo, tão-só talvez pelo romantismo da minha alma de poeta, porque cedo a esperança morreu e se converteu numa triste e breve ilusão.
Numa reunião de trabalho em Berlim, ainda cheguei ao hall do hotel a tempo de ver cair em directo a segunda torre do World Trade Center de Nova Iorque, e assisti pela televisão aos gritos da gente desesperada a correr em Madrid na Estação de Atocha após os atentados, afinal aqui tão próximos de nós.
A morte do sonho.
O mundo continua igual e não era este o mundo que Mandela e o seu exemplo e a sua abnegação mereciam que existisse no dia da sua partida para a eternidade dos maiores.
Um mundo onde se paga para destruir alimentos enquanto há gente que morre à fome, um mundo onde há exploração de Homens feita por outros Homens e uma mais ou menos encapuçada escravatura, um mundo onde se mata por diferença de estatuto social, credo ou etnia.
Um mundo pobre pela desigualdade e pela ausência de indivíduos como Mandela que sejam líderes inspiradores por tudo mas sobretudo pelo exemplo.
Matámos a sua semente inspiradora de liberdade e justiça muito antes de que surgissem os frutos.
E lá terei eu de contar a história aos meus sobrinhos-netos com esse tão irreal começo de “Era uma vez”

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A Dieta Mediterrânica

Um pequeno-almoço composto por uma torrada de pão de trigo temperada com azeite, alho e tomate triturado, degustado na companhia de um excelente queijo fresco e na bênção de uma vista para o Tejo a usufruir da luz clara de Lisboa que sempre salienta os tons entre o ocre e o rosa do casario disposto em cascata pelas colinas, tendo na aparelhagem um CD que nos enche a casa com a voz inconfundível de Amália Rodrigues em rima com a Guitarra Portuguesa que geme os acordes de um fado que tem poema de Alexandre O´Neill e música de Alain Oulman; é um momento inconfundível, um património que entre o material e o imaterial é definitivamente rico e dos maiores da humanidade, para além de que faz muito bem ao coração, também, e mais uma vez, nessa dupla perspectiva do material e do… imaterial, que não há paixão ou grande amor que não se afague na presença de semelhante enquadramento.
Nós há muito que o sabemos, e a UNESCO acabou agora por reconhecê-lo em dois tempos diferentes, depois do fado, a dieta Mediterrânica e toda a simplicidade de recursos do campo que a sustentam e que são engrandecidos pela criatividade do Homem no uso dos cheiros e dos aromas que também vai buscar a esse mesmo campo.
O reconhecimento que expressa assim o elogio da simplicidade.
Mais do que mar, o Mediterrâneo é uma cultura que extravasa a geografia da costa do próprio mar e se expressa das mais variadas formas, de entre as quais, esta forma diferente de escolher e confeccionar alimentos, juntando o útil ao agradável num casamento perfeito entre o saudável e os prazeres da degustação.
Mas há também a música, que nos põe a nós Alentejanos a cantar da mesma forma que na Sardenha, e os Gregos de Thessalónica a tomarem ares de fadistas quando cantam a Rembetika.
É a cultura que definitivamente une as nações, muito mais e com muito mais força do que os arranjos artificiais “cozinhados” no lume dos interesses económicos, financeiros e políticos do momento, interesses frágeis de valores que depois rapidamente sucumbem e morrem esmagados pelas mãos de qualquer Merkel ou quaisquer Troikas.
E acho muito interessante que a minha Sopa de Tomate confeccionada à moda do Alentejo com pedaços do melhor pão de trigo, e indiscutivelmente a minha preferida ganhando por goleada à famosa Açorda ou à Sopa de Cação, seja na sua simplicidade um reconhecido património imaterial da humanidade, que há muito já é património dos meus afectos mais profundos.
Brincando um pouco, sempre posso dizer que me enche de orgulho que a minha Tia Maria Teodora, a mulher que confeccionava a melhor Sopa de Tomate que alguma vez comi, seja agora por reconhecimento da UNESCO uma espécie de Amália da dita sopa.
Muito a sério, ensina-me a vida todos os dias que a maior riqueza vem  das coisas mais simples, as quais insistimos por vezes em “sofisticar” apenas por ser diferente. E às vezes sai asneira.
Acontece com tudo na vida e também com o que comemos.
Quando criança em Vila Viçosa gostávamos de comer pão barrado com banha de porco e polvilhado com açúcar. Não me perguntem como era possível que o comêssemos, mas sim, comíamos, por certo com o colesterol a bater palmas enquanto trepava por nós acima. Até aí podia ir a nossa “sofisticação” com a almotolia do azeite ali tão perto e mesmo à mão.
E na semana do reconhecimento da Dieta Mediterrânica como Património Imaterial da Humanidade abriu aqui pelos meus lados um restaurante da MacDonalds que pôs às moscas a loja que vende sopas “saudáveis”. Eu também lá fui comer um hambúrguer.
Sempre a trair a herança da Tia Maria Teodora.
Não há direito.
Mas não perderei com a demora…
Sei que um dia voltarei ao Alentejo, e aí, do alto de um monte com aroma e cor de estevas, perderei o olhar no mais longe da planície onde os sobreiros recortam o horizonte, onde as ondas são espigas e pão entregues ao vento e onde as oliveiras têm tatuadas as mãos ásperas e heróicas dos meus avós, e sentirei o Mediterrâneo no mais Atlântico dos países e sentirei que cheguei a mim e reencontrei a minha verdadeira essência.