segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Estas poderosas vozes dos simples

A procissão com a imagem de Nossa Senhora da Conceição iria passar daí a pouco na celebração do dia 8 de Dezembro. Já tínhamos pendurado a nossa melhor colcha na janela de ferro forjado e sentíamos a azáfama das pessoas que se dispunham de um lado e outro da estrada.
De repente e quando já não circulavam carros, pára uma carrinha de transporte de peixe e dois homens saltam dela munidos de flores para num tempo recorde desenharem e construírem um tapete sobre a estrada.
Um deles vai tirando as flores da carrinha e o outro vai dispondo cada uma delas como traço da sua obra de arte.
Alguém ousa fazer a pergunta que a todos acudia:
- O que é que o senhor está a preparar? E porquê?
A resposta do homem não se fez esperar mesmo sem interromper por segundos que fosse, o seu trabalho:
- Louvo a Deus e agradeço-Lhe pelas maravilhas que tem oferecido à minha vida.
E depois de terem desenhado um crucifixo, os homens montaram-se na carrinha e desapareceram.
A procissão começou a passar daí a pouco e os Homens dispostos nessa estranha hierarquia de condes, duques e duquesas que a Igreja estranhamente reconhece numa escala de importância que viola na essência a grandeza da criação que nos faz iguais aos olhos de Deus; pisam a cruz do louvor simples do homem do peixe.
Também eu não pretendo ser juiz do alto da minha janela e da minha pequenez, sei que não posso faze-lo, mas acredito que na tarde fria mas solarenga de um Dezembro que breve se converterá em inverno, as pétalas daquelas flores foram Ave-Marias mais velozes a chegar ao Céu do que aquelas outras que foram desfiadas em contas de finas pérolas pelas mãos adornadas de jóias dos que são Senhores pela hierarquia dos Homens e do poder.
O maior de todos é sempre o mais simples.
Já tinha caído a noite e os carros tinham voltado a passar na estrada frente à nossa casa, a temperatura tinha descido aos seis graus nesse instante em que me montei no carro para viajar para Lisboa.
Deitei um último olhar ao já quase desfeito crucifixo de flores. Mantinha intactas algumas das orquídeas.
As preces e os louvores dos simples “gritam” e sobrevivem por sobre todo o canto sofisticado da vaidade dos Homens.
E assim, um peixeiro de quem nem sequer sei o nome se fez o meu mestre no dia maior e de mais festa na minha terra.
Lições improváveis numa tarde fria ou apenas Deus a falar pelas mãos dos que mais ama.

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