sábado, 21 de dezembro de 2013

O dia mais curto?

Sinto o sol nascer por detrás do monte, mas é sábado, e é apenas quando ele já brilha com uma intensidade tal que me tolhe a visão, que abro as portadas e me apronto para viver aquele que o calendário diz ser o dia mais curto do ano.
Estou na Sertã e deixo-me ir subindo as serras, entre amigos e entre pinhos, alimentando o olhar desses montes que a fé dos Homens coroou de ermidas ao redor das quais os coretos denunciam festas em Agosto ou Setembro: Senhora da Confiança, Senhora do Pranto…
E com o benefício da internet lá vou conseguindo saber as lendas por detrás das ermidas e das evocações dadas a Maria.
Lembro-me de um restaurante em Cardigos onde o Padre Armando uma vez nos levou a jantar, precisamente a última vez que estivemos juntos, e vou até lá desta vez para almoçar.
Fico ao lado da mesa redonda onde então nos sentámos junto a uma enorme janela, que na altura, sendo noite, não reparei que tinha vista para um olival. A mesa está vazia e por entre as saudades desse dia, tenho hoje tempo para admirar a paisagem onde uma cabra anda desvairada a tentar trepar às oliveiras.
Consigo sorrir por entre a saudade.
Os objectos, as coisas sobrevivem-nos sem que continuem a ser banais depois de os termos associado aos nossos afectos.
Aquela mesa tem para mim o valor de um momento único, conta-me uma história.
E o que acontece às mesas acontece aos dias…
Sigo subindo aos montes na cumplicidade dos pinheiros e também de alguns sobreiros e de repente estou algures dentro de uma tenda improvisada como Feira de Natal com um professor a explicar-me um projecto desenvolvido para ajudar à integração de crianças raras.
Cultivam plantas medicinais que depois comercializam.
Falamos iluminados por um fortíssimo licor de medronho e sou eu com a ajuda dos meus dedos que ajudo o Francisco, um rapaz aí pelos doze anos, a fazer a conta de três mais três pois não resisti e comprei chás (para melhorar a memória e aclarar a voz, imagine-se).
O Francisco consegue e sorri muito quando lhe dou os parabéns e lhe ofereço a minha mão para chocar com a sua num momento de celebração.
Não sei se conseguirei beber os chás pois enquanto os pacotes estiveram pela cozinha, aquele sorriso continuará bem vivo em mim.
O sol está a despedir-se e eu faço-me à estrada que me irá devolver a Lisboa.
A despedida do astro-rei deixa o horizonte vermelho e depois em tons de ouro que o Tejo não resiste a copiar fazendo-se espelho e reflectindo-os precisamente no momento em que uma curva da estrada me mostra a cidade de Abrantes.
E cai a noite.
Ao telefone uns minutos mais tarde, pergunto ao meu amigo António como lhe correu o dia mais curto do ano.
E ele responde com mestria:
- O dia ainda não acabou.
É um facto.
Porque não é o sol que define os dias e lhes dá dimensão, somos nós na intensidade e no brilho com que os vivemos.
E hoje, sentado a esta mesa de onde vos escrevo, tenho a sensação de ter vivido tudo menos um dia pequeno. Foi um dia grande e cheio de luz, mesmo que apenas com um pouco menos de sol. 

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