sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A esperança dos dias de Mandela

Se um dia a vida me fizer tio-avô e me oferecer a possibilidade de partilhar as histórias da minha vida em algum serão mais frio passado à lareira, guardo já religiosamente no cofre mais seguro da memória, algumas “relíquias” que valorizam a minha história e muito me enchem de orgulho.
Assisti ao 25 de Abril de 1974 e tive o privilégio de crescer e fazer a minha formação num contexto de liberdade e com um regime democrático implantado em Portugal, vi o Beato João Paulo II passar à minha porta em Vila Viçosa e juro que cruzei o meu com o seu olhar na esquina dos cantoneiros na Avenida dos Duques de Bragança, acompanhei pela televisão a queda do muro de Berlim com a consequente destruição da cortina de ferro que dividia a Europa vergonhosamente em duas, vi o top da dignidade em Madre Teresa de Calcutá quando chegou a Oslo para receber o Prémio Nobel da Paz com os seus parcos haveres colocados numa caixa de cartão, fiz uma viagem de Vila Viçosa para Proença-a-Nova na companhia de D. Basílio do Nascimento, então padre, que partilhou comigo na primeira pessoa e com emoção, as dores, as lutas e as ambições do povo de Timor Leste…
E guardo também a memória de uma tarde quente de Julho quando pela televisão assisti à libertação de Nelson Mandela e se deu inicio ao processo que à beira do Século XXI pôs fim ao Apartheid na África do Sul, uma das maiores vergonhas da humanidade, um dos maiores atentados à dignidade do Homem que encerra em si mesmo e na sua essência, a extraordinária riqueza da diversidade cultural, étnica ou outra.
Juro que acreditei por Mandela e com Mandela que o mundo iria ser diferente, e agora concluo, tão-só talvez pelo romantismo da minha alma de poeta, porque cedo a esperança morreu e se converteu numa triste e breve ilusão.
Numa reunião de trabalho em Berlim, ainda cheguei ao hall do hotel a tempo de ver cair em directo a segunda torre do World Trade Center de Nova Iorque, e assisti pela televisão aos gritos da gente desesperada a correr em Madrid na Estação de Atocha após os atentados, afinal aqui tão próximos de nós.
A morte do sonho.
O mundo continua igual e não era este o mundo que Mandela e o seu exemplo e a sua abnegação mereciam que existisse no dia da sua partida para a eternidade dos maiores.
Um mundo onde se paga para destruir alimentos enquanto há gente que morre à fome, um mundo onde há exploração de Homens feita por outros Homens e uma mais ou menos encapuçada escravatura, um mundo onde se mata por diferença de estatuto social, credo ou etnia.
Um mundo pobre pela desigualdade e pela ausência de indivíduos como Mandela que sejam líderes inspiradores por tudo mas sobretudo pelo exemplo.
Matámos a sua semente inspiradora de liberdade e justiça muito antes de que surgissem os frutos.
E lá terei eu de contar a história aos meus sobrinhos-netos com esse tão irreal começo de “Era uma vez”

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